quarta-feira, 1 de junho de 2011

Na África pode (01/06)

Se o governo brasileiro tem clarividência e coragem para defender os legítimos interesses dos países e povos da África, que use essas qualidades para guardar e proteger também os interesses do Brasil

Alvo da desconfiança do ambientalismo quando “mãe do PAC” e, depois, candidata ao Palácio do Planalto, agora Dilma Rousseff recolhe no campo político verde um apoio conveniente em momentos de turbulência.

Nada de estranho, ou novo, em que governos e governantes flutuem ao sabor das conveniências. Belo Monte, Código Florestal. Fica o registro.

Noutra frente, o Brasil disputa a cabeça da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). O candidato é José Graziano da Silva, hoje representante da FAO para América Latina e Caribe.

Graziano é acadêmico respeitado e foi ministro do Fome Zero no começo do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

O Fome Zero acabou virando Bolsa Família e Graziano deixou o governo, mas ninguém tira dele o papel na aceleração do combate à pobreza no Brasil.

E ninguém questiona a autoridade dele em agricultura, especialmente na modalidade familiar. Graziano tem legitimidade para desejar o cargo.

Em fevereiro deste ano Graziano publicou no jornal Valor Econômico quase uma plataforma eleitoral voltada para os africanos.

Sob o título de “África, última fronteira agrícola”, percorre as dificuldades e os potenciais da agricultura daquele continente.

Entre as dificuldades, os sempre criticados -pelo Terceiro Mundo- subsídios europeus e norteamericanos. Que rebaixam preços e bloqueiam o fluxo de renda para a periferia do sistema.

No algodão, exemplifica Graziano, os subsídios aos produtores nos Estados Unidos, uns US$ 25 bilhões desde 1995, vem comprimindo com força as cotações do produto.

“Quase 10 milhões de produtores africanos tiveram prejuízos devastadores no Benin, em Burkina Faso e no Mali", denuncia.

Se americanos e europeus removessem ao menos parcialmente os subsídios estimulariam a agricultura dos países pobres a produzir e exportar mais, com geração de renda onde é mais necessária.

Mas como preencher a demanda crescente? Graziano diz que seria também pela expansão da área plantada. “Estamos falando de um continente que utiliza apenas 14% dos 184 nilhões de hectares de terras agricultáveis de que dispõe.”

Graziano é candidato a um órgão da ONU que cuida de combater a fome. Então não vê problema quando sugere remover a vegetação nativa para dar lugar a plantações.

Mas a coisa vai além. Graziano lança o olhar ambicioso -uma ambição saudável e altruísta- para 400 milhões de hectares da savana africana, “que corta 25 países e guarda profundas semelhanças com o cerrado brasileiro”.

E conta orgulhosamente como a Embrapa “já identificou 35 projetos de cooperação em 18 países africanos e poderá aportar US$ 12,8 milhões em parcerias para transferência de variedades de cultivares, bem como de tecnologias adequadas à agricultura tropical”.

É isso mesmo que você leu. O candidato do Brasil a dirigir a FAO propõe que se amplie o mercado para a agricultura africana, e que esta ocupe agressivamente a savana/cerrado para dar conta da demanda. É a proposta dele para combater a fome e a pobreza ali.

Está tudo certinho, apenas com um detalhe. Vai completamente na contramão de como o governo brasileiro encaminha o debate do Código Florestal.

Na África a virtude oficial está em propor o avanço da agricultura sobre a savana/cerrado para produzir valor a partir do uso
agropecuário da terra. No Brasil está em evitar qualquer expansão da fronteira agrícola, em nome da luta ambiental planetária.

Aliás, cadê o Ministério do Desenvolvimento Agrário no debate sobre o código? O governo brasileiro, por conveniência, transformou o assunto em monopólio do Ministério do Meio Ambiente. O da Agricultura vem sob coação, ameaçado de corte de cabeças. E o MDA anda quieto. Talvez porque alguém mandou ficar quieto.

Se o governo brasileiro tem clarividência e coragem para defender os legítimos interesses dos países e povos da África, que use essas qualidades para guardar e proteger também os interesses do Brasil.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (01) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

OpenID tuliovillaca disse...

Alon, não li o estudo do Graziano. Mas imagino que o Brasil não tenha apenas 14% de sua área ocupada por agrupecuária. Não conheço ambientalista que combata a agricultura ou a pecuária. O que conheço são os que consideram que o uso e a ocupação da terra no Brasil são absolutamente irracionais e injustos, promovendo a pobreza no campo, a monocultura lotada de pesticidas que acaba com a terra, e a distribuição deficiente com gastos absurdos (por exemplo, na feira perto da minha casa compro abacaxis do Pará em algumas épocas do ano). Quem dera que toda devastação aqui no Brasil se convertesse em muito alimento, e não tem terra arrasada e madeira ilegal. Sem ter lido o trabalho, duvido que ele defenda na África uma ocupação e um uso da Terra como o que existe aqui. A visão do seu texto parece ser uma aplicação canhestra do "se é bom para os EUA, é bom para o Brasil", só trocando EUA por África. Nossos interesses não são os mesmos dos africanos, mas são harmonizáveis. Tomara que eles tenham condições e sabedoria de explorarem sua terra de maneira mais inteligente que nós o fizemos até agora, e que nós posamos ajudar um pouco nisso também.

quarta-feira, 1 de junho de 2011 13:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Perdoe-me, Alon, mas há várias incorreções - tendenciosas - sobre o José Graziano. (1) Ele inventou o Fome Zero, que foi um fracasso total; entre outros absurdos, queria que milhões de famílias apresentassem notas fiscais (!!) para receberem reembolso; (2) Depois que a incompetência dele ficou evidente, o Fome Zero foi esquecido, ele foi "afastado" e o esperto Lula se voltou para os bem-sucedidos programas do governo FHC, fez algumas alterações (como a unificação, realizada primeiro pelo Gov. Marconi Perillo do PSDB) e renomeou para Bolsa Família, dizendo que "nunca na história destepaíz...". Esse Graziano é apenas mais um burocrata petista.

quarta-feira, 1 de junho de 2011 15:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
A vegetação das savanas são gramíneas e não árvores. Talvez lá seja o caso de até fazer o plantio direto que a Embrapa tem knowhow. Se bem que o plantio direto, apresentado como ecopoliticamente correto, seja dito como feito direto, mas só é feito após a cultura anterior ser debastada com a herbicida apropriada.
Acho que José Graziano da Silva está do lado do bem, entende desse assunto mais do que eu, mas penso que a defesa dele de acabar com o subsídio agrícola na Europa e nos Estados Unidos se faz apenas sob o aspecto de marketing político. Combatendo os subsídios com esse argumento ele ganha votos na África, mas ele não está certo, pois o subsídio é a única forma que a Europa e os Estados Unidos tornarem financeiramente produtivas as terras mais ricas do mundo. A redução dos subsídios reduz a produção de alimentos, pois África e Brasil não possuem tanta terra de qualidade para substituir a queda na produção.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/06/2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011 23:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Há um post mais antigo aqui no seu blog em que trato um pouco da questão do subsídio agrícola europeu e americano. Trata-se do post "Ética: sozinha ou acompanhada?" de sexta-feira, 21/08/2009 e que pode ser visto no seguinte endereço:
http://www.blogdoalon.com.br/2009/08/etica-sozinha-ou-acompanhada-2108.html
De comentário que eu enviei domingo, 23/08/2009, às 11h03min00s BRT eu tiro a seguinte passagem (Com as correções que eu perceber necessárias):
"Assim, como nacionalista que você é, você deve desejar longa vida para o etanol. Com o subsídio nos países ricos, a elevação dos preços dos alimentos provocada pelo etanol só alcança os países da periferia. E a elevação dos preços leva a aumento de produção. Assim, com o etanol, tem-se mais produção agrícola e a preços mais altos. Há melhora nos termos de troca dos países pobres, reduzindo os problemas desses países no Balanço de Pagamentos."
Como não sou economista, um outro comentarista fez troça da minha referência aos termos de troca (Á crítica dele pode também ser por ,motivos mais prosaicos como escrever Balança em lugar de Balanço). Em post mais recente no seu blog intitulado "Administração no varejo" de quinta-feira, 07/04/2011 (http://www.blogdoalon.com.br/2011/04/administracao-no-varejo-0704.html), eu tive condições de reconhecer que ali eu estava errado, pois atribuia ao etanol o aumento dos preços dos produtos agrícolas, mas na verdade o preço das commodities agrícolas tem relação com o prime rate americano que é determinado pelo juro que o FED estabelece.
De todo modo o discurso hoje de economistas e não economistas é falar da melhora dos termos de troca. Nesse sentido indico a entrevista de Luiz Carlos Mendonça de Barros no Roda Viva de umas duas semanas atrás. O primeiro bloco está no youtube no seguinte endereço:
http://www.youtube.com/watch?v=BtGDZAsPYq4
Agora por mais baixo que esteja o prime rate ele nunca esteve negativo pelo menos do mesmo tanto que na década de 70 quando a inflação chegou nos Estados Unidos a quase 12% e por isso mesmo sem considerar a inflação quando se diz que o preço de uma commodity alcançou o preço mais alto eles nunca vão até a década de 70 complementando apenas com algo como nos últimos 20 anos. Em suma, pode ser que os subsídios tenham reduzido o preço deflacionado dos produtos agrícolas nos últimos 40 anos, mas o mundo não tem alternativa a não ser conviver com eles.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/06/2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011 00:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Já que o negócio tem apelo com a expressão. E com todo o respeito ao bravo pretendente ao cargo da ONU/FAO. Assim, que os africanos, já que, parece, sempre se referem a africanos, como se falassem de um país só, onde vivem todos amontoados, em meio a florestas e bichos, com savanas e algo parecido com o cerrado brasileiro, que os africanos mandem esse pessoal pastar, savanar, cerradear. Ou caatingar,, lembrando de um dos biomas brasileiros. Da forma como falam, parece que a situação do Congo é a mesma do Mali. Ou que a de Gana é a mesma da Etiópia. Que a da Eritréia é a mesma do Djibuti ou da Somália. Todo mundo parece entender de fome na África. Só que a fome na África não termina nunca. No Brasil também não. Então, como podem querer meter o bico onde pensam que entendem se o novo slogan governamental é Brasil sem pobreza? Que tal convidar um africano para combater a fome no Brasil, desenvolver o cerrado, a caatinga, o Pantanal, os mangues? A Amazônia, a jóia da coroa? E que entendam de uma vez por todas que a África é um Continente. E não uma grande oportunidade para demagogia.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 2 de junho de 2011 20:56:00 BRT  

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