quarta-feira, 25 de maio de 2011

O filtro necessário (25/05)

O olhar externo não é em princípio bom ou mau. Tampouco é neutro. É importante ouvir as ponderações alheias, mas é também obrigatório diagnosticar os interesses que as movem. E é legítimo passar cada observação externa pelo filtro do interesse nacional

O debate em torno do Código Florestal carrega pelo menos dois méritos. O primeiro é recolocar o Congresso Nacional no palco das discussões estratégicas. O segundo é trazer à luz um tema quase banido: a soberania nacional.

Começando pelo princípio. Os países têm direito à autodeterminação. E pagam pelas suas decisões diante dos demais países.

Recentemente, a civilização produziu instâncias governativas planetárias, que entretanto não são neutras. Muito menos consensuais ou inimputáveis.

 Os órgãos multilaterais não são preenchidos por pessoas de Marte, ou Plutão. Quem está na ONU, no Banco Mundial, no FMI ou na OEA é gente que veio de países do planeta Terra. E que portanto traz consigo uma visão, uma missão, um viés.

De vez em quando, alguém nomeado pela ONU para determinada tarefa emite uma opinião, ou conclusão, e imediatamente a parte passa a representar o todo. E tome a manchete de jornal dizendo que “a ONU” proferiu tal ou qual sentença.

 Que é naturalmente definitiva.

Afinal, quem está acima da ONU? Ninguém. E uma atitude individual adquire ares de verdade universal. 

Aliás, nem a posição da maioria dos países pode, tecnicamente, ser considerada “posição da ONU”. A entidade tem seus mecanismos de regulação, o mais notório deles é o Conselho de Segurança, onde cinco dos maiores vencedores da Segunda Guerra Mundial possuem poder de veto.

Eis também por que não basta ao Brasil ser membro, nós queremos uma vaga no CS. E faz sentido, afinal somos sócios do restritíssimo clube de nações que exibem simultaneamente massa crítica em população, território e economia.

Talvez o mais saudável seria o conjunto dos organismos multilaterais receberem a mesma carga de desconfiança que é despejada sobre o Fundo Monetário Internacional (FMI). Aliás, a crítica às políticas do Fundo tem sido útil aos países, para seguir ou não as receitas.

Temos os nossos problemas, mas quem não os tem? E pelo jeito estamos tratando de resolvê-los. Agora mesmo o governo tomou uma decisão sábia. Estabeleceu uma política para estimular os fabricantes de tablets a produzirem aqui no Brasil, e com medidas de estímulo ao uso
crescente de componentes nacionais.

Esperam-se ainda os resultados efetivos, mas a sinalização e o caminho aberto são excelentes.

É um bom sinal. Mostra que não estamos acomodados ao conforto proporcionado pela demanda de commodities. E pela abundância de dinheiro que vem para cá em busca das maiores taxas de reprodução do planeta.

Outro dia o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, resumiu bem o desafio. Nossa situação é confortável. Se quisermos seguir exportadores de primários, há mercado. Viveremos com tranquilidade no curto e talvez no médio prazos.

O problema, lembrou ele, está no futuro. Só há futuro soberano para países que invistam decisivamente em formar sociedades do conhecimento. E isso não se faz sem indústria, sem forte agregação de valor.

É importante o Brasil ouvir as opiniões externas, vivemos todos no mesmo planeta. E mesmo da crítica mais absurda pode-se tirar algo útil. Mas é complicado querer anular nossa soberania com base nas supostas responsabilidades que temos com o conjunto da humanidade.

O Brasil é um país excessivamente preocupado com o que se diz de nós “lá fora”. Reportagens favoráveis publicadas em veículos de prestígio do chamado Primeiro Mundo têm o poder de provocar frêmitos de prazer, enquanto as negativas desencadeiam surtos de pânico.

Ou de alegria nos críticos.

 Menos. Talvez seja o caso de adotar algum equilíbrio diante do olhar externo. Ele não é em princípio bom ou mau. Tampouco é neutro. É importante ouvir as ponderações alheias, mas é também obrigatório diagnosticar os interesses que movem esse olhar.

E é legítimo passar cada observação externa pelo filtro do interesse nacional.

 Coisa que andava meio fora de moda, infelizmente.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (25) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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4 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

A indústria não produz conhecimento. A indústria aplica o conhecimento na fabricação produtos que incorporam mais ou menos tecnologia e os transaciona no mercado. Assim, no sistema de livre mercado a indústria possibilita, por exemplo, que uma dona de casa possa migrar do árduo trabalho no tanque de lavar roupa para o simples aperto de um botão que aciona a máquina de lavar roupa. Donas de casa são pragmáticas. Para elas pouco interessa a origem da máquina, mas sim que ela lave as roupas.

O que a nossa hipotética dona de casa fará com o tempo liberado para si pela máquina de lavar eu não sei.

A retórica do Ministro e os fatos

O recém-doutorado em economia pela UNICAMP, Ministro Aloizio Mercadante, e a presidente Dilma Rousseff decidiram que em 2011 o Ministério da Ciência e Tecnologia vai perder R$ 610 milhões para investimentos e R$ 353,6 milhões para custeio. Somados aos R$ 713 milhões em emendas parlamentares, a perda chega a R$ 1,7 bilhões. Com o corte previsto, o orçamento deste ano cai para R$ 6,4 bilhões. Em 2010 o orçamento foi R$ 7,8 bilhões. [FSP, 18 de fevereiro de 2011]

O Estado democrático de direito detém os monopólios das políticas públicas. Então, cabe aos operadores do Estado incentivar ao máximo os sistemas públicos de educação e de pesquisa em ciência e tecnologia.

Sociedades que não educam corretamente seus indivíduos e que não investem adequadamente em aquisição/adequação e/ou invenção de saberes tecnológicos e científicos perdem força na luta pela sobrevivência e expansão na natureza e também frente a outros coletivos humanos.

O Estado que não prove [ou o faz porcamente] os meios para tais objetivos não cumpre
a finalidade para a qual os cidadãos lhe entregaram o monopólio das políticas públicas.

No Brasil de fato temos um setor da economia que estranhamente [ou não, pois este é um costume da terra; agredir o que dá certo] vem sendo demonizado por certas forças do “bem”. Ele é altamente competitivo e, em termos de vantagens comparativas, nos coloca no topo da de uma cadeia produtiva frente aos demais coletivos humanos: a agricultura e a mineração. Temos sim muito conhecimento e tecnologia aplicados na exploração desses recursos. Não somos um país que é quase líder na exportação de minério ferro apenas por que Deus seria brasileiro. E até poucos anos atrás, plantar nos campos de cerrado com a produtividade hoje alcançada era uma impossibilidade intransponível.

Se, como dizem, o Brasil se desindustrializa isso não se explica por retórica pseudodesenvolvimentista, que sempre apresenta o vício protecionista como virtude do Estado soberano. Antes de criticar no presente o que de fato nos garante o dia de amanhã, os operadores do Estado deveriam fazer o que não fazem [ou fazem porcamente], isto é, promover fortemente a educação do brasileiro, a qualificação da nossa mão de obra e os investimentos em pesquisa de ciência e de tecnologia.

quinta-feira, 26 de maio de 2011 01:46:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

A quem possa interessar

Public research institutions and economic catch-up

Muito legal a história que o artigo traz a respeito de como foi o catch-up no Japão, Tawain, Coreia e, recentemente, na China. Não é economês. É mais na linha da história da transferência e da adaptação de tecnologia nos países de industrialização recente. Não mando o link porque não encontrei algum com cópia livre de custo para ser baixada.

Recomendo fortemente.

Autores:
Roberto Mazzoleni; Richard R. Nelson. Department of Economics and Geography, Hofstra University, Hempstead, NY 11549, United States. The Earth Institute, Columbia University, New York, NY 10025, United States. Available online 27 August 2007.

quinta-feira, 26 de maio de 2011 01:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

No post, há noção externada de que na fabricação de tablets, aqui no País, haveriam medidas de estímulo ao uso crescente de componentes nacionais. É uma aspiração que pode ser considerada adequada. Enquanto um desejo. Porém, para tal indústria, só desejos não bastam. A realidade impõe-se. A produção de componentes no País, componentes nacionais, pode ser mais custosa do que se realizada em plataformas situadas em outras partes do mundo. Não trata-se de deixar de lado o conceito de índice de nacionalização. Porém, cumpre-se destacar, por exemplo, que há reivindicações, com chances de passarem, objetivando a redução de horas trabalhadas com manutenção dos salários. Em termos de uma indústria com as características da tratada e de muitas outras, isso significa aumento de custos de produção e perda de competitividade e agilidade num mercado que vive de inovação. Assim, seria necessário resolver tal reivindicação dos trabalhadores, sem desestimular a instalação de platafomas de produção aqui. É um desafio, pois, se aprovada, tal proposta será causa de distorções econômicas. O benefício, pode transformar-se em custo.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 26 de maio de 2011 13:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Já no aspecto dos elogios internacionais. Os favoráveis, causam incontida inflação de egos. Em contrafação, as críticas provocam eflúvios nacionalistas, ranger de dentes e quase uma chamada às armas. Há algumas pistas: 1) pode ser o velho dito popular pimenta boa é a que arde só nos olhos dos outros; 2) o poder do Brasil projetar-se, além de suas fronteiras, é limitado; 3) o Brasil é um país de economia emergente e dependente; 4) tem gargalos quase intransponíveis em Educação, Saúde Pública, Infra-estrutura, Saneamento Básico etc. Ou seja, há necessidade de praticar o que prescreve o título do post: o filtro necessário. Assim, há outro aspecto popular que pode ajudar: todo mundo quer ir para o Céu e suas delícias, contudo, só se chega lá, morto. A lição é o quanto quem quer ir para o Céu, de belezas ímpares, estará disposto a fazer o necessário para tanto. Enquanto estiver vivo.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 26 de maio de 2011 13:58:00 BRT  

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