quinta-feira, 19 de maio de 2011

Um país para chamar de seu (19/05)

Quem tem um país para chamar de seu acaba tangido a cuidar dele. Quem não tem, ou está ameaçado de perdê-lo, acaba tentado a escorregar para os descaminhos da História. A achar que a solução dos próprios problemas está em desgraçar a vida de alguém

O rolo entre Israel e Palestina, cuja temperarura volta a subir, é apenas o mais vísivel entre algumas histórias inacabadas da Segunda Guerra Mundial.

Índia e Paquistão eram um só país e viraram dois, com a independência diante do Imprério Britânico.

Mais ou menos na mesma época, Londres entregou à ONU o destino do território entre o Jordão e o Mediterrâneo. Pela incapacidade de controlar o conflito entre os nacionalismos árabe e sionista.

O fim da Segunda Guerra Mundial desencadeou forte ciclo descolonizador, que concluiu três décadas depois com o colapso do império português na África. No Oriente Médio esse ciclo produziu também a fundação de Israel.

A União Soviética foi a potência decisiva para que a ONU permitisse a independência israelense. Os Estados Unidos seguiram a reboque e o Império Britânico lavou as mãos.

A tese de Israel ser um “empreendimento colonial” não consegue explicar esse detalhe. A União Soviética de Joseph Stálin era um vetor anticolonial.

É verdade que durante a Primeira Guerra Mundial o Império Britânico se declarou favorável à criação de um lar nacional judeu naquele pedaço do mundo. É verdade também que a partir dos anos 20, e especialmente dos 30, Londres fêz o que pôde para conter a imigração judaica, diante das pressões crescentes do nacionalismo árabe.

E fez isso apesar das ameaças -afinal concretizadas- de genocídio contra os judeus na Europa.

Essa história é bem conhecida, ainda que de tempos em tempos haja tentativas de falsificação. Como é conhecido também que os judeus aproveitaram a resolução da ONU de 1947, que dividia em dois a área do mandato britânico, para criar um estado nacional.

Os árabes não aceitaram a divisão, não fundaram seu próprio país e preferiram apostar numa ofensiva militar conjunta para conseguir no campo de batalha o que não haviam alcançado na ONU. Impedir a fundação de Israel.

Mas o destino daquela primeira guerra árabe-israelense de 1948-49 caminhou ao contrário, Israel acabou ampliando o território para além das fronteiras estabelecidas pela ONU. Uma lógica que se repetiria depois.

Em 1949 um armistício estabilizou o front em linhas que seriam novamente mudadas em 1967, também em desfavor do lado árabe e também em consequência de uma derrota militar.

A narrativa oficial israelense afirma que a população árabe deslocada no conflito de 48-49 moveu-se pela promessa de seus líderes de que quando os judeus fossem atirados ao mar todos voltariam para retomar o conjunto da área.

A narrativa oficial palestina afirma que o êxodo foi imposto manu militari pelas forças israelenses em avanço.

A verdade deve estar num ponto intermediário, e os historiadores tem buscado a resposta com mais intensidade a partir dos anos 90.

Mas a História não se move por critérios de justiça derivados de documentos históricos. Na Europa, por exemplo, nunca se contestou a sério o esvaziamento da alemã Prússia Oriental durante a ofensiva final dos soviéticos em direção a Berlim em 1944-45. Nem a russificação do território prussiano, o coração da identidade alemã.

Ao final, Konigsberg virou Kaliningrado, não sobraram alemães ali e hoje a área é um pedaço da Rússia encravado a oeste dos países bálticos, já que a URSS não existe mais.

Os alemães da Prússia Oriental (os sobreviventes) foram absorvidos no que ficou da Alemanha após a derrota final do Terceiro Reich. Hoje a Alemanha acha mais importante manter a paz com a Rússia do que reivindicar a retomada do que ficava do lado de lá do corredor polonês.

A paz entre russos e alemães tem sido estável, assim como tem havido alguma estabilidade nas relações entre indianos e paquistaneses, apesar das rusgas periódicas. Neste caso, a paridade nuclear funciona bem.

Pois cada um tem seu país. Quem tem um país para chamar de seu acaba tangido a cuidar dele. Quem não tem -ou está ameaçado de perdê-lo- acaba tentado a escorregar para os descaminhos da História. A achar que a solução dos próprios problemas está em desgraçar a vida de alguém.

É a receita da guerra sem fim.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (19) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Parabéns
Claro e esclarecedor não deixando de lado a idéia título

quinta-feira, 19 de maio de 2011 11:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O melhor que poderia ocorrer na região de conflito no OM, seria dois Estados. Israel e o Palestino. As devoluções de territórios ou o retorno às fronteiras pré-1967, seriam aspectos a serem discutidos, tanto quanto o acesso à água potável. Outra coisa, esta melhor ainda, seria que o facho dos adoradores de sangue e massacres, mudassem o cardápio para brotos de guaxuma, brotos de bambu ou raízes diversas e couve. Ou que preparassem o lombo para boas lambadas de chumaços de urtiga brava. Destruir um ao outro, mostrou-se impossível. Então, que os açuladores sumam e os realmente interessados sentem e conversem. Há um filme interessante chamado A Banda. Um filme simples que mostra como a paz pode fazer as coisas prosperarem. Da maneira mais simples possível.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 19 de maio de 2011 14:38:00 BRT  
Blogger SABEH disse...

TheLonelyGod
Commented 4 days ago in World
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“"The 15th May, 1948, arrived ... On that day the mufti of Jerusalem appealed to the Arabs of Palestine to leave the country, because the Arab armies were about to enter and fight in their stead."
-- The Cairo daily Akhbar el Yom, Oct. 12, 1963.

In listing the reasons for the Arab failure in 1948, Khaled al-Azm (Syrian Prime Minister) notes that “…the fifth factor was the call by the Arab government s to the inhabitant s of Palestine to evacuate it (Palestine ) and leave for the bordering Arab countries. Since 1948, it is we who have demanded the return of the refugees, while it is we who made them leave. We brought disaster upon a million Arab refugees by inviting them and bringing pressure on them to leave. We have accustomed them to begging... we have participat ed in lowering their morale and social level...Th en we exploited them in executing crimes of murder, arson and throwing stones upon men, women and children.. .all this in the service of political purposes.. .”
-- Khaled el-Azm, Syrian prime minister after the 1948 War, in his 1972 memoirs, published in 1973..

. “Since 1948, the Arab leaders have approached the Palestinia n problem in an irresponsi ble manner. They have used to Palestinia n people for political
purposes; this is ridiculous , I might even say criminal.. .”

-- KING HUSSSEIN, Hashemite kingdom of Jordan, 1996”

quinta-feira, 19 de maio de 2011 23:12:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"os historiadores tem buscado a resposta com mais intensidade a partir dos anos 90."

Tenho notícia de que hoje em Israel há um debate bastante interessante entre historiadores a respeito dos fatos relativos à população deslocada no pós-48. Os historiadores divergem e, como deve ser, baseiam suas narrativas em fontes empíricas [como a apresentada pelo comentarista SABEH] e no exame lógico desses elementos. Há até quem assuma como um fato "que o êxodo foi imposto manu militari pelas forças israelenses em avanço".

Infelizmente esse debate está ainda bastante restrito aos historiadores de Israel. Eu tenho organizada uma amostra bibliográfica com as principais obras publicadas em inglês, mas não lembro onde guardei. Na época em que fiz a pesquisa, busquei no DEDALUS [Banco de Dados Bibliográficos da USP] os autores. Nada encontrei.

Por este artigo de 2005 é possível tomar conhecimento das principais divergências:

Benny Morris's Reign of Error, Revisited
The Post-Zionist Critique

by Efraim Karsh

The collapse and dispersion of Palestine's Arab society during the 1948 war is one of the most charged issues in the politics and historiography of the Arab-Israeli conflict. Initially, Palestinians blamed the Arab world for having promised military support that never materialized.[1] Arab host states in turn regarded the Palestinians as having shamefully deserted their homeland. With the passage of time and the dimming of historical memory, the story of the 1948 war was gradually rewritten with Israel rather than the Arab states and the extremist and shortsighted Palestinian leadership becoming the main if not only culprit of the Palestinian dispersion. This false narrative received a major boost in the late 1980s with the rise of several left-leaning Israeli academics and journalists calling themselves the New Historians, who sought to question and revise understanding of the Arab-Israeli conflict.[2] Ostensibly basing their research on recently declassified documents from the British Mandate period and the first years of Israeli independence, they systematically redrew the history of Zionism, turning upside down the saga of Israel's struggle for survival. Among the new historians, none has been more visible or more influential than Benny Morris, a professor at Ben-Gurion University in Beersheba, whose 1987 book, The Birth of the Palestinian Refugee Problem 1947-1949, became the New Historian's definitive work.

http://www.meforum.org/711/benny-morriss-reign-of-error-revisited

Um comentário à margem.

Tanto se fala hoje que o Estado deveria criar um tipo de "Comissão da Verdade" para por a descoberto fatos obscuros da ditadura militar no Brasil. Sou completamente contrário a que o Estado envolva-se nessa empreitada. Por óbvias razões, não cabe ao Estado tutelar esse processo. Melhor seria fazermos como se faz em todo mundo civilizado e com excelentes resultados: Obrigar o Estado a liberar TODOS os documentos relativos ao período e deixar a tarefa de trazer a verdade à luz aos historiadores.

sexta-feira, 20 de maio de 2011 10:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, nao sou chegado a rasgacao de seda, mas esse seu texto é soberbo, claro, definitivo.
parabens!

domingo, 22 de maio de 2011 09:38:00 BRT  

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