quinta-feira, 2 de junho de 2011

Carne aos leões (02/06)

Quando o sujeito sabe operar bem, ganha com as privatizações na baixa e na alta. Ganha votos na eleição falando mal delas e ganha apoio depois da eleição implementando-as

O governo enfrenta dificuldades no Congresso, mas na frente decisiva, a economia, o receituário ortodoxo agora reabilitado cumpre bem o papel de matar as previsões de descontrole da inflação. 

Só de janeiro a abril o superávit primário já acumulou metade do previsto para o ano. O resultado primário é o balanço das contas públicas antes de contabilizar os custos financeiros. 

Quando o saldo é positivo o governo está poupando dinheiro para conseguir honrar os juros que deve.

Menos crédito, mais juros, mais aperto orçamentário, e os resultados vão aparecendo. Já faz algumas semanas o mercado financeiro não mais põe lenha na fogueira das projeções para os preços. 

Esse é o lado bom. Deram carne para os leões e eles pararam de rugir.

O lado preocupante veio junto. A indústria, já baleada pela relação cambial desvantajosa para as exportações, dá sinais de sofrer com o aperto no mercado interno. Recuou 2,1% de março a abril e 1,3 diante de abril de 2010. 

No acumulado de 12 meses o índice ainda é enganadoramente bom: 5,4%. Mas as previsões mais realistas são de crescimento medíocre este ano, algo entre 2 e 3%. 

Se os 10,5% do ano passado compensaram parcialmente o desastre recessivo de 2009, parece que vamos voltando mais uma vez à valsa da mediocridade.

É assim que a banda toca por aqui. O país tenta crescer, daí vem a inflação, daí vêm também as pressões de reindexação, até que o governo da hora, mais preocupado com o próprio pescoço, puxa o freio.

O governo Dilma Rousseff piscou no duelo com o mercado, achou melhor não pagar para ver. A correr o risco de permitir uma indexação em patamares inflacionários indesejáveis, enfiou o pé no breque.

Quando as convicções (“um pouquinho mais de inflação para um tantinho a mais de crescimento”) passaram a ameaçar a estabilidade, esta última recebeu a preferência.

E faz sentido. Se o governo der sinais de que vai perder o controle da escalada de preços as dificuldades políticas agora vividas deixarão saudade no Palácio do Planalto. Vão parecer ter sido brincadeira de criança.

O mercado já aceita a possibilidade de a inflação ficar em 2011 ligeiramente aquém do teto da meta, 6,5%, o que aumenta também o fôlego do governo para convencer de que vai conseguir voltar aos ortodoxos 4,5% no ano que vem.

E assim o Palácio do Planalto vai revertendo o cenário de más expectativas nos preços. E reduz o potencial de propagação das turbulências políticas.

Noutra frente, movimenta um carta sempre útil: as privatizações. Desta vez a favor, claro.

Quando o sujeito sabe operar bem, ganha com as privatizações na baixa e na alta. Ganha votos na eleição falando mal delas e ganha apoio depois da eleição implementando-as.

O governo desistiu de procurar uma solução estatal para os aeroportos. Vai privatizar (“conceder à iniciativa privada”). Aliás, seria interessante fazer nesta altura um balanço das concessões nas estradas federais.

Eis um mistério. Se o Estado é capaz de achar e extrair petróleo no pré-sal, por que não consegue tocar a administração de um aeroporto? É tão difícil assim?

Dar carne aos leões é mesmo útil em diversas circunstâncias.

Violência

Os excessos nas medidas provisórias já ultrapassaram todos os limites. Na real, suas excelências no Congresso não têm a menor ideia do que votam.

Cada texto na pauta é uma árvore de Natal, cheia de penduricalhos, bolas de todas as cores, apêndices com todos os própósitos imagináveis.

O velho e bom processo legislativo foi para o vinagre. Na democracia brasileira só vale agora a vontade imperial do Executivo.

Amazônico

A intenção/decisão do governo de estimular a fabricação interna de tablets foi interpretada pelos parlamentares da bancada do Amazonas como a porta aberta para reduzir as vantagens competitivas da Zona Franca de Manaus.

Seria o prenúncio de uma batalha política de dimensões igualmente amazônicas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (02) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

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4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Bom post mas não custava nada ter dito que a inflação (Como a moda é culpar o Lula eu diria de Lula) e o crescimento (de Lula) ajudaram bastante no aumento do superávit. E mencionar também as medidas macroprudenciais e quem sabe lembrar que o arrefecimento do crescimento ocorreu no segundo semestre de 2010 ainda no governo de Lula. O arrefecimento é visível quando se tem os índices de crescimento do PIB trimestrais anualizados nos últimos dois anos como mostrado em comentário que eu enviei segunda-feira, 02/05/2011 às 21h53min00s BRT para o post "Um governo ou dois?" de domingo, 10/04/2011 e no endereço
http://www.blogdoalon.com.br/2011/04/um-governo-ou-dois-1004.html
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/06/2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011 00:48:00 BRT  
Blogger Boni disse...

Tem mais é que acabar mesmo com essa vantagem da Zona Franca. Até porque todo o subsídio acaba no bolso errado. Como o taxista que cobra 50 reais por uma corrida a partir do aeroporto, não importa se é até o outro quarteirão :)

quinta-feira, 2 de junho de 2011 09:10:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

“Dar carne aos leões é mesmo útil em diversas circunstâncias”

Seguindo na metáfora, eu pergunto: Quais leões?

Na natureza, os leões estão livres para competir e sujeitos ao imponderável, aos humores da natureza.

Neste caso, os leões são os do circo Brasil. Se estão enjaulados, então alguém precisa alimentá-los. E como os recursos do circo são finitos e escassos para as demandas dos leões enjaulados, estes organizam-se em grupos de interesse e levam ao dono do circo as suas reivindicações.

O problema surge quando o dono do circo entra em delírio e acha que é Deus e que tem poder divino da multiplicação das carnes. Aí os leões ficam inquietos e os mais espertos oferecem ao delirante dono circo uma certa docilidade em troca de privilégios na distribuição das carnes. Os outros leões, que são menos organizados ou burros, contentam-se com a parca muxiba, desprezada pelos mais espertos ou mais organizados.

Por que privatizar apenas alguns aeroportos? Por que esse gradualismo? Por que não privatizar todos e liberar a iniciativa privada, que não tem vocação para queimar dinheiro [a não ser , é claro, quando este jorra da cornucópia estatal] para construir novos aeroportos?

Eu desafio qualquer um a trazer argumentos que não sejam ideológicos para defender que os aeroportos permaneçam nas mãos ineficientes do dono do circo.

Você, Alon, por razões de ofício, é um contumaz freqüentador de aeroportos brasileiros. Acredito que também deva conhecer vários aeroportos de outros países. Qual a sua avaliação a respeito das alternativas de alimentação nos aeroportos, depois que passou pelos detectores de segurança? Eu, que viajo pouco, acho que são uma merda. E porque são uma merda? Simples, Por que os felizes concessionários desse serviço nos aeroportos do Estado sabem muito bem que podem vender merda a peso de ouro. Para os usuários é pegar ou largar.

Se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas - sinais, indícios - que permitem decifrá-la [a frase é do historiador Carlos Giznburg e foi retirada de um outro contexto. Mas creio que tem valor de axioma para a vida prática]. Sinais de que o monopólio estatal dos aerportos só é bom para as hienas amigas do dono do circo são a qualidade do atendimento nas lanchonetes [filas imensas para uma comida ruim] e o preço extorsivo, por exemplo, de um reles pão de queijo.

PS: Meus leões e hienas são metafóricos. Na natureza esses animais são apenas a expressão da diversidade da vida animal no Planeta. Costumamos atribuir a eles os vícios que são dos animais humanos. Eu não me ofenderia se fosse chamado de gorila. O que vejo nesses primatas é mais docilidade do que a ferocidade.

PS1: Em Confins-MG [o aeroporto] existe uma lanchonete fora dos domínios senhoriais. Ela fica atrás de uma das bandas dos estacionamento. Pois bem, nela paga-se, por exemplo, pelo mesmo pão de queijo comercializado nos domínios senhoriais, um valor que, se não me engano na porcentagem, é próximo a 50% do que é cobrado aos servos da gleba senhorial.

quinta-feira, 2 de junho de 2011 13:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1) Nas contas públicas, já deram a carne aos leões faz tempo. Agora, os bichos estão só e já chupando o tutano dos ossos. O ajuste tão falado resume-se, se tanto, a não gastar o que não fora ainda empenhado. Ou seja, não houve corte algum, simplesmente porque nada seria gasto mesmo. Coisa de gênio. O que parecia que ia ser gasto no período posterior, foi postergado, em parte. E em algumas contas. Cortes, seriam, caso fossem realizados em cima do que fora gasto, efetivamente, em períodos anteriores. Não é o caso. Emendas parlamentares, por exemplo, sobre o orçamento de 2011, ainda não tinham sido empenhadas. Então, foi cortado exatamente o quê? Exatamente, nada financeiro, ou saídas efetivas de caixa. Economizaram em rubricas. 2) No caso das MPs, o senador (DEM/GO), Demóstenes Torres, já rasgou uma MP bonde, na qual só não tinha a sogra, com todo o respeito às senhoras e senhorinhas. E a algum genro maluco. Assim, os Parlamentares deveriam, simplesmente, rasgar toda e qualquer MP que chegasse ao Congresso. Simples. Os estorvos que votam e têm o tutano sugado, agradeceriam. Ou, então, sugerissem ao Executivo que utilizasse sua emergência mundial e implementasse uma MP Mundial. Emitida pelo Brasil, teria validade imediata, até que um conselho de anciões internacionais, tipo FIFA, as votasse a favor ou contra. Mas, agora, não dá mais. O Obama em viagem ao UK, disse que "o cara" era ele mesmo e não o outro, o do "b" do acrônimo Brics. 3) Os tablets Amazônicos, discordam de tudo o que se fala de gerenciamento econômico de deixar o mundo de queixo caído. Como pode imaginar medidas que causam distorções econômicas, como se genialidades o fossem? E outra pergunta: como falar de processos de alta tecnologia e adotar slogan de país sem pobreza? Os senhores empenhados parlamentares deveriam abandonar o umbigo e olhar o horizonte.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 2 de junho de 2011 21:45:00 BRT  

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