quarta-feira, 8 de junho de 2011

Batalha morro acima (08/06)

As revelações sobre o crescimento patrimonial do ministro da Casa Civil -acontecido antes de ele ser ministro da Casa Civil- abriram uma janela de oportunidade para a erupção de todas as insatisfações. Sem o ministro, a presidente livra-se de um problema imediato, mas sai algo mais fraca. Diante do PT, e também diante da oposição e da opinião pública

O ministro-chefe da Casa Civil não suportou o bombardeio e está fora. E desta vez ninguém deve culpar a oposição. Pois a pressão maior para tirá-lo do cargo veio exatamente do PT. Nos últimos dias ele vinha recolhendo apoios fora do partido, especialmente no PMDB, mas não foi suficiente nem deu tempo.

O PT abandonou o correligionário por não achar razoável pagar novamente uma fatura pesada, e desta vez sem que a operação a defender pudesse ser abrigada sob um guarda-chuva estritamente partidário. Viu também na troca na Casa Civil uma janela de oportunidade para ampliar o próprio poder.

Os petistas desde sempre enxergaram o governo Dilma Rousseff como nova etapa no projeto político. Sem Luiz Inácio Lula da Silva a concentrar todas as luzes e atrair todos os fluidos do poder, era chegada a hora e a vez da legenda. Foi dito durante a campanha eleitoral. Mais de uma vez.

Mas a constituição do núcleo governamental acabou não confirmando a tese. A dobradinha entre a presidente da República e seu ministro da Casa Civil funcionou nestes quase seis meses como mecanismo de concentração do poder presidencial.

As reclamações na base política são múltiplas, e a novidade na comparação com o governo anterior é que desta vez as queixas vinham incluindo também o PT. Um exercício desafiador nos últimos tempos em Brasília é encontrar alguém da base do governo satisfeito com o governo.

Assim, as revelações sobre o crescimento patrimonial do ministro da Casa Civil -acontecido antes de ele ser ministro da Casa Civil- abriram uma janela de oportunidade para a erupção de todas as insatisfações. E foi o cenário das primeiras semanas de turbulência, até que o PMDB, tardiamente, passou a achar que seria melhor não mudar.

Esse apoio valioso mas tardio não foi suficiente. Faltou exatamente o PT. O ministro tinha respaldo na bancada da Câmara dos Deputados, mas o PT do Senado ontem recusou uma proposta de moção favorável à permanência dele no cargo. O ministro tampouco pôde contar com ajuda do comando partidário.

Sem o ministro, a presidente livra-se de um problema imediato, mas sai algo mais fraca. Diante do PT e também diante da oposição e da opinião pública. Recompor a força talvez venha a ser batalha morro acima.

Rio+20

A presidente da República lançou ontem o ambicioso projeto dela para a Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável. No evento palaciano que marcou o lançamento, Dilma Rousseff voltou à retórica de não negociar com o desmatamento.

Tem sido um discurso recorrente de sua excelência, e pelo visto vai durar.

Vai durar porque pode render. A Dilma Rousseff ministra de Minas e Energia e depois chefe da Casa Civil era a face do desenvolvimentismo no governo Lula. Por causa dessa característica colecionou muitos apoios.

E também acumulou atritos com o lobby ambiental. Entrou em choque com a então ministra Marina Silva, que no fim deixou de ser ministra, deixou o governo e deixou o PT para virar candidata do PV ao Planalto.

É curioso que a agenda da candidata que perdeu tenha passado a comandar, mas são coisas da política. O desenvolvimentismo agora é "out".

O PT e Dilma andam preocupadíssimos com a erosão da imagem num segmento social mais moderno, mais antenado em pautas ditas contemporâneas. Assustaram-se com a votação de Marina no primeiro turno e com a ameaça de se formar um campo majoritário antigoverno, a partir da adesão maciça das classes médias.

Sobrou então para os “desmatadores”. Um inimigo conveniente, porque já bastante demonizado. E toca a discursar, mesmo que a vida real caminhe noutro sentido. Mesmo que o próprio governo tenha apoiado na Câmara dos Deputados medidas para facilitar, por exemplo, a vida de pequenos proprietários que cultivam ou criam gado em áreas de preservação permanente.

Tecnicamente são “desmatadores”, mas o Planalto precisou negociar as reivindicações deles. Assim como precisará negociar no Senado.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (07) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

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4 Comentários:

Blogger strl disse...

Caro Alon,
Como assim, 'os pequenos técnicamente são "desmatadores"? para proteger 80% da natureza do país, basta convocar os maiores latifundiários e pode-se fazer a reunião numa mesa de restaurante em Brasília! Seus pequenos técnicamente "desmatadores" produzem 70% do alimento que comemos utilizando uma parte ínfima do território do país.
Um abraço
Antonio Storel

quarta-feira, 8 de junho de 2011 09:08:00 BRT  
Anonymous Whatever disse...

Caro Alon,

Vc deve estar com algum problema para ler datas: as duas ultimas colunas estavam o mes errado e a de hoje esta' com o dia errado. Ta' com medo de chegar o dia do embate com o Penarol? :-)
Fora isso vc foi brilhante, como sempre!

quarta-feira, 8 de junho de 2011 13:07:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Já corrigi!

quarta-feira, 8 de junho de 2011 15:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1) Não é difícil o governo perder, também, no Senado, a votação do Código Florestal. Erroneamente, o governo e apoiadores, tentam vincular o Código e sua aprovação na Câmara, como estimulador do desmatamento. Pode perceber, tardiamente, que está cometendo o mesmo erro de antes. Não está funcionando, como era antes, a demonização de uns e a deificação de outros.
2) A queda do ministro da Casa Civil, ocorreu depois de um longo período de insegurança da presidente em enfrentar o problema. Surgem notícias que dão o resultado como fruto de pesquisas que apontavam a erosão do governo. Ora, se foi pesquisa, ela pode ter pego apenas o pico eventual de ondas que podem crescer mais, a despeito da demissão ocorrida. O poder decisório real, aparentemente, teria propiciado a demissão do ministro antes. Contudo, a presidente defendeu-o e acusou as denúncias como politização. Tudo para, no final, demonstrar fraqueza em resolver os problemas que se repetem em uma área importante do governo.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 8 de junho de 2011 17:16:00 BRT  

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