quarta-feira, 15 de junho de 2011

Com meses de atraso (15/06)

Se o governo lá atrás apostou numa estratégia cujo pressuposto era tudo dar certo, todas as variáveis estarem sob controle e trabalhando pelo bem, precisa prestar agora atenção para não enfiar o avião na tempestade perfeita

O governo pretende ter obtido novo fôlego com a mudança no núcleo político. Mudar traz novos ares, a esperança do recomeço, a renovação do otimismo. 

A troca de guarda mobiliza energia para enfrentar as pressões, ganha-se um tempinho antes de novamente as promessas serem expostas à vida real.

Mas a moeda tem outro lado. 

Uma derrota congressual precipitou a cirurgia no coração do Palácio do Planalto. Em linguagem futebolística, o governo tomou um gol e o técnico mexeu no time. Na teoria, o time vai melhorar. 

Mas o placar continua lá, marcando 1 a 0. Além de trocar jogador, o time da presidente Dilma Rousseff precisa fazer gol. E parar de tomar gol.

Os técnicos de futebol explicam que o bom ataque começa pela boa defesa. O primeiro movimento da nova coordenação política será encontrar jeito de não cair nas armadilhas já engatilhadas no Congresso Nacional.

Entre elas a votação da Código Florestal no Senado e a tramitação de duas Propostas de Emenda Constitucional, a das verbas para a saúde e a do piso nacional para policiais militares.

Legislativo forte é sinônimo de mais gastos. É uma lei geral, da qual não se conhece exceção. 

Já a administração Dilma Rousseff tem no futuro próximo preocupação oposta: precisa caprichar no ajuste fiscal, precisa produzir um superávit primário suficientemente robusto para acalmar o Banco Central, para evitar um aperto ainda maior dos juros.

A aposta fundadora deste governo para a economia foi um gradualismo que fizesse a inflação convergir suavemente para a meta no médio prazo, mas sem afetar o crescimento. 

O avião começou a balançar, o piloto piscou e o BC mandou avisar que vai estender o aperto por tempo suficiente. E a desaceleração vem vindo com vontade.

É um momento delicado. Se o governo lá atrás apostou numa estratégia cujo pressuposto era tudo dar certo, todas as variáveis estarem sob controle e trabalhando pelo bem, precisa prestar atenção para não enfiar o avião na tempestade perfeita. 

Que combinaria fraqueza político-congressual, vazamentos crescentes na austeridade fiscal e pressões igualmente crescentes sobre o braço monetário da política econômica. 

O risco é sabido: condenar o governo Dilma à mediocridade do crescimento baixo com inflação não tão baixa assim. E à instabilidade política.

O governo tem como contornar as nuvens perigosas. Basta fazer o que qualquer um faz no começo. 

Promover um aperto geral e emitir sinais aos aliados de que os mais fiéis da época de vacas magras serão devidamente contemplados na hora das vacas gordas, para usar a imagem bíblica.

Só que isso exigirá liderança da presidente. Ela talvez precise ser tão assertiva na ação cotidiana quanto foi para trocar os ministros. Sem entretanto resvalar na teimosia e na autossuficiência que carimbaram o passaporte da derrota no Código Florestal. 

Cujas consequências só puderam ser avaliadas depois. Para alegria incontida dos seguidores do Conselheiro Acácio.

Não será tão difícil atravessar a turbulência, se o governo estiver bem amarrado e ajustado na política. Agora é hora de o sujeito que está no barco olhar para quem não está e se sentir feliz.

O problema é que anda difícil encontrar neste governo quem esteja feliz por fazer parte dele, com a natural exceção dos pouquíssimos prestigiados pela presidente.

Daí a dureza da tarefa da nova ministra de Relações Institucionais. Cuja missão não tem grandes segredos. Mas deveria ter sido iniciada faz pelo menos seis meses.

Coragem

O ministro da Agricultura, Wagner Rossi, que conseguiu atravessar o debate do Código Florestal escondido, silencioso e agarrado ao cargo -mas nem assim escapou da fúria da chefe-, reapareceu para defender a célebre, batidíssima e nunca comprovada tese de que o Brasil tem terra suficiente para plantar o que quiser sem derrubar mais nenhuma árvore.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (15) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

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6 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O executivo federal tem á disposição dele uma verdadeira adutora de dinheiro público conhecida por BNDES [Cf. blog do Mansueto, economista do IPEA, e a recente reportagem do WSJ sobre a adutora]. E quem está pagando a conta desse banquete são os cidadãos assalariados.

Se o executivo pode, em nome do bem público, oferecer na Selva Brasilis o paraíso para grandes grupos empresariais via adutora BNDES, por que o Legislativo não pode fazer o mesmo para a sua clientela política?

Por que essa análise do legislativo irresponsável e clientelista não é aplicada também ao "austero" executivo federal?

Alon, você sabe muito bem que é muito tênue a linha que separa o otimismo do polianismo, não é?

quarta-feira, 15 de junho de 2011 00:09:00 BRT  
OpenID olicruz disse...

Meu caro Alon,
A respeito do teu comentário sobre a atuação silenciosa do ministro Wagner Rossi, gostaria de informá-lo que, desde o início dos debates dentro do governo, ainda no ano passado, ele atuou para a construção de um consenso. Em diversas ocasiões, esteve reunido com os ministros Luiz Sérgio, Antonio Palocci, Afonso Florence e Izabela Teixeira para discutir o Código Florestal, inclusive com a presença do deputado Aldo Rebelo. Em muitas dessas ocasiões, conversou com jornalistas que acompanharam os encontros. E falou publicamente sobre as negociações em torno do texto. Uma de suas manifestações foi em abril, por ocasião de uma entrevista coletiva. O link está aqui: http://youtu.be/TGQzyltXb00.
Um forte abraço,

Olímpio Cruz Neto
Assessor de Comunicação Social
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

quarta-feira, 15 de junho de 2011 09:14:00 BRT  
OpenID olicruz disse...

Meu caro Alon,
A respeito do teu comentário sobre a atuação silenciosa do ministro Wagner Rossi, gostaria de informá-lo que, desde o início dos debates dentro do governo, ainda no ano passado, ele atuou para a construção de um consenso. Em diversas ocasiões, esteve reunido com os ministros Luiz Sérgio, Antonio Palocci, Afonso Florence e Izabela Teixeira para discutir o Código Florestal, inclusive com a presença do deputado Aldo Rebelo. Em muitas dessas ocasiões, conversou com jornalistas que acompanharam os encontros. E falou publicamente sobre as negociações em torno do texto. Uma de suas manifestações foi em abril, por ocasião de uma entrevista coletiva. O link está aqui: http://youtu.be/TGQzyltXb00.
Um forte abraço,

Olímpio Cruz Neto
Assessor de Comunicação Social
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

quarta-feira, 15 de junho de 2011 09:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1) Ministro da Agricultura. Ele pode estar falando do deserto do Saara e esqueceu-se de avisar. Impressionante o número de derrapadas do ministério e todos continuam prestigiados. Assim, a presidente, sem ser um bom técnico, ter de entrar em campo para armar o time, deve estar ficando meio preocupada. E arquibancada começa a olhar no relógio.
2) Futuro próximo. A presidente tem as eleições municipais em 2012. Antes, talvez, o Código Florestal, no Senado. Assim, não é nem próximo, é futuro presente e urgente. Por lógico, ela será chamada a vencer no Senado e a eleger alguns dos seus, notadamente em Capitais, onde a briga será renhida e grandes cidades estaduais e regionais. Será um batismo de fogo político de monta. Se alguém apostar, ganha.
3) Legislativo gastador. Frente a um Executivo sem dinheiro, mas com verbas e que dá descontos a todos, seja na dívida que possam ter com o Tesouro Brasileiro, seja na triplicação do preço pago pela energia ao Paraguai, por Itaipu, o Legislativo tem sido até franciscano. O resto é feito pela inflação e juros.
4) Relações Institucionais. Tem coisa que é melhor não ter. Se trocar seis por meia dúzia já seria ruim, trocar nada por nada, sendo o novo nada estridente, é muito pior. Porém, pode dar certo dado a queda de expectativas com o governo.
5) A fase de vacas gordas será demorada. O pessoal já fez o churrasco antecipadamente e abateram matrizes. Assim, bezerro para engorda será difícil.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 15 de junho de 2011 11:55:00 BRT  
Blogger PlinioMarcosMR disse...

Ci rammarichiamo della decisione sull'estradizione di Cesare Battisti

Prezados,

Apresento o documento “Lamentamos a decisão sobre a Extradição Cesare Battisti”, http://pt.scribd.com/doc/57463116/Lamentamos-a-decisao-sobre-a-Extr... , onde, por não reconhecermos legitimidade, legalidade, Constitucionalidade, na transferência da decisão final da extradição de cesare battisti para o Presidente da República Federativa do Brasil, estamos, nos colocando à disposição do governo italiano, para que de forma Legítima, e Constitucional, a extradição em questão seja tratada.

Afinal, para que um “Ato soberano” seja presumivelmente reconhecido, necessário, se faz, estar calcado no Direito Constituído DETERMINADO pela Constituição da República Federativa do Brasil, que implantou um Presidencialismo relativo, uma vez que, tem “alma parlamentarista”, que em essência, retirou muitos dos poderes históricos existentes em Presidencialismo absoluto.

Em função do acima colocado, teimo em afirmar, que vivemos em “CAOS JURÍDICO”, onde o Poder Judiciário brasileiro, NÃO FOI CAPAZ, apesar de 23 longos anos, assimilar a essência de Nossa Constituição, trantando as questões com “olhar histórico”, como se nada houvesse mudado.

Abraços,
Plínio Marcos

quarta-feira, 15 de junho de 2011 15:03:00 BRT  
OpenID tuliovillaca disse...

A declaração do Wagner Rossí é tão acaciana quanto o seu parágrafo lapidar sobre as consequencias. O problema é que mesmo verdades acacianas podem exigir um certo investimento. Infelizmente, ainda é muito mais barato derrubar mais um pouco de floresta que reabilitar a terra já estragada pelas queimadas, por exemplo. E mais infelizmente ainda, nem o Conselheiro Acácio está a salvo de suspeitas no Brasil.

quarta-feira, 15 de junho de 2011 18:55:00 BRT  

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