quinta-feira, 5 de maio de 2011

Alguns instantes para compreender (05/05)

A missão de Obama é ganhar a guerra, não capitular. Nem fazer um bom acordo de retirada. Se não trabalhar para cumprir a missão será ejetado da cadeira. Simples assim

Consta que mesmo no finzinho do Terceiro Reich, com o exército soviético às portas de Berlim, os escalões superiores do nazismo guerreavam entre si pela sucessão do führer caído, ou prestes a cair.

Vista retrospectivamente, foi uma exibição da irracionalidade que acompanha o alheamento nas situações extremas de derrota. Acontece também nas grandes vitórias, como euforia incontrolável.

Mas esse diagnóstico da irracionalidade dos candidatos a herdeiro de Adolf Hitler em abril/maio de 1945 é análise em retrospectiva, coisa sempre facílima de fazer. O produto do trabalho do engenheiro de obra feita nunca apresenta problemas. É sempre perfeitinho.

Até a Segunda Guerra Mundial não havia o hábito de responsabilizar criminalmente governantes de países derrotados no campo de batalha. O Tribunal de Nuremberg foi uma novidade.

E a cúpula nazista confiava em duas variáveis para ganhar a condescendência anglo-americana.

A possibilidade de a guerra prosseguir, agora entre o Ocidente e a União Soviética. E a suposta necessidade de os aliados precisarem de um Estado alemão para administrar a população e o território.

Como se sabe, os cálculos dos nazistas estavam errados. No fim, quem não se suicidou morreu na forca ou pegou cadeia pelo resto da vida, ou quase.

O Tribunal de Nuremberg talvez seja o símbolo mais explícito da ética das guerras. Quem as ganha costuma ganhar também o direito de narrá-las conforme a conveniência. E de fazer o juízo sobre os atos dos beligerantes.

É cruel mas é assim. Nenhum líder aliado da época pagou pela decisão de, no fim do conflito e com a Alemanha já militarmente condenada, bombardear cidades alemãs que não podiam ser consideradas alvos militares strictu sensu.

É aliás uma ferida aberta na história alemã. Motivo de evocação periódica ali de nacionalistas e neonazistas.

O objetivo era quebrar a moral da população e reforçar a inevitabilidade de os alemães se renderem incondicionalmente.

O mesmo valeu para as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Elas tiveram dupla utilidade para os Estados Unidos. Evitaram o imenso custo material e humano que significaria guerrear pela conquista territorial do Japão. E mandaram um recado para a União Soviética.

Eis por que a dúvida retórica sobre se Nagasaki e Hiroshima foram o último ato da Segunda Guerra ou o primeiro da Terceira. Que, como se sabe, não chegou a acontecer do jeito temido. 

Os limites éticos e legais à brutalidade nas guerras são coisa recente. Têm um efeito, pois certos procedimentos, brutais ao extremo, hoje carregam risco bem maior de consequências desagradáveis para quem comete.

Mas a essência da ética nas guerras continua a mesma: vale mesmo no fim das contas é ganhar.

Quando Barack Obama venceu a eleição americana uma parte dos analistas cometeu certo erro primário. Entendeu que a eleição do negro democrata era a senha para a retirada da superpotência.

Mas Obama é presidente dos Estados Unidos para defender o interesse nacional dos Estados Unidos, ainda que numa situação nova.

Os Estados Unidos estão em guerra contra movimentos de origem islâmica, aliados a outros de raiz antiamericana mas laica, que pretendem extirpar a presença e a influência de Washington do Oriente Médio, e do mundo muçulmano em geral. E do mundo em geral.

A missão de Obama é ganhar a guerra, não capitular. Nem fazer um bom acordo de retirada. Se não trabalhar para cumprir a missão será ejetado da cadeira. Simples assim.

Cada um faz seu cálculo. Calcula se é melhor confrontar ou compor. No Egito, por exemplo, a Fraternidade Muçulmana parece inclinada à segunda hipótese.

O presidente dos Estados Unidos tem a missão de ganhar as guerras em que os Estados Unidos estejam metidos. É o comandante-em-chefe.

Eis uma verdade simples, que deve ter ficado bem clara nos últimos dias aos protetores e amigos paquistaneses de Osama Bin Laden.

Uma verdade que o próprio teve pelo menos alguns instantes para compreender, na plenitude.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (05) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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10 Comentários:

Anonymous F.Arranhaponte disse...

Isso aí

quarta-feira, 4 de maio de 2011 23:46:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

Ganhar qual guerra?...
Qualquer pessoa que enxerga um palmo adiante do nariz, sabe que os EUA foi derrotado pelo terrorismo. Melhor, foi cooptado pelo terrorismo. Caiu na teia engedrada e tornou-se a "nação terrorista"
[ http://blogdobriguilino.blogspot.com/2011/05/nacao-terrorista-ii.html ]

Com a morte de Osama, Obama ocupou o lugar e a guerra contra o terror apenas começou.

quinta-feira, 5 de maio de 2011 12:32:00 BRT  
Blogger BlogdoIlha disse...

Alon, há quem se perturbe com o fato de Bin Laden ter sido morto quando estava desarmado e poderia ser capturado vivo; também há os que reclamam da ação norte-americana em solo paquistanês, sem o conhecimento prévio daquele país.

Os Estados Unidos caçavam o terrorista havia quase uma década. Ele mantinha residência no Paquistão e morava numa casa espacosa, muito próxima à principal Academia Militar daquele País. Há quem acredite que pelo menos algumas autoridades paquistanesas sabiam, sim, da presença de Bin Laden naquelas redondezas.

Bem, o Paquistão é um país com quase a população do Brasil, dispõe de um forte aparato militar, possui artefatos nucleares e há décadas mantém uma disputa territorial com a Índia.
Para resumir, situa-se numa região sensível do mundo e é um país muito poderoso militarmente.

Na minha opinião, não se pode pensar que uma guerra ao Paquistão seria algo fácil e indolor. Muito pelo contrário.

Bin Laden foi o promotor de diversos atentados terroristas em vários países. Suas ações influenciaram na decisão dos Estados Unidos em invadir o Iraque e o Afeganistão. Sem grande exagero, pode-se afirmar que ele foi o responsável, direta ou indiretamente, pela perda de várias dezenas de milhares de vidas.

Desde os atentados de 2001, o povo norte-americano aspirava pela sua captura ou morte, bem como pela liquidação da Al-Qaeda.

Diante de tudo isso, será que os Estados Unidos erraram em realizar, à revelia do conhecimento do governo paquistanês, a operação que resultou na execução de Bin Laden?

Será que a alternativa de avisar o Paquistão resultaria na fuga de Bin Laden e no prolongamento da caçada?

Por fim, será mesmo que o assassinato de Osama Bin Laden merece todo esse debate?

quinta-feira, 5 de maio de 2011 13:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Os nazistas calcularam mal, é certo. Quem precisva de generais derrotados ou carniceiros? Aproveitaram ,sim ,os cérebros.Esses foram preservados de qualquer inquérito ou julgamentos panfletários. Von Braun que o diga. Japão, depois da experiência nuclear o imperador
Hiroito,renunciou à sua condição "divina".Em ambos os casos, o butim foi compensador. E, o Oriente Médio?
Seria ingenuidade de Baraca ou qualquer dirigente ,americano ou europeu, acreditar que Osama seria o único obstáculo a ser eliminado.
Olhando bem o tabuleiro,o que era um singelo jogo de damas tonou-se num complexo xadrez.

quinta-feira, 5 de maio de 2011 13:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito incisivo e no ponto Alon. Perfeito o parágrafo: Quando Barack Obama venceu a eleição americana uma parte dos analistas cometeu certo erro primário. Entendeu que a eleição do negro democrata era a senha para a retirada da superpotência. Impressionante alguém ter a ousadia de ter pensado algo tão fora de lógica.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 5 de maio de 2011 13:33:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

E como se dizia em mundo antanho, o artigo é válido, lúcido e inserido no contexto.

De minha parte, Osama levou nas fuças o que fez por merecer. E se o inferno existe, acredito que lá ele restará cativo pela eternidade.

quinta-feira, 5 de maio de 2011 13:39:00 BRT  
Blogger BlogdoIlha disse...

Alon, em 1998, eu passei alguns meses trabalhando no Iraque. Durante aquele tempo, eu cumpri uma tarefa que tomei por obrigação moral. Por duas vezes, visitei um bunker na periferia de Bagdá que havia sido atingido durante a primeira guerra do Golfo, em 1991.

Tratava-se de um edifício fortificado, destinado a abrigar a população de um bairro dos bombardeios despejados pelas forças norte-americanas.

De acordo com a guia do local, num desses ataques, o bunker estava lotado. Havia algo como umas mil pessoas abrigadas ali, a maioria mulheres e crianças. Daí, veio o primeiro míssil Tomahawk que perfurou a grossa espessura de concreto armado do teto. Em seguida, veio o segundo míssil. O bunker tornou-se uma bola de fogo. O edifício manteve-se praticamente intacto, mas quase todos que nele se abrigavam morreram imediatamente.

Depois da guerra, Saddam Hussein transformou aquele edifício numa espécie de monumento. Nas duas visitas, fui recepcionado pela mesma mulher. A guia se apresentava como uma mãe de cinco filhos, que deixara o local poucos minutos antes dele ser atingido. Ela morava perto dali, saíra para pegar algo em casa e deixou seus filhinhos sob o cuidado do irmão mais velho.

Na visita, notei que as paredes internas do bunker continham pedaços de pele carbonizados. Eram marcas de pequenas mãos, mãozinhas de crianças, grudadas no cimento.

Lembrei que, na época da guerra, aquele ataque ganhou destaque da imprensa e muitos reclamaram. Houve um claro desconforto do governo norte-americano que, por fim, explicou que algumas altas autoridades iraquianas usavam os civis como escudo. Esses governantes eram um lícito alvo de guerra. Então, prevaleceu o argumento de que era certo lançar mísseis contra um pequeno grupo de inimigos, mesmo que isso significasse sacrificar várias centenas de vidas inocentes.

Vinte anos depois, os Estados Unidos lançaram outro ataque contra outra fortaleza. Na casa murada, próxima a uma academia militar do Paquistão, morava Osama Bin Laden, o terrorista mais procurado do mundo, responsável por várias dezenas de milhares de mortes, também inocentes. Na ação, morreram Bin Laden e algumas outras poucas pessoas.

Dessa vez, há quem reclame que o genocida foi executado quando poderia ser capturado vivo.

Pode ser que a razão esteja com quem se queixa, mas também pode ser que nem tanto assim. Para mim, o terrorista sofreu o castigo merecido e não fico triste por ele. Tristeza mesmo eu tenho por aqueles pequenos pedaços de mãos grudados nas paredes de um bunker em Bagdá.

quinta-feira, 5 de maio de 2011 15:56:00 BRT  
Blogger Flipside disse...

Tomei um block seu no twtter w nao entendi. Falei alguma besteira?

abçs

xandebueno

quinta-feira, 5 de maio de 2011 20:54:00 BRT  
Blogger wmacedo disse...

Sr. Alon,
Em relação à sua excelente colocação entre a insensatez dos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial e o momento histórico atual apenas um comentário adicional a essa irracionalidade: desde os tempos de Napoleão que os derrotados eram ejetados do poder após as guerras. Isso aconteceu com o próprio Napoleão, aconteceu também em 1870, na mesma França, em 1918, onde nenhum derrotado ficou no poder, e por alguma razão era de se esperar - pelo menos por parte dos nazistas - que isso também acontecesse naquela guerra já decidida. Não foi o que se viu.
Há também um bocado de irracionalidade - quase sempre de viés ideológico - nos dias de hoje.
Desconfio que qualquer coisa que os americanos fizessem seria alvo de severas críticas simplesmente porque foram os americanos que fizeram.
O irracional está na incapacidade de compreender que o terror protagonizado por Osama Bin Laden só tem paralelo quando comparado às grandes hecatombes da história, e como tal deve ser tratado.

O que é que se esperava, afinal de contas? Que ao encontrar Bin Laden se enviasse um juiz paquistanês prá bater-lhe a porta e entregar uma intimação dando-lhe 48 horas prá se apresentar à justiça?

Um abraço e parabéns pelo primoroso texto. Histórico, Realista, e desprovido de ideologia.

Walter Macedo,
Tyler - TX

sexta-feira, 6 de maio de 2011 00:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Briguilino, seu comentário é uma mostra de que, existem vítimas e vítimas. E que, seja lá por qual razão, se isso for razão, alguém quer arvorar-se em lograr, por estultice, escolher quem pode ser vítima e quem deve ser o algoz.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 6 de maio de 2011 15:21:00 BRT  

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