domingo, 15 de maio de 2011

Queixo de vidro (15/05)

Infelizmente para o governo, ele precisou emitir sinais de fragilidade bem quando voava em céu de brigadeiro. Inclusive porque a inflação parece que vai dar algum refresco
 
Façanha na política é o sujeito atravessar toda uma vida dedicada ao ofício e, ao final, a palavra dele continuar valendo. Pois as circunstâncias da atividade acabam desencadeando pressões terríveis para desfazer hoje o que se disse ontem.

A opção é abrir mão de poder e manter a coerência. Pede-se aos políticos que adotem essa modalidade de sacrifício ritual, mas a maioria esmagadora deles prudentemente ignora o apelo.

Até porque, e também no jornalismo, quem pede coerência na política não deixa de exercitar suas próprias flexões em certos momentos, quando convém.

E a tese pode até ser razoável: errar é humano, persistir no erro é burrice.

Mas, se coerência não é um valor em si no universo da política, honrar acordos é costumeiro. Especialmente no Parlamento. Claro, você pode abandoná-los se tiver força para tanto, mas a operação embute uma perda.

O governo rompeu o acordo para votar o Código Florestal, pois achou que ia perder a votação de um destaque crítico. Qual foi o prejuízo? Transmitiu sinais de fraqueza.

Se tivesse deixado votar e perdido, todos concluiriam que o governo não tinha maioria para aprovar o Código Florestal dos sonhos. Como correu, deixou a impressão de que o nó é mais grave.

Nossos governos podem perder votações no Legislativo sem maiores consequências. Têm mecanismos de veto e o sistema não é parlamentarista.

O maior desgaste no episódio foi ter dado a impressão de um certo queixo de vidro, como se diz no boxe. Sabe bater bem, mas não aguenta apanhar. Revela que qualquer knockdown pode ser um knockout.

Fico imaginando nossos governantes atuais tendo que administrar uma situação como a de Barack Obama, com minoria na Câmara dos Representantes (deputados) diante de um Partido Republicano fortemente penetrado pelo ultraconservadorismo do Tea Party.

E num país de federação verdadeira, onde os estados têm poder. E onde o voto é distrital.

O pessoal provavelmente viveria à beira de um ataque de nervos. Diferentemente de Obama, que até hoje não perdeu nada de importante no Congresso, ao contrário, e nunca precisou correr de uma votação após o acordo fechado.

E nunca usou o cargo para ampliar a divisão do país, para demonizar adversários ou deslegitimá-los. Nem quando o psicopata atirou na deputada liberal.

De volta ao Brasil. Governo obstruir votação é sempre motivo para acender a luz amarela. Mais ainda em situações cuja complexidade supera o escopo das terapêuticas tradicionais.

Nossos governos estão habituados a oferecer benesses em troca de apoio. Mas há encrencas em que esse remédio não funciona tão bem assim, quando o custo de ceder aos encantos do governo excede o benefício decorrente da adesão.

É o caso agora? Talvez não, mas, infelizmente para o governo, ele precisou emitir sinais de fragilidade bem quando voava em céu de brigadeiro. Inclusive porque a inflação parece que vai dar algum refresco.
 
Principal
 
O PP do deputado federal Paulo Maluf (SP) está de passaporte visado para entrar no governo Geraldo Alckmin, do PSDB. Aliados tradicionais do PT, como o PCdoB, aproximam-se do prefeito paulistano, Gilberto Kassab, e de seu PSD.

O PMDB se arma trazendo do PSB um campeão de votos, o deputado federal Gabriel Chalita. Que, no limite, pode receber o apoio de Alckmin e também do PT.

Que por sua vez engatilha mais uma candidatura de Marta Suplicy, na esperança de atrair o apoio de Chalita e lucrar com uma eventual cisão definitiva entre Alckmin e Kassab.

A frase não é nova, até acho que já usei aqui, mas o cenário político está como na véspera das grandes guerras. Todo mundo pode se aliar com todo mundo e todo mundo pode guerrear contra todo mundo.

A arte estará em reconhecer antes dos outros onde localizar a contradição principal.

É entre PT e PSDB? Ou entre Alckmin e Kassab? Façam suas apostas. A segunda hipótese tem gerado algum nervosismo no PT.

Vale a velha máxima. Ganhar eleição é bom, mas evitar que o adversário ganhe também pode ser bom.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (15) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Uma crítica aos últimos dois posts.

A análise da questão de fundo nessa novela da votação do código deveria ter o governo em papel coadjuvante. O protagonista nessa novela, e que desempenhou muito mal o seu papel, é o líder do governo Vaccarezza. O fato inextirpável na análise [e aí está a minha crítica] é a espinha flexível de Vaccarezza, que se comportou nesse episódio como um réles estafeta do governo. Isso em política é fatal, ao menos para quem não tiver algo melhor para pedir em troca do sacrifício. O líder do governo fecha acordos em nome do governo. Ou ele tem autoridade para isso ou não tem. E depois do acordo fechado é quase impossível voltar atrás sem as conhecidas consequências.

Ele desmoralizou-se perante os parlamentares da base e da oposição em troca do quê. No que essa atitude lhe favoreceu politicamente no presente e no futuro, seja em seu partido, seja na base aliada? Uma proeza inimaginável.

Cumprir acordos é básico, principalmente quando colocamos publicamente o nosso nome nele.

Aliás, cumprir acordos foi a "lição numero um" que a militância política no movimento estudantil ensinou aos... militantes. Recuar daquele modo vergonhoso mostrou que Vaccarezza não tem força para peitar o palácio, que não é líder, mas um submisso às ordens palacianas. Só não viu isso quem não quis ver. Lembra do Mercadante? Pois é. Mas recuou em troca da indicação para o governo de SP e de uma nomeação no Ministério.

Ao que parece, a fritura do Vaccarezza já começou. E por isso vai ficar ainda mais nas mãos de José Dirceu. Eu acho que na liderança ele já era. Mas vamos ver no que vai dar.

domingo, 15 de maio de 2011 17:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não lhe ocorre que o sobre as mudanças no Código Florestal as resistências aparecem dentro do próprio PT. É só ver as manifestações de rua contra as mudanças com as bandeiras do partido. É só ler as várias publicações de esquerda sobre a questão.
Ismar Curi

segunda-feira, 16 de maio de 2011 08:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O PT não quer nenhuma mudança, nem mesmo as que eram suas bandeiras. Contraditório? Sim. Mas, o Código Florestal pode estar a demarcar realmente quem é quem e quem quer o quê. Como o PT está na base da delonga, o tema está indo para as calendas. Agora, só se fala se ministro vai ou não explicar sobre aumento de patrimônio, se o Português pode ser falado errado. O segundo aspecto aqui colocado, a Língua, deve ser o que provoca o primeiro aspecto. Ou seja, por nada, do zero, cria-se uma língua para ser utilizada pelos submissos. Assim, talvez por não mais saberem ler e escrever, na Língua alfabetizadora, não conseguem entender absolutamente nada no que se refere aos aspectos, agricultura, pecuária, rios, margens de rios, topos de morros etc. Tanto que, ao discutir Código Florestal, defrontaram-se com desvios de toras de madeira de lei e abafamentos de depoimentos. Triste fim para a Língua e para os partidos e Parlamento. Talvez ainda haja tempo e gente para salvar o que possa restar do País.
Swamoro Songhay

terça-feira, 17 de maio de 2011 15:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Uma trégua entre Alckmin e Maluf, pode equivaler ao lançamento de Marta Suplicy para a prefeitura paulistana, pelo governador carioca Sérgio Cabral. Carioca de nascimento, parece mas, fluminense como governador. Pode estar falando pelo PT, talvez por saber que o PT está inseguro e receoso. Contudo, cosmopolita como parece ser a hoje senadora, o governador carioca pode estar querendo que ela seja candidata na cidade do Rio de Janeiro. Talvez ele esteja entendendo que precisaria dela para projetar o Rio de Janeiro no mundo e no resto do Brasil. Ou salvá-la de uma derrota feia em São Paulo.
Swamoro Songhay

terça-feira, 17 de maio de 2011 15:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1) No caso da derrota do governo no Parlamento, sobre o Código Florestal, a base de apoio mostrou ser escorregadia. Não sabe-se se em todos os temas, mas, não é uma base que vota bovinamente quando assim não quer. Ou seja, faz cara de boi sonso seletivamente. Ai é que está o sinal de derrota. Pode até ser que o PG (Partido do Governo) possa dar a volta por cima, como estouro de bovinos pulando a cerca. Porém, o sentimento de nocaute chocante, ficou gravado. 2) No caso da inflação, caso ela venha a dar um tempo ao governo e sua titubeante gestão da economia, isso dar-se-á, em parte, pela interferência dos preços dos combustíveis, vendidos a preços deprimidos pela Petrobrás aos postos. Assim, isso não poderá ser chamado de controle da inflação, mas, sim, de achatamento da rentabilidade da Petrobras. Esta por sua vez, como poderá arcar com seus custos de exploração e desenvolvimento do pré-sal, tendo de vender combustíveis, talvez, abaixo de seu ponto de equilíbrio? Como ter receitas para competir e implementar seu planejamento estratégico? Em suma, de onde virá o dinheiro para bancar a Petrobras, que bancará a queda de alguns pontos da inflação? Se for pela maneira como a senadora Gleisi Hoffmann, do PT, explicou que seria o Tesouro e não o cidadão consumidor brasileiro quem pagaria a triplicação do preço da energia de Itaipu ao Paraguai, o governo estará em fase de pesadelo inaudito. Talvez, em algum outro lugar do mundo, alguém pudesse ter a curiosidade de perguntar à senadora, de onde vem o dinheiro do Tesouro. Talvez ela respondesse que vem do Paraguai. Pesadelo maior não poderia existir.
Swamoro Songhay

terça-feira, 17 de maio de 2011 15:55:00 BRT  

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