sexta-feira, 1 de abril de 2011

Gosto pelo teatro (01/04)

O governo brasileiro é assim. Adora receber elogios do FMI, do Banco Mundial, da imprensa estrangeira especializada, dos banqueiros, das agências de classificação de risco. Mas adora também falar mal dessa turma, dos “loiros de olhos azuis”, talvez para arrancar lágrimas e suspiros do pessoal do “outro mundo possível”
 
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Portugal e aconselhou os irmãos lusos a recusar a interferência do FMI. Portugal anda à beira da quebra. E sem governo, pois o gabinete caiu depois de falhar quando tentou no parlamento apoio político para medidas de austeridade.

Mas alguém vai ter que pagar a conta do ajuste português. Quem vai ser? A União Europeia? A Alemanha? As urnas do último fim de semana não foram exatamente estimulantes para a chanceler alemã, Angela Merkel. Como o eleitor dela reagirá quando propuserem a ele ficar com a dolorosa?

Os europeus certamente encontrarão um caminho para sair do enrosco de ter a periferia financeiramente complicada. É o caso de acompanhar. A Europa já se recuperou de coisas piores.

Mas não dá para passar batido pelas palavras do nosso ex-presidente.

Lula é o inventor de uma fórmula quase imbatível. Executar a política do FMI e atacar o FMI. É um estilo. Foi bem descrito nos telegramas vazados pelo WikiLeaks sobre as conversas reservadas da diplomacia norte-americana com a cúpula petista.

Endurecer verbalmente em público, ceder à realpolitik no particular.

No que exatamente Lula deixou de executar a essência das políticas preconizadas pelo FMI? Desde que o mundo é mundo o FMI só pede uma coisa quando vai socorrer alguém: que esse alguém se organize e mostre capacidade de pagar as dívidas.

Foi o que fez o Brasil no governo Fernando Henrique Cardoso, e continuou fazendo no de Luiz Inácio Lula da Silva. Organizou-se, institucional e operacionalmente, para ter uma razoável sobra de caixa antes de contabilizar encargos financeiros. É o tal superávit primário.

Sem falar na disciplina contábil empurrada manu militari a estados e municípios.

A linha dura imposta ao Brasil após décadas de experimentação foi quem colocou nossa economia nos trilhos. Tanto é assim que Dilma Rousseff mal assumiu e se apressou a declarar que faria um baita corte no orçamento. Para sobrar todo o dinheiro necessário ao equilíbrio das dívidas.

E talvez algum para investimentos. Mas em segundo plano. Importante é ter credibilidade, é ter o respeito dos credores.

Também por isso os trabalhadores que recebem salário mínimo e os benefícios previdenciários indexados ao mínimo ficaram este ano sem qualquer reajuste acima da inflação medida em 2010. Alguém ouviu o FMI reclamar?

Ou seja, Lula praticou na terra dos patrícios o velho método do “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço”. Rebeldia para consumo externo, enquadramento na vida real.

O governo brasileiro é assim. Adora receber elogios do FMI, do Banco Mundial, da imprensa estrangeira especializada, dos banqueiros, das agências de classificação de risco. Mas adora também falar mal dessa turma, dos “loiros de olhos azuis”, talvez para arrancar lágrimas e suspiros do pessoal do “outro mundo possível”.

Adora mesmo é um teatro.
 
Mistério
 
A sobrecarga e a aproximação da Copa do Mundo aumentam a pressão para que o governo faça algo nos aeroportos brasileiros.

Aeroporto é atividade monopolista. Não tem concorrência. E tem receita garantida. Um ramo completamente vocacionado para a gestão estatal.

Bastaria fazer um plano e executar.

Se o PT estivesse na oposição, alguém do PT observaria o cenário e diria que a atividade aeroportuária no Brasil está sendo sucateada para fins de privatização.

A boa surpresa é que as novas autoridades da área parecem — atenção, parecem — não comprar facilmente a tese de que privatizar é a solução mágica.
 
Dobradinha
 
O PT não tinha maioria para aprovar o voto em lista fechada na comissão especial do Senado que discute a reforma política, mas mesmo minoritário emplacou a proposta, graças à abstenção do PSDB.

Pela primeira vez, o caminho está aberto para o voto em lista fechada, preordenada, caminhar bem no Congresso Nacional.

Se a dobradinha prosseguir, é claro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (01) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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12 Comentários:

OpenID tuliovillaca disse...

Discordo da avaliação de que o Lula tenha seguido recomendações do FMI à risca, e aponto onde: nunquinha que o FMI iria indicar o grosso investimento anticíclico que foi feito, principalmente via BNDES, no meio do salve-se-quem-puder da crise. A receitinha nessas situações é sempre o contrário, o corte de gastos, a diminuição do Estado - exatamente o contrário que o Lula fez. Se agora o ajuste fiscal se faz necessário e há risco de inflação, como estaríamos se a indústria não tivesse ao menos voltado aos níveis anteriores? Com o Lula, em vez de se cortar na Previdência, o emprego formal cresceu. Acho que é uma diferença mais que significativa.

sexta-feira, 1 de abril de 2011 14:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A vida é sempre uma contradição, tem muita gente que se declara de esquerda, mas, na realpolitik apresenta uma linhagem (linhas escritas, no caso de jornalista) liberal. O caso é que se a gente, - que é de esquerda diz que isso é a 'nefasta herança maldita', - pronto, esses mesmos jornalistas vão dizer que é chavismo puro. Esse post seu me lembrou o comentário do Merval Pereira de que Lula falava mal dos loiros de olhos azuis para depois negociar com eles. Achei pura inveja de jornalista. Afinal político bom é bom frasista (e jornalista também tem que ser bom frasista), e essa da culpa dos loiros de olhos azuis, foi muito boa, a frase certa na hora certa, por isso ganhou mundo...
Ismar Curi

sexta-feira, 1 de abril de 2011 15:07:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

A humanidade toda aplicou políticas anticíclicas, Túlio. Com o apoio e a intensa participação dos EUA.

sexta-feira, 1 de abril de 2011 17:18:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Ismar,

Qdo até um cara articulado como você precisa escorregar dessa maneira é porque talvez meus argumentos tenham sido bons.

sexta-feira, 1 de abril de 2011 20:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Bom você ter deixado o Link para as conversas reservadas da diplomacia norte-americana com a cúpula petista. Na época não havia lido a reportagem desses vazamentos. Como sempre os vazamentos do WikiLeasks não apresentam nenhuma novidade.
Fiquei bem interessado nas conversas porque não reparei no seu jogo com as palavras. Você diz:
"Lula é o inventor de uma fórmula quase imbatível. Executar a política do FMI e atacar o FMI".
E na seqüência você diz:
"Foi bem descrito nos telegramas vazados pelo WikiLeaks sobre as conversas reservadas da diplomacia norte-americana com a cúpula petista".
Eu devia ter percebido que o gênero não combinava, pois "a formula" é feminino. Relendo vi que você se referia ao estilo. E lá na sua frase ficou tudo de bom tamanho, pois não se referiu ao "estilo do PT", mas como está na frase que intercala a frase do comportamento de Lula e a frase dos vazamentos do WikiLeaks:
"É um estilo",
Que é de todos.
Talvez o mais interessante seria ter transcrito a fala do ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown, há dois anos, durante coletiva ao lado do presidente americano, Barack Obama, como pode ser visto na reportagem
"Brown cita críticas de Lula em entrevista com Obama" (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/04/090401_brown_obama_dg.shtml) nos dois parágrafos trascritos a seguir:
"Obama falava aos jornalistas sobre a necessidade de se buscar soluções em vez de apontar culpados pela crise. Ao falar sobre o tema, Brown citou uma crítica que ouviu do presidente brasileiro.
"Eu estive na semana passada no Brasil e eu acho que o presidente Lula vai me perdoar por citá-lo. Ele me disse: 'Quando eu era sindicalista, eu culpava o governo. Quando eu era da oposição, eu culpava o governo. Quando eu virei governo, eu culpei a Europa e os Estados Unidos'", disse Brown, arrancando sorrisos de Obama".

Frase que certamente Lula poderia utilizar para dar continuidade ao debate depois do belo achado do "louro de olhos azuis", dizendo que Gordon Brown teria esquecido de complementar que ele, Lula, teria dito em seguida que
"Em todas as vezes, eu, Lula, estive certo".
Bem, mas não foi isso que me chamou mais a atenção no seu post "Gosto pelo teatro" de sexta-feira, 01/04/2011. O que me chamou atenção foram os dois seguintes parágrafos:
"No que exatamente Lula deixou de executar a essência das políticas preconizadas pelo FMI? Desde que o mundo é mundo o FMI só pede uma coisa quando vai socorrer alguém: que esse alguém se organize e mostre capacidade de pagar as dívidas.
Foi o que fez o Brasil no governo Fernando Henrique Cardoso, e continuou fazendo no de Luiz Inácio Lula da Silva. Organizou-se, institucional e operacionalmente, para ter uma razoável sobra de caixa antes de contabilizar encargos financeiros. É o tal superávit primário".

Ora, aqui quem tem direito de reclamar é Fernando Henrique Cardoso. Ele pode bem dizer:
"Espere lá, eu nunca cumprir o que foi acordado com o FMI.
O Lula pode até alegar que ele não fez acordo com o FMI, mas ele sempre fez o que o FMI considerava como o correto, pelo menos enquanto ele achou que as políticas preconizadas pelo FMI estavam corretas ou pelo menos enquanto ele não tinha forças políticas para implementar uma política alternativa".

Clever Mendes de Oliveira
BH, 02/04/2011

sábado, 2 de abril de 2011 09:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Em meu comentário de sábado, 02/04/2011 às 09h58min00s BRT aqui neste seu post "Gosto pelo teatro" de 01/04/2011 em trecho em que eu apresentei como sendo uma fala de Fernando Henrique Cardoso que acusaria que o governo Lula:
"sempre fez o que o FMI considerava como o correto, pelo menos enquanto ele achou que as políticas preconizadas pelo FMI estavam corretas ou pelo menos enquanto ele não tinha forças políticas para implementar uma política alternativa",
Eu deveria ter acrescentado mais uma alternativa que pode até não ser ao estilo de Fernando Henrique Cardoso, mas de que velhos petistas gostariam e talvez fosse do estilo de outros velhos PSDBistas.
Com o acréscimo, a frase ficaria:
"sempre fez o que o FMI considerava como o correto, pelo menos enquanto ele achou que as políticas preconizadas pelo FMI estavam corretas ou pelo menos enquanto ele não tinha forças políticas para implementar uma política alternativa, ou pelo menos enquanto as condições objetivas não fossem favoráveis a que se adotasse uma política mais consentânea com os ideais do partido".
Quanto a você ter dito, em comentário resposta de sexta-feira, 01/04/2011 às 17h18min00s BRT para o comentário de Túlio Villaça enviado sexta-feira, 01/04/2011 às 14h08min00s BRT, que:
"A humanidade toda aplicou políticas anticíclicas, Túlio. Com o apoio e a intensa participação dos EUA",
Eu fiquei a indagar em que lugar da humanidade um país como a Líbia se encontra.
A Líbia não é um país assim tão pequeno para ser desconsiderado, pois possui área três vezes maior do que a de Minas Gerais e duas vezes a do Chile. É bem verdade que a população da Líbia é pouco menos da metade da população do Chile e pouco mais de um terço da população de Minas Gerais e, além disso, o PIB da Líbia é pouco mais de um terço do PIB do Chile ou do de Minas Gerais.
Sim, é um PIB sem importância e a confiar no gráfico visto no link a seguir
http://www.google.com/publicdata?ds=wb-wdi&met=ny_gdp_mktp_cd&idim=country:LBY&dl=pt-BR&hl=pt-BR&q=pib+líbia
O PIB da Líbia caiu de U$ 93 bilhões em 2008 para U$ 62 bilhões em 2009. Sim, é um PIB pequeno, mas é o dobro do PIB do Uruguai. É então de se perguntar que política anticíclica é essa que foi aplicada na humanidade toda?
Será que se está falando do software da governança de que Saif al-Islam Qaddafi trata na sua tese de 2007 na London School of Economics e sobre a qual fala o artigo "Why the West Was Looking for Arab Democracy in all the Wrong Places" de sexta-feira, 25/02/2011 no PolicyMic (http://policymic.com/beta/global-affairs/why-west-was-looking-arab-democracy-all-wrong-places) de autoria de Ty McCormick e Geoff Curfman?
Saif al-Islam Qaddafi a respeito de quem no artigo há essa bela passagem retirada de uma declaração de David Held, orientador da tese de mestrado de Saif al-Islam Qaddafi na London School of Economics:
“The man giving that speech wasn't the Saif I had got to know well over those years . . . I came to know a young man who was increasingly liberal in his values, committed to reform and transparent government.”
E a quem Saif al-Islam Qaddafi faz referência 34 vezes na tese, a Fernando Henrique Cardoso ou a Lula?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 02/04/2011

sábado, 2 de abril de 2011 22:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1) De uma maneira geral, os comentários concordam com o argumentado no post: o ex-presidente criticou o FMI da boca para fora. Do governo para dentro, adotou tudo o que o FMI preconizava. E enfiou tudo pela goela dos apoiadores recalcitrantes, que achavam que uma ruptura realmente aconteceria.
2) Quanto às frases, o supostamente, bom frasista depende, muito, de quem sempre gosta. Por exemplo, a frase, em linhas gerais, do ex-presidente, em Portugal: Portugal não deveria chamar o FMI. Deveria pedir ajuda à presidente do Brasil sobre a crise portuguesa, deve ter corrido o mundo com frouxos de riso.
3) Já a frase da presidente, em linhas gerais:(...) tem de ver as recomendações para a utilização de reservas brasileiras(...) que só podem ser utilizadas para aquisições de títulos com rating triplo A.
Como os títulos portugueses caíram de rating A- para rating BBB-, mesma classificação do investment grade do Brasil, a frase deve ter causado que todos passassem a fazer um pente fino no que diz do ex-presidente do Brasil.

Swamoro Songhay

domingo, 3 de abril de 2011 14:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (domingo, 03/04/2011 às 14h18min00s BRT),
Embora eu concorde com você quando você diz:
"De uma maneira geral, os comentários concordam com o argumentado no post: o ex-presidente criticou o FMI da boca para fora. Do governo para dentro, adotou tudo o que o FMI preconizava."
Não saberia assegurar se todos os comentários também concordam.
A divergência não foi essa. Dizer que um político diz uma coisa e faz outra é um truísmo. É um truísmo que faz parte da essência da administração pública. Todos presidentes fazem isso em todo o lugar.
Junto ao post "O custo de um estilo" de terça-feira, 08/02/2011, aqui no blog de Alon Feuerwerker, insisti muito em relacionar aspectos que se devem levar em conta quando se está analisando a ação política de um chefe de executivo:
1) Uma andorinha só não faz verão, isto é, a máquina pública é muito grande e pouca diferença faz entre um chefe de executivo com grande capacidade de trabalho e muito eficaz nas ações e um com pequena capacidade de trabalho e pouco eficaz nas ações,
2) As diferenças pessoais podem acarretar diferenças de comportamento que não representam diferenças de conteúdo, o que pode levar a avaliar como diferentes personagens que são iguais.
3) O fato de diferenças gritantes não produzirem diferenças expressivas nos resultados das ações políticas implantadas não significa que não se deve falar de diferenças, pois até diferenças de estilo entre personagens iguais, como são, por exemplo, Dilma Rousseff e Lula podem levar a diferenças de resultados e revelam diferenças nas ações.
Assim, de minha parte, o questionamento em relação a este post "Gosto pelo teatro" de sexta-feira, 01/04/2011 foi principalmente em relação a frase de Alon Feuerwerker como se vê no trecho a seguir transcrito:
"No que exatamente Lula deixou de executar a essência das políticas preconizadas pelo FMI? Desde que o mundo é mundo o FMI só pede uma coisa quando vai socorrer alguém: que esse alguém se organize e mostre capacidade de pagar as dívidas.
Foi o que fez o Brasil no governo Fernando Henrique Cardoso, e continuou fazendo no de Luiz Inácio Lula da Silva. Organizou-se, institucional e operacionalmente, para ter uma razoável sobra de caixa antes de contabilizar encargos financeiros. É o tal superávit primário."

Pelo que Alon Feuerwerker disse, Fernando Henrique Cardoso e Lula executaram praticamente a mesma política pública. Isso não está de acordo nem mesmo com o que o próprio Alon Feuerwerker escreveu há pouco tempo. Veja, por exemplo, este trecho tirado do post de Alon Feuerwerker "Entre o udenismo e o adesismo" de terça-feira, 15/04/2008, há, portanto, três anos:
"A oposição não se conforma com o fato de o governo Lula apresentar belos resultados na economia e no combate à pobreza. O ressentimento fica nítido cada vez que alguém da oposição abre a boca para “explicar” que nessas áreas o PT “apenas copiou” os governos anteriores. Simplesmente não é verdade. Lula aplicou um ajuste fiscal estrutural que FHC jamais quis — ou pôde- fazer. E não há como comparar monetariamente os programas sociais do tucano com os atuais. Na economia, diferenças quantitativas são também qualitativas. Toda dona-de-casa e todo trabalhador sabem disso.
Se não fosse pelo estilo, sempre claro, sucinto e preciso, não se imaginaria tratar da mesma pessoa.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 04/04/2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011 22:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
O comentário a seguir já foi enviado no sábado, 02/04/2011, mas por alguma razão não foi aceito. Volto a o enviar sem alteração porque se a razão do não aparecimento do comentário na caixa de comentário for algum problema de conexão ele poderá ser aprovado dessa vez e se a razão for a censura do blogueiro ele poderá ser censurado novamente pelo blogueiro.
Em meu comentário de sábado, 02/04/2011 às 09h58min00s BRT aqui neste seu post "Gosto pelo teatro" de 01/04/2011 em trecho em que eu apresentei como sendo uma fala de Fernando Henrique Cardoso que acusaria que o governo Lula:
"sempre fez o que o FMI considerava como o correto, pelo menos enquanto ele achou que as políticas preconizadas pelo FMI estavam corretas ou pelo menos enquanto ele não tinha forças políticas para implementar uma política alternativa",
Eu deveria ter acrescentado mais uma alternativa que pode até não ser ao estilo de Fernando Henrique Cardoso, mas de que velhos petistas gostariam e talvez fosse do estilo de outros velhos PSDBistas.
Com o acréscimo, a frase ficaria:
"sempre fez o que o FMI considerava como o correto, pelo menos enquanto ele achou que as políticas preconizadas pelo FMI estavam corretas ou pelo menos enquanto ele não tinha forças políticas para implementar uma política alternativa, ou pelo menos enquanto as condições objetivas não fossem favoráveis a que se adotasse uma política mais consentânea com os ideais do partido".
Quanto a você ter dito, em comentário resposta de sexta-feira, 01/04/2011 às 17h18min00s BRT para o comentário de Túlio Villaça enviado sexta-feira, 01/04/2011 às 14h08min00s BRT, que:
"A humanidade toda aplicou políticas anticíclicas, Túlio. Com o apoio e a intensa participação dos EUA",
Eu fiquei a indagar em que lugar da humanidade um país como a Líbia se encontra.
A Líbia não é um país assim tão pequeno para ser desconsiderado, pois possui área três vezes maior do que a de Minas Gerais e duas vezes a do Chile. É bem verdade que a população da Líbia é pouco menos da metade da população do Chile e pouco mais de um terço da população de Minas Gerais e, além disso, o PIB da Líbia é pouco mais de um terço do PIB do Chile ou do de Minas Gerais.
Sim, é um PIB sem importância e a confiar no gráfico visto no link a seguir
http://www.google.com/publicdata?ds=wb-wdi&met=ny_gdp_mktp_cd&idim=country:LBY&dl=pt-BR&hl=pt-BR&q=pib+líbia
O PIB da Líbia caiu de U$ 93 bilhões em 2008 para U$ 62 bilhões em 2009. Sim, é um PIB pequeno, mas é o dobro do PIB do Uruguai. É então de se perguntar que política anticíclica é essa que foi aplicada na humanidade toda?
Será que se está falando do software da governança de que Saif al-Islam Qaddafi trata na sua tese de 2007 na London School of Economics e sobre a qual fala o artigo "Why the West Was Looking for Arab Democracy in all the Wrong Places" de sexta-feira, 25/02/2011 no PolicyMic (http://policymic.com/beta/global-affairs/why-west-was-looking-arab-democracy-all-wrong-places) de autoria de Ty McCormick e Geoff Curfman?
Saif al-Islam Qaddafi a respeito de quem no artigo há essa bela passagem retirada de uma declaração de David Held, orientador da tese de mestrado de Saif al-Islam Qaddafi na London School of Economics:
“The man giving that speech wasn't the Saif I had got to know well over those years . . . I came to know a young man who was increasingly liberal in his values, committed to reform and transparent government.”
E a quem Saif al-Islam Qaddafi faz referência 34 vezes na tese, a Fernando Henrique Cardoso ou a Lula?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 05/04/2011

terça-feira, 5 de abril de 2011 14:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (domingo, 03/04/2011 às 14h18min00s BRT),
O comentário a seguir fora enviado ontem, 04/04/2011, mas por alguma razão não foi aceito. Volto a o enviar sem alteração não só porque penso que ele tem informações relevantes para a discussão como também porque não vi razão para ser censurado pelo blogueiro. Além disso, se na visão do blogueiro há razão para a censura, nada obsta a que ele a exerça.
Embora eu concorde com você quando você diz:
"De uma maneira geral, os comentários concordam com o argumentado no post: o ex-presidente criticou o FMI da boca para fora. Do governo para dentro, adotou tudo o que o FMI preconizava."
Não saberia assegurar se todos os comentários também concordam.
A divergência não foi essa. Dizer que um político diz uma coisa e faz outra é um truísmo. É um truísmo que faz parte da essência da administração pública. Todos presidentes fazem isso em todo o lugar do mundo.
Junto ao post "O custo de um estilo" de terça-feira, 08/02/2011, aqui no blog de Alon Feuerwerker, insisti muito em relacionar aspectos que se devem levar em conta quando se está analisando a ação política de um chefe de executivo:
1) Uma andorinha só não faz verão, isto é, a máquina pública é muito grande e pouca diferença faz entre um chefe de executivo com grande capacidade de trabalho e muito eficaz nas ações e um com pequena capacidade de trabalho e pouco eficaz nas ações,
2) As diferenças pessoais podem acarretar diferenças de comportamento que não representam diferenças de conteúdo, o que pode levar a avaliar como diferentes personagens que são iguais.
3) O fato de diferenças gritantes não produzirem diferenças expressivas nos resultados das ações políticas implantadas não significa que não se deve falar de diferenças, pois até diferenças de estilo entre personagens iguais, como são por exemplo Dilma Rousseff e Lula podem levar a diferenças de resultados e revelam diferenças nas ações.
Assim, de minha parte, o questionamento em relação a este post "Gosto pelo teatro" de sexta-feira, 01/04/2011 foi principalmente em relação a frase de Alon Feuerwerker como se vê no trecho a seguir transcrito:
"No que exatamente Lula deixou de executar a essência das políticas preconizadas pelo FMI? Desde que o mundo é mundo o FMI só pede uma coisa quando vai socorrer alguém: que esse alguém se organize e mostre capacidade de pagar as dívidas.
Foi o que fez o Brasil no governo Fernando Henrique Cardoso, e continuou fazendo no de Luiz Inácio Lula da Silva. Organizou-se, institucional e operacionalmente, para ter uma razoável sobra de caixa antes de contabilizar encargos financeiros. É o tal superávit primário."

Pelo que Alon Feuerwerker disse, Fernando Henrique Cardoso e Lula executaram praticamente a mesma política pública. Isso não está de acordo nem mesmo com o que o próprio Alon Feuerwerker escreveu há pouco tempo. Veja, por exemplo, este trecho tirado do post de Alon Feuerwerker "Entre o udenismo e o adesismo" de terça-feira, 15/04/2008, há portanto três anos:
"A oposição não se conforma com o fato de o governo Lula apresentar belos resultados na economia e no combate à pobreza. O ressentimento fica nítido cada vez que alguém da oposição abre a boca para “explicar” que nessas áreas o PT “apenas copiou” os governos anteriores. Simplesmente não é verdade. Lula aplicou um ajuste fiscal estrutural que FHC jamais quis — ou pôde- fazer. E não há como comparar monetariamente os programas sociais do tucano com os atuais. Na economia, diferenças quantitativas são também qualitativas. Toda dona-de-casa e todo trabalhador sabem disso.
Se não fosse pelo estilo, sempre claro, sucinto e preciso, não se imaginaria tratar da mesma pessoa.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 04/04/2011

terça-feira, 5 de abril de 2011 14:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 04/04/2011.
Até ai tudo bem. A frase Lula aplicou um ajuste fiscal estrutural que FHC jamais quis — ou pôde- fazer., pode representar fé na estabilidade, antes considerada crime de lesa-pátria pelo ex-presidente. Também deixa pistas sobre o processo que FHC promovera, acabando com o processo hiperinflacionário, na frase de outro post, também por você lembrado:...que esse alguém se organize e mostre capacidade de pagar as dívidas. Foi o que fez o Brasil no governo Fernando Henrique Cardoso, e continuou fazendo no de Luiz Inácio Lula da Silva. É um exemplo de continente e conteúdo. Ou, igual naquela brincadeira de infância: siga o chefe.
Swamoro Songhay

domingo, 10 de abril de 2011 20:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (domingo, 10/04/2011 às 20h13min00s BRT),
Então você concorda comigo que Alon Feuerwerker manifestou um antagonismo entre o que ele disse lá no post "Entre o udenismo e o adesismo" de terça-feira, 15/04/2008:
"Lula aplicou um ajuste fiscal estrutural que FHC jamais quis — ou pôde - fazer"
e o que ele diz agora neste post "Gosto pelo teatro" de sexta-feira, 01/04/2011:
"Foi o que fez o Brasil no governo Fernando Henrique Cardoso, e continuou fazendo no de Luiz Inácio Lula da Silva. Organizou-se, institucional e operacionalmente, para ter uma razoável sobra de caixa antes de contabilizar encargos financeiros."
É um antagonismo muito forte para não ser percebido. Agora achei interessante o prolongamento do seu comentário em que você diz que a afirmação mais recente de Alon Feuerwerker está em perfeita sintonia com o que você imagina tenha sido o processo concebido, implementado e controlado por Fernando Henrique Cardoso e sua turma e que resultou no Plano Real.
É, nesse ponto eu concordo com você. Eu até poderia dizer que Alon Feuerwerker a dizer o que estava dizendo ele estava concordando com o que você pensava tinha sido o governo de Fernando Henrique Cardoso. Só que eu achei mais pertinente apontar a incoerência de Alon Feuerwerker com o que ele dissera antes.
Aliás, essa sua concepção do que seja o Plano Real e o governo de Fernando Henrique Cardoso está em sintonia com o que eu li na Folha de S. Paulo de hoje, 20/04/2011, em artigo de Eduardo Graeff, intitulado "Gente que mente". Em um site aberto o artigo pode ser encontrado no seguinte endereço:
http://www.eagora.org.br/arquivo/gente-que-mente
Um parágrafo (Na Folha de S. Paulo são dois parágrafos) do artigo e que eu tenho certeza você assinaria embaixo vale ser transcrito aqui:
"O PT repete baboseiras como essa desde que escolheu FHC como inimigo. A escolha, como se sabe, deu-se em 1993. FHC pediu apoio ao PT para o Plano Real. Em troca, o PSDB poderia apoiar Lula para presidente em 1994, como apoiara em 1989. O PT preferiu apostar contra o real. O plano deu certo, o PSDB lançou FHC para presidente e ele derrotou Lula no primeiro turno. Imperdoável!
Bem, considero impossível fazer uma avaliação comparativa do Plano Real. Teria que haver dois mundos paralelos para essa comparação ser feita. De todo modo, desde o início eu me posicionei contra o Plano Real porque eu considerava que o Plano Real continha os seguintes defeitos:
1) Consistia em um plano para acabar com a inflação de uma só vez (Para países pobres, com inflação alta, de dimensões continentais e de grandes desequilíbrios regionais esse modo de acabar com a inflação não me parece o mais correto);
2) Consistia em um plano para acabar de uma vez com inflação em época de eleição o que não me parece nem político, nem moral (embora a questão moral não me pareça deva ser alegada na atividade política) nem economicamente (Em períodos eleitorais os governantes costumam ser mais generosos com os funcionários públicos criando desajustes para os próximos governantes);
3) Consistia em um plano para acabar de uma vez com inflação em época de eleição para eleger um presidente e
4) Consistia em um plano para acabar de uma vez com inflação em época de eleição para eleger um presidente que não fora sequer presidente de um grêmio recreativo na juventude.
Já comentei sobre isso bastante e repito aqui apenas o resultado desses defeitos e ao qual eu tenho também me referido com freqüência e ao qual as pessoas com um mínimo de conhecimento da história econômica de países que guardavam ou guardam certa semelhança com o Brasil prognosticavam já no nascedouro do Plano Real. O resultado dos defeitos do processo que Fernando Henrique Cardoso e a turma dele desencadeou, o resultado foi a série de situações de estrangulamento na Balança de Pagamentos que ocorreram ao longo dos dois governos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 20/04/2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011 22:06:00 BRT  

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