terça-feira, 26 de abril de 2011

Obviedades fraturadas (26/04)

O espaço do que deveria ser ocupado pelo governo que luta na sociedade por sua posição política é preenchido por obviedades fraturadas, quando o “por um lado” e o “por outro lado” dançam uma valsinha sem sentido prático

A presidente Dilma Rousseff disse ontem que o governo quer combater duramente a inflação. Mas todos os sinais vindos do Planalto e da Esplanada, na luz e na sombra, trazem outra lógica.

De que para este governo o limite do combate à inflação é o robusto crescimento econômico. Ou seja, a administração Dilma não está disposta a desacelerar a economia para conter os preços.

Eis um traço. O poder, especialmente a chefe, diz uma coisa, mas o que aparece da ação governamental é diferente. Algumas vezes, como no caso da inflação, é o oposto.

Semana passada Dilma discursou no Itamaraty reafirmando a centralidade dos direitos humanos nos critérios para definir a conduta do Brasil diante de outros países.

Apenas dias antes tinha voltado da China, onde se esqueceu solenemente de tocar no assunto para valer.

A ministra da área, Maria do Rosário, afirma que para o Brasil os direitos humanos são inegociáveis. Com a China, pelo visto, foram objeto de negociação. Ou de renúncia. Aliás, a ministra esteve na viagem à China?

A inflação e os direitos humanos nas relações internacionais são talvez os dois pontos de maior nitidez da tendência de o discurso e a ação caminharem independentemente, por universos paralelos.

Mas serve também para a política propriamente dita. No discurso, a administração é republicana. Na ação, são frações do Estado atuando para desmontar a oposição.

O que é legítimo, mas fruto também de ilusões sobre o monopólio do poder. Pois se existe oposição social ela acaba abrindo uma válvula. Políticos da oposição quando aderem ao governo não carregam com eles, automaticamente, os eleitores.

Se até nas ditaduras uma hora a coisa pega, vide Líbia e Síria, quanto mais nas democracias. O rio sempre encontra um caminho para o mar.

Um problema da ausência de oposição política formal é a oposição social instalar-se nos intestinos do governo, e acabar por paralisá-lo. Derrotá-lo de dentro.

Quem conhece, por exemplo, a opinião do Palácio do Planalto sobre as mudanças no Código Florestal?

A verdade é que não há uma opinião “do governo”. Há uma ação de governo para evitar que a maioria claramente antipetista neste ponto se expresse na Câmara dos Deputados e no Senado.

O que se pode chamar mais propriamente de “o governo” torce pela aprovação do relatório do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), mas torce escondido. Inclusive alguns que supostamente têm reservas ao relatório.

Ao mesmo tempo, é preciso salvar a face do PT, sem desagradar porém à bancada da agricultura.

Um resultado prático desse mosaico sem norte é o acacianismo. O espaço do que deveria ser ocupado pelo governo que luta na sociedade por sua posição política é preenchido por obviedades fraturadas, quando o “por um lado” e o “por outro lado” dançam uma valsinha sem sentido prático.

Como a nota de ontem do Itamaraty sobre o massacre de manifestantes oposicionistas desarmados na Síria. O Brasil, por um lado, é contra a repressão. Por outro lado, é contra a ingerência externa nos assuntos sírios, a não ser se aprovada pela ONU.

Mas a conduta do Brasil na ONU tem sido discursar sistematicamente contra o uso da força militar para conter regimes tirânicos que decidem massacrar o povo. Aliás, a própria nota do Itamaraty desrecomenda o emprego da força contra Damasco.

Uma alternativa, então, seriam as sanções. Mas o Brasil tampouco é simpático a elas. Como está fartamente evidenciado no caso do Irã.

Pensando bem, talvez o único momento em que se viu uma ação coordenada e efetiva de governo nestes meses tenha sido a troca de comando da Vale.

O que foi feito?

Que porcentagem das dificuldades econômicas de Cuba decorre do embargo americano? Eis um debate.

Debates à parte, algo é bem certo. Tivesse Cuba produzido no último meio século pelo menos uma agricultura de alto nível, estaria posicionada para pegar a onda planetária ascendente dos preços da commodities.

Não produziu e não está.

Há países que por um longo tempo apoiam a economia em subsídios externos. A diferença é que uns usam o dinheiro bem. Outros não.

Afinal, o que fizeram os cubanos com as cordilheiras de recursos que durante três décadas os soviéticos colocaram ali?

É uma curiosidade.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (26) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

1) Inflação. A inflação pode fazer o trabalho de ajustar as contas públicas. Mais do que o prometido corte de R$ 50 bi, anunciado, criticado como ineficaz por inexequível e deixado às calendas. Aliás, como prometer cortar R$ 50 bi e tocar a Copa 2014, as Olimpíadas 2016 e o trem-bala?
2) Crescimento. Como combater a inflação sem tréguas, sem comprometer o crescimento da economia, sem cortar gastos e sem ajustar a máquina pública por mais eficácia? A Academia Sueca deve estar ansiosa por saber.
Swamoro Songhay

terça-feira, 26 de abril de 2011 17:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Tem uma outra pergunta que pode ser interessante, e talvez nos dar uma boa medida do que deve acontecer dentro da realidade cubana. Que tamanho teria uma tal cordilheira de recursos que num país como o Brasil o levasse a dispor de um sistema de saúde parecido com o de Cuba? E ainda, quanto mais alta deveria ser tal cordilheira, se, com a nossa pretensão de país olímpico pudéssemos chegar entre os cinco ou quem sabe três primeiros medalhistas em 2016? Acho importante nos esforçarmos para responder tais perguntas para responder a charada proposta por você.
Ismar Curi

terça-feira, 26 de abril de 2011 18:15:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, é muito oportuno esse teu post. Lembro da oposição, desconsolada, reclamando, mas sem razão a meu ver, que Lula que dissera aquilo fazia então o contrário. Dilma radicalizou: a incongruência entre as palavras e os atos passa a ser concomitante. Já dizia o grande Odorico Paraguaçu – o da novela o Bem Amado, não o do filme, que ficou muito aquém –, “palavras são palavras, nada mais que palavras”, desautorizando, com eloqüência de palanque, o próprio discurso. Agora sim, o público pode denunciar o escárnio. Talvez ela acredite que o discurso se resuma a escusas protocolares às “zeltes”, ao circo mediático, que isso não chegue ao eleitor, de todo modo. Pode ser também que considere que a meta de 4,5% de inflação é exageradamente baixa, afinal os militares com todo o “arrocho” salarial (era assim que dizíamos, não?) e todas aquelas malvadezas de então, conseguiram quanto de inflação? Não menos de 20%! Para que sacrificar o crescimento perseguindo mais? Ou acredite ainda que o eleitor, afinal de contas, não vai se importar com 10% ou 15% de aumento nos preços, não é mesmo? Bem, acho que ela está redondamente enganada, em todos os casos. O ganho, e o bom da democracia é que mesmo nesses casos há um ganho, é que o eleitor entenderia que inflação não se combate com medidas macro prudenciais ou outro feitiço de invenção recente, e que combater a inflação têm custo. Numa próxima lição aprenderá que esse custo pode ser menor, se menor for o Estado. Inexplicável, surpreendente, mas o eleitor aprende de fato. Não reage de imediato, como fazem as cortes, até porque não tem canais para reagir, mas escuta e julga o dono ou dona do poder.

quinta-feira, 28 de abril de 2011 15:11:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

quinta-feira, 28 de abril de 2011 16:06:00 BRT  

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