quarta-feira, 6 de abril de 2011

O terceiro movimento (06/04)

A “nova política” de direitos humanos nas relações internacionais vai dar as caras na viagem de Dilma Rousseff à China? Ou o tema vai ficar na gaveta que guarda as boas intenções irrealizáveis na vida prática?

O ex-ministro Celso Amorim sempre pode esperar alterações no sentido dos ventos, mas vai forte a ventania contra ele nesta largada de governo Dilma Rousseff. A nova administração faz questão de —para usar o vocabulário da esquerda— demarcar campo com a anterior na conexão entre os direitos humanos e as relações internacionais.

Amorim é um diplomata profissional internacionalmente reconhecido, e teve convicção do que fazia na chancelaria. Por justiça, diga-se que ele apenas radicalizou uma orientação histórica do Itamaraty. Colocar os direitos humanos em primeiro plano nunca foi nossa política nas relações exteriores.

Nem nos governos do PSDB, um crítico firme da administração Amorim.

Só que o tema acabou tomando importância na disputa presidencial de 2010, abriu uma faixa interessante para a oposição ocupar. E os sinais são de que Dilma decidiu fechar a autopista, pegar o assunto para ela e evitar o alargamento do fosso entre o PT e o pedaço da sociedade que é mais sensível à agenda.

A mudança também é útil na reconstrução de certas pontes com o chamado Ocidente. Se com Lula o Brasil acabou empurrado para uma tentativa —frustrada— de liderança do Terceiro Mundo, com Dilma as coisas parecem percorrer uma estratégia mais múltipla.

Se Amorim é craque na diplomacia (só perde gol quem chuta a gol), ainda precisa matricular-se no cursinho para o vestibular da faculdade de política em que Luiz Inácio Lula da Silva foi pós-doutorado. Tem faltado a Amorim algum senso de oportunidade, alguma frieza. Tem passado muito recibo.

Bastou o vento mudar e o ex-presidente abandonou o fiel chanceler, que agora tenta explicar sozinho por que o Brasil passou a mão na cabeça de um Irã que não apenas nega o Holocausto, também mostra boa disposição para promover um segundo genocídio daquelas proporções (ou primeiro, na particular contabilidade dos aiatolás).

O problema de Amorim é explicar-se, mas o de Dilma é mais complexo. Ela precisa executar a tal política na prática. A empreitada começou em mar de almirante, com o Brasil desfilando na ONU um voto contra o Irã.

O segundo momento foi mais complicado, pois o Brasil decidiu ficar em cima do muro quando o Conselho de Segurança votou a intervenção na crise líbia.

Agora vem o terceiro movimento. Dilma Rousseff vai à China, que tem um rosário de pendências na área. Dissidentes presos, recusa a ouvir reclamos autonomistas de minorias, restrições à liberdade de usar a internet. Nem sombra de liberdade de expressão, ou sindical, ou partidária.

No viés clássico da diplomacia brasileira a saída seria fácil. São assuntos internos da China, e vale mais estabelecer boas relações para poder influir pelo diálogo, e sem estridência.

O Brasil não dá lições a ninguém, pois tampouco aceita lições dos outros.

Tudo muito bonito, mas aqui o chanceler precisaria chamar-se Celso Amorim, e não Antônio Patriota. E não combina com o figurino desenhado para Dilma, a presidente que supostamente não tolera agressões aos direitos humanos porque ela própria foi vítima de coisas assim no passado.

Vai ficar mal se Dilma passar pela China sem nem tocar no assunto. Vai levantar dúvidas sobre o limite entre a convicção e o marketing na política dilmista para os direitos humanos em escala global.

Verdade que mexer a sério com a China não é um hábito nem entre as maiores potências. O Brasil sempre poderá alegar que nosso eventual cinismo apenas reproduzirá um comportamento disseminado.

Mas há uma diferença. Fora os Estados Unidos, somos o único líder planetário que faz agora questão de alardear uma centralidade dos direitos humanos na maneira como nos relacionamos com os outros.
 
Tal pai, tal filho
 
A “invencível armada” para vender o etanol de cana como biocombustível planetário, numa era de inflação estrutural dos preços dos alimentos, ameaça acabar como seu antecessor, o Proálcool.

De pires na mão atrás de dinheiro do Tesouro para bancar estoques reguladores e socializar os maus negócios.

O Brasil falhou na tentativa de criar um mercado mundial de etanol. A discurseira sobre o pré-sal encobriu esse triste (ou não) fato.

A conta está aí.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (06) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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7 Comentários:

Anonymous Ticão disse...

Nessa questão da China só me resta arriscar um palpite. E a minha aposta é que a Dilma não vai levantar essa questão de direitos humanos. E acho melhor aguardar os EUA começarem a aplicar sanções comerciais à China tendo como justificativa combater a falta de democracia por lá.

quarta-feira, 6 de abril de 2011 05:01:00 BRT  
Blogger pait disse...

Uma aposta é que no dia da visita a China faça um gesto simbólico do tipo soltar um blogueiro ou advogado preso. A torcida ficaria contente. Na China há tanto preso político que não seria um grande sacrifício para os ditadores, resta saber se vão querer abrir precedente.

quarta-feira, 6 de abril de 2011 11:11:00 BRT  
Anonymous JúlioFábio disse...

Quando da visita do Presidente do Irã ao Brasil em 2009, salvo engano, assisti a entrevista dele ao Willian Wack, na Globo News, na qual, sobre o holocausto, ele afirmou que a ele não interessa se houve ou se não houve. O que ele afirmou foi que o holocausto foi um problema dos europeus, e que portanto, não deveria ser solucionado às custa das terras dos palestinos, como ocorreu. Daí o fato de o Irã não concordar com a existência de um estado - Israel - imposto aos árabes pelos ocidentais vencedores de uma guerra, travada na Europa, contra outros ocidentais. Finalizando pergunto: qual a fonte que atesta que Armadinejad nega o holocausto?

quarta-feira, 6 de abril de 2011 14:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pelo que pode ser notado, não tocado o assunto direitos humanos na visita à China. O ex-presidente reconheceu a China como economia de mercado. E nem tocou no assunto direitos humanos. E nem recebeu apoio da China para o CS da ONU. Na Rússia, o ex-presidente, em entrevista coletiva junto com Medvedev, falou que havia passado "a adolescência sendo contra a invasão do Afeganistão pela Rússia". Quem invadiu o Afeganistão foi a URSS e não a Rússia. Medvedev interrompeu a entrevista. E a Rússia também não deu apoio ao Brasil sobre o CS da ONU. A presidente, portanto, não deve ter algo que possa referendar a citação dos direitos humanos na China, exceto pela linguagem cuidadosamente protocolar.
Dawran Numida

quarta-feira, 6 de abril de 2011 14:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Isso é que é botar o dedo na ferida...Não essa coisa ridícula que muitos articulistas conservadores vem tentanto que é fraturar a relação entre Lula e Dilma

Ismar Curi

quarta-feira, 6 de abril de 2011 19:41:00 BRT  
Anonymous José Fuad Assad disse...

Julio:

O google resolve essa sua dúvida sobre Ahmadinejad. Quando a dizer q Israel é uma criação artificial do Ocidente, simplesmente não é verdade. Quem mais apoiou a criação de Israel foi a União Soviética, e o Reino Unido se absteve na votação da ONU que dividiu a região entre um estado árabe e um judeu. Não reproduza os argumentos de um neonazista. Não foca bem tentar falsificar a história.

quinta-feira, 7 de abril de 2011 09:10:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Essa coisa de ficar tentando justificar o que diz o Ahmadinejad, não passa de uma vesguice na análise da política internacional. Até o ex-presidente brasileiro parece ter aberto mão de segurar esse abacaxi. Porém, pelo visto, deixou alguns órfãos com a brocha na mão: sem escada e sem parede. O mesmo com Honduras, Egito, Líbia...Botou fogo no circo e saiu de fininho.
Swamoro Songhay

domingo, 10 de abril de 2011 19:39:00 BRT  

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