sexta-feira, 3 de junho de 2011

O estoque de utopias (03/06)

Agora que a presidente resolveu colocar uma utopia para rodar talvez seja hora de olhar com carinho para outra. De buscar acabar com a vergonhosa má qualidade no ensino oferecido aos filhos dos pobres, na comparação com o proporcionado aos dos ricos ou da classe média

Será uma injustiça concluir que o governo bate o bumbo do Brasil sem Miséria só para garantir um refresco no ambiente político. O programa é compromisso de campanha da candidata Dilma Rousseff e recebeu o sinal de largada lá no comecinho da gestão.

Pela memória, foi a primeira vez de auxiliares da chefe fotografados todos diante de terminais de computador. Era a visão de um governo tecnocrático, pouco permeável à politicagem, de reduzida tolerância ao sistema de trocas congressuais.

A observação mostra que em boa medida essa ideia -ou ilusão- ficou para trás. O debate já não é mais sobre se vai entregar anéis, mas quantos entregará.

Vou fugir um pouco das circunstâncias -essas variáveis que competem diariamente pela atenção- e concentrar no essencial. O Brasil sem Miséria é uma bela iniciativa.

Algo utópica, mas sem utopia ninguém vai longe.

Não sei se o governo Dilma conseguirá acabar com a miséria, e é arbitrário restringir o universo dos miseráveis a quem ganha menos de R$ 70 por mês. Mas é importantíssimo que o governo se dedique a tentar eliminar a pobreza extrema.

É um pouco como a objetividade jornalística. Alcancá-la completamente é impossível, buscá-la é essencial.

Alguns dados atraem atenção. O governo definiu que o Brasil tem cerca de 16 milhões de miseráveis. É ainda muito, em números absolutos.

Mas é também animador notar que o Brasil, agora oficialmente, tem menos de 10% nessa triste condição. É sinal de que nosso desenvolvimento econômico e nossas políticas sociais, vindas da Revolução de 30 e aperfeiçoadas continuamente, produziram neste quase um século um país melhor.

Eis porque é sempre útil relativizar os argumentos corriqueiros da luta política. Se a realidade nunca é tão bonita quanto diz o governo de plantão, tampouco é tão feia quando faz crer a oposição do momento.

Sobre o programa, ele parte de um conceito bom. O Estado procurará ser mais ativo, ir atrás dos muito pobres para oferecer não só ajuda, também oportunidades.

É positivo, desde que uma coisa não condicione a outra. Prefiro concordar com o ex-ministro Patrus Ananias, para quem a obsessão com as condicionantes, as chamadas “portas de saída” dos programas sociais, embute preconceito, má vontade com os muito pobres.

É confortável para os não tão pobres imaginar que o beneficiário do programa social vai acabar se acomodando. Um elitismo "limpinho".

Se mesmo quem já tem muito quer sempre mais, não é um tantinho de dinheiro vindo do governo que vai fazer o pobre se conformar com a condição.

Mães e pais querem os filhos progredindo. Vale para ricos e pobres. Mais que isso, os jovens desejam muito eles próprios avançar.

Em vez de o Estado se preocupar em excesso com a contrapartida da ajudazinha oferecida, deve ocupar-se em fazer ela chegar efetivamente a quem necessita.

Se o novo programa fizer isso, parabéns.

Somos um país de quase 200 milhões. Um potencial invejável e invejado. Onde estão os principais gargalos? Nos remanescentes de pobreza e na precária educação oferecida em nosso ensino público fundamental e médio.

Por falar em utopias, agora que a presidente resolveu colocar uma delas para rodar talvez seja hora de olhar com carinho para outra. De buscar acabar com a vergonhosa má qualidade no ensino público oferecido aos filhos dos pobres, na comparação com o particular proporcionado aos dos ricos e da classe média.

Para isso, a presidente precisaria enfrentar as corporações autocentradas que monopolizam a agenda educacional e jogam para as calendas o dever de ensinar bem aos meninos e às meninas. Seria uma batalha e tanto.

Atingiria bem mais gente do que o público-alvo do Brasil sem Miséria, e certamente faria emergir resistências bem mais ferozes, da turma que está na zona de conforto com o status quo.

Não traria só aplausos. Ao atacar nossa próspera indústria de mediocridade educacional, precisaria confrontar os beneficiários.

Será que o estoque de utopias de Dilma e do governo dela chega a tanto?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (03) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

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4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Tudo certo, Alon, mas por que ficar no genérico? Cadê os nomes dos bois "autocentrados"?

sexta-feira, 3 de junho de 2011 23:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Antes de se pensar na solução é preciso pesar as consequências. Hoje só há vaga em universidade pública para 2% dos matriculados no ensino médio e só em rede privada são 15% desses. Se a qualidade melhorar um décimo na rede pública, teremos uma guerra de grandes proporções nas portas das universidades públicas e nada mais.

sábado, 4 de junho de 2011 05:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Endosso seu post em defesa de melhora na qualidade de educação, mas vejo dois problemas em seu post:
1) A questão de prioridade. Talvez até antes da quantidade na educação o Brasil, dever-se-ia ter priorizado o saneamento básico para todas as crianças. Sem água encanada e esgoto não se faz um cidadão. É melhor para a dignidade do indivíduo ser analfabeto, mas com uma rede de água e esgoto, do que ser instruído na sarjeta (A pressão pela alfabetização só se justifica pela demanda do mercado, se bem que ai há que se considerar que ao mesmo tempo que os patrões querem uma massa de empregados mais qualificados quem defende a criação de emprego como o maior valor que se pode oferecer à sociedade tem que desejar que os jovens sejam qualificados para obter uma oportunidade de trabalho).
2) Verificar a) se as corporações autocentradas que monopolizam a agenda educacional precisam ser enfrentadas para se acabar com a vergonhosa má qualidade no ensino público oferecido aos filhos dos pobres e b) se as corporaçoes que monopolizam a agenda educacional jogam para as calendas o dever de ensinar bem aos meninos e às meninas.
Aliás, primeiro o item "b" e depois o "a".
Aliás cabe outro aliás para tratar sobre como você define as corporações autocentradas que monopolizam a agenda educacional. Torço para que você não esteja indo no embalo do noticiário e se referindo as editoras e gráficas que cometeram alguns erros tipográficos e estão sendo enxovalhadas por isso.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 06/06/2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011 22:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Lembrei-me de uma observação que eu queria fazer há mais tempo sobre essa questão da educação. Há uma ou duas semanas um jornal deu uma má notícia para os nossos jovens. Pelos dados do IBGE, se bem que me parece que só em São Paulo, o salário médio do grupo com mais horas de estudos sofrera redução. Em princípio, achei a notícia estapafúrdia. A vida toda aprendi que um ano a mais de estudo aumenta o salário do indivíduo na média. Fui ler a notícia na integridade. A notícia era verdadeira, faltava só explicar que a medida que os empregados com baixo nível de escolaridade iam adquirindo instrução eles acendiam para a classe seguinte e assim diminuiam os ganhos médios da classe com mais escolaridade. Uma notícia boa para São Paulo que, no entanto, era informada como uma notícia negativa.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 06/06/2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011 22:55:00 BRT  

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