sexta-feira, 24 de junho de 2011

Desarrumação lógica (24/06

Arrisco dizer que seremos uma sociedade mais coerente quando a vida humana merecer a mesma defesa radical que merecem hoje as plantas e animais

Há algo desarrumado numa sociedade que exige criminalizar todo desmatamento enquanto, com o mesmo ímpeto, exige também o amplo direito ao aborto, a ser catalogado entre as prerrogativas inalienáveis da mulher.

Num caso, prevalece a responsabilidade social. No outro, a liberdade individual. Por quê? Ninguém explica.

Arrancar uma planta é em princípio criminoso, mas arrancar um embrião ou feto do útero materno deveria ser livre, em nome do direito de a mulher decidir sobre o próprio corpo.

Ainda que no rigor lógico-científico o embrião, ou feto, não faça parte do corpo da mãe. Ela apenas o abriga. São duas vidas, e não uma só.

Não estou, e penso que o leitor ou leitora já notou, fazendo juízo de valor sobre os temas, apenas enfatizando o desarranjo, uma assimetria sistemática.

Que fica também evidente no contraste entre a proteção militante à vida animal e a condescendência com as ameaças à vida humana.

Desde há muito as pessoas mobilizam-se em defesa de outras espécies. Já há nessa agenda uma ética consolidada. Matar um bicho ou fazê-lo sofrer lança o sujeito no rol da execração. Usar peles de bichos, por exemplo, é encrenca na certa.

Num episódio célebre após o falhado levante comunista de 1935, o advogado católico Sobral Pinto defendia presos ligados ao movimento derrotado e pediu que eles tivessem respeitados pelo menos os direitos previstos pela lei de proteção aos animais.

Arrisco dizer que seremos uma sociedade mais coerente quando a vida humana merecer a mesma defesa radical que merecem hoje as plantas e animais.

No debate do Código Florestal exige-se a perseguição e a punição implacáveis a todos que um dia decidiram ocupar beiras de rio para dali tirar o sustento, seu e de suas famílias.

Aqui as circunstâncias não servem de atenuante.

Já quando alguém menor de 18 anos comete um crime hediondo o vento sopra no sentido contrário: aqui é imperioso olhar atentamente para as circunstâncias. Imperioso reabilitar, dialogar, integrar.

E não simplesmente condenar. Ou punir.

Se o leitor pedir a explicação do desarranjo, dos dois pesos e duas medidas, admitirei que não tenho uma pronta e acabada. Esta coluna é só divagação. Mas desconfio que a raiz esteja mesmo é na desumanização. Ou humanofobia.

O homem visto como estorvo, como vetor daninho, a ser contido e evetualmente removido.

A não ser que persista em “estado natural”, signifique isso o que significar. Então o problema não está no homem, mas na civilização, talvez olhada apenas como ampliação das consequências do pecado original.

Vai mal

Saiu ontem mais uma consolidação periódica de dados sobre as drogas. Desta vez a fonte é a ONU e o Brasil vai muito mal.
No consumo e no tráfico.

E nada indica que vá melhorar.

Com uma mão, os modernos procuram convencer a sociedade das vantagens de liberar o uso e o comércio. Com a outra, vendem ao país o “sucesso estrondoso” da experiência do Rio.

Onde o consumo e o comércio vão à toda, mas em paz. Quase a legalização, de fato. Só se pede à bandidagem que não conturbe muito o ambiente. E que se mude para mais longe, por favor.

Pouco a pouco, e alavancada também pelo desejo de políticos adquirirem para si uma tardia máscara “progressista”, o combate à droga vai se tornando “out”.

Verdismo

Dilma Rousseff era desenvolvimentista no governo anterior. Agora, não se sabe mais o que é.

O desenvolvimentismo deixou de ser atraente para o PT depois dos muitos milhões de votos recebidos por Marina Silva ano passado.

O PT avalia que há uma chance de a oposição mais perigosa em 2014 surgir de um polo não tucano, mas verde.

Então o desenvolvimentismo e o que pejorativamente se xinga de “produtivismo” caminham para o arquivo das coisas que não pega bem defender.

Uma pena.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (24) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

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13 Comentários:

Blogger mluke disse...

Alon,

Parabéns pelo brilhante texto sobre a defesa da vida, é bastante elucidativo e esclarecedor, Você foi direto ao ponto.

mluke.

sexta-feira, 24 de junho de 2011 11:43:00 BRT  
OpenID tuliovillaca disse...

Alon, quanto à primeira parte do texto, concordoquase integralmente. Percebo que há pessoas que demataram de boa fé - quantas? são maioria? duvido. Percebo que a lei que pune deve achar um meio para tratar destes casos, sem abrir a brecha para muitos outros que o fizeram de má fé. O problema é que o empurra-empurra no Congresso dificilmente vai permitir este equilíbrio. Quanto à dicotomia com o aborto, concordo também. Acho o aborto explicável, mas quase nunca justificável, e leis que permitissem o apoio a mães que realmente não tem condições financeiras e/ou psicológicas para criar os filhos seriam melhores que legalizar. Outra vez, o problema aqui é que quem defende a legalização não são estas, mas sim as que tem condições, mas não usaram camisinha (fazendo uma generalização proposital)... E sobre o trecho final, a proposta da Marina nunca foi anti-desenvolvimentista, apenas acrescentava a palavra sustentável - o que muda muito o conceito, mas não o anula. Desenvolvimento todos querem, o que muda são os meios e os custos a serem aceitos. Acho muito bom que o governo Dilma incorpore esta palavra ao seu vocabulário, seja por pressão eleitoral ou não. Outra coisa é a discussão de mais inflação ou mais desenvolvimento, algo que passa ao largo desta questão ambiental. Abraços.

sexta-feira, 24 de junho de 2011 11:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Acho que quem está em dificuldade com a lógica é o autor do texto. Em primeiro lugar, a sociedade é plural, não existe um bloco de pessoas tentando empurrar o desmatamento zero e o aborto como uma agenda única. É só pensar na Marina Silva, que o autor menciona no final mas se esquece durante a argumentação.

A sociedade financia o ensino público, mas permite que cada um matricule o filho em escola particular. Num caso, prevalece a responsabilidade social. No outro, a liberdade individual. Por quê? Porque cada caso é um caso e deve ser avaliado separadamente. É um consenso construído que alguns assuntos são da esfera pública, outras da esfera privada. A história mostra que as fronteiras vão e voltam como o tempo. É um assunto interessante, mas misturar alhos com bugalhos só faz confundir a discussão tanto do aborto quanto do código florestal.

Não existe chance nenhuma hoje em dia de algum projeto autorizando o aborto ser aprovado, se fizer pesquisa de opinião a maioria da população é contra. É um assunto totalmente irrelevante para a discussão do meio ambiente. Mas vamos propor o seguinte exercício: você acha que a inseminação artificial é uma abominação e deve ser proibida? Se você respondeu que não e é contra o aborto, é obrigado a concordar que existe um estágio entre o óvulo fecundado e o nascimento em que o embrião não tem o mesmo estatuto de uma pessoa (a inseminação gera vários óvulos fecundados que são descartados).

É uma falsa dicotomia opor a defesa do meio ambiente à defesa da vida, eu diria até que é uma contradição. É sabido que parcela expressiva dos praticantes de agressão física contra pessoas começa praticando violência contra animais. Identificar e punir quem mata um cachorro é evitar uma agressão ou até assassinato no futuro. Quem defende a preservação das matas ciliares e nas encostas não faz isso porque preza as plantas mais dos que as pessoas, mas porque sabe que a degradação ambiental mata mais gente no médio e longo prazo, seja por causa das tais "tragédias naturais" (fevereiro já ficou longe, a memória de alguns parece já ter se apagado) seja por diminuir o potencial agrícola devido à erosão, assoreamento de rios, etc.

sexta-feira, 24 de junho de 2011 13:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Penso que você está misturado coisas distintas. A questão do aborto prende-se a uma definição de conceito de vida e só a isso. Se a vida começa na concepção não deveria haver como fazer aborto, nem mesmo no caso do estupro. Definindo vida após 2 meses, o direito da mulher nas primeiras semanas é total.
Depois que a vida é concebida há que se fazer outra distinção. Há pessoas que matam um animal ou uma árvore por má-fé e há pessoas que matam seres humanos por má-fé. O que mata ser humano é pior. E eu penso que até esse deve ser compreendido mais como doente do que como um ser sadio.
Eu creio que quem protege o animal ou árvore com todo ímpeto e parece não fazer a proteção do ser humano, refere-se ao ser humano que ainda não ganhou o status como tal, isto é, não tem mais de dois meses de vida e defende o animal ou árvore atacados por quem age de má-fé.
Aqueles que não fazem as distinções que eu apresentei, e atacam os que matam animais e árvores com mais empenho do que os que matam seres humanos, esses sim precisam ser criticados.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 24/06/2011

sexta-feira, 24 de junho de 2011 14:28:00 BRT  
Anonymous Fernanda Andrino disse...

Alon,
Em momento algum eu disse que você não 'deveria' comparar os assuntos. simplesmente argumentei que vc foi corajoso ao fazê-lo e, por favor, não note nenhum tom de ironia nisso. Seu texto fala de muitas coisas mas eu me atenho apenas aos pontos dos movimentos feminista e ambientalista. Compreendo a sua afirmação. Já ouvi isso algumas vezes, mas acho que simplifica a questão. As lutas dos movimentos ambientalista e feminista possuem atores diferentes, galgaram espaços diferentes e somaram vitórias diferentes. Não acho, por exemplo, que estejam em pé de igualdade para serem comparados. O aborto legal está muito muito longe de ser uma realidade no Brasil. Já a criminalização do desmatamento é uma bandeira da presidenta e ninguém, além dos ruralistas, tem coragem de se opor a isso. É muito fácil defender a floresta. O meu único ponto, portanto, é: ao tomarmos cada um desses movimentos em seus aspectos positivos, os dois saem vitoriosos. Ao fazermos comparações, perdem ambos.

sexta-feira, 24 de junho de 2011 14:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

EUA,mantém alto o consumo de drogas. Com supressão fóbica dos usuários do tabaco deixa-se o campo livre para outras drogas.Aos países produtores e os de "passagem",lhes cabem a conta,mais salgada e muito além das rubricas orçamentarias.O México é um exemplo a ser temido.
Quanto ao "verdismo",trata-se de astuciosa tendência que abriga desde liberais até a direita irracional.Uma hábil estratégia dos países centrais para regularem a oferta de produtos primários e manterem a especulação,principalmente de alimentos em nível planetário sob controle.

sexta-feira, 24 de junho de 2011 16:55:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Boa Alon,mas, talvez a coisa se resolvesse mesmo através de uma nova metanarrativa, de fundo marxicizante, que englobasse todas essas novas preocupações, e promovesse a alteridade sobre o novo pensamento único desenvolvido sob CMI (Capitalismo Mundial Integrado)
Ismar Curi

sexta-feira, 24 de junho de 2011 20:06:00 BRT  
Anonymous Carlos Saraiva disse...

A diferença talvez seja que ao desmatar florestas, poluir rios e oceanos e extinguir animais o prejuízo seja da humanidade a curto e longo prazos, enquanto a supressão de um aglomerado de células num útero seja do que talvez possa vir a ser um ente formado por elas.O ser humano não é dispensável,mas merece ser pelo que tem feito ao planeta e aos seus semelhantes, instigado pelos seus textos supostamente sagrados inspirados por entidades metafísicas com poder supremo que dizem que o humano é o seu representante na Terra e por isso pode fazer o que bem entender.Incluindo exterminar outras espécies e os seus semelhantes que não crêem nessa entidade.São esses mesmos textos que foram usados durante anos para escravizar o sexo feminino, proibindo-a de fazer uso do seu próprio corpo.

sábado, 25 de junho de 2011 07:11:00 BRT  
Blogger resgato disse...

sua visão é antropocentrista, a mesma que endeusa o ser humano e despreza nossos Meios de sustento. Não concordo com voce, defenderei o verde e os bichos enquanto eu viver.

sábado, 25 de junho de 2011 08:32:00 BRT  
Blogger BlogdoIlha disse...

Prezado Alon, ao ler o seu texto lembrei de um artigo do Denis Lerrer Rosenfield, publicado na Revista Veja de 18 de maio último. O filósofo foi certeiro, poucos brasileiros se dão conta da crescente restrição de sua liberdade. É como a história do sapo vivo que vai cozinhando aos poucos na panela.
A lei do politicamente correto agrega mais e mais artigos. Nessa matéria, os legisladores não são eleitos pelo voto, mas pelos interesses dos grupos que gritam mais alto.
Agora é errado ter empregada doméstica, beber uma taça de vinho e dirigir, fumar em qualquer recinto. Por outro lado, é certo que a mulher aborte, que se dê asilo ao terrorista, que se marche pela liberação da maconha.
Junte uma norma aqui, outra ali no fogo brando e pronto, eis o grosso caldo da cultura que cozinhará nosso pensamento. Somos o sapo da sopa.
Desmatar é pecado? O agronegócio é culpado dos males do Brasil? Não sei como, se aproveitamos apenas 6% de nosso território para plantar enquanto os húngaros usam 65%, os alemães 50% e os poloneses incríveis 80%.
A maioria dos brasileiros tem a cultura rasa. Esses são leitores de slogans, sabem apenas o trivial, o que está mais evidente nas manchetes dos jornais e telejornais. Não se aprofundam e aceitam a opinião alheia sem muita conversa. Eles me lembram as ovelhas da fazenda da Revolução dos Bichos.
O pior é que todos nos tornaremos ovelhas, Alon.
Béééééé....

sábado, 25 de junho de 2011 11:20:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

1)Meio ambiente. Difícil crer o PT temeroso de uma arrancada "verde", que poderia ameaçar sua pretensão ao protagonismo total. No caso, ocorreria, apenas, que meio ambiente, tanto quanto outros temas, não teria/teriam contribuição nenhuma das teses petistas. E não seria a presidente a lograr colocar as coisas no lugar. Pelo contrário. Ao que parece, ela tenta, ainda, se colocar no partido ou trazer o partido a si, ou fazer o partido seguir seus ditames.
2) Drogas. A despeito do entendimento de que a repressão falhou/falha redondamente, ou absolutamente, a tese da descriminação erra ao propor-se como alternativa melhor. A rigor, a descriminação apenas facilitaria as coisas para o tráfico: baixaria o custo ilicitude a zero. As loas ao que ocorre no Rio de Janeiro necessita de maiores cuidados. Ou de realidade.
3) Desarrumação. Por incrível que possa parecer, a bagunça estabelecida, dá para ser entendida como fruto ou mantida pela inércia do Parlamento. Este, deveria ser o estuário natural das demandas da sociedade. Como não antecipa, não participa, não discute e pouco legisla, os debates ficam restritos a grupos de pressão. O Parlamento é capturado por grupos de pressão, com ideias e projetos já prontos e não consegue desvencilhar-se deles.

sábado, 25 de junho de 2011 13:25:00 BRT  
Blogger Danilo disse...

"Ainda que no rigor lógico-científico o embrião, ou feto, não faça parte do corpo da mãe. Ela apenas o abriga. São duas vidas, e não uma só."

O problema nessa afirmação é definir o que é vida. Defina vida como o nascimento após nove meses. Então não há vida. Agora defina vida como a fecundação entre o espermatozóide e o óvulo. Então há vida. Não há uma definição "científica" do que é vida.

domingo, 26 de junho de 2011 23:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado Alon,
Sou a favor do aborto, 1.desde que possa ser aplicado da partir do momento da concepção intra-uterina até o feto completar noventa anos de vida extra-uterina e 2.desde que possa também ser aplicado pelos filhos em relação aos pais indesejados.
Por uma questão de justiça social e de igualdade dos direitos humanos.

segunda-feira, 27 de junho de 2011 18:08:00 BRT  

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