quinta-feira, 21 de abril de 2011

Quanto ou como? (21/04)

O que define se o sujeito quer, por exemplo, mais Estado ou menos não é apenas o quanto ele ganha. Mas também o como ele ganha seu dinheiro. Sabe-se disso há muito tempo. Talvez seja hora de recordar. Para evitar desperdício de tempo e energia

A nova classe média atravessou a semana nos píncaros. Só se falou dela. Todos querem saber como levá-la ao altar nas eleições.

Luiz Inácio Lula da Silva foi mais esperto que Fernando Henrique Cardoso. Ambos deram o recado sobre a necessidade de chegar nessa turma, mas FHC arriscou o chamado drible a mais. Resultado: trançou um pé no outro e caiu na área.

Nesta altura, certamente o ex-presidente tucano está arrependido de ter sugerido ao PSDB que deixe de disputar com o PT a influência junto ao povão.

Povão, nova classe média. É curioso como o debate político nos últimos dias acabou polarizado em torno de conceitos vagos.

Eis uma pergunta ao próximo político que enveredar. “Por favor, excelência, defina o que é nova classe média, e defina o que é povão.”

Lula colocou um corpo adiante da concorrência quando, aproveitando o tropeço do adversário, opinou que no fim das contas povão é todo mundo. Mas foi um gol retórico, produziu mais calor do que luz.

A verdade é que os políticos discorrem sobre um assunto do qual têm, ou parecem ter, apenas vaga ideia.

O rótulo de “nova classe média” acaba designando todo mundo que foi para as faixas intermediárias de renda.

Mas o que essas pessoas têm em comum, fora o fato de terem melhorado de vida? Pouco, quase nada. Ou nada.

Melhoraram de vida nos últimos anos, para começar, os muitíssimo pobres, graças principalmente aos programas sociais. Uma parte continua dependendo do repasse público de recursos. Outros, com a ajuda, conseguiram alcançar até o mercado de trabalho formal.

Será que os dois segmentos pensam da mesma maneira? Têm as mesmas aspirações? Os mesmos receios?

Difícil. O ainda cliente do Bolsa Família é mais vulnerável ao medo de perder o benefício. O que está no mercado formal deve andar ocupado é com ganhos salariais, direitos trabalhistas, capacitação, progresso profissional.

Melhoraram também de vida os não tão pobres. Graças aos aumentos reais no salário mínimo e à velocidade de formalização no mercado de trabalho. São tipicamente assalariados. É provável que raciocinem como assalariados.

Mas a expansão do consumo vitaminou também todo um universo de micro e pequenos empreendedores, para atender à nova e crescente demanda. Eles até podem ter parentes assalariados, mas dificilmente conseguirão raciocinar como assalariados.

Em vez de direitos e conquistas trabalhistas, estarão mais preocupados com a burocracia, os impostos, a segurança para tocar seu negócio.

E as novas levas de funcionários públicos admitidos nos muitos concursos dos últimos anos? Mesmo com parentes assalariados no setor privado, ou dedicados ao comércio, é pouquíssimo provável que suas aspirações sejam idênticas às deles.

E por aí vai.

Daí por que talvez separar a sociedade em grupos de renda possa ter alguma utilidade, mas fica longe de oferecer trilha segura para análises políticas, ou para a elaboração de estratégias políticas.

Talvez seja melhor recolher à velha e boa teoria social, que dá o devido valor à posição no processo econômico, na teia social de produção e acumulação de valor e riqueza.

Até porque se uns pedaços do povão têm interesses contraditórios com os outros pedaços, a mesma heterogeneidade comparece quando o observador mergulha nas camadas médias de renda para tentar entendê-las.

O que define se o sujeito quer, por exemplo, mais Estado ou menos não é apenas o quanto ele ganha. Mas também, e talvez principalmente, o como ele ganha o dinheiro.

Sabe-se disso há muito tempo. Talvez seja hora de recordar. Para as devidas providências. E para evitar desperdício de tempo e energia.

Dá um tempo

A presidente Dilma Rousseff poderia ter deixado passar um tempinho a mais depois da viagem à China, onde convenientemente colocou de lado o tema dos direitos humanos, para voltar a tentar vender o peixe da “centralidade” dos direitos humanos nas relações internacionais do Brasil.


Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (21) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Mais uma vez, contrariando o post, FHC fez a análise correta. O problema é que falar de "povão", só pode ser para adular, dentro do politicamente correto. Então, o presidente FHC não falou em adular o "povão", mas também não falou em desconsiderá-lo. Pelo contrário. Falou que o "povão" foi cooptado pelo PT. E no mérito, ninguém contestou. Onde está o erro e a ofensa, onde só há acerto? Pelo avesso, quando batizaram qualquer um de "elite", foi um bafafá de glórias. Principalmente, quando o então governador Lembo ensinou ao PT mais uma: "elite branca". Ai foi a glória do sétimo céu. O PT deveria ter filiado o Lembo e ter tirado a estátua de Borba Gato e colocado uma de Lembo no lugar. E a elite petista? Essa passou de fininho, quieta: elite é aquela, com aqueles que o Lembo falou. E mais uma vez, muitos aceitaram, compraram saíram distribuindo. Independente de ter uma elite petista identificada no estudo "O Ornitorrinco" de Francisco Oliveira. Se FHC tivesse falado que o "ornitorrinco" deveria ser destronado, não causaria angu de caroço algum. Afinal, quem leu o estudo do Francisco de Oliveira? E pela repercussão, muita gente leu e apreendeu a análise de FHC. Menos quem, só ouviu, de orelhada, que FHC tinha esnobado o "povão". Agora, de "povão", todo mundo, principalmente quem não é, se diz entender e representar. Pelo politicamente correto, isso seria um absurdo. Afinal, "povão" é "povão". Mas, há uma coisa de um lado e não as há de outro: como a impunidade e a inimputabilidade. Gente "incomum", é outra coisa. Tipo, aquele ditado das batatas. Bem, quem se saiu bem nisso tudo foi FHC. Sua análise repercutiu, despertou emoções e teve, talvez, o condão de fazer ler até quem dissesse e jurado de pés juntos que sentia azia quando lia, no caso, jornais. Mas, nada que um "honoris causa" não resolva e cobre mais responsabilidades com o que se fala. FHC deveria republicar sua análise de tempos em tempos. Mais gente leria e veria quem tem razão e quem só entra na maré daquele ritmo do Carnaval: "enrolation".
Swamoro Songhay

quinta-feira, 21 de abril de 2011 12:18:00 BRT  
Anonymous Lucinha Peixoto disse...

Adoro a maneira de você escrever e analisar os fatos e atos políticos, mas, agora que você deu para fazer análise filosófica (o que é classe média, o que povão, etc), como se isto fosse necessário para dizer alguma coisa sobre o jogo político, não gostei. O FHC, como o macaco, está certo. Nós da classe média, e eu me incluo ai é que vai procurar o povão (não sei o que é isto), mas na hora H, saberei, e mostrar que o Brasil melhorou não foi por obra e graça só do espírito santo Lula, e sim, e a transformação que o Brasil passou aconteceriam de qualquer forma sem ele. Hoje é impossível desprezar o povão para fins eleitorais, mas tivermos uma classe média que vá junto com o cordão dos puxa sacos, nunca viraremos o jogo.

Lucinha Peixoto (Blog da CIT)

quinta-feira, 21 de abril de 2011 17:08:00 BRT  
Blogger BlogdoIlha disse...

Alon
Foi bom você caracterizar alguns segmentos da chamada Nova Classe Média, cujos extratos têm mesmo aspirações e pensamentos diversos. Acho que é isso mesmo, só que até um certo ponto.

Há um outro aspecto a considerar. Os segmentos podem ter diferentes, mas não estão isolados entre si. Eles são interdependentes e há fluxo social entre eles. Como demonstrar isso? Uso o exemplo dos vários casos de famílias muito pobres em que os filhos conseguem, pelo estudo e trabalho, ascender a uma posição antes julgada inatingível.

Os que sobem na vida podem ter interesses diversos dos pais, mas mantêm seus vínculos afetivos e, pelo menos, grande parte dos valores do núcleo familiar.

Diferente de países europeus, há grande mobilidade social no Brasil. Por isso, quando se enxerga um certo extrato da Sociedade, não se pode considerar apenas uma fotografia do momento, mas uma sequência de fotos. Certamente, as fotografias dos segmento sociais, ao longo do tempo, revelarão suas próprias nuances.

Então, o que se pode tirar disso tudo?

Sou engenheiro e, por isso, minha primeira sugestão é obter logo uma fórmula, uma equação que considere o peso de cada variável da Sociedade e que sirva de ferramenta para a elaboração de políticas sociais.

É uma fórmula evidentemente empírica, mas acredito que factível.

Outra sugestão é, a partir da análise das fotografias, vislumbrar quais os anseios e valores de quem veio do andar de baixo. Para mim, são eles que representam a maior parte da mobilidade social e seria bom saber, por exemplo, se tendem a se apegar mais fortemente ao que conquistaram, se revelam comportamentos conservadores ou se são mais desprendidos dos valores materiais.

Essa questão deixo para quem entende melhor do assunto. Mas, daqui do meu Posto de Escuta Radiofônica, o que tenho percebido é que a Nova Classe Média apresenta-se dividida em algumas estações, mas que não há grandes diferenças na sintonia de cada uma delas.

quinta-feira, 21 de abril de 2011 17:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Só a China? Os EUA,são por acaso, modelo ,no trato dos direitos humanos e similares? Uma nação que criou ,manteve e defendeu politicamente um centro de torturas reconhecido mundialmente,como a Escola das Américas,no Panamá,o que postula? O Oscar da "Hipocrisia&Cinismo"?
E continuou ao longo do século passado e ainda neste a ignorar o que apregoa as demais nações.
E, democracia? Vale para a Líbia,mais do que para Honduras?
Seria cômico, senão estivesse ocorrendo uma guerra civil,indagar enfáticamente:quando e em que momento da sua história,a Líbia desfrutou da chamada"democracia"?
Não querem restituir,mas impor algo que nunca tiveram e desconhecem.
Kadafi ,despacha de uma tenda e sua liderança é tribal.Talvez o obriguem a usar terno e gravata,também. Sem dúvida,lembra a colonização imposta aos indígenas, impingindo,fé, costumes e hábitos.Falta uma ONG,para defender a Líbia da civilização ocidental e cristã...

quinta-feira, 21 de abril de 2011 19:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Será que vale a pena para um partido de trabalhadores rumar à direita tanto assim somente pela conquista do poder? O PSDB que se dizia social democrata fez isso, e, vamos e venhamos, se deu mal, pois não encontra mais o caminho de casa. O PT de hoje teve sorte, com a crise de 2008, que na verdade foi o corolário de um processo que vinha oculto, e por isso ele obteve sucesso na liderança política ideológica, a partir de um projeto social-democrata. Poderíamos cunhar a social democracia do PT de real, frente à social democracia de 'araque' do PSDB, (no passado se falava do socialismo real dos soviéticos e aliados frente a um socialismo de intenções, que nunca alcançava seus termos e vigorava no ocidente). Bom, essa social democracia real exigiria firmeza de posições ideológicas, as quais de forma nenhuma excluiriam a democracia, e, por isso mesmo, dever-se-ía desconfiar de consensos tão amplos, além de se 'vacinar' contra as contaminações à direita, as mesmas a que estiveram sujeitas o PSDB, e que afinal, é possível depreender do artigo de FHC que o partido ficou completamente distante de um projeto realmente social-democrata.

quinta-feira, 21 de abril de 2011 22:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

[e defina o que é povão. ] Isso sempre foi quem não tem mais do que um pão por dia.

sexta-feira, 22 de abril de 2011 23:29:00 BRT  

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