sábado, 30 de abril de 2011

Casamentos e enlaces (30/04)

Num contexto de paz entre Israel e Palestina, até o debate sobre os assentamentos perderia relevância. Quem está, por exemplo, disposto a discutir a minoria de franceses que moram na Alemanha, ou a minoria de argentinos no Brasil?

A notícia da semana no front internacional não foi o casamento do príncipe e da plebeia em Londres, mas outro enlace: o anunciado entre Hamas e Fatah na Palestina. Enquanto a família real britânica cuida de refazer os laços com o velho glamour — se a Casa de Windsor sobreviver ao Príncipe Charles sobreviverá, acho, a qualquer coisa —, as facções palestinas têm outro desafio: encontrar para seus liderados o caminho que leve a um país viável e reconhecido.

Num certo sentido o problema colocado à família real britânica e à liderança palestina é o mesmo: provar-se relevante para seu povo.

A missão de Fatah e Hamas é menos complicada, pois não há alternativas.

Sem os reis, príncipes e nobres, os súditos de Sua Majestade poderiam virar-se perfeitamente com a República. Já têm Parlamento, governo, tudo que é necessário. Um bolo sem a cereja continua sendo um bolo.

Para os palestinos, porém, não há opção realista fora do Hamas e da Fatah. A alternativa seriam uns grupúsculos alqaedianos, uma turma do mundo da lua. Ou então a absorção pela Jordânia e pelo Egito.

Mas deixemos em paz a família da rainha. O abacaxi levantino é mais importante e mais sensível. Toda vez que alguém ali ensaia um passo no sentido da lógica e da racionalidade acaba reavivando esperanças.

A reconciliação dos líderes é boa notícia para quem, como eu, torce para os palestinos alcançarem a plena emancipação nacional.

Será uma notícia melhor ainda se — e quando — a liderança palestina provar que está preparada para ir além e, efetivamente, criar seu Estado.

Por que os palestinos não têm ainda um país? Por uma razão singela: por não terem aceitado até hoje a decisão da ONU de 1948 que dividiu a área entre o Jordão e o Mediterrâneo, entre uma nação árabe e uma judia.

Foi uma decisão na época razoável. Foi apoiada pelos Estados Unidos, pela União Soviética e pelo Brasil. A potência colonial da área, o Império Britânico, absteve-se.

Foi razoável porque olhou a realidade. Já havia na prática um Estado Judeu funcionando. Aliás, a atual Autoridade Palestina inspirou-se, nos anos recentes, nesse fato histórico para concluir que o único caminho para ter um Estado é construí-lo.

Tem sido a tarefa do primeiro-ministro da AP, Salam Fayyad.

Todas as pesquisas recentes apontam que a maioria dos palestinos se inclina pela solução de dois países, um para cada povo. O que não impediria haver no futuro judeus morando na Palestina, assim como hoje árabes moram em Israel.

Num contexto de paz até o debate sobre os chamados assentamentos perderia importância. Quem está, por exemplo, disposto a investir tempo e energia discutindo a minoria de franceses que moram na Alemanha, ou a minoria de argentinos que moram no Brasil?

Seria nonsense, desde que franceses e alemães, ou brasileiros e argentinos, tomaram um belo dia a decisão estratégica de viver em paz ao lado do outro.

Há feridas decorrentes da remoção de populações? Nada que não possa ser resolvido com investimento, e com a multiplicação de oportunidades de educação e emprego. E com realismo.

O Brasil, por exemplo, é um país de imigrantes brancos e negros numa terra originalmente de índios. Essa circunstância histórica é razão para políticas públicas compensatórias, não para os brasileiros cogitarem de apagar o Brasil do mapa como forma de reparação.

O foco do impasse entre Israel e Palestina não está na ausência de soluções técnicas, ou na falta de suficiente energia intelectual dispendida. A encrenca reside neste detalhe: reconhecer o direito do outro à emancipação nacional ali mesmo, naquela terra.

A partir daí as soluções serão quase naturais.

Sem isso, a alternativa sempre será a guerra. Tem sido a escolha preferida pelo lado árabe. O resultado? Derrotas e recuos que a retórica não é capaz de disfarçar.

Mas nada impede que continuem tentando.

A esperança dos belicistas agora busca refúgio na possibilidade de o Irã alcançar a construção de armas nucleares e fazer com elas o que gerações de políticos árabes rejeicionistas não conseguiram.

Vai dar certo? Cada um tem sua opinião, mas um caminho assim representaria mais risco para a sobrevivência nacional iraniana — e palestina — do que propriamente para Israel.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste sábado (30) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Prezado Alon,
Como sempre acompanho com interesse seu blog.
Sempre muito pertinente, curioso e não convencional, além de sem preconceitos em meio ao FLA-FLU que virou nossa disputa política. Um pequeno reparo ao último post: a cereja é do sundae não do bolo. Grande abraço, S.

sábado, 30 de abril de 2011 13:22:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, não vou defender a restauração da monarquia, mas seu texto me levou a perceber que de fato essa instituição possui um papel mais importante que o limitado papel institucional da rainha na política britânica. A coroa esvazia na Grã Bretanha (e talvez além dela) o glamour que acompanha o exercício do governo. Não preciso dizer que cultivar o glamour (para usar o seu termo) ou o luxo e a ostentação são atividades que se desenvolvem paralelamente ao Estado. Primeiro foi o Rei e os Lordes, depois vieram aqueles comuns que nem precisamos convidar para o casamento. Isso tudo mantém a imprensa ocupada, e dá uma folga para o governo trabalhar. Muito diferente é no caso de Obama, por exemplo, ele é o centro das atenções, não cabe a ele ser menos que o super-homem. Tem mais, a busca pelo poder talvez não decorra de uma causa única, existem tanto o desejo de comandar (e realizar) como o desejo de usufruir as benesses do poder, já no Império Romano se observa isso com clareza. Como isso, a luta partidária (necessária para se alçar ao ministério), deixa de interessar tanto a quem quer apenas atenção de celebridade. Talvez até boa parte daquela burocracia inevitável, que busca apenas a própria vaidade, também possa ser desviada ao serviço real, onde a capacidade de produzir desastres com conseqüências é menor. Vocês de esquerda, como certos cientistas que ao constatarem a hipótese da desnecessidade de Deus para a evolução da vida passam a defender o ateísmo, pulam rapidamente pelo que lhes parece ter perdido funcionalidade. Na verdade, o glamour ou a ostentação, e seu correlativo a fofoca e o voyeurismo, fazem parte das necessidades mais elementares dos seres humanos – ou mesmo de todas as espécies animais gregárias, ouvi dizer. Com o casamento de um príncipe ainda com um jeito ingênuo e uma linda princesa, com ar malandrinho, pode render muito assunto, sem atrapalhar muito o governo exercido em nome de sua majestade. A propósito, não sei onde leva a aproximação da Fatah e do Hamas, aliás a idéia de dois estados na palestina me parece cada vez mais uma miragem...

terça-feira, 3 de maio de 2011 11:34:00 BRT  

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