quarta-feira, 18 de maio de 2011

Exemplo a imitar (18/05)

Para serem o que são hoje, os chineses precisaram antes livrar-se da herança da Revolução Cultural, que eles mesmos tinham inventado. Talvez devêssemos copiá-los nessa decisão. Os resultados são suficientemente bons para servir de referência

Em qualquer avaliação séria, a comparação do desempenho escolar de estudantes brasileiros e chineses dá um resultado, digamos, comparável ao que seria o placar de um eventual jogo de futebol entre o catalão Barcelona e o pernambucano Íbis.

Antes que me acusem de preconceito, defendo-me argumentando que o Íbis é paradigma de propaganda da própria ruindade. Deve haver algum time da Catalunha que perderia fácil para Santa Cruz, Náutico ou Sport, mas infelizmente não conheço.

Voltando à coluna, a supremacia chinesa sobre nós não chega a espantar, pois aquele país disputa com os Estados Unidos e os melhores centros europeus e japoneses a liderança em formação e educação.

Enquanto isso nós patinamos.

As melhores universidades chinesas já ombreiam em qualidade com as do assim chamado Primeiro Mundo. A ultrapassagem é apenas questão de (pouco) tempo.

As nossas? Vêm muito atrás.

O moderno progresso chinês não brotou espontaneamente. É resultado também de uma ruptura política. A ruptura com a Grande Revolução Cultural Proletária dos anos 60 e 70 do século passado.

Resumir é sempre complicado, mas aquele movimento decorreu de uma luta interna no Partido Comunista, entre o então líder Mao Tse-tung e os adversários “direitistas”. Resumindo, Mao radicalizou a revolução para concentrar poder.

Segundo os conceitos da Revolução Cultural, a luta de classes que penetra todas as esferas da atividade humana se manifesta, em consequência, também no campo da cultura.

E é necessário produzir uma nova cultura, das classes oprimidas, para contrapôr à das classes opressoras. Mas aí surge o problema. O que seria essa tal cultura dos opressores, a cultura a eliminar?

Bem, já que segundo o marxismo a ideologia dominante numa certa formação social é a ideologia da classe dominante, o critério maoísta-reducionista -bem desenhado na Revolução Cultural- deixa sob suspeição todo conhecimento pré-existente.

Não será exagero dizer que hoje a China é o que é porque lá atrás enterrou esse dogmatismo, e bem enterrado. Quando Mao morreu o PC chinês rompeu com o maoísmo, e o entorno mais próximo do ex-líder foi removido das posições de poder.

Tudo para que o país pudesse avançar.

Quem tiver curiosidade deve pesquisar pela trajetória da “Gangue dos Quatro”.

Os resultados da experiência chinesa ajudam a defender por que o Brasil precisa se livrar rapidamente de um certo maoísmo tardio, inclusive no terreno educacional. Para o qual a libertação dos explorados e oprimidos passa não pela superação da ignorância, mas pela revelação da beleza nela contida.

Daí que falar português errado seja bonito, por expressar a condição cultural dos oprimidos, enquanto explicar para a criança pobre que existe o certo e o errado, no falar e no escrever, é preconceito de classe.

Em termos práticos, o resultado é o reforço das diferenças sociais. O culto do pobrismo só atrapalha mesmo é os pobres.

Quem tem dinheiro pode procurar para o filho uma escola particular que ensine bem português, matemática, ciências, história, geografia. Quem não tem e depende da escola pública vê diariamente o filho voltar para casa sabendo o mesmo tanto que sabia quando saiu pela manhã.

O resultado prático do pobrismo é o pobre servir de cobaia no laboratório do relativismo. Claro, pois não consta que os espertos defensores do vale-tudo pedagógico deixem seus próprios filhos, netos ou sobrinhos à mercê.

E assim o suposto impulso revolucionário revela o que é, na essência: o culto da acomodação e da inércia. Ainda que arrogantes. Uma autêntica pedagogia da opressão.

E mascarada da forma mais cruel, com tintas libertárias.

Os chineses, que inventaram essa coisa, decidiram livrar-se dela rapidinho. Talvez devêssemos imitá-los nisso. Os resultados recomendam.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (18) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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31 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Um dos mais influentes bestiários que serviu de base "teórica" para o manual adotado pelo MEC é de autoria de um professor doutor da UNB que, dizem, lota os auditórios das Faculdades de Educação do país para as quais é convidado para expor suas revolucionárias ideias de educação popular.

O livro do professor doutor da UNB

BAGNO, Marcos. Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. 49ª ed. São Paulo: Loyola, 2007.

QUADRAGÉSIMA NONA EDIÇÃO

E assim vamos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011 03:12:00 BRT  
Blogger José Eduardo Morais disse...

Parabéns !!!

quarta-feira, 18 de maio de 2011 08:35:00 BRT  
Blogger EPx disse...

Perfeito, assino embaixo. Só que se fosse qualquer outra pessoa que não você a dizer estas coisas, seria tachado de "direitista", "reacionário", daí para baixo. Experiência própria.

quarta-feira, 18 de maio de 2011 09:39:00 BRT  
Blogger rcordani disse...

Alon, excelente como sempre. E com mais credibilidade aos olhos do poder petista, pois não é de "direita". Pena que "eles" (o petismo) provavelmente não o leiam mais......

quarta-feira, 18 de maio de 2011 11:04:00 BRT  
Blogger @4lex78 disse...

Para o bem e para o mal, o Brasil não é a China e nem pode ser.
Se a China avança rapidamente na Educação (e noutras áreas como na Economia), isso acontece devido ao seu modelo governativo com um partido único. Concordemos ou não com o já famoso livro do MEC, a verdade é que no Brasil é possível haver um debate sobre ele. Sendo assim, aplaude-se a China por acertar, mas se a China tivesse errado? Não teria oposição para a contestar/corrigir.
Sendo assim, o progresso num país democrático como o Brasil é sempre mais lento que num país pouco democrático como a China. O próprio Presidente Obama faz alusão a isso, dizendo que as soluções em Democracia são mais difícil a chgar, mas são mais duradouras.

quarta-feira, 18 de maio de 2011 11:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Sou um grande admirador do modelo chinês, apenas não o menciono como paradigma para o Brasil. Preferiria um modelo mais democrático. Mas sempre que falo sobre a herança maldita do governo de Fernando Henrique, mais especificamente: câmbio flutuante, livre fluxo de moedas, regime de metas de inflação, liberação do comércio exterior, superávit primário, Lei de Responsabilidade Fiscal e outras coisas como venda da Vale, eu lembro que a China não tem nada disso e vai muito bem. Sim o câmbio tem que ser arrastado (Que nem cobra pelo chão), o fluxo de moeda controlado, o comércio exterior administrado, o quadro fiscal gerenciado segundo as circunstâncias, a taxa de inflação obtida de acordo com a realidade econômica e os interesses políticos do governo (Nem muito alta para levar ao que ocorreu na Praça da Paz Celestial em 89 nem muito baixa que revele a paz de cemitério) os atos ilícitos que acarretem infringências contra o patrimônio público sancionados pelo Código Penal (Sem pena de morte é claro). Será que o PT tem cacife para fazer essas mudanças ou será que para o PT sem o cacife é melhor que tudo mais permaneça constante?
Para quem já o conhece e lê sempre o slogan do blog: "Uma visão democrática, nacional e de esquerda" reconhece que estava implícito no seu enunciado de que "o Brasil precisa se livrar rapidamente de um certo maoísmo tardio, inclusive no terreno educacional", tal qual a China fez ao enterrar o dogmatismo da "Guangue dos Quatros", que o processo não se assemelharia completamente ao chinês, pois aqui o processo seria democrático.
Para quem não o conhece e chegou aqui por sorte, talvez devesse aparecer no final do post algo como:
"democraticamente é claro".
Clever Mendes de Oliveira
BH, 18/05/2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011 13:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Parabéns pelo post. Foi na veia. Mostrou que das catacumbas, o pior do ruim do maoísmo, ressuscita de dentro de hospedeiros que pensam a Educação e a Escola no Brasil. Criam uma língua idiotizante, por exemplo, dois copo, para quem nunca será nada na vida. A não ser que seja, a população toda, rebaixada, o mérito eliminado por completo. Porém, segundo os idealizadores, terão a vantagem de não sofrerem preconceito linguístico. É de se duvidar que os defensores de tal depaupério linguístico, de tal insânia, não corrija seus entes próximos que falam como prega o livro de título gozador: "Por uma vida melhor". Vida melhor, teriam os brasileiros, caso não tivessem de ser acusados pela aceitação de uma coisa dessas. No presente e no futuro. Como pode viver melhor quem não tem seus erros de fala e escrita corrigidos? Quando alguém "alfabetizado" com tais requintes, poderia encarar clássicos da literatura nacional e internacional, sem ter vontade de queimá-los ou de espancar o autor de Dom Casmurro, por exemplo? Isso num País, onde há uma quantidade de pessoas, jovens, adolescentes e adultos que não gostam de assistir filmes legendados. Um absurdo completo. Se há algo pelo qual as autoridades deveriam quebrar o estratégico voto de silêncio, seria para espinafrar com tais absurdos. Porém, os autores e os omissos parecem estar prestigiados pelo poder.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 18 de maio de 2011 15:10:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Vinha bem, dando goleada, até o penultimo parágrafo.

Pq "tintas libertárias" ?? Q tem a ver com essa farofa-gramática-pobrista ??

Bom, de todo modo, o texto ficou legal.

quarta-feira, 18 de maio de 2011 15:13:00 BRT  
Blogger bauermann disse...

Para um contraponto bem articulado e escrito por um linguista e educador, recomendo ler Carta de Marcos Bagno para a Revista Veja e Polêmica ou ignorância. Destaco o seguinte trecho do primeiro artigo:

como pesquisador dedicado há muitos anos ao estudo das relações entre língua, ensino de língua e fenômenos sociais, até hoje não encontrei uma única obra – assinada por lingüista de formação ou por educador profissional – que negasse a importância do ensino da norma-padrão na escola brasileira, que pregasse a idéia torpe de que não se deve ensinar as formas prestigiosas da língua, ou que “preconizam que os ignorantes continuem a sê-lo”

quarta-feira, 18 de maio de 2011 15:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1) Crescimento da China. A China cresce a índices chineses, por que é muito pobre e tem muita gente a incorporar e muita coisa a tirar da idade da pedra. Assim que atingir um nível razoável de incorporação, o crescimento ocorrerá a taxas menores.
2) O Brasil, nos 70s, também cresceu a índices brasileiros. Saiu de uma economia agrário-exportadora e rural, para uma economia industrializada periférica e urbanizada. Porém, deu o vôo de galinha e caiu nos 80s até metade dos 90s. Agora, parece ter saudades do pauperismo e insiste em voltar a ele. E tudo indica, através da Educação. No futuro alguns poderão dizer: a gente si danemos.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 18 de maio de 2011 15:32:00 BRT  
OpenID tuliovillaca disse...

Alon, como análise política, que é ao que o seu blog se dedica, não está errado o diagnóstico. Do ponto de vista pedagógico, discordo frontalmente. Existe uma coisa chamada registro linguístico. Ensinar isto na escola é bom, não ruim. Deixar claro que existe uma norma culta que deve ser seguida nas situações formais, e outras normas possíveis de serem usadas em outras situações - simples assim, que é o que o tal livro faz, e muitos fizeram questão de não entender. Ou como diriz Oswald de Andrade, "me dá um cigarro". Tenho a impressão de que boa parte dos que estão gritando contra este "falar errado", prefeririam que Guimarães Rosa nunca tivesse nascido. Terá sido ele um "pobrista"? Tenho a impressão de que, para estes, relativismo, no fundo, é coisa de elite, e o pobre tem mais é que aprender que está errado. Educação faz um país crescer, mas seu objetivo fundamental não é criar força de trabalho, é criar seres humanos melhores e mais completos, ampliar horizontes. O Brasil patina nisso, mas por motivos diversos do que você disse, justamente por falta de entendimento disso. Entre o maoismo e a Gangue dos Quatro, ainda prefiro Paulo Freire, e fico pensando o que ele diria disto.

P.S. Minha filha está numa escola cara - e experimental. Um ótimo "laboratório de relativismo", com nada de "vale-tudo pedagógico". Afinal, me parece que relativismo, no fundo, é coisa de elite. O pobre tem mais é que aprender que está errado

quarta-feira, 18 de maio de 2011 18:11:00 BRT  
Blogger Valle Corretor disse...

Concordo plenamente em gênero, número e grau.

quarta-feira, 18 de maio de 2011 18:22:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Parabéns, eu fico até emocionado que um cara auto-declarado de esquerda como você faça esse ponto, porque de nada adianta eu e outros reacionários muito piores do que eu, como o Reinaldo Azevedo, fazê-lo.

Porque é preciso convencer o establishment da educação, que é de esquerda, já desde muito antes de Lula, e de esquerda da forma errada (aliás, Cuba, que é uma porcaria economicamente mas muito boa em educação, também quer distância desse tipo de coisa, pelo que sei), como você tão bem mostrou.

Abraço

quarta-feira, 18 de maio de 2011 18:31:00 BRT  
Anonymous SLeo disse...

Caro, certíssimo. pena que o livro da Heloísa, que motiva o debate, é criticado pelo que não fez e não é lido.

O polêmico livro que não leram e criticam abraça a equivocada tese de "preconceito linguístico", mas é absurdo acusá-lo, como acusam, de desprezar a norma culta. Ele faz exatamente o contrário!!!

Leia o capítulo do qual foi tirado o trecho polêmico, e me diga se a essência dele não é persuadir o leitor acostumado á fala popular a usar a norma culta, aprofundar-se no estudo da gramática!!!

Se me permite, o PDF do capítulo em debate:

http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/V6Cap1.pdf

E meu pitaco sobre o assunto, trazendo Monteiro Lobato à discussão:

http://sergioleo.opsblog.org/2011/05/18/lobato-entra-de-sola-na-nova-polemica-com-o-mec/

quarta-feira, 18 de maio de 2011 18:36:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Atualização

O best-seller está em sua 52ª edição e já vendeu mais de 200.000 exemplares. Seguramente é a "obra acadêmica" de maior sucesso em toda a história do Brasil.

http://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache:chC6DU8MX50J:nonio.eses.pt/interaccoes/verartigo.asp%3Fcod%3D164+Preconceito+Lingu%C3%ADstico:+o+que+%C3%A9,+como+se+faz+exemplares+vendidos&hl=pt-BR&gl=br&pid=bl&srcid=ADGEESgjSmPZgU7zbaq_i-jL8vPb-o0o67rLE1bNDj76JQAHTFVVIQAQYXbU3xI9eQTlH6ib6A-J4Zh5_kxoWHMmxX90kp2RrAKkLCy_IxDnDtNGlx1CxLkEsO4WkZRvZz48Pool33Kv&sig=AHIEtbTzHBUddDK7XkW4lZaox_Uq5Fy4LA

quarta-feira, 18 de maio de 2011 19:21:00 BRT  
Anonymous Antonio Rocha disse...

Parabéns pelo artigo camarada Alon.
Recebi comunicação mediúnica do Guia dos Povos e o próprio Mao Tsé Tung me esclareceu que já estava doente (mal de Parkinson)durante a tal Revolução Cultural. Ele já não apitava em mais nada. Precisavam de um bode expiatório. Ele pagou o pato. A Grandeza da China hoje se deve a ele também.Os orientais têm uma tradição de respeitar e reverenciar os antepassados. Saudações gramaticais e linguísticas! Antonio Rocha.

quarta-feira, 18 de maio de 2011 21:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Puxa vida, a quantidade de reacionários que o aplaudiu deveria enchê-lo de receios... Outro dia aconteceu isso com o Kotcho, ele meteu o pau no MST, e pronto, um pelotão de reacionários sem pai, nem mãe, - eles estão assim agora, saiu parabenizando-o. Mas, vamos rever essa posição sobre a Revolução Cultural, parece-me que em essência Mao discordava de uma socialismo burocrático que predomina na URSS, (Tchê teve a mesma impressão e pediu demissão a Fidel) e percebeu que nivelar por cima convocando os melhores nas universidades chinesas para o PC Chines levaria invariavelmente ao mesmo destino, - uma nomenclatura elitizada. Eu penso que em princípio seus objetivos eram muito bons, o problema estava na ditadura, que poderia facilitar alguns processos, mas no final complicava tudo porque no fim faltava mesmo era controle. Pensando bem, quantos daqueles maoistas de Paris, em Maio de 68, não desejariam estar em Pequim para realizar concretamente uma revolução que lhes ficaram entalada nas suas gargantas. Outro dia num documentário da Cultura mostrava que com todos os problemas da ditadura chinesa, a discussão fervia entre os jovens universitários pelo aprofundamento da revolução e delas participava ativamente o camarada Mao. Já sei, eles deram com os burros n'água, nós também aqui em São Paulo, mas, também em Paris e não sei mais aonde. Agora, justamente agora, a pergunta que não quer calar lá na China é uma só, mas, porque o povo chinês precisa de uma Ditadura do Proletariado para conduzí-los até o Capitalismo Mundial Integrado?
Ismar Curi

quarta-feira, 18 de maio de 2011 22:36:00 BRT  
Anonymous P Pereira disse...

Weden:
"...o livro não defende supremacia alguma da modalidade oral sobre a escrita, visto que nenhum linguista defende supremacia, no que se refere às modalidades da língua; o livro não contém erros gramaticais (o que vem sendo repetido à exaustão), apenas cita frases com 'erros'; os autores não 'admitem' a troca dos conceitos de 'certo e errado' por 'adequado ou inadequado' (como se tivessem inovando neste aspecto)."
(...)
Tem gente que "não leu a obra, não conhece a seriedade do trabalho da ONG, não sabe nada sobre os autores e parece não ter compreendido como se dá o processo de escolhas de livros didáticos no PNLD. A gramática correta do seu texto serve apenas para alimentar uma condenação a priori. De que adianta?"

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-guerra-suja-no-mercado-de-livros-didaticos#more

quarta-feira, 18 de maio de 2011 22:55:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

SLeo

"pena que o livro da Heloísa, que motiva o debate, é criticado pelo que não fez e não é lido."

Acho que você se confunde. O livro não é criticado no que acerta, mas no que erra. E no que erra é muito grave. A pergunta que fica até hoje sem resposta convincente é por que os consultores do MEC não viram ou deixaram passar o erro tremendo? Livros didáticos não veículos de transmissão de ideologias e não podem estar fundamentados em conceitos errados. Livros didáticos são instrumentos do professor para auxiliá-los na transmissão das disciplinas português, matemática, ciências etc. para os alunos. Creio que para os leitores do blog é desnecessário recorrer ao Houaiss para explicitar o significado e a etimologia da palavra “disciplina”.

Aliás, você dentificou o principal erro do livro: "abraça a equivocada tese de ‘preconceito linguístico’."

E é exatamente o abraço amoroso à tese relativista que faz a diferença para pior entre esse manual e aqueles que são escritos para ensinar nas escolas a gramática da língua portuguesa, sobretudo e exatamente para aqueles que mais precisam aprender a manejar a língua como um instrumento de poder.

Barbaridades como essa são mais antigas do que muitos imaginam. Comecei a lecionar na rede pública e durante a graduação. Certa vez, quase fui às vias de fato com um colega que falou a seguinte asneira: "Não preciso de laboratório na escola. Sou capaz de ensinar ciências com apenas um metro quadrado de chão". Eu disse que ele não era um professor, mas um mentiroso e cafajeste. Eu era jovem e um tanto destemperado ao lidar com essas situações.

Hoje, esse tipo de picaretagem faz a fortuna e a fama dessa gente que eu combatia. O MEC autorizou a compra de milhares de exemplares do livro didático que "abraça a equivocada tese de ‘preconceito linguístico’." através do Plano Nacional do Livro Didático, para a alegria dos autores e da editora e para desgraça dos alunos da rede pública de ensino.

O argumento da "lingua viva" que se faz em resposta e em defesa é falacioso e não tem absolutamente nada ver com a crítica ao livro didático em questão. Se a língua é viva, querer discipliná-la por pseudo-sociologia da linguagem [preconceito lingüístico] é o mesmo que querer matá-la.

Adoniram Barbosa fez os seus sambas e é de um ridículo oceânico aventar a possibilidade de que milhares de Adonirans não desabrocharam devido ao maligno "preconceito linguístico". A diferença entre Adoniram Barbosa e a maioria dos alunos que dizem "nóis fumo" é a mesma que distingue o físico medíocre de Einstein: os dois foram gênios no que fizeram. E genialidade, meu caro, não se adquire na escola. Escola era o lugar para desasnar, mas hoje desgraçadamente parece mais ter virado um grande pasto de asnos.

quinta-feira, 19 de maio de 2011 00:07:00 BRT  
Anonymous Tiago disse...

Parabéns pelo artigo! Está realmente sensacional.. conseguiu resumir tudo que penso a respeito do tema.

quinta-feira, 19 de maio de 2011 00:38:00 BRT  
Anonymous @MyrianDauer disse...

Perfeito! Brilhante! Um raio X matador no que ocorre atualmente no Brasil em várias áreas.
A conclusão também, infelizmente para nossas crianças e jovens que sofrerão as consequências da "inguinorança" :(

quinta-feira, 19 de maio de 2011 02:08:00 BRT  
Blogger Roberto Torres disse...

Alon leu o livro? Ou tá fazendo firula intelectual para repercutir a mídia?

quinta-feira, 19 de maio de 2011 04:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eu num cuncordio cum seo Alon. Nois tem qui iscrevê do geito qui falemo.

quinta-feira, 19 de maio de 2011 10:59:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Rocha, a discussão não é sobre o papel de Mao "em geral", é sobre a Revolução Cultural. Um abraço.

quinta-feira, 19 de maio de 2011 11:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

tuliovillaca, literatura e uma coisa. Ensinar falar errado, é outra. Atenuar para o politicamente correto não corrigir para não constranger ou não praticar preconceito linguístico, não passa de galhofa. Achar que Guimarães Rosa fazia seus personagens falar daquela forma peculiar, também é errado, é exagero sem base. O Chico Bento, fala caipira. Porém, as crianças que lêem Chico Bento, não. Ou se fala, tem de saber que há a forma correta de falar. E o correto é o Português. Nóis vai é Português, mas quem fala assim tem de ser ensinado a falar o Português conforme a norma culta. Ponto. Cebolinha troca letras. Quem o lê, não e nem vai trocar. E se trocar tem de ser corrigido, auxiliado. O que precisa é alguns arrogantes deixarem de fazer do cidadão objeto de experimentações fajutas. Em bom e claro Português: experimentações fajutas não são aceitas.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 19 de maio de 2011 13:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo Araújo-quinta-feira, 19 de maio de 2011 00h07min00s BRT.
Muito bem argumentado. Escola era o lugar para desasnar. Na veia. E os argumentos sobre os critérios do MEC para aprovar livros, pode levar a crer que o MEC não tem quem leia livros. E o ministério foi criado para cuidar da Educação e não para abraçar teorias novidadeiras a serem praticadas em crianças, jovens e adolescentes. Os cidadãos não são cobaias. O MEC emitir dizendo que não é o ministério da verdade é inócuo. Ninguém seria néscio a ponto de querer o MEC como qualquer coisa de verdade. A única verdade do MEC seria ser o Ministério da Educação. Se isso for muito difícil, como parece ser, que toda a cúpula seja mudada, urgentemente, por quem tenha competência e não arrogância no trato da Educação.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 19 de maio de 2011 14:14:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, o que mais me espanta em certos assuntos é nossa reiterada incapacidade de enfrentar as coisas tais quais são, especialmente as coisas simples. Mas a comparação com a revolução cultural me parece equivocada. Sem reivindicar maior conhecimento, o que a experiência chinesa buscava era a homogeneidade cultural, não uma cultura historicamente proveniente do povo. Que essa “cultura” se reivindicasse popular, o fazia como tudo o mais que viesse do PC Chinês, e não por consistir em sabedoria autóctone (Confúcio?). O espírito que anima o livro é outro, mais cristão que marxista. Mas o que me chama atenção é que nos embrenhamos em uma discussão em que ambos os lados estão errados. O livro é um livro de português “normativo” como deveria ser, mas faz uma introdução (cuja leitura agradeço ao Sergio Leo que comentou acima) que, podendo não estar errada do ponto de vista da lingüística, encontra-se inteiramente deslocada. A própria autora teria dito à imprensa que “correto e incorreto no uso da língua deve ser substituída pela ideia de uso da língua adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa" (peguei de matéria publicada na versão on line do Estadão), o que se aplica a perfeição à introdução do livro: é inadequada, pode até pretender elevar a auto-estima do estudante mais pobre, mas apenas agrega confusão a uma disciplina inevitavelmente difícil. Não sou lingüista, mas iria além, não acredito que a idéia de que “a língua é um instrumento de poder” possa ser uma verdade consensual (se o fosse, seria burrice da “classe dominante” ensiná-la). Também não me parece sustentável, como quer a autora, que o registro culto seja apenas um entre muitos: graças ao trabalho de professores, gramáticos e escritores, ele serve melhor à comunicação, à fluência do entendimento e da enunciação (registro culto, bem entendido, não empolado). E a expressão “norma culta” é rebarbativa – própria de quem busca o confronto –, não existe uma “norma popular”, como quer a professora, ou existem muitas. Mesmo nós, falamos uma dentre várias formas degradadas (hehehe) do Latim, como o Espanhol, o Italiano, ou o Romeno. Em suma, cabe à escola ensinar a gramática normativa para que a comunicação flua com mais presteza e precisão por todo o país, e ponto. Mas em outro ponto a professora tem razão: a existência de arraigado preconceito lingüístico, chegando os campeões de nossas virtudes expressivas a acusarem a era Lula pelo surgimento de livros como tais... e é esse, antes de qualquer outro, o motivo de tanta celeuma. E é muito injusto. Além de ter sido evidente o esforço do ex-presidente em melhorar seu desempenho verbal, ele nunca defendeu as próprias deficiências acadêmicas, ainda que, com toda justiça, tenha reivindicado para si um mérito maior, por chegar onde chegou a frente de outros, que gozaram de muito melhores condições ao longo da vida (fato). Caro Alon, ambos vivemos em Brasília, mas creio que o meio jornalístico que você freqüenta é menos venenoso (ainda que por hipocrisia) que o dessa classe média burocrática, sempre ciosa de seus títulos acadêmicos, com a qual passo a maior parte de meu tempo.

sexta-feira, 20 de maio de 2011 17:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Mas, Alberto099, o antigo presidente sempre enalteceu a si mesmo pelo fato de não ter estudado. Oras, assim, como teria formado-se em torneiro mecânico pelo Senai? Além do que, ele sempre deixou claro o que pensava de quem falava Inglês e Francês e lia livors e/ou escrevia e não era coisa boa. Seria o caso de saber como ele tratava o intérprete ou o assessor de assuntos internacionais. Talvez às bordoadas? Dessa forma, além de prestar um mau serviço à Educação, pode ter favorecido a presteza de amigos do rei. Acólitos que acorreram em massa a anular o mérito em tudo. Segunda língua para o Itamaraty? Não precisa. Exames para a faculdade? Para quê? Falar correto a língua? Ora, gente do povo pode falar da forma que quiser. E por ai vai. Dá para entender os motivos de tanta ênfase em criticar quem estudou. Que as pessoas cultas poderiam ficar esnobes e não olhar para os eternos mais pobres que não tiveram oportunidades.... Realmente, é uma tese excelente para quem gosta de fazer o Brasil retroagir com esperteza: andar de ré, tentando dar a impressão que está andando para a frente. Por exemplo, é de duvidar-se que os instrutores e professores do curso de torneiro mecânico do Senai falassem errado para seus seus alunos. E só olhando ao que está acontecendo agora. São visíveis a retroação em quase tudo. E não é por causa de que nunca olharam para os pobres deste País, exceto.... Mas, sim, pelo fato de terem ideologizado e mitificado o pobre e a pobreza como virtudes. Finge que anda para frente, mas, anda de ré e fica rico. E os pobres, mesmo, esses já votaram, não é?
Swamoro Songhay

sexta-feira, 20 de maio de 2011 19:23:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro swamoro, não conheço tudo o que o ex-presidente diz ou disse, mas aposto você está repetindo o que ouviu outro dizer. Aposto que ele nunca enalteceu a si mesmo por não ter estudado, mas por ter alcançado a presidência da república superando o obstáculo de não possuir a formação educacional que seria esperada (de nível superior). Fazer pouco da educação seria subestimar o obstáculo que ele se orgulharia de ter transposto, não faz sentido. Sobre falar mal de quem soubesse Inglês ou Francês, eu já ouvi dizer, como piada. A humilhação sentida por quem, possuindo mais anos de estudo, e quanto muito tendo passado num concursinho de provas e títulos (concursinho, porque nenhum concurso público se compara á dificuldade de alcançar a chefia do executivo), é essa humilhação que faz a pessoa trocar o que o ex-presidente disse pelo que se quis ouvir, traduz orgulho legitimo de ter superado o obstáculo da educação superior, em menosprezo por ela. A coisa fica mais grave num país onde a educação superior – que hoje sabemos é toda de baixo nível no Brasil – tomou o lugar da aristocracia na história pátria (nossa classe média tradicional, que é afinal quem comanda os cordames do Estado, tem uma cabeça que funciona como num antigo regime europeu, e gosta de enxergar-se com ares de nobreza) aristocracia essa que foi defenestrada pelos militares (sempre eles, culpados por tudo...) em 1989. Com isso você me parece confirmar o tal preconceito lingüístico que o Sergio Leo e o Paulo Araújo dizem não existir. Existe, mas é tratado com condescendência, visto mesmo como bonitinho e poético, por uma nobreza magnânima, quando aquele que fala errado está em seu devido lugar: na plebe. Quando é o tal “pobrinho” de que fala o Alon, com razão.

terça-feira, 24 de maio de 2011 11:44:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Ops... errei, referia-me à proclamação da república, fica então: "aristocracia essa que foi defenestrada pelos militares (sempre eles, culpdos por tudo) em 1889" e não 1989 claro.

terça-feira, 24 de maio de 2011 16:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

1. seu texto faz uma comparação absurda. Equiparar a revolução cultural chinesa com o caso dos livros didáticos que apareceu recentemente no Brasil é estapafúrdio.
2. Além disso, se bem entendo, não há a valorização, no caso dos livros, da "norma xula". Porém, a idéia de partir do erro para se chegar ao correto. Em resumo, o horizonte de referência continua o mesmo. O que irá mudar será a metodologia voltada para fazer com que a pessoa aprenda a norma culta.


Abs.

Daniel - Natal/RN

quinta-feira, 26 de maio de 2011 12:39:00 BRT  

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