quarta-feira, 30 de março de 2011

Uma exceção (30/03)

José Alencar merece as homenagens. Por ter sido um patriota. Principalmente por ter dedicado toda a vida útil empresarial à indústria. Um caso raro de empresário brasileiro que percorreu integralmente a trilha da construção do sucesso dedicado a produzir coisas tangíveis
 
José Alencar morreu ontem depois de atravessar os últimos anos em público de mãos dadas com o câncer, ou cânceres. Foi uma opção consciente. Alencar sempre dizia que como vice-presidente não tinha o direito de guardar para si as circunstâncias e efeitos da doença.

Dizia que o câncer do Zé Alencar era assunto privado, mas o do vice-presidente era assunto de todo o Brasil.

Há um debate permanente no jornalismo sobre os limites da exposição de alguém com face pública. Para o meu gosto, valeria aqui a norma dita americana.

Tudo que é da vida do político é assunto de interesse público. O ex-vice-presidente seguiu essa regra. E reforçou, com a atitude, sua imagem e seu capital político, bem como o capital de Luiz Inácio Lula da Silva.

É bastante provável que mesmo sem Alencar na vice Lula tivesse vencido as eleições que venceu. Há também algo de exagero na tese de que Alencar foi decisivo para reduzir as resistências empresariais a Lula em 2002.

Elas arrefeceram após a Carta aos Brasileiros, em que o então candidato disse estar comprometido com as grandes linhas macroeconômicas do governo anterior. E caíram a zero com a condução que Antonio Palocci deu ao Ministério da Fazenda entre 2003 e 2006.

Alencar atravessou o primeiro mandato de Lula arremetendo contra a taxa de juros e contra Palocci. E contra o Banco Central.

Recolheu espaços na cobertura jornalística mas não conseguiu influir de fato na política econômica. O ministro Palocci contou com a confiança irrestrita de Lula até cair. Depois, a função de elo com o mercado foi ocupada por Henrique Meirelles.

O ex-vice-presidente falecido ontem nunca deixou de ser um outsider, mesmo dentro do governo. Uma fraqueza que ele transformou em força. Dizendo coisas que talvez Lula quisesse ele próprio declarar, não fossem os limites impostos pela realpolitik.

Como na polêmica das relações entre o Brasil e o Irã. Ali, Alencar expressou a compreensão que ia pela mente de boa parte do governo brasileiro. Disse que uma eventual bomba atômica iraniana seria um elemento de dissuasão. Para evitar que o Irã virasse um Iraque.

Disse porque podia dizer. E ficou por isso mesmo. Teve um efeito nos bastidores, mas publicamente, nada.

Se Lula era a expressão da metamorfose ambulante, vangloriando-se por mudar de posição e discurso conforme a necessidade, Alencar fazia o contraponto. Com o estoicismo e a coerência. O agravamento do câncer apenas potencializou o perfil.

A aceitação de Alencar pelo PT lá atrás não foi pacífica, mas com o tempo, com as crises e diante da lealdade dele ao presidente e ao partido o vice foi aceito como um petista, na prática. Mesmo sendo do PRB, legenda que ajudou a criar quando deixou o PL (hoje PR).

Alencar já vinha sendo homenageado em vida e será mais ainda agora.

Mereceu. Por ter sido um patriota. Não só pelo que fez na política. Mais por ter dedicado toda a sua vida útil empresarial à indústria. Um caso raro de empresário brasileiro que percorreu integralmente a trilha da construção do sucesso dedicado a produzir coisas tangíveis.

Entre nós não é pouca coisa. Num país nascido e desenvolvido sob a marca do anti-industrialismo, da colônia à República, definitivamente não é pouca coisa.
 
Outra cultura
 
Barack Obama passou pelo Brasil sem dar entrevista coletiva. Mas deu no Chile. Donde se deduz que a opção de não fazer uma coletiva aqui foi das autoridades brasileiras. Paciência, estão no seu direito.

Quem ocupa o poder costuma ver transtorno na obrigação de comunicar-se em momentos e situações não ideais. Mas é o contrário, o poder comunicar-se eficazmente é um ativo dele, poder.

Nesta segunda-feira, Obama explicou longamente pela TV aos americanos o que os Estados Unidos fazem na Líbia. Fez um discurso com começo, meio e fim. Houve quem concordasse e houve quem não, mas a explicação — ou a tentativa de — está ali.

É outra cultura política, em que se explicar faz parte do trabalho de quem governa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (30) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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4 Comentários:

Blogger pait disse...

Felizmente não precisamos do vice, porque ele passou boa parte do mandato sem condições de assumir. Não foi uma atitude responsável.

quarta-feira, 30 de março de 2011 10:15:00 BRT  
Blogger LEN disse...

Boa noite Alon. Concordo com você, a imprensa tem o dever de divulgar o que é de interesse público, e a vida pessoal do homem (ou mulher) público não pode ficar em uma redoma. Palmas para ela por ser indiscreta quanto a doença que Dilma teve e se curou e a que matou José de Alencar, no entanto é incompreensível a incrível cortina de fumaça jogada sobre o caso que o então presidente da república teve com a jornalista Miriam Dutra, com quem teve um filho feito de bastardo por anos e com a conivência da imprensa "livre". Será que nesse caso a indiscrição se escondeu de vergonha ou não era de interesse público a infidelidade do presidente da república? a imprensa tem que ser indiscreta sim Alon, mas sem selecionar alvos porque senão vira politicagem.

Abração.

quarta-feira, 30 de março de 2011 20:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pait (quarta-feira, 30/03/2011 às 10h15min00s BRT),
Concordo com a frase inicial do seu comentário:
"Felizmente não precisamos do vice, porque ele passou boa parte do mandato sem condições de assumir".
Na verdade concordo só com a primeira oração. Para sorte do Brasil, Lula e a sorte que acompanhou o ex-presidente em todo os dois mandatos puderam ser úteis ao Brasil durante os oito anos de governo Lula.
Agora só em condições excepcionais um vice pode representar um algo mais para um país, afinal na maior parte das vezes o próprio presidente não representa. Assim de chofre eu lembro o caso de Lyndon Johnson que talvez tenha dado para os Estados Unidos uma sociedade melhor do que a que John Kennedy pudesse dar. Lyndon Johnson tinha melhor trânsito com a sociedade conservadora do Sul dos Estados Unidos e isso pode ter criado certo diferencial nas negociações no Congresso Americano para construir a "Great Society".
De todo modo, como você pode ver nos meus comentários que enviei para o post de Alon Feuerwerker intitulado "O custo de um estilo" de terça-feira, 08/02/2011 (http://www.blogdoalon.com.br/2011/02/o-custo-de-um-estilo-0802.html), não creio que resulta em grande diferença nos efeitos da ação estatal a mera mudança do condutor do cargo mais alto da nação.
Como eu disse, há situações excepcionais. Aqui no Brasil há o caso de Tancredo Neves. A crer no que eu disse no post de Alon Feuerwerker "Tancredo aos 100 anos" de quarta-feira, 03/03/2010 (http://www.blogdoalon.com.br/2010/03/tancredo-aos-100-anos-0303.html), o Brasil seria outro se Tancredo Neves não tivesse morrido. Ali, no entanto, houve uma convergência de fatores que faziam de Tancredo Neves uma figura inigualável. Não havia no Brasil ninguém que tivesse a mesma compreensão das finanças públicas com a visão burocrática contabilista como a de Tancredo Neves e que fosse ao mesmo tempo uma pessoa com a formação humanista cristã que ele tivera na vida e com o conhecimento da atividade política que ele possuía e alem disso despojado do espírito de aventura que o momento econômico nacional não recomendava. Na época o mundo ainda convivia com a elevação dos juros do final da década de 70, o Brasil se espremia entre uma dívida aparentemente impagável e um saldo na Balança Comercial de U$ 12 Bilhões que nos fazia crescer a passos mais rápidos, mas deixava uma grande parte da população em situação de miséria.
Agora, políticos como José Sarney existiam aos milhares. Se não fosse ele, seria outro, mas a mudança seria pequena (Talvez como representante do passado, José Sarney criou um antagonismo suficiente para que se tivesse uma das Constituições mais sócio-liberal no mundo moderno, com outro talvez nós não desfrutaríamos do mesmo bônus).
Enfim é isso: felizmente não perdemos a boa sorte que Lula trouxe. Se, entretanto, a sorte nos tivesse abandonado e José de Alencar não pudesse assumir, outro certamente assumiria talvez até com mais desenvoltura e aptidão.
O papel de José de Alencar foi outro. Ele deu ânimo, vida e esperança a milhões de brasileiros. Felizmente ou por sorte ele pode fazer isso durante todos dois mandatos de Lula.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 31/03/2011

quinta-feira, 31 de março de 2011 14:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É verdade Len. Senão, acaba indo para o horário eleitoral, como já aconteceu em algumas eleições brasileiras.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 31 de março de 2011 19:13:00 BRT  

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