quarta-feira, 23 de março de 2011

Usina de dissidências (23/3)

Das iniciativas pela reforma política, a mais adiantada é no Senado. Os senadores escolheram seguir os ensinamentos do falecido Leonel Brizola, comer o mingau quente pelas beiradas. Preferiram ir do menos complicado para o mais. Parece fazer sentido, mas é preciso saber se vão chegar ao centro do mingau
 
A movimentação em torno do novo partido do prefeito Gilberto Kassab acabou deixando em segundo plano um caso bem mais importante. O golpe interno no PV, onde a direção nacional prorrogou o próprio mandato e pôs na geladeira o compromisso assumido com Marina Silva, de promover um processo de renovação na legenda.

Pelo visto, o PV também está inclinado a ajudar Dilma Rousseff a governar o Brasil.

Nunca se viu na História brasileira tanta gente disposta a contribuir para que o governo governe bem.

Marina talvez tenha que buscar um novo caminho se deseja manter de pé o projeto de construir uma alternativa de poder. Se planeja uma nova candidatura à Presidência em 2014.

Mas é um problema da ex-senadora. Quando foi para o PV sabia dos riscos. E, se não mudou, Marina tem energia e disposição suficientes para atravessar o deserto.

Sobre o Partido Social Democrático de Kassab, a novidade ficou por conta do vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif, que elaborou e leu pontos programáticos da legenda. O viés é liberal. Se conseguir sustentar posição, tem espaço a disputar.

Mas Kassab ainda carrega dificuldades no discurso. Escrevi outro dia que um problema da nova legenda seria explicar a existência em si.
A encrenca maior foi afastada, não vai ser mais preciso justificar a fusão imediata com outra sigla, pois parece que não haverá fusão imediata. Pelo menos é o que se diz.

Ficou meio capenga o motivo alegado para sair do Democratas. Nisso o prefeito não foi bem. Segundo ele, não dava para continuar num partido que faz oposição cerrada à presidente.

Oposição cerrada? É uma injustiça. Daqui até a fundação efetiva do PSD Kassab tem tempo suficiente para — se deseja repetir o argumento — lembrar de uma votação sequer em que o DEM tenha criado obstáculo intransponível ao governo Lula, já que o de Dilma está só no começo.

Não vai ser fácil achar.

E não vale responder “na CPMF”. Ali quem derrotou o governo foi a base. E tem mais: será uma surpresa se a legenda social-liberal de Kassab e Afif apoiar a volta do imposto do cheque. Ainda que na política brasileira nada seja impossível.

Mas, assim como Marina cuida da vida dela, Kassab que cuide da dele. Se o prefeito precisou formar uma agremiação por não encontrar espaço em São Paulo para voos maiores, é um assunto dele. E dos eleitores dele.

E segue o baile. E os partidos vão brotando por cissiparidade. Será que o brasileiro tem tara por formar partidos?

Das iniciativas pela reforma política, a mais adiantada é no Senado. Os senadores escolheram seguir os ensinamentos do falecido Leonel Brizola, comer o mingau quente pelas beiradas. Preferiram ir do menos complicado para o mais.

Parece fazer sentido, mas é preciso saber se vão chegar ao miolo do mingau. À necessidade de impor regras democráticas aos partidos na eleição dos dirigentes e candidatos, de reduzir a margem para o caciquismo e o mandonismo.

Se o mingau não for comido por inteiro, o problema continuará. Pode até piorar, vide a proposta de os partidos — e não mais o eleitor — indicarem os vereadores e deputados eleitos.

É só o que falta para o nosso sistema político ficar com uma cara completamente tribal.

No sistema brasileiro é impensável o sujeito disputar democraticamente dentro do partido para passar de minoria a maioria. Não tem como. Nos partidos brasileiros não existe oposição, só dissidência a caminho da porta de saída.

O sistema brasileiro é uma usina de dissidências.

Você é otimista quanto à possibilidade de isso mudar no curto prazo? Eu não.

Pois quando se pensa em como atacar o problema só se propõe menos democracia, nunca mais.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (23) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, é verdade. Incrível a vontade de contribuir com o Brasil, colaborando para a presidente dar certo. Só que ela obteve apenas cerca de 56% dos votos. Não foram 100% dos votos. Mesmo assim, parece que há só um partido no Brasil: o Partido Governista. Depois, pensar no bem do Brasil é papel das oposições. Governos só governam e às vezes, o fazem para os outros mais próximos e não necessariamente para a maioria. E dizem que resolveram tudo para todos. Muita gente precisa entender que, se quiser aderir ao governo, pode fazê-lo, dentro do que a lei o permita. Só que têm de saber, mais ainda, que a lei não permite, também, que o bolso de todos contribua, sem regras, para aumentar o número de assentos no ônibus governista. O bom é que há, ainda, uns cerca de 40% que acreditam ter votado nas oposições. Seria uma tautologia dizer que o fizeram pelo bem do Brasil. E isso é um estorvo danado. Os adesistas não terão tanto sossego.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 23 de março de 2011 13:55:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Há alguns pontos nesse seu post em que eu discordo de você. Primeiro certa importância que você vem dando à movimentação de Gilberto Kassab. Gilberto Kassab já se tornou desinteressante para o, como é que se diz, mainstream. Até antes das eleições, as redes de televisão lá em São Paulo faziam campanha a favor. Com Geraldo Alckmin eleito governador, ele vai sofrer tanto como o Celso Pitta depois que foi aprovada a reeleição e o, como é que se diz, mainstream já não precisava carregar a candidatura de Paulo Maluf, pois havia Fernando Henrique Cardoso para o substituir. Aliás, depois de aprovada a reeleição, Paulo Maluf se tornava um estorvo, para o, como é que se diz, mainstream, pois podia representar uma divisão do voto paulista, o que seria prejudicial para a candidatura de Fernando Henrique Cardoso.
Penso que o artigo de Marcos Coimbra “Muito barulho por nada” saído no Correio Brasiliense de 23/03/2011 retrata bem a falta de relevância desse assunto (Li o artigo junto ao post que saiu ontem (23/03/2011) no blog do Luis Nassif intitulado “A desimportância do PSD, por Marcos Coimbra” de quarta-feira, 23/03/2011 às 11:23 feito a partir de um email de um comentarista indicando o artigo).
É claro que se houver algo bem poderoso por trás da criação do partido, ai se justificaria todo o seu apreço, sem trocadilho, para a movimentação de Gilberto Kassab. Teria que ser algo bombástico, como houvesse a intenção de José Serra concorrer pelo novo partido a prefeito de São Paulo. No entanto, é mais provável que quem financie o novo partido seja Minas Gerais, assim esta possibilidade para mim não existe.
Aproveito para fazer uma pequena referência a Guilherme Afif Domingos. Em 1989 ele foi mais um a dividir as forças de São Paulo. Candidatou-se pelo Partido Liberal. Um dos entusiastas fundadores do Partido Liberal foi Aluísio Pimenta que fora cassado pelo golpe de 1964. A idéia de Partido Liberal de Aluísio Pimenta talvez não correspondesse a mesma idéia de Partido Liberal de Guilherme Afif Domingos e estivesse mais próxima da resposta que Fernando Henrique Cardoso dera a pergunta de jornalista na primeira entrevista coletiva que ele fizera logo após ser eleito presidente em 1994 (Ou após ter tomado posse) diante da pergunta se ele era liberal. Como resposta Fernando Henrique Cardoso respondera que não, a não ser que se tomasse o termo como um “liberal” dos Estados Unidos.
E lembro uma segunda passagem com Guilherme Afif Domingos à frente do Partido Liberal. Em 1989, na campanha presidencial, Guilherme Afif Domingos perguntou a Leonel Brizola o que o político gaúcho achava da política de isenção tributária que o partido dele (O Partido Liberal) preconizava para a cesta básica. É claro que seria muito difícil Leonel Brizola se opor a uma política que aparentemente é muito boa para a população. Ele reforçou então a proposta dizendo que era necessário criar mecanismos para baratear a alimentação dos mais pobres, mas que havia que se ter muito cuidado com a proposição de desonerações tributárias assim, pois elas podem ter fortes repercussões nas contas públicas de estados cuja base de arrecadação fosse produtos de origem agropecuária. Não só se saia da pergunta embaraçosa de Afif Domingos como dava uma aula de federalismo, uma das questões mais importantes na discussão política no Brasil, mas, ao meu gosto, bastante relegada.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 24/03/2011

quinta-feira, 24 de março de 2011 08:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
A segunda discordância é com a sua insistência em culpar o governo (Por não segurar a base) pela não aprovação da CPMF. Para você, o governo possuía os 60% dos votos necessários para aprovação da continuidade da CPMF no Senado. Eu nunca fiz o levantamento dos votos e, portanto, não posso dizer que você esteja errado. Sempre achei que a oposição mais a parte do PMDB que convivia melhor com a oposição do que com o governo ficariam com os 40% dos votos. É claro que, entre os apoiadores do governo há muitos com sotaque libertário, como hoje é o Francisco Dornelles. Hoje não, pois mencionei em seu post “Melhor aguardar” de quinta-feira, 17/03/2011 artigo de Marcio Moreira Alves, publicado no Jornal do Brasil de 10/05/1993, em que Márcio Moreira Alves, analisando com tristeza a transformação pela qual passara Francisco Dornelles e tendo em vista a campanha que Francisco Dornelles movia então contra o Estado, comparou-o a Bakunim. Então já pelos anos de 1993 Francisco Dornelles adotou um comportamento estadocida. Admirável que isso tenha ocorrido com um parente de Getúlio Vargas e de Tancredo Neves.
Aliás interessante é comparar a sua crítica à incapacidade de o governo administrar a contento a sua base na aprovação da CPMF com o seu post “Batalha final entre Lula e FHC” de terça-feira, 27/11/2007, para o qual há chamada na página inicial do blog. Naquela época, para você, a raiz do impasse relativo à prorrogação da CPMF devia-se a existência de duas oposições: uma que tem poder orçamentário e a que não tem. Ou posto de outra forma por você alguns parágrafos à frente:
“O cálculo de FHC parece simples: se Lula for derrotado na CPMF, ele, FHC, terá adquirido uma posição incontrastável no comando político das oposições, junto com o ex-senador Jorge Bornhausen, a principal referência de poder interno do Democratas”.
A certeza como você atribui ao governo a culpa pela não prorrogação da CPMF deixaria subentendido que o governo de posse de pesquisas qualitativas que indicavam a antipatia popular a CPMF usou a batalha da prorrogação da CPMF apenas como uma forma de atingir o que a oposição temia, nas suas palavras, “que a quebra de caixa respingue nas jóias da coroa da oposição: os governos de São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal”
Assim, o governo ia atrás de outros tributos para cobrir a perda e não teria o que repassar para governos principalmente da oposição e ficava livre da antipatia popular. Era como se o ônus pela falta de recursos para a saúde fosse da oposição e o bônus pelo fato do povo ver-se livre de um imposto pelo qual o povo tem antipatia fosse do governo. Se nós estamos sendo administrados com esse grau de perfeccionismo e estratégia política então é de se esperar que os caras lá estão alguns anos à frente daquilo que nós o povo consideramos que é a arte de governar.
Aliás é de se perguntar se a decisão recente do STF sobre o Ficha Limpa (conjugada com a falta de decisão anterior) também não fez parte dessa estratégia.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 24/03/2011

quinta-feira, 24 de março de 2011 23:49:00 BRT  

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