terça-feira, 14 de junho de 2011

Agrados convenientes (14/06)

Sabe-se lá o que Dilma pretendeu com a cartinha afetuosa a FHC. Especular é livre. E o eleitor também é livre para concluir que, afinal, não se deve levar muito a sério o que os políticos dizem uns os outros

A política não é um roteiro retilíneo, facilmente decifrável por pessoas normais. Talvez eu devesse escrever “pessoas comuns”, mas “normais” cabe melhor. Pois o comportamento dos políticos não pode ser entendido a partir dos parâmetros da normalidade não política.

Entre pessoas normais, há coisas que podem ser ditas e perdoadas. E há coisas que não.

Quando comecei a prestar atenção nos assuntos políticos, um tema obrigatório eram as circunstâncias e o desenvolvimento do golpe que depôs João Goulart em 1964. Compreendê-lo era a chave para a militância dos anos 60 e 70.

Uma das primeiras coisas a atrair meu espanto foi a formação, no pós-golpe, da Frente Ampla entre Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart. Depois do que o primeiro tinha dito sobre os outros dois -e do que tinha feito- era um acontecimento espantoso.

Mas o Brasil vivia na ditadura, a caminho do fechamento ainda mais radical. E a trinca de antigos desafetos podia argumentar sobre a urgência de afastar os maus sentimentos, em favor do bom propósito da redemocratização. Um argumento razoável.

Por estes dias o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso faz 80 anos e foi homenageado por amigos e correligionários com um jantar em São Paulo. Mas a surpresa maior da efeméride foi uma afetuosa carta enviada pela presidente Dilma Rousseff.

A chefe do Planalto não se limitou à boa educação e à cordialidade (o que na comparação com o antecessor já seria de um contraste cruel), mas incluiu na missiva referências calorosas a dois aspectos da trajetória política do agora octogenário: segundo ela, as permanentes convicções democráticas e o mérito decisivo na luta contra a inflação.

Aí o sujeito que acompanhou as eleições presidenciais na última década tem o direito de parar, refletir e perguntar. Mas, afinal, FHC foi um democrata amigo dos pobres (já que a inflação é sabidamente a maior inimiga dos pobres)? Ou foi o entreguista que governou para os ricos e deixou uma herança inflacionária maldita para o sucessor?

E cujo legado, portanto, precisa ser permanentemente combatido para evitar a volta do modelo que o tucano desejou implantar no Brasil?

Os dois FHCs, definitivamente, não combinam. Assim como a carta de Dilma não combina com o que Luiz Inácio Lula da Silva e ela vinham dizendo sobre o agora apenas sociólogo. Particularmente num detalhe.

O PSDB é bastante cioso quando puxa para si o mérito da vitória antiinflacionária. Volta e meia está a discorrer sobre o Plano Real. Já o PT sempre destaca uma falha dessa narrativa tucana.

O PT recebeu o governo em 2003 com a inflação fora de controle, descontrole que explica o forte aperto monetário e fiscal daquele primeiro ano de Lula no Planalto.

Comparando, a carta de Dilma a FHC é como se Barack Obama escrevesse a George W. Bush com fartos elogios pela maneira como enfrentou após o 11 de setembro de 2001 a nova realidade das ameaças terroristas globais contra os Estados Unidos.

Isso depois de Obama ter sido eleito a partir da ênfase na crítica a esse aspecto da gestão do antecessor.

Sabe-se lá o que Dilma pretendeu com a cartinha afetuosa a FHC. Talvez tenha sido apenas cordialidade e boa educação. Ou talvez ela tenha pretendido irritar alguém. Ou talvez até acredite mesmo no que escreveu. Talvez tenha sido sincero. Especular é livre.

Uma coisa é certa. Cada elogio mandado pela presidente a FHC é um estímulo adicional para que ele não a critique em público. Um pacto conveniente para ambos.

A eleição já passou, Dilma venceu, está na cadeira. Quanto menos oposição enfrentar, melhor. E FHC só tem a ganhar com elogios vindos do adversário.

E o eleitor, o cidadão que teima em acreditar no que os candidatos lhe vendem em campanhas eleitorais?

Talvez conclua que, afinal, não se deve levar muito a sério o que os políticos dizem uns os outros. Nem quando estão brigando, muito menos quando estão se agradando.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (14) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

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13 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon,

O tal descontrole inflacionario no ultimo ano de FHC foi causado unica e exclusivamente devido a retorica irresponsavel e mentirosa do PT, que prometia calote da divida, confiscar investimentos privados, abolir o regime de metas de inflacao e argumentava que a LRF era inconstitucional.

terça-feira, 14 de junho de 2011 11:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Considero estranho este fato. Mas o FHC tem o merito de ter sido comandado pelo Itamar. Depois o seu governo se caracterizou pelo entreguismo, infelizmente.
Se fosse o recem chegado FHC ao Brasil depois do exilio, era uma coisa, mas ele se colocou do lado de quem queria o Brasil como Brazil.

terça-feira, 14 de junho de 2011 17:22:00 BRT  
Anonymous Henrique disse...

Alon faço minhas as palavras no comentário anterior e aproveito para lhe perguntar porque você não foi mais claro em expressar sua opinião que pelo seu texto ficou claro (apesar de estar nas entrelinhas)que é sem dúvida a mesma que Lula, Dilma e o PT passaram oito anos execrando o governo de FHC seja claro não use de um texto expeculativo para dizer o que pensa.

terça-feira, 14 de junho de 2011 19:41:00 BRT  
Anonymous JV disse...

concordo, era o risco PT (tá bom, era risco Lula, mas como Lula deu uma rasteira que dividiu o PT, chamemos de risco PT)

terça-feira, 14 de junho de 2011 19:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Percebe-se que Alon ficou perturbado ao descobrir que sua intensa militancia para desconstruir FHC seguindo orientações partidárias foi trabalho perdido. Eram apenas retórica política de ocasião e nao resistiriram à verdade.

terça-feira, 14 de junho de 2011 21:20:00 BRT  
Anonymous Ubirajara de Macêdo disse...

Pode não ser sincero o comentário, creio que não é, todavia, é justo. Os avanços no governo FHC, proporcionados pelo controle da inflação através do plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal trazendo organização as contas públicas, ambos, são conquistas da sociedade brasileira para melhor. Destacando que o PT foi contra tudo, mesmo que trouxesse melhorias para o país
O Pior cego é aquele que não quer enxergar.

quarta-feira, 15 de junho de 2011 08:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Com todo respeito, a sua visao e bem maniqueista. Por acaso o senhor se esqueceu da carta ao povo brasileiro, onde o ex President Lula precisou assegurar ao mercado que iria manter a estabilidade iniciada por FHC? E qual foi a razao da carta ? Justamente tentar controlar o medo que o mercado sentia em relacao as posicoes de Lula. A verdade e que o governo Lula foi menos ruim que o de FHC nao porque Lula foi tao diferente e sim porque foi um cenario internacional completamente favoravel ao petista. Em um pais tao dependente de capital internacional (nos nao temos poupanca interna)a verdade do "nunca na historia desse pais" e que nunca na historia desse pais um presidente teve um cenario internacional tao favoravel, onde bombaram dolares no Brasil devido a venda de materia prima para a China. O Brasil ficou menos ruim por causa da glovbalizacao, tao criticada pelo PT e nao porque o Lula "quis" e FHC "nao quis" ou porque um fez uma politica para banqueiro e o outro nao. A Presidente Dilma so faz justica ao reconhecer a contribuicao do governo FHC. O senhor deveria fazer o mesmo.

quarta-feira, 15 de junho de 2011 08:25:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

E o leitor, o cidadão que teima em acreditar no que os jornalistas lhe vendem em livros, revistas, jornais e web?

Talvez conclua que, afinal, não se deve levar muito a sério o que os jornalistas(?)dizem sobre os outros. Nem quando estão brigando, muito menos quando estão se agradando.

quarta-feira, 15 de junho de 2011 10:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Se é possível alguém ter credibilidade por um estilo justo, mesmo com lado político assumido, esse é o Alon. Parabéns por mais uma análise respeitável. Admiro-o não por estar do mesmo lado, mas pela forma brilhante de expor suas observações.
Alfredo Jr.

quarta-feira, 15 de junho de 2011 10:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Anônimo-terça-feira, 14 de junho de 2011 17h22min00s BRT. Nem Lula e seus mais ferrenhos apoiadores, ou cegos apoiadores, mais exatamente, acreditam nisso que consta em seu comentário. E se forem lembrados: a refinaria da Petrobras na Bolívia; a triplicação da do preço da energia de Itaipu, paga ao Paraguai; o perdão de dívidas de vários países com o Brasil...Por exemplo, dá sim para falar de quem realmente seria entreguista. Sem esquecer a falta de defesa comercial e a regularização, pelo governo da Bolívia de carros roubados no Brasil e levados para aquele país. Interessante, não?
Swamoro Songhay

quarta-feira, 15 de junho de 2011 12:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bem, que o ex-presidente de 2003/2010, explique o teor da carta. Da mesma forma de quando ele chegou a Brasília fazendo barulho durante a crise Palocci e não resolveu nada. Depois, elogiou a presidente atual pelo que ela fez exatamente o contrário do que ele sugerira. Em suma, está recebendo mensagens de que seu tempo passou, acabou. Precisam falar mais claramente, pois, parece, que ele tem ouvidos de mercador para certos assuntos. Nada que um bom megafone não resolva.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 15 de junho de 2011 12:12:00 BRT  
Anonymous SILVIO disse...

CARO ALON

ESTE TEXTO MOSTRA COM CLAREZA, QUE SUA MENSAGEM TÊM VIÉS IDEOLÓGICO PARTIDÁRIO.

VER FHC DESSA FORMA É UMA DEMONSTRAÇÃO DO PETISMO QUE HÁ DENTRO DE VOCÊ.

LAMENTÁVEL, CARÍSSIMO. LAMENTÁVEL.

quarta-feira, 15 de junho de 2011 12:25:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, sua observação é perspicaz. A presidenta foi além do que pede a cortesia co uma figura pública. Meus pitacos: estamos em momento de redefinição das forças política. De um lado a oposição deve recompor-se para o período pós PSDB/DEN, depois, aquela que soube ser um poste durante a campanha de 2010 – caso contrário não seria mais que traço na apuração – também quer redefinir o seu espaço no poder, por que lulismo e não dilmismo? Mas está sabendo mover-se com cautela. Ninguém, além deste seu humilde leitor, percebeu que a fritura de Palocci começou no palácio do planalto – já disse isso em outro comentário – mas Dilma soube fazê-lo como se fosse iniciativa da oposição. Lula interveio pessoalmente, desgastou o governo, mas deve ter recebido um “passa moleque” do qual não teve coragem de passar recibo, apontou o dedo para o PSD de Kassab, criado para unir-se a base de apoio de Dilma. O interessante é que a lógica da atuação da presidenta ultrapassa a balburdia das divisões partidárias. A primazia do PT é mais protocolar que outra coisa, e o planalto pode usar prioritariamente outro partido da coalizão, como o PMDB e o PCdoB para o código florestal, para aprovar o que lhe interessa, mantendo inclusive, para consumo da “opinião pública”,uma pose de derrota, ou mesmo usar a oposição como na demissão do ministro incômodo. A coordenação política, claro, precisa ficar em mãos de confiança pessoal da presidenta... faz sentido no ambiente que prevalece, somente não sei se é fácil de tocar, e sem dúvida é pouco transparente. De todo modo é melhor um governo disposto a agir, e mesmo a errar e sucumbir, como acredito será o caso do atual governo, do que um tucanismo que não se compromete com nada.

sexta-feira, 17 de junho de 2011 11:15:00 BRT  

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