quinta-feira, 7 de abril de 2011

Administração no varejo (07/04)

O problema aparece quando as ideias e declarações de intenções precisam ser concretizadas em atos. A palavra está desgastada, mas o desafio é a gestão. E a economia dá impressão de um gerenciamento caso a caso

Desde que foi privatizada, a Companhia Vale do Rio Doce, hoje simplesmente Vale, é uma empresa privada. Com participação acionária do governo, por meio dos braços estatais deste.

Nas semanas recentes, um acordo entre os acionistas deu na troca do executivo-chefe da Vale. Para chegar ao acordo, cada acionista desembainhou as armas disponíveis. No fim o banco privado achou por bem atender ao desejo do sócio poderoso.

Deu prioridade à convivência frutífera, em vez de se agarrar ao poder absoluto na Vale. Havia outros -e tão significativos quanto- interesses em jogo.

Não sou acionista da Vale, e portanto prefiro não opinar se o presidente deveria ter permanecido ou se a troca foi boa. Afinal, a empresa é privada e, portanto, a administração é assunto dos acionistas.

Consumado o desfecho interno, o debate talvez devesse buscar outro ponto. O que é melhor para o Brasil? A Vale buscar principalmente lucratividade? Ou ajudar a melhorar o valor do produto, a agregar valor, inclusive às exportações?

É um debate complexo. Agora mesmo a Petrobras está às voltas com uma função de duas variáveis. Como atingir as metas de aumento da produção e combinar isso com a desejada participação nacional nos meios produtivos da cadeia do petróleo.

É bom que a Vale exporte minério? É ótimo, ajuda a balança comercial, rende impostos, cria empregos. É bom que a empresa agregue valor ao produto? É excelente, o Brasil precisa disso para ficar menos vulnerável às flutuações das commodities. E o Brasil precisa de mais indústria, não menos.

Onde está então o problema? Ele aparece quando as ideias e declarações de intenções precisam ser concretizadas em atos. A palavra está desgastada, mas o desafio está na gestão.

O que os acionistas querem da Vale? Esse sim é um assunto de dimensão nacional.

Sobre gestão, aliás, os últimos dias na economia transmitem a impressão de um gerenciamento caso a caso, uma administração no varejo. 

O ministério da Fazenda corre atrás do câmbio, sem grande sucesso. O Banco Central trava o cabo de guerra com o mercado financeiro em torno das expectativas para a inflação, com resultados ainda em aberto, na melhor das hipóteses.

Agora é o etanol, e o governo acena com a taxação das exportações de açúcar. Para não faltar o álcool, que até ontem era a salvação da pátria.

Moral de menos

O discurso e o debate em torno do discurso do senador Aécio Neves (PSDB-MG) retomaram um ponto inconcluso na política brasileira: as privatizações.

Quando interveio, a senadora Marinor Brito (PSoL-PA) trouxe um detalhe central. Com mais de oito anos no governo, o PT não desfez nenhumazinha das privatizações executadas pelo PSDB.

Nem exibiu qualquer esforço para rever as condições em que foram feitas.

O PT pode argumentar que prefere não rever contratos já consagrados, mas o argumento é fraco. Contratos não se sobrepõem ao interesse nacional.

Bem ou mal, o PT governa na moldura da economia empresarial que herdou.

Falta um pouco de moral para o petismo no quesito, como bem notou a senadora do PSoL.

Correr e fugir

O governo está ameaçado de cerco na polêmica do Código Florestal. A maioria da base governista é favorável às mudanças propostas pelo relator, Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Mas o PT é contra.

O dique está sendo escorado pelo presidente da Câmara dos Deputados, o petista Marco Maia (RS). Se colocar o relatório em votação, será aprovado. Então o relatório não vai a votação.

Mas Maia tem um problema. Quando foi candidato a presidente da Câmara assumiu o compromisso de pôr o assunto a voto.

Se prevalever o enrolation, e como a lei atual é inaplicável, a obstrução precisará vir acompanhada de alguma medida legal para prorrogar a transitoriedade.

Qual é o risco? A demanda vai renascer mais adiante, quando vencer o prazo da eventual norma protelatória.

O governo Dilma Rousseff está só no começo. Esse é um assunto do qual, como diz o ditado, o governo e o PT podem tentar correr, mas não conseguirão fugir.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (07) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
É bom que se esclareça em que consiste a diferença entre a administração no atacado e a administração a varejo. Na administração a varejo o governante de plantão faz aquilo que todos os governantes anteriores a ele faziam, enquanto na administração no atacado o governante de plantão faz o que o governante anterior conseguiu deixar para o próximo governante fazer.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 07/04/2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011 13:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Na entrega de faixa de um presidente para outro , foi comprado um banco que valia 180 milhões,pagando 4 bilhões e meio,é nescessário explicar se compraram o banco ou o canal de televisão.

quinta-feira, 7 de abril de 2011 23:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Pena que o etanol seja mais matéria de post quase só nessa época do ano. Deveria ser notícia o ano todo. De todo modo é bom chamar atenção do governo nessa época do ano, pois pode permitir conscientizá-lo para a necessidade de formar estoques reguladores. No caso do etanol é de se perguntar se há necessidade de formar estoque ou se não seria mais correto alterar a composição do álcool na gasolina. É uma questão mais para os técnicos, mas parece-me que o jornalismo investigativo e de reportagem deveria buscar uma resposta mais esclarecedora para informar à sociedade. É evidente que nos meios técnicos do governo a resposta a esta questão já é sabida e um governo mais transparente já nos teria informado sobre o assunto. Há ainda o google e no futuro com a banda larga em poucos segundos qualquer brasileiro saberia a resposta para essa dúvida. Aqui também cabe uma outra pergunta: a dúvida sobre fatores impeditivos ou favoráveis para o aumento ou diminuição do álcool na gasolina é uma dúvida de interesse geral ou ela é apenas para matar curiosidade.
Bem, mas a questão sobre o etanol que eu queria fazer é outra: o etanol está escasso porque o açúcar está caro ou é o etanol que fez o preço do açúcar subir? Bem, não vejo como muito proveitoso, eu rememorar aqui posts passados do seu blog onde esta discussão teve início, afinal em comentário que eu enviei quinta-feira, 15/05/2008 às 02h21min00s BRT para junto do seu post “O mito das derrotas de Marina Silva. E a derrota de Marina Silva – ATUALIZADO” de 14/05/2008 (http://www.blogdoalon.com.br/2008/05/o-mitos-das-derrotas-de-marina-silva-e.html) há, portanto, quase três anos, eu já salientava como esta discussão era antiga.
O que eu sinto é não existir um levantamento mais amplo desse problema. Que tal fazer um levantamento do preço do petróleo, do preço do café (O Brasil é um grande produtor e consumidor de tal modo que o Brasil influencia no preço do café), do preço do trigo (uma commodity alimentar por excelência), do preço de soja, do preço do açúcar e do juro americano (prime rate e juro real (prime rate menos a taxa de inflação americana)).
Provalemente os preços das commodities acompanhariam o preço do petróleo. O preço do petróleo (Até 2006) pode ser visto no seguinte endereço:
http://www.dani2989.com/matiere1/oilprice31102004pt.htm
Pelo quadro se observa que o preço do Petróleo sobe ao longo da década de 70, quando a taxa real do juro americano era negativa. Na década de 80 com o juro alto o petróleo cai. No final da década de 80 e início da década de 90 quando houve a redução do juro americano para enfrentar a crise dos fundos de pensão e aposentadoria, o petróleo volta a subir. O juro americano sobe, não muito porque Bill Clinton diminuiu o déficit americano e o juro não precisou subir muito de tal modo que o petróleo estabiliza-se ao longo da década de 90, só voltando a subir no final da década de 90, quando Alan Greenspan reduziu abruptamente a taxa de juro (Dezembro de 2000) no final do governo de Bill Clinton com George Walker Bush, o filho, já eleito. Com o juro americano baixo desde então, o preço do petróleo só podia subir.
Não creio que as outras commodities fujam muito desse formato da curva do petróleo.
Gostaria de que o etanol fizesse o preço do açúcar subir. Na década de 70 o preço do açúcar era pressionado pela desova do estoque de açúcar de beterraba da Comunidade Européia. Com o surgimento do pró-álcool, creio que o Brasil conseguiu se livrar do controle do preço dos estoques reguladores subsidiados dos europeus. É provável então que o álcool tenha influência no preço do açúcar, mas quem realmente decide o preço das commodities no mundo é o Presidente do FED.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 08/04/2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011 00:36:00 BRT  
Anonymous Duarte disse...

"O PT pode argumentar que prefere não rever contratos já consagrados, mas o argumento é fraco".

Será que é fraco, mesmo? Qual a alternativa?
Suprimir a parte da Constituição onde está escrito sobre a propriedade privada?
Só falta combinar com o povo nas ruas e com as Forças Armadas para dar o apoio, passando por cima da constituição e do judiciário, e fazer uma revolução socialista, expropriando dos atuais acionistas controladores as antigas estatais. Simples, não?

Agora voltando à vida real, onde para desapropriar uma empresa teria que pagar com dinheiro do Tesouro valor de mercado (seja de comum acordo com o vendedor, seja arbitrado pelo Judiciário), houve uma inflexão da participação estatal na economia, a partir do governo Lula.

O BNDES recomprou parte das ações da Vale no início do governo Lula para não desnacionalizar, senão nem haveria maiores discussões sobre quem escolheria o presidente da Vale. O BB, CEF, Banco do Nordeste expandiram sua fatia no mercado (quando estavam encolhendo no governo de FHC). Foi reativada a Telebrás, foram criadas outras estatais como a CEITEC (fábrica de chips). A Petrobras recebeu capitalização da União e fez aquisições de subsidiárias (no governo FHC houve venda de subsidiárias).

domingo, 10 de abril de 2011 17:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Duarte-domingo, 10 de abril de 2011 17h01min00s BRT.

Em qual sistema solar está ocorrendo o que descreves?
Está confirmando, então, que o governo é estatizante, pouco eficiente, gastador, inflacionário? Que a presidente e o ex-presidente são intervencionistas? Que há ranço de mandonismo nisso tudo?
E o que tem FHC a ver com mandonistas do século XIX interferindo numa empresa privada?
Quer dizer que a Petrobras, por ter negócios na Bolsa de New York e ter acionistas estrangeiros, está fora do figurino? O que vai acontecer com a Petrobras, então. Vai ser privatizada?
Swamoro Songhay

terça-feira, 12 de abril de 2011 16:10:00 BRT  

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