domingo, 29 de maio de 2011

Guerras santas (29/05)

É como se em cada tema houvesse a priori um lado completamente certo, o oficial, e os demais estivessem todos completamente errados. Definida a separação, o passo seguinte é buscar reunir o máximo de forças para fazer prevalecer o ponto de vista palaciano, sem mediações

Há um traço comum em certas situações complicadas vividas pelo governo nos últimos dias. O método é recorrente. A cada tema o governo convoca os especialistas que possam legitimar os propósitos palacianos, para estabelecer qual é o lado "do bem".

O contraditório? Só intramuros.

O Planalto vem tratando o debate do Código Florestal como um assunto exclusivo dos especialistas em meio ambiente. Dos da agricultura ninguém ouviu falar. 

Já o kit contra a homofobia nas escolas foi encomendado pelo MEC a uma organização não governamental especializada e militante. O resto da sociedade? Que aguarde com resignação o veredicto dos burocratas ministeriais e dos sábios escolhidos a dedo.

No Código o governo foi derrotado na Câmara e busca a desforra no Senado. E o MEC precisou recuar momentaneamente do kit, pois a coisa começava a trazer problemas políticos num cenário em que o Planalto precisa reduzir o número e o tamanho das encrencas, não aumentar.

Quando quis se envolver mais na disputa em torno do Código o governo correu a cercar-se de uma turma só. Tomou as dores de um lado só. Como se o assunto fosse monopólio de um partido só. 

E no kit o MEC recusou-se a pelo menos ouvir bancadas de representação religiosa que pediram para opinar sobre o assunto. Como se o Congresso Nacional fosse um estorvo, por eventualmente incluir gente que pensa diferente.

Em cada tema define-se a priori um lado completamente certo, e os demais estão todos completamente errados. Por definição. Nada têm a contribuir. 

Definida a separação, o passo seguinte é buscar reunir o máximo de forças aritméticas para fazer prevalecer o ponto de vista oficial, sem mediações. 

Ou com mediações apenas na dose necessária para atingir massa crítica suficiente e esmagar os adversários.

É um corolário do que se viu na campanha eleitoral, no debate sobre o aborto. Para um certo pensamento, quem é a favor da descriminalização do aborto tem o direito -o dever até- de usar a bandeira como arma na luta política, mas quem é contra não tem. 

A militância a favor é virtuosa por definição. A contra é o atraso, também por definição. E deveria calar-se, para que o mal não contamine a pureza do bem.

Mas talvez o melhor exemplo seja mesmo o ambiental. É um nicho ideal para o comportamento maniqueísta.

Alguns se apresentam como portadores de toda a verdade. Contestar as ideias deles é, a priori, um crime de lesa-humanidade. 

Pouco a pouco a coisa vai adquirindo ares de religião, inclusive com uma hierarquia eclesiástica, difusa porém coesa e centralizada. Nem que apenas pela missão de criminalizar o pensamento diferente.

E aí "fazer o debate" toma contornos de cruzada moral contra os infiéis. No máximo, diante de impasses na correlação de forças, aceitam-se tréguas táticas, pausas para tomar fôlego e reabrir mais adiante a guerra santa.

Como em toda guerra, papel especial cabe à propaganda. "Devastação" passou a designar todo episódio em que a vegetação natural é removida. Mas onde e como a humanidade teria desenvolvido a agricultura, a civilização, sem remover vegetações nativas? 

Aritmeticamente, "devastação" zero corresponde a zero de agricultura. Fica então a dúvida. Como civilizar sem desmatar?

Diante da emergência da Ásia, da África e da América Latina alguém precisa explicar como alimentar toda essa gente sem produzir mais comida. Muito mais comida.

Uma solução seria buscar só incrementos de produtividade, em vez de ampliar a área plantada. É uma tese discutível, diante da demanda potencial, mas vá lá.

Só que aqui a coisa se complica. Pois as inovações tecnológicas para melhorar a produtividade também enfrentam resistência da militância ambiental. Em especial a engenharia genética.

Os fatos? Pouco importam. 

O Brasil desperdiçou anos numa guerra civil entre os pró e os contra transgênicos, técnica apresentada pelo ambientalismo como a senha para o inferno, a chave da porta do apocalipse.

No fim eles foram liberados com critérios. E os resultados são bem bons. Só que disso ninguém fala.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (29) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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13 Comentários:

Anonymous JV disse...

muito bom.

domingo, 29 de maio de 2011 11:48:00 BRT  
Blogger Raphael Neves disse...

É, grande Alon, dessa coluna já não gostei tanto. Não dá pra analisar a derrota na votação do Código e o kit anti-homofobia sem falar no caso do Palocci. Isso fragilizou o governo e foi crucial para a pressão da base e dos adversários.

Sobre a agricultura, acho que você se equivoca também. Os ambientalistas também fizeram considerações sobre isso. Preservar a vegetação nativa é importantíssimo para os recursos hídricos. Sobre os transgênicos, não vou nem discutir. Você simplesmente deixa passar batido a questão crucial que entra nesse debate: os agrotóxicos que são utilizados nesses alimentos.

Em tempo: uma notícia triste. O desmatamento que o novo Código irá permitir equivale a um Estado do Paraná: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,novo-codigo-permite-desmatar-mata-nativa-em-area-equivalente-ao-parana,725245,0.htm

Pô, Alon, não dá pra pactuar com isso.

Abraço,
Rapha

domingo, 29 de maio de 2011 11:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O governo está equivocado ao englobar o niilismo que aparece em iniciativas como: 1) o kit sobre homofobia; 2) o Código Florestal; 3) sobre a língua dita popular versus a originária da norma culta. E erra em todas as decisões. E lados que toma como seus. Tais fatos são niilistas, quando fora do governo. Quando, porém, adentram os meios que o governo tem para implementá-los, exalam apenas arrogância improdutiva. Mais os componentes autoritarismo e personalismo. No caso do kit sobre homofobia, a despeito do que disse ter desaprovado a presidente da República, o ministro da Educação afirma que o kit será alterado, mas não disse que será abandonado o projeto. Oras, se a presidente discordou e o ministro o reafirma, este deveria se demitido. Isso porque o kit não foi elaborado para ser entregue ao ministro e à presidente. Pode-se duvidar que entregassem algo assim a seus filhos e netos. Ou aos filhos e netos dos vizinhos. Mas, sim, às famílias e à forceps, para não dizer à sorrelfa. Ou seja, intervenção no que as famílias tem o direito de achar conveniente para seus filhos. E isso pode não incluir mostrar e ensinar beijos homossexuais. Ou a indicação de filmes com abordagem homossexual e destinados a adultos e não crianças de 11 anos. Da mesma forma que é feito para filmes com extremada violência e conteúdo psicológico forte para a idade. Simples. No caso da língua popular, ou seja, a forma errada de ensinar o Português, dito em Português, a presidente não falou nada. Parece. Porém, além de, por dever, deveria ter dito algo, devido aos desdobramentos que o tema obteve, o ministro também deveria ser instado a rever sua posição ou demitido. Difícil que a presidente não tenha auscultado sobre o assunto, uma vez que afirmou várias vezes ser a Educação a prioridade zero de seu governo. Nada aconteceu. Nem diuturnamente e nem noturnamente. Também como esperado. Já no caso do Código Florestal, o absurdo nem foi o governo mostrar-se autoritário e exigir o tudo ou nada da Câmara. Isso já era previsto. O absurdo foi ex-parlamentares e ex-ministros meterem o bedelho apoiados por conservacionistas e ambientalistas, que podem discordar, porém, preferiram colocar facas no pescoço do Congresso. E tudo apoiado pela Casa Civil. O que pode significar, apoio da presidente. Simples e mais um erro. O outro, a enrascada do principal ministro da Casa Civil. A presidente emudeceu. Depois, para enfrentar a crise, deve ter feito o que pode decretar o vazio de seu governo: chamou o feitor. Difícil dizer ter o governo acabado, dado a estridência do fiador e o êxtase de grande parte do que chamam de mídia. Mas, é uma certeza que não havia sido sequer iniciado. Ao invés de fiador, alguns, em língua popular, poderiam chamar de encosto bravo ou brabo. Brabo, é mais popular ainda. E encosto, é encosto. Cultura popular, ou crendice popular ou folclore ou religiosidade populares, por um ótimo motivo.
Swamoro Songhay

domingo, 29 de maio de 2011 15:22:00 BRT  
Blogger Rodrigo Mudesto disse...

Ótimo artigo. modestamente subscreveria cada linha

domingo, 29 de maio de 2011 17:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Você diz:
"Definida a separação, o passo seguinte é buscar reunir o máximo de forças aritméticas para fazer prevalecer o ponto de vista oficial, sem mediações.
Ou com mediações apenas na dose necessária para atingir massa crítica suficiente e esmagar os adversários".

E um parágrafo à frente você completa:
"A militância a favor é virtuosa por definição. A contra é o atraso, também por definição. E deveria calar-se, para que o mal não contamine a pureza do bem".
Essas estratégias são suas mesmo ou você tirou de algum manual do Partido Democrata americano ou do Partido Republicano onde elas são utilizadas há mais tempo, em especial, quando não se pretende alongar naquilo que é a essência do processo democrático que é o fisiologismo?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 29/05/2011

domingo, 29 de maio de 2011 17:39:00 BRT  
Blogger Rodrigo Mudesto disse...

É um desses textos que a gente encontra e queria ter escrito. Alon Feuerwerker é depois da Ines Nassif o colunista que geralmente expressa idéias com a quais mais me identifico. Esse texto é importante porque ele vê com clareza o ponto onde o governo tem pecado e onde tudo indica vai continuar pecando. É não só o governo peca como toda a intelectualidade próxima ao Lulismo tem incorrido no mesmo erro. O mundo não é preto e branco, não há certo e errado, o que temos é que buscar pactuar o melhor avanço dada a conjuntura. A coisa caminha de uma maneira que a todo momento progressistas como o juiz Fux ou o dep. Jean Willys ficam defendendo passar por cima da vontade da maioria, seja solapando o congresso seja simplesmente desconsiderando ou desqualificando a opiniao da população. Num quadro como esse me pego estranhamente torcendo por uma revitalização dentro do PMDB, porque é preciso que haja o lugar do contraditório. E principalmente o lugar da democracia.

domingo, 29 de maio de 2011 17:42:00 BRT  
OpenID tuliovillaca disse...

Alon, você realmente acha que as terras que já foram devastadas não são suficientes para aumentar, e muito, a produção agropecuária brasileira, apenas sendo usada com algum critério e com uma distribuição eficiente (de gêneros e de renda)? Você está sabendo (saiu no Globo hoje, mas a Dilma já estava sabendo antes) que agricultores estão devastando (escolha outra palavra, se preferir) suas terras desde já contando com a absolvição pela lei que ainda não foi sancionada? Seria realmente muito bom poder contar com a honestidade alheia. Talvez assim fosse possível dialogar. O governo cometeu um erro terrível na questão do Código, que foi sair atrasadíssimo na conquista dos que não tem comprometimento com os ruralistas. Agora, a dicotomia entre meio ambiente e produção não é criação do governo nem dos ambientalistas, é deles. Neste caso, há, sim, um certo e um errado muito claros.

domingo, 29 de maio de 2011 20:05:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Tulio, vc realmente acredita que vai dar para o Brasil alimentar dignamente toda a nossa população e mais atender a demanda externa por alimentos só na base do aumento de produtividade? Eu não. Especialmente quando o potencial da demanda africana se realizar na plenitude. Ou então os africanos vão precisar eles próprios "devastar".

domingo, 29 de maio de 2011 20:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, muito bom seu artigo. Essa era a análise que estava faltando. Afinal, que democracia estamos vivendo? Hoje em dia tá cada vez mais difícil entender o melhor caminho em cada situação, até porque não há só um correto e outros inválidos. A impressão que dá é que essa gente quer que entendamos que só há um caminho.

O pensamento único estará de volta? Cruz credo.

segunda-feira, 30 de maio de 2011 09:41:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Ótimo post, Alon

E por falar em devastação, reportagem da revista Veja a respeito da reserva Raposa Serra do Sol

"Quatro novas favelas brotaram na periferia de Boa Vista, nos últimos dois anos. O surgimento de Monte das Oliveiras, Santa Helena, São Germano e Brigadeiro coincide com a demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol. Nesse território de extensão contínua que abarca 7,5% de Roraima, viviam 340 famílias de brancos e mestiços."

Vamos lembrar que ma época o deputado Aldo Rebelo foi voz quase isolada no Congresso em meio à unanimidade burra e, portanto, irresponsável que jogou essas famílias de brasileiros na miséria em que hoje estão.

Parabéns, ongueiros, antropólogos, e ministros do STF, com menção especial ao "poeta" Ayres Britto

"A situação piorou com a ruína das estradas e pontes, até então conservadas pelos agricultores. “Acabou quase tudo. No próximo inverno, ficaremos totalmente isolados”, diz o cacique macuxi Nicodemos Andrade Ramos, de 28 anos. Um milhar de índios se instalou nas novas favelas de Boa Vista. “Está impossível sustentar uma família na reserva. Meus parentes que ficaram lá estão abandonados e passam por necessidades que jamais imaginaríamos”, afirma o também macuxi Avelino Pereira, de 48 anos. Cacique de sete aldeias, ele preferiu trocar uma espaçosa casa de alvenaria na reserva por um barraco de tábuas na favela Santa Helena. O líder indígena diz que foi para Boa Vista para evitar que sua família perdesse o acesso a escolas, ao sistema de saúde e, sobretudo, ao mercado de trabalho."

segunda-feira, 30 de maio de 2011 11:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Quem errou foi o governo por ser arrogante, no trato do Código Florestal. Ou melhor, foi vesgo e só olhou para o próprio umbigo. Querer carimbar de "ruralista", como símbolo de tudo o que é ruim não passa de tentar criminalizar por antecipação, pré-julgar. Um agricultor familiar, não é também um "ruralista"? O post está correto: não adianta querer achar que só com lábias e ideologias será possível gerar alimentos. A não ser que os mais de 190 milhões de esfomeados do Brasil, sejam convencidos a plantar couve em campos de reeducação. Pol Pot tentou isso e matou mais de 2 milhões de pessoas em seu país. Mao outros tantos. É só escolher alguém aqui e está feita a besteira.
Swamoro Songhay

segunda-feira, 30 de maio de 2011 12:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Rodrigo Mudesto:
1) o problema resida, talvez, nessa coisa de progressista ou conservador, para membros do STF. Como se fosse simples saber como votará um Juiz do Supremo, mediante carimbos. Ora, a Corte Suprema, independente do que se acha ser a convicção pessoal e vá lá, ideológica, de seus membros, está lá para interpretar a Constituição e preservá-la. Isso quando a Corte for arguida, depois de legislação discutida, votada e aprovada pelo Parlamento. Ao menos, deveria ser assim, é de crer-se.
2) já o deputado Jean Willys, parece imaginar ser o grilo falante, a consciência das pessoas. Estranho, uma vez que em entrevista, que gerou vídeo, ele diz que o povo não estaria preparado para um plebiscito sobre homofobia, por não ter condição para tanto. Para ele, deduz-se, o povo deveria ser simplesmente conduzido, por...Jean Willys. E assim, aceitar kit sobre homofobia, votar em lei que criminaliza a homofobia etc. Pouco importando o que as pessoas pensam sobre tais assuntos, haverá o salvador de consciências a votar pelo cidadão que paga seu salário. Ele deveria saber que não é e não fala novidade nenhuma. Faz parte de absurdos grupelhos de pretensos salvadores da pátria, pré-pterodáctilos. Foi eleito, carregado por votos que sobraram de outro candidato. Então, poderia ser mais modesto e sair do papel de reality show. O Parlamento não é para isso.
Swamoro Songhay

segunda-feira, 30 de maio de 2011 13:59:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, o “estilo” de governo que você descreve não é o de um governo socialista? Um Estado de “especialistas”, sob um comando rígido, consertando uma sociedade defeituosa e degenerada? Sem muitas satisfações, sem muitas explicações. Digo socialista e não social democrata, já que esta última pratica um capitalismo envergonhado e acaba descobrindo que a rede de segurança social ou o estado de bem estar social, como qualquer almoço, não é grátis. O preço é cobrado em menor crescimento e menor capacidade de recuperação. Mas tudo isso é muito europeu ou americano, quadro conceitual que adotamos em respeito à preguiça de nossos sociólogos e outros “ólogos” afim. Tudo isso pressupõe um Estado ineficiente, não é o nosso caso, nosso Estado é simplesmente inoperante, e apresenta desvios de recursos em todos os níveis (basta ler as manchetes, principalmente as locais). Na verdade cumprimos um destino bolivariano, como a Venezuela e a Argentina, com o agravante de não o explicitarmos.

terça-feira, 31 de maio de 2011 14:38:00 BRT  

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