sexta-feira, 27 de maio de 2011

Nomear um gerente? (27/05)

O governante é antes de tudo um líder político. Capaz de conduzir e de mediar. Melhor dizendo, de mediar para conduzir. Era o que Luiz Inácio Lula da Silva fazia com competência. É para isso que o eleitor contrata o sujeito na urna

Os primeiros tempos de Dilma Rousseff na Presidência da República foram marcados pelo quase silêncio dela. Depois veio a pneumonia, mais grave do que oficialmente alardeado. E o silêncio continuou, agora pelas circunstâncias.

Portanto seria um erro creditar o estilo à circunstância. O primeiro veio antes, a segunda veio depois. Era estilo mesmo, ou estratégia.
Uma ideia que deu errado. Só isso.

Não lembro exatamente quando, mas em algum momento a política brasileira foi inoculada pelo mito gerencial. O mais capaz de
desempenhar a gerência seria automaticamente o melhor governante. O tocador de obras, o chefe temido e pronto a cobrar resultados.

Os cientistas que expliquem, mas na intuição aposto que a coisa tomou corpo em reação à emergência da política nos anos 80. Saíram os
generais, vieram os políticos e trouxeram com eles o melê da atividade.

Não poderia ser mesmo pacífico nesta nossa sociedade de viés autoritário. E apareceu então a demanda por menos política e mais
gerência, coerência, etc. Livrar-se dos políticos, ou pelo menos da “politicagem”. Seria o caminho.

Tudo alimentado pela frustração perene dos cidadãos diante do que o Estado lhes devolve em troca dos impostos.

Em 1986 a onda convergiu para a candidatura de Antônio Ermírio de Moraes ao governo de São Paulo. Era um passo simbólico que ficou
nisso. Por culpa de sua excelência, o eleitor. Que gentilmente recusou a receita.

De tempos em tempos a moda volta, e a então candidatura de Dilma Rousseff tinha algo, ou bastante, disso. Passados apenas alguns meses, nota-se que é preciso mudar. E já mudou.

O governante é antes de tudo um líder político. Capaz de conduzir e mediar. Melhor dizendo, de mediar para conduzir. Era o que Luiz Inácio Lula da Silva fazia com competência.

É para isso que o eleitor contrata o sujeito na urna. E o líder que nomeie um gerente. Ou mais de um.

As palavras ajudam bem a entender a equação. O chefe chefia, o presidente preside, o gerente gerencia.

Empresas, por exemplo, têm presidentes, executivos-chefe. Aos quais estão subordinados os diretores-gerentes. E os presidentes reportam-se aos acionistas, os donos.

O eleitor é o acionista, o governante eleito é o executivo-chefe e o primeiro escalão responde pela esfera gerencial. Os acionistas cobram
resultados do executivo-chefe, que precisa liderar os gerentes para atingir e superar as metas.

Mas precisa também, de tempos em tempos, convencer os acionistas de que está no caminho certo, de que vai entregar a mercadoria.

O que é liderar? Dizem os manuais que é também extrair o melhor de cada um na equipe, toureando as contradições para produzir a soma
ótima de vetores.

Como fazer isso em silêncio? Difícil.

Mais modernamente, as empresas até incorporaram coisas como “visão”, “missão”, inclusive para cada peça da engrenagem conseguir enxergar além do que lhe cabe fazer. Uma tentativa de desalienação.

O governo Dilma enfrenta certas turbulências, parte delas derivada de seu gigantismo. Como uma grande empresa sem concorrência, sem ameaças externas.

A vida é contraditória, e uma hora as contradições acabam se instalando no organismo governamental. Governos costumam neutralizar esse fluxo com o contrafluxo do combate ao inimigo externo. Mas nem sempre funciona.

O Código Florestal é a segunda empreitada de peso do governo Dilma no Congresso. A primeira foi o salário mínimo, quando o governo ganhou bem.

Talvez isso tenha levado o Planalto a uma leitura enviesada, talvez tenha concluído que a maioria política já era um dado da realidade,
que não precisaria mais liderar, bastaria mandar.

Agora é a hora do ajuste.

Há um debate, algo deformado pelo partidarismo, sobre as qualidades gerenciais de Dilma. Mas isso deixou de ser a única variável. Ou a mais importante.

A demanda agora é por capacidade de liderança. Se estiver faltando tempo, talvez seja o caso, como fez Lula, de Dilma nomear um gerente.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (28) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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10 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Prezado Alon,
Sou seu leitor há pouco tempo.
Embora eu tenha posicionamento diferente do seu em algumas ocasiões, quero parabenizá-lo por mais essa mensagem excelente de sua autoria.
O problema do atual governo, a meu ver, é que a supergerente do Brasil não soube, ou não pôde, nomear uma equipe de gerentes eficientes, pois seu ministério mais parece um bando de loucos ideologicamente e politicamente isolados e egoistas. Não existe trabalho em equipe, nem poderia, com um ministério que conta com quarenta titulares de ideologias as mais diversas, cada um pensando apenas em faturar (em todos os sentidos) para si mesmo e para seu respectivo grupo.
E os ministros, interessados em aparecer politicamente, também não souberam escolher subgerentes que tivessem capacidade de executar com eficiência as atribuições das respectivas áreas.
Assim, fica uma sucessão, de alto a baixo, de incompetências e de ineficiências, que vai exterminando as coisas boas que o País conquistou nos últimos anos.
Já tivemos exemplos de grandes empresas privadas, de porte nacional, que sucumbiram, foram à falência, por má administração (mesbla, mapppin, etc, etc.).
Lamentavelmente, o nosso País está caminhando na mesma direção. Está certo que países não vão à falência econômica, mas o preço que a sociedade pagará por todo esse amadorismo administrativo será muito pesado, em termos sociais, econômicos e políticos.
É uma pena....
Parabéns pelo seu blog!
Paulão

sexta-feira, 27 de maio de 2011 10:41:00 BRT  
Blogger Raphael Neves disse...

Bacana, Alon. Grande coluna.

Forte abraço,
Rapha

sexta-feira, 27 de maio de 2011 11:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

De todo modo, fica mais claro que o perfil gerencial foi por demais elogiado até por oposicionistas. Ou por ingenuidade ou por medo ou por adesismo. Desde 2003 a atual presidente é gerente de governo, quer como ministra, depois, segundo o ex-presidente a mãe de tudo e a responsável por tudo o que ocorreu no governo, numa livre interpretação do que ele disse a respeito em mais de um palanque e forma muitos. Só que eram evidentes que os resultados não eram tão sensacionais como vendidos. A economia acumulava problemas. Não demarrou quando os tempos eram bons e o plano estabelecido para acelerar e blindar a economia não deslanchou. Ao contrário, os rombos nas contas públicas foram e estão esgarçados. Então, não tinha-se de elogiar e aguardar tanto do aspecto gerencial do governo.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 27 de maio de 2011 11:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O aspecto de nomear um gerente, parece que fora realizado, na pessoa do ministro da Casa Civil. E este está enredado em assuntos, pode-se dizer, de gerenciamento de suas próprias atividades. O gerenciamento do País exige tempo integral e competência. Já, atributos que não podem conjugar com a administração pública, não são recomendáveis. Já um gerente que apareça como dono, tutor, ocupador de espaços, regente, como uma manifestação de seigniorage extemporânea, gera uma dualidade ruim e afasta definitivamente do centro de decisões, quem foi eleito para tanto. Ou seja, a palavra crise começa a aparecer no horizonte de meio período do primeiro ano do mandato.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 27 de maio de 2011 11:44:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O "estilo Dilma de governar" é obra coletiva do apparatchik petista, isto é, é obra de quem de fato decide e manda no Partido. Portanto, é também responsabilidade direta de Lula.

Eu poderia enunciar os autores das carradas de encômios que li na imprensa a respeito da "gerentona". Mas não faço porque entendo que há aqui uma regra de procedimento que você pede que os comentaristas sigam. O blog é seu, é um ótimo blog, e a mim cabe cabe aceitar ou não as regras estabelecidas.

Procuro sempre respeitar as regras do blog. Mas entendo perfeitamente que a decisão de publicar ou não um comentário é sua. Por isso, adotei um critério que você conhece bem: eu escrevo o que quero e você publica se quiser. E assim vamos já faz um bom tempo. E vamos bem, eu faço questão de registrar

Então, eu finalizo o comentário enfatizando que o "estilo Dilma de governar" foi obra coletiva e que contou com a boa vontade de muita gente na imprensa.

A crise pela qual passa o governo Dilma, evidentes, por exemplo, na tunda que levou na votação do Código, nos imbroglios no MEC e na Casa Civil, é obra coletiva de um governo, no qual eu não votei. Estou em oposição a esse governo. O governo e seus apoiadores que se virem para resolver as encrencas que eles mesmos criaram.

sexta-feira, 27 de maio de 2011 12:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Veja só o que a mídia faz: põe as pessoas a entender tudo errado; difunde o velho e recorrente derrotismo semelhante apregoado pelo velho do Restelo;funde três enunciados num conceito e converte num silogismo de crise;lamenta o que apregoa inovando uma inédita técnica confusionista...Ao contrário da síndrome de Cassandra que se difunde epidemicamente, uns poucos ,versados na pantomima dos Zampanos, a impressionar platéias rompendo correntes de lata como de aço fossem,mantém sobre a cabeça providenciais pedras de gêlo.Acessório indispensável que prudentes amanuenses devem dispor adrede ,pelos próximos meses(anos?)

sexta-feira, 27 de maio de 2011 17:57:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, excelente seu texto. Desses para guardar mesmo. Trazendo para o meu dialeto, o gerente ideal é o aspone ideal (e fiquemos “ao nível” desse tal de ideal, para não ofendermos ninguém hoje). Acho que o histórico até aqui já é suficiente para dizer que Lula tem qualidades políticas muito superiores às melhores encontradas por estas bandas. Aposto todos os dedos de um mão que seu plano “A” hoje é retornar em 2014, ocorre que concorrerá como candidato oficial, então não seria bom enfrentar um governo bem avaliado, que seria naturalmente indicado à reeleição, nem um governo tão ruim, que fizesse afundar seu criador com sua criatura. O ideal seria um governo “médio”, algo assim gerentão, tipo PSDB. Já um gerente com alguns princípios pouco flexíveis e outros equivocados (incapacidade de negociar o código florestal, a idéia de que o desenvolvimento se faz na base do decreto e da bronca e o descaso com a inflação, são bons exemplos.) pode ser um pouco ruim demais. Retornar ao proscênio pode mostrar a diferença entre um aspone e um político, mas deixa à mostra os cordames que conduzem a cena, e isso pode não ser muito bom lá na frente.

Alon, off topic, mas sobre um assunto em que sempre discordamos (gosto mais de discordar) o que você achou da inserção do PTB na TV contra o financiamento público de campanhas? Será porque estão achando que os recursos JÁ desviados dos programas sociais vão ter de passar pelas mãos do fundo partidário primeiro? Ou será porque entendem que a “informalidade” das contribuições privadas facilite os mensalões (seja lá isso o que for) da vida?

Mas quem saiu ganhando mesmo com a crise foi o Deputado Bolsonaro, que primeiro alertou o eleitor do tal “kit gay” – achei que era paranóia do deputado, mas não é que a coisa estava sendo gestada mesmo no MEC? Deve ser o único representante na câmara da nova classe média divisada pelo sociólogo Fernando Henrique Cardozo, não é mesmo?

sexta-feira, 27 de maio de 2011 18:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Nomear um Gerente??

E de crer-se que nao ha necessidade de um novo gerente, ja que o Lula Nunca se afastou das atividades presidenciais.
E incontesti o fato que Dilma elegeu-se com os votos de Lula.
Apos a eleiçao da Dilma, Lula reconduziu e nomeou Ministros. Os telefonemas conselheiros para a Presidente continuaram, confidencias foram feitas em solenidades nas quais os dois participaram.
Nesta semana Lula voltou a Brasilia para conversas coloquiais com Varios politicos e de certa forma reocupar o cargo entregue em 01.01.2011 a sua criatura e GERENTE.

sexta-feira, 27 de maio de 2011 18:33:00 BRT  
Blogger Mago disse...

Bem feito, Alon. Você deu sua parcela de contribuição para este estado de coisas.

sexta-feira, 27 de maio de 2011 18:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Que mídia, Anônimo-sexta-feira, 27 de maio de 2011 17h57min00s BRT? A melhor mídia do que ocorre, é dada pelo próprio governo que chamou o regente e entregou a ele a batuta. E o pior é ter quem creia que, em uma semana, um ungido veio, trombeteou e resolveu. Ledo engano. Complicou. Deixou claro que o governo eleito não existe, não opera exceto de forma ruim, não decide. Abriu, ou melhor esgarçou o vazio político. E vácuo em política equivale a um buraco negro da astronomia: suga tudo, até luz. De forma alguma a intervenção do ex-presidente pode ser entendida como tendo o aval completo da presidente eleita e de seus colaboradores mais próximos. Porém, conforme dito em comentário acima, que eles resolvam as encrencas que eles mesmos criaram.
Swamoro Songhay

domingo, 29 de maio de 2011 14:02:00 BRT  

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