domingo, 12 de junho de 2011

Começar de novo (12/06)

Dilma reorganizou o núcleo político do Palácio do Planalto em busca de efetividade. Errará quem subestimar as duas ministras que entram, Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti. A incógnita está um degrau acima

Foi completamente desvendado que a causa fundamental da turbulência no núcleo político do Planalto é o desarranjo nas relações entre o governo e a base parlamentar. Desarranjo que levou à derrota na votação do Código Florestal.

O caso na Casa Civil foi apenas catalisador da reação química.

Antes do desagradável desfecho na Câmara ds Deputados os governistas foram avisados de que a presidente não aceitaria perder. Mesmo assim boa parte deles ajudaram a derrotá-la. E ela cumpriu a palavra, não aceitou. E a equipe de operação política da Presidência foi trocada.

Dilma Rousseff perdeu a batalha na Câmara porque chegou tarde no assunto. E porque quando chegou preferiu alinhar-se com um campo minoritário. Quis aplausos, jogou para a plateia, plantou intransigência, foi autossuficiente e, como resultado, colheu um revés.

Sobrou para os operadores, que nada fizeram por conta própria mas pagaram o pato. É assim que funciona.

Certamente Dilma achava que a tropa de choque governamental-ambientalista, cada componente com seus encantos e mecanismos de convencimento, daria conta de reverter o balanço de forças. Errou feio.

O presidencialismo brasileiro não é imperial, é de coalizão. Mas Dilma tem exibido dificuldade até para operar a aliança dela com o mosaico petista. Com os outros atores então, nem se fala.

A exceção é o PSB, cujo líder, o governador Eduardo Campos (PE), costura pacientemente nas tensões entre a presidente e o principal aliado, o PMDB. 2014 está logo ali e talvez vague um lugar.

Dilma reorganizou o núcleo político do Palácio do Planalto em busca de efetividade. Errará quem subestimar as ministras que entram, Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti. A incógnita está um degrau acima.

Gleisi e Ideli têm braço para conduzir o rolo compressor. E não errará quem procurar entender a ação delas a partir do espírito da política externa do presidente americano Theodore Roosevelt (não confundir com o Franklin Delano), o “big stick”.

Fale suavemente e carregue um grande porrete, ensinava.

A versão oficial é que Ideli cuidará da articulação política e Gleisi, da gestão. Na vida real, é impensável que uma senadora-ministra com a chave da formulação e execução dos programas do governo fique à margem do esforço para fazer valer as posições oficiais no Congresso Nacional.

Está claro pelas últimas movimentações que a principal tarefa de ambas, cada uma com seus instrumentos e na respectiva área, será evitar a continuidade da corrosão da base de apoio. Pois a situação vai aproximando um ponto crítico.

Quando chefes precisam mostrar que mandam cada vez mais é porque talvez estejam ameaçados de mandar cada vez menos.

No Senado, por exemplo, antes da troca na Casa Civil a oposição estava a um punhadinho de votos de conseguir as assinaturas necessárias para a instalação da temida Comissão Parlamentar de Inquérito.

Para quem até semanas atrás via a política apenas como extensão do próprio desejo, deve ter sido um susto e tanto.

No estratégico PMDB quase metade da bancada de senadores já pendula nos bastidores. Em menos de seis meses Dilma viu deteriorar essa parte preciosa do capital político herdado de Luiz Inácio Lula da Silva. As rachaduras no PMDB estão mais pronunciadas do que recomendaria a prudência.

Nada que não possa ser revertido, resolvido a partir do método tradicional da repartição de poder. E do exercício de liderança. O problema aqui é calcular bem.

Governos sabem que uma hora precisarão ceder, mas procuram empurrar o momento das concessões para quando os demandantes estiverem de língua de fora.

Faz sentido, desde que a coisa não se inverta, desde que não haja barbeiragem, desde que o governo não precise negociar quando ele próprio estiver de língua de fora.

Mulher

Nem se Dilma Roussef recompuser o ministério inteiro só com mulheres conseguirá compensar a recepção que o governo brasileiro (não) ofereceu à Prêmio Nobel da Paz iraniana Shirin Ebadi.

Talvez o governo tenha consumido todo seu estoque de soberania para negar a extradição de Cesare Battisti. 

Já para essa respeitada lutadora dos direitos humanos, especialmente das mulheres, sobraram só as explicações de praxe, reservadas pelos diplomatas para as ocasiões em que é preciso explicar o inexplicável.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (12) no Correio Braziliense.


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