terça-feira, 3 de maio de 2011

Pax americana (03/04)

A operação para liquidar Bin Laden olho no olho tem grande valor em si, mas deve também ser tomada como demonstração da vontade de guerrear da potência imperial. Sem o que potência nenhuma sobrevive

A ação militar americana que levou à morte de Osama Bin Laden reafirma: tentar entender as relações dos Estados Unidos com o Islã pelas lentes da simplificação pode levar a soluções óbvias, e erradas, para problemas complexos.

É antiga a expressão, e aqui cai bastante bem.

O terrorista mais procurado do mundo era hóspede de uma casa instalada num importante complexo bélico paquistanês. Pertinho dali, a principal academia militar do país.

Tipo morar em Resende, nas redondezas de Agulhas Negras.

É bem razoável supor que alguém graúdo sabia da presença de Bin Laden ali. O Paquistão tem bomba atômica, tem um poderosíssimo aparelho militar e de inteligência. Não é governado por amadores.

E é igualmente razoável supor que Bin Laden recebia proteção do entorno. De gente bem relacionada, ou bem posicionada.

As relações — ou infiltrações — da Al-Qaeda no establishment do Paquistão têm sido objeto de preocupação dos americanos. O megapesadelo é o Paquistão nuclear cair sob o domínio da Al-Qaeda.

Os paquistaneses e os hoje alqaedianos combateram juntos, com apoio dos americanos, a ocupação soviética no Afeganistão. Os laços são antigos e quase naturais.

O fim da Guerra Fria rearranjou o jogo. E houve o 11 de setembro. E o Paquistão se equilibra no arame: é um importante aliado de Washington na guerra ao terror, mas também um foco de terrorismo potencial.

E não só potencial. O serviço secreto paquistanês é suspeito (uso “suspeito” para ser sutil) de ser uma organização terrorista. Que o digam os indianos.

A operação para liquidar Bin Laden olho no olho tem grande valor em si, mas deve também ser tomada como demonstração da vontade de guerrear da potência imperial. Sem o que potência nenhuma sobrevive.

É o que se passa na Líbia, mas com franceses e britânicos no papel de cabeças do império.

Trata-se da peculiar doutrina Obama de distribuir protagonismo imperial. Cada um no seu quintal.

E é divertido lembrar como a França guerreou na época contra a ideia bushiana de invadir o Iraque.

A teoria da disposição para o combate ajuda a explicar por que, afinal, o Iraque de Sadam Hussein acabou invadido e ocupado.
A aventura do Kweit não iria ficar por isso mesmo.

Potências imperiais podem quase tudo. Só não podem perder. Pois, quando perdem, seus governos caem. Ou acontece coisa pior.

Watergate foi Watergate, mas sem o Vietnã talvez o desfecho de Richard Nixon na Casa Branca fosse outro.

Depois de Nixon, houve Gerald Ford, nomeado pelos republicanos, e Jimmy Carter, eleito. Um democrata que perdeu o Irã e o Afeganistão. Quando tentou a reeleição foi mandado de volta para a Georgia plantar amendoim.

Por causa dessa regrinha, a eliminação cirúrgica de Osama Bin Laden vem a calhar para Barack Obama, mas também para os Estados Unidos diante da onda de revoltas e revoluções árabes.

Desde o começo, Obama preferiu não confrontar as rebeliões, mesmo quando voltadas contra aliados dele. É a política do estamos com vocês na luta pelas liberdades. Não somos aliados incondicionais de ditadores.

Desde que, naturalmente, os movimentos não se choquem com os objetivos estratégicos de Washington.

O mundo árabe é bem mais complexo do que a América Latina, mas a receita que se busca é a mesma. Transformações sociais e políticas, sim, desde que no contexto da pax americana.

Não por outro motivo Obama fez questão de nos apontar como exemplo para o mundo quando esteve aqui neste ano.

Pacíficos

Sobre pax americana, alguma coisa diferente acontece na América Latina, ou pelo menos na do Sul.

A Venezuela aperta o garrote em volta do pescoço das Farc e a Bolívia vai colaborar com os Estados Unidos no monitoramento da área plantada de coca.

E o favorito na eleição peruana, Ollanta Humala, agora se apresenta como moderado, pró-mercado e tudo que for necessário.
Recebeu até o apoio de Mario Vargas Llosa.

Parece que o Brasil está conseguindo convencer os vizinhos das vantagens de um convívio pacífico e colaborativo com o domínio da superpotência.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (03) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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7 Comentários:

Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, não sei que diferença faz a presença da palavra império, e não apenas potência. Todo Estado se arroga o direito de defesa, evidentemente alguns podem (de poder) ir mais longe que outros. O Magreb está próximo de França e Itália, sua estabilidade interessa a Europa, se por mais não for, para reduzir a imigração. Bin Laden era interesse americano, nem precisa dizer porque... Alon, você tocou no ponto importante, Bin Laden estava bem instalado no Paquistão com o aval de alguém importante na estrutura de governo, mas depois se perdeu com essa discussão canhestra de impérios, esse conceito deveria ser reservado a fenômenos que se encerraram com a segunda guerra mundial. Acho até que perdeu o outro lado da questão principal, como funciona o governo paquistanês, porque os americanos entraram, também com o conhecimento de gente graúda... mas não formalmente do governo.

terça-feira, 3 de maio de 2011 10:49:00 BRT  
Blogger Guilherme Scalzilli disse...

Timing

Na pior das hipóteses, o anúncio da morte de Osama Bin Laden é uma farsa equivalente àquelas fotografias de tubulações que os EUA usaram para justificar a invasão do Iraque. Se o anúncio for ao menos verdadeiro, significará que o Pentágono agiu de novo segundo conveniências políticas, aproveitando os primeiros movimentos do calendário eleitoral para “descontinuar” outro de seus antigos colaboradores.

Por que justo agora, quando o Wikileaks expõe o caráter despótico do governo, quando as forças “pacificadoras” da ONU chacinam os familiares de um chefe de Estado e quando o cinturão de ditaduras financiadas pelos EUA para proteger Israel começa a balançar? Porque o momento exige uma escalada paranóica e xenófoba que ajude os EUA e as potências aliadas a recuperarem seu destaque na arena geopolítica.

Depois de todas as dúvidas suscitadas pelo 11 de setembro, os mercenários de Barack Osama, digo, Obama podiam fazer alguma força para deixar suas versões mais plausíveis. Essa história de jogar o presunto do supervilão no oceano e vir com testes de DNA e fotos de um barbudo cheio de furos, convenhamos, soa bem fraquinha.

http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com/

terça-feira, 3 de maio de 2011 12:51:00 BRT  
Blogger BlogdoIlha disse...

Alon, a “pax americana” impõe cuidados, principalmente aos países detentores de riquezas.

Já que você mencionou o Iraque, falarei sobre aquele país mesopotâmico. É bem verdade que a invasão do Kuwait pelos iraquianos, em 1990, impunha um corretivo exemplar ao agressor. Só que ele foi devidamente aplicado.

Durante o período entre as duas guerras do Golfo, os Estados Unidos, por meio da ONU, impôs ao Iraque um embargo draconiano. O país de Sadam Hussein enfrentou mais de uma década de sanções. Um programa das Nações Unidas, batizado de “oil for food”, impôs severas restrições que impediram até a manutenção da infraestrutura que existia antes da guerra de 1991. Esse programa pode ter evitado a fome no Iraque, mas havia muita gente mal nutrida naquele país.

Os atentados de onze de setembro representaram um duro golpe ao orgulho norte-americano. Evidentemente, alguém teria que pagar por isso e quem melhor que um velho inimigo? Reza a lenda que, nos dias seguintes à queda das Torres Gêmeas, a cúpula governamental de Washington decidiu pela queda do regime de Saddam Hussein.

Dessa vez, juntou-se a fome de vingança ao desejo pelo petróleo iraquiano.

Em resumo, não se precisava de um motivo para a guerra, quando um simples pretexto bastava.

Por isso, os países detentores de riquezas devem estar atentos para onde seguem os ventos da política norte-americana.

No momento, sopra uma brisa para nosso lado, mas sempre há o risco de uma nova temporada de furacões.

terça-feira, 3 de maio de 2011 14:15:00 BRT  
Anonymous Pablo Vilarnovo disse...

O Paquistão não dá a mínima para os EUA, para a Al Qaeda e para o Taleban. O inimigo do Paquistão é a Índia. Tudo gira em torno disso. Nesse ponto os extremistas islâmicos serviam como massa de manobra para realizar atentados contra os indianos. O Serviço Secreto Indiano tem esse objetivo: atacar a Índia. Se for para utilizar a Al Qaeda, e se para isso necessitar manter Bin Laden no Paquistão, será isso que farão. E fizeram.

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Só uma correção ao amigo acima: se o motivo para invadir o Iraque foi o petróleo os EUA fizeram um péssimo negócio. A maioria dos campos acabou em mãos chinesas, malayas, russas, francesas, inglesas, espanholas e até mesmo turcas. Aos EUA sobrou bem pouco.Ou seja, quem vai pagar a conta do Iraque será o povo americano mesmo.

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Guilherme - Melhor acreditar que Bin Laden morreu de morte natural, e que o 11/09 foi orquestrado pela CIA. Isso sim é mais factível!

Putz!!

terça-feira, 3 de maio de 2011 16:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pois é. Se é que dá para entender os comentários, o Brasil, por suas enormes riquezas, está com o Bin Laden mocozado em algum cafofo por estas plagas. Caramba!!! Tudo assim, tão fácil. E o Obama achando que os espertos brasileiros iriam acreditar que ele mandou seals pegar o Bin Laden do outro lado do mundo, quando, na realidade, ele quer mesmo é tomar as florestas brasileiras de Tucum para fazer anéis. Esses americanos são uns tontos mesmo!!! Haja...
Swamoro Songhay

terça-feira, 3 de maio de 2011 19:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Um arco é tão eficiente quanto a tensão de sua corda.Um arco dialético,bem entendido. Ter Osama ,tão próximo de um arsenal nuclear,ainda que modesto,deve causar insônia aos inquilinos da avenida Pensilvânia,1600.
Bom,pelo menos está garantida à reeleição.Nenhum povo aprecia um super-herói,como o americano. JFK,encontrou ,finalmente,seu sucessor.Saravá!

terça-feira, 3 de maio de 2011 23:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

BlogdoIlha (terça-feira, 03/05/2011 às 12h51min00s BRT),
Os Estados Unidos após o atentado de data coincidente com o golpe no Chile, invadiram o Afeganistão e, com a invasão, o Partido Republicano ganhou as eleições para o parlamento em 2002.
Relembre que o Alan Greespan fez uma inesperada redução do juro em dezembro de 2000 quando George Walker Bush, o filho, já havia ganho a eleição. Não fez isso porque como um bom republicano ele pretendesse que a economia americana estivesse em melhor situação quando George Walker Bush, o filho assumisse. Alan Greespan intencionava evitar uma recessão mais forte nos Estados Unidos não só em razão do "Bug do Milênio", mas em razão do ciclo econômico que direcionava a economia americana para um período recessivo após todos os anos de crescimento no governo de Bill Clinton.
A recuperação não veio tão forte e, em 2002, após o atentado de data coincidente com o Golpe no Chile, a economia americana ainda combalia. A popularidade de George Walker Bush a julgar pelos índices de pesquisa da época e do entendimento predominante ainda que Alon Feuerwerker o tenha questionado no post "Carville em xeque" de 18/04/2010 (http://www.blogdoalon.com.br/2010/04/carville-em-xeque-1804.html) seguia em marcha batida para o buraco.
A guerra contra o Afeganistão, quase necessária para os Estados Unidos, resolveu um problema da Rússia com armas e soldados americanos e, apesar de acirrar os ânimos dos mulçumanos contra os Estados Unidos ou talvez por isso mesmo, ajudou a catapultar o Partido Republicano nas eleições parlamentares de 2002.
Aqui é bom lembrar que o Partido Republicano havia ganho em 1998, antagonizando com Bill Clinton no poder, exatamente se opondo à política intervencionista americana que assumia cada vez mais o papel de gendarme do mundo.
Na eleição de 2000, George Walker Bush, o filho, venceu com o mesmo discurso. O atentado da data coincidente com o Golpe do Chile obrigou George Walker Bush, o filho, a mudar de postura. A vitória do Partido Republicano na eleição de 2002, após a invasão do Afeganistão, mas com a economia americana sem uma recuperação efetiva, mostrou a importância do patriotismo para ganhar uma eleição. "Dai-me um Iraque e eu conquistarei um império" provavelmente esbravejou George Walker Bush, o filho, entre seus asseclas. Enfim, foi essa a razão da invasão iraquiana: permitir que George Walker Bush, o filho, ganhasse a reeleição americana.
Se o povo americano fosse diferente de qualquer povo do mundo e não votasse no candidato a presidente que invadisse um país muito mais pobre, George Walker Bush, o filho, não invadiria o Iraque, por mais sanguinário que fosse o Saddan Hussein, por mais petróleo que houvesse naquela região ou por menos cristão que fosse o país.
Bem, em relação ao evento da morte de Osama bin Laden, talvez haja apenas a se escarafunchar o timing do evento. Talvez seja só coincidência ter acontecido logo após o lançamento da candidatura de Barack Obama, o discurso contra Donald Trump (Achei-o muito divertido, mas penso que o discurso inverso poderia ser tomado como racista) e o bombardeio forte da Líbia com a morte de um dos filhos de Muammar al Khadafi.
A propósito, o trunfo da morte de Osama bin Laden poderia se contrapor ao bombardeio inicial que se dera em março da Líbia que me parecera um passo contraproducente eleitoralmente e que eu só encontrei como justificativa saber que os dias de Muammar al-Khadafi estavam contados ou que prepararam uma arapuca para Barack Obama, como escrevi em comentário enviado quinta-feira, 24/03/2011 às 22h15min00s BRT para o post “Melhor não subestimar” de quinta-feira, 24/03/2011 aqui no blog de Alon Feuerwerker (http://www.blogdoalon.com.br/2011/03/melhor-nao-subestimar-2403.html). Provavelmente eu subestimara o poder de domínio dos Estados Unidos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 04/05/2011

quarta-feira, 4 de maio de 2011 08:54:00 BRT  

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