sexta-feira, 18 de março de 2011

A volta do pêndulo (18/03)

Dilma apenas governa de acordo com o espírito do tempo. Como mostrará a visita de Barack Obama ao Brasil. A turma é a mesma, as convicções são as mesmas, mas as circunstâncias, feliz ou infelizmente, mudaram muito

Causa algum incômodo no PT e arredores o ajuste a que o novo governo submete o discurso mais visível da política externa brasileira.

Também pudera. No longo período eleitoral pré-2010 -que tomou todo o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva- o situacionismo cultivou como elemento distintivo a rivalidade retórica com os Estados Unidos.

Que o diga Chico Buarque de Holanda, protagonista de uma inesquecível passagem na campanha de Dilma Rousseff.

A linha foi rapidamente descartada desde que governar se tornou missão prioritária. Houve também a constatação de que certos movimentos diplomáticos do governo anterior deveriam ser revistos, por terem trazido mais ônus que bônus.

O exemplo emblemático são as relações com o Irã. Num certo momento o Brasil considerou que poderia obter dividendos de uma eventual mediação em torno do programa nuclear iraniano.

Mas o que era para ser dividendo virou prejuízo. Por uma precipitação, talvez pelo desejo excessivo de protagonismo. Uma foto infeliz. Uma ilusão dolorosa.

Tanto que Dilma cuidou rapidamente de seguir outro rumo, tomando como ponto de apoio o tema dos direitos humanos.

É normal os países ajustarem a política exterior conforme as circunstâncias. Um bom exemplo foi a oscilação de Getúlio Vargas entre o nazifascismo e os aliados quando os rumos da Segunda Guerra Mundial ainda não estavam definidos.

A alma do Estado Novo era mais alinhada com a Berlim de Adolf Hitler. E num certo momento o Brasil inclinou-se para o Eixo.

Mas a combinação de fatos militares, conveniências econômicas e um faro político inigualável ajudou Vargas a acabar pendendo para o lado certo e vencedor.

Getúlio Vargas teve sorte. Ele mesmo pôde dar meia-volta e deixar para lá o namorico com o campo de Hitler e Benito Mussolini. Sorte de ditador, pois não havia então alternância no poder. Vargas só largou a cadeira bem depois, deposto após a guerra.

Lula não teve a sorte de Getúlio, não continua no poder para desfazer o que fez. Pendulação que certamente executaria com maestria, pois talento para isso nunca lhe faltou. Na Presidência e antes.

Por justiça, é necessário notar que Lula apenas radicalizou uma linha tradicional da diplomacia brasileira, de secundarizar os juízos de valor sobre situações internas de outros países, em nome do respeito à autodeterminação dos povos.

Essa tradição permitiu ao presidente unir o útil ao agradável.

O problema é que o combate a ditaduras e ao desrespeito aos direitos humanos vão se transformando em pauta global, especialmente no contexto da onda democrática revolucionária no mundo árabe e islâmico.

Dilma apenas governa de acordo com o espírito do tempo. Como mostrará a visita de Barack Obama ao Brasil.

A turma é a mesma, as convicções são as mesmas, mas as circunstâncias, feliz ou infelizmente, mudaram muito.

Cuba

Parte do PT gostaria que a pendulação pró-americana do discurso governamental tivesse consequências positivas na busca de soluções para o impasse cubano.

Não é trivial, até porque a disputa presidencial americana vem aí. Obama lidera as pesquisas, mas a campanha com os republicanos será acirrada.

Sempre é possível avançar. Os Estados Unidos desejam o fim do monopólio do poder do Partido Comunista em Cuba, com a convocação de eleições livres e multipartidárias. A liderança cubana vê nisso o fim da Revolução.

E exige o fim imediado do embargo econômico.

Talvez a conjugação de esforços entre Dilma e Obama possa conduzir a um caminho intermediário, com concessões mútuas e um cronograma de transição.

Cadê?

Em países com larga tradição no uso da energia nuclear o cenário decorrente da crise japonesa vem sendo publicamente manejado pelas principais lideranças políticas.

O melhor exemplo é a Alemanha, onde a chanceler Angela Merkel tomou a frente da coisa rapidamente. Assim é também na França, nos Estados Unidos.

Tem certas situações nas quais a política de só expor Dilma em ambientes controlados acaba transmitindo, talvez erradamente, a impressão de omissão.

É um assunto sério demais para ficar nos escalões inferiores.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (18) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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12 Comentários:

Blogger pait disse...

Qua foi a inesquecível passagem na campanha de Dilma Rousseff? Se não posso ter esquecido, talvez não tenha percebido na época. Agradeceria uma dica de onde ler.

sexta-feira, 18 de março de 2011 10:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

(...)Que o diga Chico Buarque de Holanda, protagonista de uma inesquecível passagem na campanha de Dilma Rousseff(...)
Inesquecível pois verdadeira, veja-se os informes que nos trazem Weekleaks de reuniões entre mandatários do Departamento de Estado e tucanos de carteirinha.
Ismar Curi

sexta-feira, 18 de março de 2011 15:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É verdade Isnar, altivez mesmo é com o PT. Veja no link um exemplo da altivez petista diante dos americanos http://bit.ly/dKXXeB

sexta-feira, 18 de março de 2011 17:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Acho que o Alon falou disso aqui, pait http://tinyurl.com/45uw2t6

sexta-feira, 18 de março de 2011 19:08:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Obrigado anônimo, vou pôr o link lá.

sexta-feira, 18 de março de 2011 19:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Obama sim,está submetido a decisões pendulares.Nota-se , desde a pusilânime atitude na crise do golpe hondurenho. Estadista fazendo jogo duplo atendendo os agressivos republicanos e dúbios democratas,contra suas convicções idealizadas de sociedade justa e democrata é teste bem mais severo do que discursar para os ectoplasmas do trabalhismo que vagam pela Cinelândia.

sexta-feira, 18 de março de 2011 19:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Resposta ao Pait: Chico num encontro de intelectuais no Rio em apoio à candidatura Dilma disse mais ou menos isso: que acreditava nela pois pertencia a uma gente (...)que nem falava fino com Washington e nem grosso com a Bolívia e o Paraguai(...)
Ismar

sábado, 19 de março de 2011 09:43:00 BRT  
Blogger BlogdoIlha disse...

Pêndulos e pêndulos.

Nos escalões do poder, o problema do andar de cima é justamente esse, os pêndulos. Decisões pendulares e às vezes perdulárias.

Por vezes, a visão é míope e não enxerga o longo prazo.

Um exemplo? Falemos da energia nuclear.

Duvideodó que o Japão modifique sua matriz energética. É verdade que resolverão os problemas de Fusushima à custa de um enorme passivo ambiental e das vidas de algumas centenas de herois japoneses que, mesmos expostos a doses letais de radiação, lutam para evitar que a usina exploda.

Eles morrerão seguindo a filosofia vulcana de que a morte de poucos justifica-se quando salva a vida de muitos.

A crise passará, os herois de Fukushima se juntarão aos outros milhares de mortos pelo tsunami e receberão anualmente as homensagens do povo japones.

Nada se modificará. Porque? Simplesmente porque não dá para o Japão renunciar à energia nuclear.

Hoje, os políticos japoneses reclamam de falta de comida, de assistência e de abrigos para os desamparados. Também querem mais transparência do Governo, mas não moverão campanhas contra a energia nuclear.

Nesse aspecto, eles serão mais pragmáticos do que os seus colegas alemães. Os japoneses não estrangularão sua capacidade produtiva, mesmo diante de toda tragédia que suportam.

Explico, então, que pêndulos significam decisões casuísticas, movidas pelos holofotes, focalizando apenas o momento atual. Os pêndulos são a míope visão de curto prazo.

Infelizmente, no mundo de hoje, há muitos pêndulos e poucos estadistas. É bom essa gente trocar de óculos.

sábado, 19 de março de 2011 14:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A passagem do Chico Buarque, este governo não fala fino com Washington é risível. Na época pode até ter tomado ares de rebelde independência que poucos viram passar na janela. Como o tempo. Hoje, causa frouxos de riso, como diria um comediante de TV. Hoje, 19/03/2011, na recepção, a presidente brasileira não jogou o quadro Abapuru, de Tarsila do Amaral na cabeça do Obama. A menos que, olhos de não acólitos não tenham captado tal cena de afirmação emergente, dependente e capitalista. A ver. Em suma, falar fino ou grosso, pouco importa. Washington não dá bola nenhuma mesmo. Ou como dizia a garotada lá do interior: não dá a menor pelota.
Swamoro Songhay

sábado, 19 de março de 2011 18:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1)Cuba. Tomara que não ocorra da presidente estar rindo com Fidel enquanto dissidentes estão em greve de fome, com riscos de morrer a qualquer momento. Tal movimento do pêndulo seria, a qualquer tempo, absolutamente desnecessário. O embargo, admita-se, é um ranço que mantém a brasa acesa. Já passou do tempo. Um senador brasileiro fez discurso no Senado, solicitando que Obama anunciasse na Cinelândia, o fim do embargo a Cuba. Ouvindo ou não o pedido, Obama vai falar dentro do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

2)Energia Nuclear. Os ministros das Minas e Energia e o da Ciência e Tecnologia, afirmaram que as usinas brasileiras estão e são seguras. Até mais do que as japonesas, segundo o primeiro. Que os mares de angra continuem serenos, as montanhas quietas. E que seja verdade.
Swamoro Songhay

sábado, 19 de março de 2011 18:31:00 BRT  
Blogger Dep disse...

Alon
Seu artigo está bom. Só falta falar um pouco do telhado de vidro americano: Guantanamo e agora essa prisão do soldado Manning - aquele que vazou as informações para o WikiLeaks (leia o artigo do Sergio Augusto no Estadão de hoje - domingo). Aliás essa prisão da turma do PSTU, é de matar de vergonha!!!!
Carlos Zarattini

domingo, 20 de março de 2011 21:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Transição com Raúl Castro!? Esqueça!!!

Qualquer concessão que Raúl venha fazer representará o fim do regime comunista em Cuba. Tal como sucedeu, de resto, no Leste europeu.

Ao fim e ao cabo, Tocqueville tinha razão - o socialismo é incompatível com a democracia.

segunda-feira, 28 de março de 2011 23:30:00 BRT  

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