domingo, 1 de maio de 2011

Memórias recentes (01/05)

Em política as coisas precisam ter algo de natural. Se você depende de um consórcio para chegar ao poder e manter, você não pode agir como se estivesse sozinho no picadeiro

Nesta altura do campeonato há poucas razões para discordar de que foi desastrosa a política desenvolvida pelo PSDB na eleição municipal de 2008 em São Paulo.

Enquanto em Minas o então governador Aécio Neves montava uma coligação belorizontina em torno do PSB, para tirar a prefeitura das mãos do PT de modo indolor, em São Paulo o PSDB conseguia a proeza de lançar candidato contra seu próprio governo.

José Serra havia derrotado o PT em 2004, perdera a disputa pela legenda presidencial em 2006 e saíra para concorrer ao governo do estado. Ficou na cadeira o vice, Gilberto Kassab, do Democratas.

Com a gestão bem avaliada e realizações a exibir, era natural que Kassab concorresse à reeleição. Mas o PSDB decidiu lançar Geraldo Alckmin, que nem chegou ao segundo turno. Ficou atrás do vitorioso Kassab e da ex-prefeita Marta Suplicy.

Alckmin que, aliás, já havia sofrido o dissabor de um terceiro lugar na corrida paulistana. Quando era vice do governador Mário Covas em 2000.

O PSDB nunca teve pernas sólidas no terreiro paulistano. Só ganhou uma eleição, a de Serra em 2004. A rotina tucana em São Paulo é perder.

Antes das duas tentativas frustradas de Alckmin, o pré-tucano Fernando Henrique Cardoso (ainda pelo PMDB) perdera para Jânio Quadros em 1985. O próprio Serra havia perdido em 1988 e 1996. O então ainda tucano Fábio Feldmann perdeu em 1992.

Na capital de São Paulo o PSDB quer cantar de galo em terreiro alheio.

Em política as coisas precisam ter algo de natural. Se você depende de um consórcio para chegar ao poder e manter, você não deve agir como se estivesse sozinho no picadeiro. O PT levou um certo número de anos para compreender esse detalhe, mas parece ter compreendido.

Já o PSDB aparenta estar desaprendendo. Ou talvez nunca tenha entendido de fato que a política se faz com alianças -e a brasileira mais ainda, dada a pulverização do cenário partidário.

PT e PSDB têm raiz comum. Surgiram nos anos 80 em São Paulo -o PT antes e o PSDB depois- em reação ao PMDB, ao aliancismo, às frentes políticas. Hoje os herdeiros empobrecidos daquele neoudenismo vagam por aí lamentando a “repeemedebização” da política nacional.

Uma vantagem atual do PT é ter se livrado do modelito. Já o PSDB vive sua era de regressão psicanalítica. A proeza mais recente é ter forçado a luta interna do Democratas ao ponto de levar o único aliado ao limite da autodestruição.

Quatro anos depois, o PSDB em Belo Horizonte -lugar onde o tucanismo igualmente sofre de fraqueza crônica- trabalha para manter a aliança com o PSB do prefeito Márcio Lacerda. Já o PT, que tem a vice de Lacerda, ensaia uma ruptura. Em busca de "espaço".

Tucanos e petistas têm mesmo coisas em comum.

Terrível

As contas do governo federal vão bem, graças principalmente à forte anabolização da receita proveniente dos impostos e contribuições.

Aliás, esse nome de "contribuição" é das coisas mais perversas já inventadas.

O governo ressuscita a velha fórmula de surfar na inflação. Era muito comum antes do Plano Real. A soma de dois crescimentos, da economia e dos preços, abastece as arcas federais e hoje permite uma boa sobra para pagar juros.

Ou seja, o governo faz o ajuste às custas de quem não tem como se defender da corrida dos preços.

Exatamente como previsto aqui quando se votou no Congresso Nacional o novo salário mínimo.

Os números da receita já estão a comprovar que o governo tinha como dar algum aumento real ao mínimo e às aposentadorias, nem que na forma de antecipação.

Já se sabia disso. Não houvesse a previsão de receita -que agora se confirma- o governo não teria assumido compromisso com os 14% de reposição no janeiro vindouro.

Alguém da oposição vai reclamar? Provavelmente não. Estão felizes pelo fato de o PT cumprir religiosamente as metas fiscais. Poderão choramingar que o PT reza pela cartilha tucana enquanto trabalha para destruir o PSDB.

E estão muito ocupados exigindo explicações sobre por que só agora o governo decidiu privatizar os aeroportos.

Um questionamento que certamente provocará desgaste terrível na imagem do governo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (01) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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6 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Falando em "modelitos", o que representou para você a eleição do Rui Falcão?

O PT de São Paulo há anos é um fiasco eleitoral [veja o sufoco que foi a eleição da Marta em 2010 e não vamos esquecer que o Nordeste foi determinante para a vitória de Dilma]. Então, por que os petistas de SP ainda conservam tanto poder no controle da máquina partidária? E o poder do Zé Dirceu? De onde vem? Por que os petistas dos outros estados da federação dobram os joelhos aos de São Paulo?

domingo, 1 de maio de 2011 20:31:00 BRT  
Anonymous Amanda disse...

Discordo. A vitória de 2008 de Kassab foi a vitória do então governador Serra.

Não foi o PSDB quem lançou Alckmin para prefeito em 2008, foi o próprio Alckmin que se lançou.

Serra já havia até fechado a chapa de Kasab com o PSDB, onde o tucano Andrea Matarazzo, então grande secretário de Kassab seria o vice.

Alckmin rompeu esse acordo. Serra não quis comprar briga direta dentro do partido, evitou as prévias, e deixou Alckmin ser candidato.

Então Serra ofereceu ao PDMB de Quércia a vice de Kassab em troca de Quércia ter uma das vagas de Senador no ano passado, como de fato aconteceu, mas Quércia acabou falecendo.

Se Serra tivesse apoiado Alckmin, a história teria sido outra.

domingo, 1 de maio de 2011 21:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Escrever que o PT e o PSDB tem raizes comuns só por questões geográficas e datas de fundação é simplista por demais quando estamos a fazer comentários sobre polític.
Ismar Curi

segunda-feira, 2 de maio de 2011 18:46:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Ismar

As raízes comuns ao PT e PSDB [ou DNA, para continuar na metáfora orgânica] não são meramente geográficas. Em sua esmagadora maioria, na origem de ambos os partidos estão intelectuais [no sentido de Lenin/Gramsci] ligados à Igreja Católica, representada pelos remanescentes da velha Ação Popular-AP [incluída a turma da teologia da libertação/Comunidades Eclesiais de Base-CEBs], e marxistas-leninistas de variados matizes, mas cuja origem orgânica remete ao antigo Partidão-PCB.

Os trotskistas, assim como alguns militantes egressos do PCdoB, entraram no PT um ou dois anos depois da sua fundação.

A nova militância operária e camponesa presente na fundação do PT era em grande parte ligada às organizações de base da Igreja Católica. Não por acaso a fundação do PT aconteceu no Colégio Sion.

Lula foi levado ao sindicalismo pelo irmão Frei Chico que militava no PCB. Lula não entrou para o PCB, ou melhor, fez questão de mostrar-se independente e apolítico [ele era declaradamente contra os "ismos"] porque tinha plena consciência de que não haveria futuro político para ele caso agisse de outro modo. Lula aproximou-se da esquerda leninista nos estertores da ditadura, isto é, depois da Lei da Anistia (28/08/1979).

E vamos lembrar que a inserção política de Lula no "novo sindicalismo" deu-se ao mesmo tempo em que o irmão comunista era impedido pela ditadura de assumir a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano.

Você sabe que Perseu Abramo não foi fundador do PT? Ele foi ao ato de fundação na condição de repórter do Jornal Movimento.

Você sabe que o Jornal Movimento constituiu uma ampla frente política de esquerda que antes esteve no Jornal Opinião?

Meu caro Ismar, Alon é macaco velhíssimo e conhece muito bem todas essas cumbucas.

terça-feira, 3 de maio de 2011 18:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito bom, Paulo Araújo. Um retrospecto interessante. Mas, pelo bem de todos e felicidade geral da Nação, que fiquem bem longe uns dos outros.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 5 de maio de 2011 13:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Calma Paulo e Swanoro

Quando rechacei raízes comuns eu pensei entre outras coisas que o PSDB formou-se basicamente pelo fator 'K', ou melhor, pelo Fator 'Q' de Quércia. Eu que estou radicado em Campinas desde o início da década de 80 do século passado lembro-me bem da expressão que tinham esses intelectuais dos quais voces falam, mas, existiam dentro do PMDB ,- partido hegemônico à época. Esses intelectuais que não suportavam a pressão da potência quercista, fizeram uma grande reunião aqui mesmo em Campinas, onde estiveram entre outros: FHC, Serra, Covas, recepcionados pelo velho Magalhães Teixeira, o Grama, então prefeito de Campinas, já falecido, assim como o próprio Quércia: o causa e efeito do PSDB. Aquela reunão foi a decisiva opção pela criação de um novo partido. Eu, que à época trilhava o caminho do apoio ao Partido dos Trabalhadores, era diretor do Centro Acadêmico Armando Sales de Oliveira, e entrei em choque com meu colega de república e presidente do CAASO da USP de São Carlos, Félix Pintor Agra, que engalanado, resolvera ir até Brasília para assinar a ata de filiação desse partido, dito social democrata, e que já nascia arrogante e prepotente, - não me esqueço da bravata de que o PMDB, com a formação do PSDB, teria preservado seu corpo, porém perdido sua cabeça. Tem mais, tem muito mais estórias que me fazem rechaçar essa noção de raízes comuns, mas, o espaço aqui é curto e meu tempo exíguo...
Ismar Curi

sexta-feira, 13 de maio de 2011 15:46:00 BRT  

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