quinta-feira, 9 de junho de 2011

Onde mora o problema (09/06)

O nó da articulação política nestes governos do PT é que o PT não tem maioria suficiente no Congresso Nacional para governar sozinho, ou com hegemonia absoluta, mas acha que o mandato presidencial lhe dá legitimidade para isso. O Congresso, por esse ângulo, passa a representar apenas um estorvo

A saída do ministro-chefe da Casa Civil reaquece o debate sobre as funções de articulação política. É recorrente. Quando o governo enfrenta dificuldades com o Legislativo a reação reflexa é falar mal de quem deveria fazer o Congresso Nacional seguir bovinamente as orientações do Palácio do Planalto.

A melhor síntese das agruras do articulador vem do hoje ministro do Tribunal de Contas da União José Múcio Monteiro, ele próprio um ex-articulador. Múcio é conhecido pela precisão cirúrgica no bom humor.

Para ele, a função é tão ingrata que, se o vencedor da eleição ganha a Presidência, a articulação política deveria ser oferecida ao perdedor.

O impasse primordial na articulação política é conhecido. Quem recebe a pressão da demanda por verbas e cargos não tem o poder de dar vazão a ela. E se os políticos não vão mesmo brigar com quem manda, então brigam com quem não manda.

Pois afinal precisam brigar com alguém. Só não podem é exibir fraqueza ou submissão.

O impasse é insolúvel? Não. O sujeito consegue escapar quando se mostra capaz de, simultaneamente, convencer os políticos de que luta para atendê-los e convencer o/a chefe de que é capaz de resistir aos apetites externos ao núcleo palaciano.

Até a crise culminada ontem na troca de comando da Casa Civil, o PT podia recorrer a uma narrativa padrão, sempre que era bombardeado pela pressão de aliados por espaços.

O apetite dos aliados -especialmente do PMDB mas não só- era fisiológico. Já o apetite do PT era, por contraste, motivado pelo desejo de colocar em prática políticas públicas em benefício de quem mais precisa.

É caricatura, claro, mas tem função didática. Na real, qualquer um em Brasília sabe que não é bem assim. Políticos dos vários matizes lutam por espaço movidos por razões bem parecidas.

Todos buscam alavancar-se no aparelho estatal para alcançar melhores condições de reprodução e ampliação do próprio poder.

Aliás, é assim em qualquer lugar do mundo. Ou das galáxias, se houver vida, e portanto política, noutro lugar.

Um problema do PT na presente crise é as circunstâncias terem fragilizado a narrativa costumeira, bem no momento em que os aliados, notadamente o PMDB, afiam a faca com mais disposição.

Os problemas não estão apenas no PMDB. Eles começam a disseminar-se. Daí o diagnóstico de desarranjo na coordenação política. E daí a nova onda especulativa contra o ministro da área.

Com o detalhe de que a presidente não gostou nem um pouco da derrota na votação, na Câmara dos Deputados, do destaque peemedebista ao texto do novo Código Florestal. Não se deve subestimar esse ponto na análise dos motivos da troca na Casa Civil.

Mas como resolver? As soluções possíveis são duas. Ou se coloca na articulação política alguém com poder real, ou então a presidente precisará assumir o papel.

Duas soluções que são uma só. Pois articulador político forte costuma ser animal de vida curta no Palácio do Planalto. O chefe não aguenta.

Então vai sobrar para Dilma Rousseff. Ela não carrega qualquer impedimento estrutural que a impeça de assumir a coisa. Só precisaria, talvez, promover ajustes conceituais.

O problema da articulação política nestes governos do PT é que o PT não tem maioria suficiente no Congresso Nacional para governar sozinho, ou com hegemonia absoluta, mas acha que o mandato presidencial lhe dá legitimidade para isso. Um certo bonapartismo.

O Congresso, por esse ângulo, passa a representar apenas estorvo. E não a oportunidade de buscar convergências políticas para construir soluções majoritárias. Ou de parcerias operacionais para o sucesso do governo.

Um bom retrato dessa deformação conceitual é o uso corrente das medidas provisórias. Sempre se abusou delas, mas este governo extrapola.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (09) no Correio Braziliense.


youtube.com/blogdoalon

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7 Comentários:

Anonymous Too Loose Lautrec disse...

Em República como a nossa em que a Presidência é, de fato, exercício monocrático, impossível inventar o ocupante. Há de ser construído no percurso de longo caminho político. Mesmo - talvez especialmente - nas ditaduras.
Dilma deu no que deu e dará no que obviamente teria de dar. Com os burros n'água.

quinta-feira, 9 de junho de 2011 09:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon, será que as coisas se invertem quando mulheres assumem o comando, ou foi minha miopia que aumentou? Dilma Rousseff me parece pessoalmente bem mais transparente, ou menos “complexa” que seu antecessor, mas demonstra saber jogar muito bem com a baderna partidária do país, e as vaidades da mídia, para chegar onde quer sem aparecer como a responsável pelos acontecimentos. Somente eu enxergo que Palocci foi fritado pelo Planalto? Não sabemos todos que era uma presença incômoda imposta por Lula? O próprio manifestara o desejo de ocupar um lugar menos exposto no governo. A presidenta aceitou a indicação de seu criador e depois permitiu à oposição (e a maioria da imprensa) fazer aquilo que parece ser a única coisa de que é capaz desde 2006, decepar cabeças. Não vejo onde ela possa ter se enfraquecido. No caso houve uma disputa direta para saber quem comandava o PT, e Lula perdeu – é o poder da caneta. Dilma também nunca foi uma ambientalista, como você mesmo sublinha, então o Planalto (e o PT) pode ter perdido a votação do código florestal, mas Dilma venceu, lançando mão do PMDB, que demonstrou invulgar unidade na votação. Ela até pode ficar incomodada, e vetar, a emenda do PMDB que estende a anistia aos desmatadores, mas o código de Aldo Rebelo permanece, não é mesmo?

quinta-feira, 9 de junho de 2011 12:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

País tem pressa, extrapolar seria impingir demagogias fantasiadas de leis.Lamentavelmente, a constituição da "Nova República", está impregnada delas e pouco se pode fazer.O congresso por sua vez, pauta-se mais pela mídia do que pelos seus partidos e ditas alianças estratégicas.Como mencionou a presidenta da ANJ,Judith Brito,referindo-se a incompetência da oposição"cabe à midia assumir esse papel".De oposição,não de imcompetente.

quinta-feira, 9 de junho de 2011 13:08:00 BRT  
Blogger Guilherme Scalzilli disse...

Por que Palocci?

Antonio Palocci caiu por falta de apoio político. Sua nomeação equivocada para um cargo estratégico, a resistência de setores influentes do PT e a inabilidade no trato com a base aliada selaram seu destino desde muito cedo. A disputa pelos cargos nos diversos níveis governamentais, as derrotas do Planalto em votações polêmicas e os preparativos para as eleições municipais de 2012 apressaram o desfecho do imbróglio. O enriquecimento do ex-ministro serviu apenas como o pretexto “republicano” que faltava ao discurso dos adversários.

Se houvesse lídima preocupação ética no debate, o público já saberia que a lista dos misteriosos clientes de Palocci envolve financiadores da própria mídia corporativa e de muitas campanhas eleitorais, inclusive de petistas célebres. A imprensa oposicionista, que num passado recente se chocou diante de certos “dossiês”, elucidaria o vazamento nebuloso dos dados que fundamentaram as acusações. E a curiosidade acerca do crescimento patrimonial alheio provocaria uma febre de estudos comparativos sobre centenas de parlamentares, ministros, governadores e prefeitos.

Por que apenas Palocci deve tais explicações ao eleitorado? A esquerda precisa que a Folha de São Paulo alavanque seus escrúpulos morais? Vamos investigar, companheiros?

É impossível aceitar a idéia de que os fundamentos do Direito não cabem no universo político. Mesmo que a presunção da inocência pareça irrelevante para o caso específico, a rapidez com que ela foi desprezada revela apenas um autoritário pendor para o linchamento e nenhum anseio real de justiça. É o pior exemplo que o STF poderia conseguir às vésperas de julgar os acusados do tal “mensalão”.

Questionar a fragilidade e o oportunismo dos ataques a Palocci não significa defendê-lo. Em vez de refugiar-se nas acusações de patrulhamento ideológico, a blogosfera que ajudou a fritá-lo poderia ao menos evitar o maniqueísmo reducionista dos veículos tradicionais.

http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com/

quinta-feira, 9 de junho de 2011 13:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A questão das Medidas Provisórias merece análise substancial, pois, para quem acompanha ao longe mas com interesse a politica brasileira, mas parece que o País está se construindo neste momento e não tem 500 e tantos anos, e tudo, ou quase a maioria das necessidades legislativas, tem que ser para ontem, se não para antes de ontem. Por que? A questão pode ser dirimida pelo Alon?

quinta-feira, 9 de junho de 2011 17:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bem, é preferível acreditar que o ministro da Casa Civil foi trocado porque não conseguiu explicar nada do que fazia. E que suas atividades comprometeram, talvez, de forma irremediável o governo. Isso seria melhor do que a derrota no Código Florestal ter superado, em peso, uma penalização por derrapagens outras. Até o ex-presidente, segundo meios de comunicação, teria dito que a demissão foi na hora certa. Nada que ele falasse seria para esclarecer algo. Porém, parece estar querendo sempre fazer crer que detém os cordéis nos dedos. Com uma ressalva que ele deve saber, mas não deixa transparecer: ele não tem cargo nem mandato para mandar em absolutamente nada, exceto em sua vida privada. Ponto. Dito isso, haveria uma forma de tentar frear a sucessão de problemas do ministério dos ministérios, desde 2003: eliminar tudo o que for poder decisório de seu titular, esvaziar o cargo de funções, funcionários, sede, enfim de tudo o que possa representar chamarisco de enroscos. Ou seja, seria melhor acabar de vez com algo que não resolve, agrava e traz problemas. Os pagadores compulsórios de conta de tudo, os cidadãos contribuintes e eleitores e consumidores estão de cara amarrada e pode ser, dispostos a acabar com o circo armado. A farra já foi longe demais e nada foi resolvido. Seria e já passou, a hora do chega.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 9 de junho de 2011 17:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Nos comentários ao post, há citações sobre a tal mídia, a eterna responsável pela queda do ministro enriquecido com miraculosas consultorias. Oras, todos sabem, ou deveriam saber, que o Brasil não é capitania hereditária, ou feudo medieval, ou um paiseco qualquer. Assim, podem sossegar os valorosos caçadores de golpistas. Não seria na tal de mídia onde estariam os perigosos e imaginosos usurpadores do poder popular, exercido por uma mulher que só quer o bem dos pobres... e seguem os chavões de praxe. A presidente vai terminar seu governo tranquilamente, correndo o risco até de ser reeleita, co o é seu direito candidatar-se a mais um mandato consecutivo. E com todo o direito à incompetência gerencial e política que ajudou a realizar e que herdou para si. Se alguém procura golpistas, que os busquem. Mas não os encontrarão na tal mídia e nem nas elites. Muito menos nas oposições. Esse diapasão já está desafinado há muito tempo. E gasto. O fato é que não há ninguém mais disposto a ser o bode na sala colocado pelo PT e seu governo. E nem de seus apoiadores e estrategistas atabalhoados, carregando malas e roupas de baixo recheadas. Como o Brasil nunca foi e não é um paiseco idealizado e manipulado por jumentos, essas chorosas teses já foram descobertas como frutos de idiotia em elevado grau. Portanto, levantá-las e defendê-las, esperando guarida...da tal eterna mídia, não terá mais sucesso algum. Assim, quem quiser apoiar a liberação do julgado no STF, a demonização de produtores rurais, a defesa de ministro da pesca na articulação, a defesa da articulação na pesca, pode fazê-lo à vontade. Mas, que assuma estar fazendo por acreditar realmente nisso. Como deve crer o governo e seu séquito. Já os estorvos, cidadãos que pagam a conta compulsoriamente, votam e consomem, estão com coisas mais importantes a fazer. A hora do chega, chegou.
Swamoro Songhay

sábado, 11 de junho de 2011 15:36:00 BRT  

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