domingo, 5 de junho de 2011

Colecionando resistências (05/06)

 O diagnóstico não é novo, mas talvez esteja a faltar ao governo disposição ou capacidade para dialogar, ouvir. Sem isso, fica difícil compreender os limites em cada cenário, a ação política fica refém do voluntarismo

Não chegamos a seis meses de governo e Dilma Rousseff já enfrenta cenários políticos turbulentos, que o antecessor não precisou encarar no primeiro ano de mandato.

Talvez a comparação não leve em conta que o primeiro ano de Dilma é o nono do PT, mas se a presidente é nova não custa comparar.

As razões da instabilidade nascem um pouco da economia. Há o temor inflacionário, ainda que arrefecido nas últimas semanas. E há certa frustração com o crescimento sempre contido.

Mas Luiz Inácio Lula da Silva enfrentou um cenário bem mais dramático em 2003. Precisou — ou decidiu — mandar os juros para a lua e dar uma bela turbinada no superavit primário.

Lula começou a governar com uma aritmética bem menos favorável no Congresso. Aqui não há comparação possível. Especialmente porque tinha decidido abrir mão da participação do PMDB no ministério.

Lula foi recebido com doses maciças de boa vontade? Dilma também, inclusive pelo efeito-contraste. Até outro dia o noticiário e o articulismo estavam repletos de ângulos favoráveis à nova presidente.

O voo era de brigadeiro, mas de repente a chefe do governo começou a penetrar nuvens carregadas de problemas políticos. Cada um tem uma explicação. Eu tenho a minha.

O governo não enfrenta problemas externos insolúveis, e se o ambiente econômico é algo medíocre ele não deixa de ser sereno. E como não é chique exigir aqui crescimento chinês, o governo pode ir tocando uma inflação mais ou menos e um crescimento idem. Receberá aplausos. Como já vem recebendo.

Tampouco há no Congresso uma disposição real de enfrentar o Executivo. Nem na oposição, quanto mais na situação. Como em todo começo de governo, há as cotoveladas naturais, mas é para se acomodar melhor no vagão. Não para descer dele.

O problema do governo está no governo. Mais precisamente, na surpreendente incapacidade de o governo usar com eficiência sua força abundante.

Na guerra, não basta ter um exército maior que o adversário. É preciso organizar a tropa de modo que ela consiga fazer valer a superioridade numérica. Guerras não se ganham na contabilidade comparada de homens e armas, mas no campo de batalha.

Começa a pipocar aqui e ali a percepção de que o governo tem problemas políticos. Mas isso é algo tautológico. Por que os problemas?

O diagnóstico não é novo, mas talvez esteja a faltar disposição ou capacidade para dialogar, ouvir. Sem isso, fica difícil compreender os limites em cada cenário, a ação política fica refém do voluntarismo. Você tem a tropa, mas não consegue reunir massa crítica para lutar com superioridade esmagadora.

Foi assim na votação do Código Florestal na Câmara dos Deputados, e foi também assim na última quarta-feira, quando o Senado acabou mandando ao arquivo, por decurso de prazo, duas medidas provisórias.

Um governo birrento acabou derrotado.

Por algum motivo, nas guerras simultâneas contra o ambientalismo por causa de Belo Monte e contra o produtivismo por causa do Código Florestal o governo parece não ter a solidariedade dos produtivistas em Belo Monte nem dos ambientalistas no Código Florestal.

No fim das contas, em vez de enfileirar aliados vai colecionando resistências.

Todo governo uma hora conclui que precisa conversar, nem que seja com quem quer ajudá-lo. Quando tem mais sorte chega a essa conclusão enquanto ainda é capaz de dialogar em posição favorável.

Preferência

O pensamento convencional acredita que o PMDB gosta de pressionar governos quando estão fracos. Mas é o contrário.
O PMDB prefere mesmo é apoiar governos quando perdem musculatura. Quando se tornam mais dependentes. Por motivos óbvios.

Torcida

Os resultados da eleição peruana são aguardados com ansiedade no Planalto e no Itamaraty. Enxergam nela a oportunidade de enfraquecer estrategicamente o campo de aliados dos Estados Unidos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (05) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

A paciência com Dilma esgotou-se quando os juros da Selic, não alcançaram o esperado, pelos especuladores. Houve grosso prejuízo.Olhando de perto ,o que realmente compromete a lisura de Palocci?Um ex-Ministro da Justiça, de qualquer governo,pode obter cifras superiores a essa num mesmo período,bastando recolocar a placa na porta do escritório.Presidentes de Banco Central, então... Ganha-se até por inércia principalmente oriundo de governos bem sucedidos.Tenho sinceras dúvidas ,apesar do denodado esforço da VEJA,Globo e Folha de SP,que a decisão de Dilma
tenda a optar pela degola.Se assim for, será,então, apenas o primeiro de uma série de pescoços a submeter-se ao fio de espada presidencial ,num ritual à la São Bartolomeu,interminável.

segunda-feira, 6 de junho de 2011 14:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Agora, quando parece que a vitória de Humala Ollanta, esteja a ponto de ser confirmada, o governo poderá estar comemorando mais um pouco de dor de cabeça para sua política externa. Haveria necessidade de muito esforço para crer ser Humala Ollanta perigo ou capaz de tornar o Peru um perigo aos EUA. Perigo de quê? De dentes rangendo, a AL está cheia. Geopolítico? Que falta faria? Ou seja, o que poderia fazer Humala Ollanta para merecer tanta torcida da diplomacia brasileira? Os peruanos é que devem colocar atença no governante que venham a eleger. O Brasil não tem nada a ver com isso, exceto se acreditar em fantasias e deixar-se levara por elas. Ai, sim, será problema dos brasileiros.
Swamoro Songhay

segunda-feira, 6 de junho de 2011 15:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pelo que se pode perscrutar: 1) Ao que parece, as dificuldades do governo residem na inexperiência política da presidente, algo que não deveria ser estranho para ninguém. 2) A presidente mesmo deixa isso comprovado, quando fica publicamente dependente total do ex-presidente, que nas últimas semanas apareceu como mandatário sem ter mandato. 3) A presidente parece não ter poder nem para demitir auxiliares diretos de seu governo. 4) No aspecto gerenciamento, que poderia, em tese forçada e decantada durante a campanha, atenuar, em parte, a fraqueza política, também fica claro não existir. Ou seja, o governo cria o que o governo não pode resolver por não ter condições. Tanto que, pela primeira vez, depois de mais de oito anos, ninguém acredita ser a oposição e a tal "mídia golpista" os responsáveis pelas agruras do governo. Nem isso pega mais, dado a reincidência de certos personagens em certas atitudes. E pelo fato de que está difícil ver qualquer coisa que aperte o governo na tal de mídia nos últimos mais de oito anos. Pelo contrário, a lua de mel parece que não vai acabar nunca. A presidente é refém dela mesma e de suas circunstâncias. A continuar em tal diapasão errôneo, colherá muito mais resistências. E ao que parece, também, nem a caneta e o DOU parecem ter o condão de aplacar apetites mais afoitos. Está e será dura a vida da presidente. Claramente inexperiente, tenta impedir que aspectos políticos de sua gestão sejam, se diga, politizados. Por isso, o PT e PMDB, são exatamente o PMDB e PT.
Swamoro Songhay

segunda-feira, 6 de junho de 2011 17:01:00 BRT  
Anonymous ALON disse...

Oi Alon.
Conheci você se não me engano no jornal Correio Braziliense. Depois foi na coluna do Clóvis Rossi. Ai passando pela sala ouço, "Alon". Parei, era o programa Fatos & Versões da Globo News.
É tao engraçado ver meu nome, e seu também, quando ele se refere a outra pessoa e não a você.
Nosso nome é meio incomum, por isso me chama a atenção quando leio e escuto ele.

Resolvi escrever também porque como estou participando em blogs, gostaria que você soubesse que não estou me passando por você. Mesmo porque a qualidade do que escrevo por enquanto é ruim.
Abraço Alon

segunda-feira, 6 de junho de 2011 18:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Bom post, mas há sempre na sua análise um superdimensionamento das forças do governo. A base forte do governo é o PT que tem menos de 20% dos votos na Câmara de Deputados. E o PT tem na sua base muitos evangélicos e ex-seminarists ou ex-padres que você pode gostar, mas eu não gostaria que estivessem em um partido que representaria a minha ideologia nacionalista, democrática e de esquerda. (De um democrata a favor do fisiologismo, aliás, isso para mim é tautológico ou um truismo, e não contra o fisiologismo).
Só que o PT, como ele é, é o máximo que eu posso almejar. E ainda tenho que torcer para uma presidenta, pois votei nela, que é contra o fisiologismo. Assim, vejo que é um exagero da análise dizer:
"Você tem a tropa, mas não consegue reunir massa crítica para lutar com superioridade esmagadora".
Não há essa tropa e mesmo a que há se for reunida não criaria nenhuma superioridade esmagadora.
Não é por nada, mas o último avanço que tivemos (a união estável para pessoas do mesmo sexo) foi fruto do STF e se formos levantar quase tudo o mais que tivemos fora o bolsa família, se o tivemos foi por causa do STF.
STF que foi moldado pelo PT em uma dimensão maior do que seria de direito o PT moldar (Lembrei de outro avanço: a Emenda Constitucional que criou a Defensoria Pública, que já existia em alguns estados da federação, mas não existia em São Paulo, sendo lá os assistidos defendidos pelo Ministério Público). É bem verdade que com Márcio Thomaz Bastos, as indicaçoes tiveram o viés liberal de esquerda, mas mais liberal do que de esquerda, ou talvez o melhor seria dizer viés de mais defensor do interesse do indivíduo ou da coletividade do que do interesse do Estado.
STF que é muito mais avançado (Para o meu gosto é claro) que a nossa população.
Assim, falar em superioridade do governo, é idealizar uma realidade política em que os nossos representantes na Câmara dos Deputodos são impedidos de atuar segundo os interesses de quem eles representam. Uma idealização assim não seria democrática.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 06/06/2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011 22:12:00 BRT  

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