domingo, 17 de abril de 2011

De uma panelinha só (17/04)

Quando se discute a democracia como valor universal, a ênfase costuma ser a associação com a liberdade. Mas há outra associação importante, entre estabilidade e alternância no poder

O Partido Comunista de Cuba está reunido para desfazer boa parte do que fez no meio século de poder. Vai liberalizar a economia e buscar na energia do empreendedor os meios para superar a estagnação.

É um momento decisivo para o grupo dirigente.

O propósito é caminhar para o modelo chinês. Economia pujante, mas com o monopólio do mando político.

Não é fórmula fácil de alcançar. Mesmo quando alcançada, não garante estabilidade confortável.

Crescimento econômico não é sinônimo mecânico de paz política. Que o digam os árabes.

Há um detalhe na China que costuma passar despercebido. O partido é único, mas há nele mecanismos compulsórios de renovação da cúpula e regras razoavelmente claras para ascensão.

Os caminhos da política não estão obstruídos por uma -para usar o termo elaborado nos anos da União Soviética- gerontocracia.

Há também, e isso é tão importante quanto, regras para garantir certo grau de separação formal entre quem toca a política e quem toca os negócios.

Quando se discute a democracia como valor universal, a ênfase costuma ser na liberdade. É a associação mais imediata.

Talvez se devesse refletir sobre outra associação, entre estabilidade democrática e alternância no poder.

Da Tunísia à Costa do Marfim, do Egito à Líbia, da Síria a Cuba, o edifício a chacoalhar não é o autoritarismo tomado de modo abstrato. O que balança é o monopólio do poder.

A ideia de que a felicidade de um país depende de as “pessoas certas” assumirem o comando, e ficarem nele sem data para sair.

A conveniente teoria de que o sucesso nacional depende de impedir que adversários assumam o leme.

É empírico. A falta de mecanismos razoávelmente viáveis para alternância leva, sem exceção, à decadência nacional. Pode levar à destruição nacional. Aconteceu na União Soviética.

E a situação se agrava quando o país apresenta divisões sectárias bem marcadas, mais ainda quando são geograficamente definidas. Quando existem dentro da mesma nação um ou mais problemas de nacionalidades.

A tendência à fragmentação fica muito forte.

Pois não dá para as diversas panelinhas assistirem de braços cruzados, por todo o tempo, à festa de uma panelinha só. Cada grupo político tem correligionários a empregar e empresários amigos a beneficiar.

E como a separação absoluta entre a política e os negócios só existe no mundo da lua, a permanência excessiva de uma turma no poder acaba produzindo insatisfações crescentes.

Que se agravam muito quando o sistema degenera para cleptocracias hereditárias. Nas quais, como nos tempos da monarquia, não há salvação fora do DNA.

Sendo intelectualmente rigoroso, os levantes árabes devem ser catalogados na conta das revoluções burguesas. Para depor neomonarquias comandadas por quem um dia chegou ao poder para acabar com a monarquia. E que no poder reproduziu a moldura.

É também, em boa medida, o problema cubano. Como quebrar o poder absoluto de um núcleo dirigente que carimba toda opção política externa ao grupo -mesmo quando dentro do partido- como "ameaça à revolução".

A alternância, nas suas diversas formas, é um ativo das sociedades para controlar o Estado.

É natural que partidos, correntes e movimentos busquem maneiras de se perpetuar no poder. Mas para haver democracia e prosperidade perenes é indispensável que a sociedade tenha instrumentos legais e operacionais para resistir.

Tiro no pé

Cabeças mais antenadas da esplanada dos ministérios já perceberam.

Já entenderam que a ideia de fazer uma consulta popular sobre a proibição de armas, que provavelmente viria acoplada a outra sobre o voto indireto para deputado e vereador (lista fechada), criaria a oportunidade para aglutinar uma oposição social hoje pulverizada.

Um autêntico tiro no pé.

O PT tem maioria no Congresso Nacional por causa da repartição de poder orçamentário. Não tem hegemonia suficiente para arrastar a base atrás das ideias petistas.

A votação do código florestal demonstrará -se o PT não ceder antes.

Só do que o PT não precisa agora, creem, são plebiscitos e referendos para comprovar. E para fazer a conexão entre os potenciais antipetismos congressual e social.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (17) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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6 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Embora ainda com força suficiente para tentar reformar-se e, assim, continuar existindo, a ditadura em Cuba está em franco processo de desarticulação. O que se passa hoje em Cuba me faz recordar os anos que antecederam o fim da ditadura militar.

Parodiando Drumond, a revolução comunista cubana é apenas uma fotografia na parede.

E para alguns, como dói...

domingo, 17 de abril de 2011 02:03:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

Dizem os democratas que: Todo poder emana do povo e em seu nome deve ser excercido. O povo [a maioria] não querer a alternância do poder, é antidemocrático, ditadorial? ...

domingo, 17 de abril de 2011 09:14:00 BRT  
Anonymous trovinho disse...

Na periferia do capitalismo, temos a liberdade de escolher o ítem do menu que nos é apresentado pelos fornecedores dos patrocinadores da mídia burguesa. Cínicos, estão seguros de que a manipulação funcionará, afinal a capacidade elaborativa do eleitorado está condicionada ao pensamento acrítico ante o monopólio midiático burguês, pois o filho do trabalhador teve, em São Paulo, um professor que ganha R$7 a aula e as suas condições pedagógicas são geridas por uma diretora que se aposenta com R$2000 e que conta com um quadro de apoio ínfimo, daí os danos morais de nossos alunos. A intuição de classe elege o PT, mas este só governa dentro dos limites tirânicos de quem comprou, com uma fortuna genocida, o privilégio de escrever as regras. A revolução cubana tem minha gratidão de neto de camponeses que sofreram faxina étnica na Transilvania húngara, de pai ferroviário com mãe previdenciária barnabés. Que delícia Cuba ter dito que o imperador está nu.

domingo, 17 de abril de 2011 10:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1) Cuba. A URSS, depois de cerca de 70 anos de tentativas de criar um novo homem, mais solidário e humanista, como alternativa ao Capitalismo, quando acabou, o que surgiu foi um número grande de biliardários. Estes, saíram pelo mundo a comprar até times de futebol. Brincadeiras à parte, que o assunto é sério. Até para abrir, as decisões em Cuba têm de ser controladas pelo partido. O que surgirá disso tudo?

2) O PT realmente não precisa de plebiscitos. Se precisasse, já os teria feito aos borbotões. O que o PT precisa, é de oposição. Sempre que a tem forte, perde. A hoje oposição, esqueceu-se disso.

Swamoro Songhay

domingo, 17 de abril de 2011 13:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

trovinho-domingo, 17 de abril de 2011 10h11min00s BRT.
Exceto por alguma expulsão de lutadores cubanos, nada do regime cubano foi implementado por aqui a partir de 2003. E nada a partir de janeiro de 2011. Até a verborragia meio que castrista, foi substituída pelo mais absoluto silêncio de "segunda metade do século XXI", como foi citado pela presidente em discurso na China. Isso apesar de estarmos ainda um pouco longe da metade do século XXI.
Swamoro Songhay

terça-feira, 19 de abril de 2011 11:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Briguilino-domingo, 17 de abril de 2011 09h14min00s BRT.
Não. É perda de oportunidade de defenestrar quem quer ficar muito tempo com a caneta, o DO e o botim. Aqui no Brasil, só pode por duas vezes consecutivas, para o Executivo.
Swamoro Songhay

terça-feira, 19 de abril de 2011 11:07:00 BRT  

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