terça-feira, 17 de maio de 2011

Hora de telefonar (17/05)

É nos detalhes que se conhece a alma de um governo. E este governo, decididamente, não tem uma alma permeável a concessões ou a distribuir poder. Nem a aparentar. A receita parece única: dobrar a aposta até que o oponente se sinta intimidado pela exibição de força

Como costuma acontecer a governos, o de Dilma Rousseff enfrenta a primeira zona de turbulência. A presidente soa algo ausente, as relações comerciais com a Argentina balançam, a base governista anda inquieta no Congresso -na Câmara, precisou até entrar em obstrução-, o
Planalto se enrola na votação do Código Florestal.

É grave? Ainda não, mas as evidências são de um certo cansaço no ambiente de céu de brigadeiro. Dilma porém persiste em boa vantagem, também por colher o fruto de uma inteligência fundadora da administração dela.

Como não tomou a iniciativa de arrumar confusão grátis com ninguém na largada, os diversos atores não têm, cada um, motivo próprio para escalar contra a chefe do governo. A boa vontade parece essencialmente intacta.

O problema é que só boa vontade não resolve os impasses. É preciso agir. Governar é colher todo dia uma safra de problemas. Para alguns há solução imediata. Outros estão verdes. E há os que apodrecem sem solução, e que trazem o risco de septicemia, de infecção generalizada.

A arte talvez esteja em conseguir lançar os problemas em cada categoria. Pois tentar resolver rapidamente um ainda verde é tão ou mais perigoso que deixá-lo apodrecer.

É nos detalhes que se conhece a alma de um governo. E este, decididamente, não tem a alma permeável a concessões. Ou a distribuir poder. Nem a aparentar. A receita parece ser uma só: dobrar sucessivamente a aposta até que o oponente se sinta intimidado pela exibição de força.

Governos gostam de ser assim, mas também gostam de dar a impressão de que nem tanto. Uma tensão delicada.

Já o atual não parece chegado a sutilezas.

Está sendo assim com a Argentina nas relações de comércio. E está sendo assim também no Código Florestal, tema em que é preciso recorrer a especialistas para conseguir compreender onde exatamente está a divergência.

Mas sobre um ponto não há divergência: o governo entra em parafuso toda vez que vislumbra uma situação capaz de transmitir para o público externo a impressão de que cedeu, ou teve que ceder.

Mas a Física de Isaac Newton continua útil e está em vigor a lei de que toda ação desencadeia uma reação, de sinal contrário, aplicada no corpo que exerce a ação. Com uma diferença na política: não dá para garantir que tenham a mesma intensidade.

Ou seja, se o Palácio do Planalto puxa as disputas para ele, é natural que seja puxado para o centro de todos os problemas.

Luiz Inácio Lula da Silva tinha um estilo diferente. Procurava pelo menos aparentar distância das encrencas que não estivessem maduras, cuja solução não estivesse à mão.

Como me disse certa vez um deputado experiente, hoje prefeito, o método do ex-presidente era deixar os gladiadores se matarem no Coliseu para, ao final, entender-se com o vencedor.

Talvez esteja na hora de Dilma dar um telefonema para São Bernardo.

Milenar

As disputas no Oriente Médio embutem o duplo significado dos termos. “Ocupação”, por exemplo, pode ser a permanência de Israel em territórios conquistados na guerra de 1967. Mas pode ser também a existência em si do Estado Judeu.

Às vezes o mesmo interlocutor pode oscilar de um para outro significado, uma malandragem habitual ali.

“Nakba”, ou catástrofe, pode ser usada pelo campo palestino para carimbar a criação de Israel, ou então o deslocamento/remoção de populações árabes na guerra de 1948-49.

Catástrófica mesmo foi a decisão árabe de não constituir um país na área da Palestina reservada para isso pela ONU em 1947, quase a metade de todo o território. E cuidar da vida.

Era a solução ideal para os árabes na época? Não. Ao longo dos anos tem sido assim: querem o ótimo, desdenham o bom, deixam escapar o razoável e sobram com o ruim, ou péssimo.

As opções agora são aceitar o status quo ou apostar numa solução militar para eliminar o oponente. A segunda tem sido a escolha deste quase um século. Os resultados estão aí.

Mas é uma lógica resistente. Milenar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (17) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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2 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

"Talvez esteja na hora de Dilma dar um telefonema para São Bernardo."

Ou seja, a criatura não sobrevive sem os cuidados do seu criador. (cqd)

terça-feira, 17 de maio de 2011 19:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1) Telefonema. Pode até não parecer, mas o telefonema seria mais um foco de problemas do que de soluções. A presidente e seu entorno mais próximo, parece não ter contrariado, porém, não deu muita guarida aos sebastianistas 2014.
2) Boa vontade. A legião de acólitos, muitos gratuitos, outros nem tanto, ainda parece encantada com o que a presidente não fez. Ou seja, o que dizem que fez mas, que é apenas mostra de gerenciamento aquém da propaganda. A votação do Código Florestal parece ter sido uma forma de dizer que nada é assim tão simples.
3) Inteligência fundadora. A presidente foi dada como parte mais importante do arcabouço daquilo que ela pegou para demarrar. Está dando exatamente o contrário de demarragem. Ocorrem sinais de um misto de retração com inflação. E tudo isso indexado por certa inoperância. Não há dureza que segure a força oxidante de imagem que tal coquetel potencializa.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 18 de maio de 2011 14:44:00 BRT  

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