sábado, 26 de março de 2011

A teimosia dos fatos (27/03)

Seria mais razoável o presidente do Banco Central vir aqui fora e dizer, com clareza, que está entregando um tanto a mais de inflação para ter, em troca, algum crescimento adicional. E que isso é política de governo

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, passou os últimos dias em “PR mode”, foi cuidar das relações públicas e da comunicação. Em vez de pregar o olho o tempo todo nos indicadores de mercado, entrou em combate olho no olho pelas expectativas.

No ringue com empresários e jornalistas, Tombini luta para enfrentar as más expectativas. Que muita gente boa acredita podem influir no futuro material.

Quais são elas? A principal é que a inflação vai rondar algum ponto perto do topo da meta. Vai rondar os 6,5% este ano.

Sei que ninguém mais suporta histórias de como o dito na campanha eleitoral pouco ou nada tem a ver com o feito depois, mas infelizmente aqui não vai ter outro jeito. Os fatos são teimosos, como dizia um tal de Lênin.

O mundo quase desabou quando o candidato do PSDB disse lá no começo da corrida presidencial que o Banco Central num eventual governo dele não seria a Santa Sé. Teve que recuar rapidinho.

E o PT explorou com eficiência, em público e no bastidor, o medo de que a independência do BC fosse para a cucuia.

A percepção neste início de governo Dilma Rousseff é que a independência do BC foi para a cucuia.

Dilma assumiu o governo com inflação embicada para cima, resultante de um vetor externo e um interno. O externo é a inflação importada. O interno são os desequilíbrios produzidos pelo esforço para enfrentar a crise e eleger Dilma.

Haveria dois cenários possíveis. No primeiro o BC procuraria pelo menos tentar honrar a meta de inflação já este ano. Pois a meta é anual. No segundo o BC deixaria a inflação correr neste 2011, para não furar, para baixo, um determinado piso de crescimento econômico.

O BC vai pelo segundo caminho.

Transformou na prática o topo da meta em centro, sem medo de ser feliz. Mas também sem admitir. E respaldou-se numa explicação sofisticada, que combina palavras recentemente apresentadas ao grande público (“medidas macroprudenciais”) e conformismo.

Seria mais razoável o presidente do Banco Central vir aqui fora dizer, com clareza, que está entregando um tanto a mais de inflação para ter, em troca, algum crescimento adicional.

E que isso é política de governo. Um trade-off pensado e executado.

E que será a linha do governo nos próximos anos, quando e se necessário.

Melhor do que os neologismos e as promessas. Sobre neologismos já falei. E a promessa é que a inflação de 2012 vai ser menor, mesmo com o reajuste contratado de 14% no salário mínimo do ano que vem.

As adivinhações não são exatamente meu ramo, então vou esperar para ver. Mas, se eu na análise posso esperar, o empresário que planeja e o trabalhador que pensa no reajuste não têm o mesmo privilégio.

O presidente do BC vem prometendo que daqui a meio ano a curva vai mudar de sentido, suavemente. Sobre isso, conversei com três empresários dos que já estiveram no road show de Tombini.

Perguntei a eles se numa economia com emprego aquecido e crédito ainda abundante é possível atravessar um período tão longo com inflação mais alta e evitar o engessamento da bichinha, pela via da indexação.

Dois responderam que não e um disse estar em dúvida.

Perguntei então se eles conduziriam o resto de 2011 e fariam o planejamento de 2012 com base na premissa de o governo conseguir levar a inflação ao centro da meta ano que vem.

Os três disseram que não.

Não foi à toa que depois da entrevista de Dilma ao Valor Econômico, na qual disse que vai combater a inflação, o mercado voltou a subir as projeções para a malvada.

Adultos

Por falar em relações públicas, os últimos dias trazem iniciativas e manifestações para mostrar, tardiamente, que a viagem de Barack Obama ao Brasil foi um sucesso.

Fica a critério de cada um julgar.

Ainda sobre a viagem, foi notável o contraste entre o tom infantilizante da fala final de sua excelência no Brasil e a sobriedade objetiva das palavras dele no Chile.

Aqui ele nos afagou por, na visão dele, termos atingido a idade adulta. Ali ele os tratou como adultos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (27) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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17 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Realmente, falar de coisa de campanha, ficam extemporâneas. Mas, quando Serra falou sobre o BC e Copom, não falou em acabar com independência operacional do BC. Falou, inclusive, que o BC continuaria independente, mas não nos moldes do FED dos EUA. Como era campanha, porém, logo ele passou a ser quem acabaria com a independência da autoridade monetária e mexeria profundamente no câmbio e nos juros. Uma falácia, bem vendida, diga-se e multiplicada nos meios de comunicação.
Swamoro Songhay

domingo, 27 de março de 2011 12:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Agora, terminadas as eleições, o que é que se tem? Primeiro, o R$ desvalorizado pela inflação. Segundo, o R$ sobrevalorizado em relação ao US$. Terceiro, taxas básicas de juros Selic, elevadas. Quarto, a Selic elevada não está arrefecendo a inflação. Quinto, o US$ desvalorizado em relação ao R$, também não está arrefecendo a inflação. Sexto, a autonomia do BC, que implicaria na autoridade monetária tomar medidas para proteger a moeda sem ser contestada pelo Executivo, ou seja, pela Presidência e Fazenda, parece ter sido diminuída no atual governo. Sétimo, não é certo que o anunciado ajuste de R$ 50,0 bi, será executado. Oitavo, também não é certo, que, se executado, tal ajuste seria suficiente.
Swamoro Songhay

domingo, 27 de março de 2011 12:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Sobra um velho temor que existia desde os anos 70. Crescer sem inflação ou crescer com inflação? Ou ainda, em caso de estabilização, como crescer? Ao que parece, não será sabido pelo presidente do BC ou pela presidente da República, se a política econômica apostará em um pouco de inflação, para ter um crescimento do PIB algo em torno de 3,5% a 5% a.a. para 2011.
Swamoro Songhay

domingo, 27 de março de 2011 12:32:00 BRT  
Anonymous Marc Sanc disse...

As políticas do Plano de Governo dos vencedores da última eleição serão implantadas a partir de agora no Brasil, ao menos nos próximos 4 anos.

As políticas do Plano de Governo dos derrotados na última eleição NÃO serão implantadas no Brasil ao menos nos próximos 4 anos.

Quem sabe daqui a 4 ou 8 anos. Quem sabe?

segunda-feira, 28 de março de 2011 16:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Admiro seu esforço de equilíbrio entre as ideologias tucanas e petistas, portanto seria mais sensato não perder-se em generalizadas afirmações de que o PT teria explorado a tese de independência do BC. Ora oras, São Julian de Weekleaks brinda-nos com mais uma fofoca de embaixadinhas, - agora sobre o Henrique Meirelles suplicando uma maior independência para o BC sob o PT, então não bate, a verdade é que para o PT isso é herança maldita de FHC. Outra coisa é a subscrição a seguir: (...)O interno são os desequilíbrios produzidos pelo esforço para enfrentar a crise e eleger Dilma(...). Melhor especificar, já que uma coisa é justificada pela competência gerencial, contida na primeira parte da afirmação, graças a ela ganhamos mais uma, a outra é meio maldosa e sem explicação, daí fica sem mais valia.
Ismar Curi

segunda-feira, 28 de março de 2011 16:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

[O mundo quase desabou quando o candidato do PSDB disse lá no começo da corrida presidencial que o Banco Central num eventual governo dele não seria a Santa Sé. Teve que recuar rapidinho] Acusar é do jog político. Recuou porque quis. Agora mesmo estão acusando o governo Dilma por ter suspendido concurso, quando todo começo de governo precisa fazer isso para que possa avaliar o quadro funcional, tal que quando se recebe empresa falida, além de quem emprego é que o não falta.

terça-feira, 29 de março de 2011 06:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Muito bom o post, muito bom mesmo. Manifesto, entretanto, algumas dúvidas quanto ao conteúdo de um ou dois parágrafos.
Vejamos o primeiro:
"O mundo quase desabou quando o candidato do PSDB disse lá no começo da corrida presidencial que o Banco Central num eventual governo dele não seria a Santa Sé. Teve que recuar rapidinho".
Houve recuo? O mundo quase desabou (O mundo? desabou?)?
É preciso compreender bem o pensamento popular sobre a realidade inflacionária e os efeitos do juro. Talvez seja o que Wright Mills chamou de imaginação sociológica. Dou as dicas do que eu sei. Cem por cento do povo brasileiro menos eu querem inflação baixa. Noventa e cinco do povo brasileiro não sabem da relação do juro com a inflação. Dos cinco pontos percentuais que sabem, pelo menos uns quatro pontos percentuais não sabem o significado da crítica de José Serra.
Outra dúvida é quanto a validade de você dizer que:
"A percepção neste início de governo Dilma Rousseff é que a independência do BC foi para a cucuia".
Independência?
Embora eu veja os vazamentos das embaixadas americanas no WikiLeaks como meras fofocas e raramente tenho a transcrição do original vazado, algumas notícias podem surpreender. No blog de Luis Nassif há o post "O lobby de Henrique Meirelles junto aos EUA" de sábado, 26/03/2011 às 08:17. No caso trata-se de matéria de 2006 (Se fosse de 2004 era pressão para dar ao presidente do Banco Central do Brasil status de ministro). Não fica muito claro a favor de que ou contra quem Henrique Meirelles estava lutando. De todo modo não há nos vazamentos algo que pudesse mudar a minha concepção de que Henrique Meirelles fora escolhido presidente do Banco Central do Brasil para inglês ver e para os brasileiros que se tomam por ingleses também possam ver. Enfim, independência do Banco Central só existiu nos cinco anos em que Gustavo Franco esteve à frente do Banco Central, seja em cadeira lá no Ministério da Fazenda, seja em alguma diretoria no Banco Central seja mais à frente, a partir de 1997, quando assumiu a presidência do Banco Central. E existiu também com Armínio Fraga, pois, preocupado com as conseqüências da demissão de Gustavo Franco, Fernando Henrique Cardoso deixou o Banco Central por conta de Armínio Fraga, sem exercer qualquer interferência.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 29/03/2011

terça-feira, 29 de março de 2011 23:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
O melhor do seu post é uma passagem que eu deixo para comentar no final, pois antes quero mencionar outro ponto que de início me assustou. Trata-se de trecho em que você diz peremptoriamente:
"E que será a linha do governo nos próximos anos",
Mas então você acrescenta curto e firme:
"quando e se necessário".
É isso, e salvo o que falta a dizer não há mais nada a dizer. Ou talvez eu possa ainda dizer que "road show" de Tombini ficou um tanto exagerado, mas todas essas dúvidas e exageros são perdoados diante da precisão da sentença a seguir transcrita a bem merecer o melhor dos elogios. Você diz:
"O interno [O vetor interno que embicou a inflação para cima] são os desequilíbrios produzidos pelo esforço para enfrentar a crise e eleger Dilma"
A lamentar que a frase demorou a ser dita. Podia ser dita já em dezembro de 2009 quando da divulgação do PIB do terceiro trimestre de 2009, mas o que ficou foi o seu post "Discursos não pagam as contas" de sexta-feira, 11/12/2009, recriminando Lula por deixar o BC praticar juros reais estratosféricos. A informação provisória do crescimento anualizado do PIB relativa ao terceiro trimestre, tendo em vista o crescimento de um trimestre em relação ao trimestre anterior (dessazonalizado) dera 8,24% e na definitiva esse crescimento ficara em 10,38%. E em abril de 2010, com a percepção de que a economia estava em retomada, apesar que o PIB divulgado em março dera negativo, pôs-se Carville em xeque como se a economia que não é tudo fosse nada (Veja sobre isso o seu post “Carville em Xeque” de sábado, 18/04/2010).
Clever Mendes de Oliveira
BH, 29/03/2011

quarta-feira, 30 de março de 2011 00:23:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, parabéns pelo texto. Você é o primeiro jornalista que mostra com clareza a completa mudança na política macroeconômica entre os governos Lula e Dilma. Engraçado como lealdades ainda que contrárias produzam o mesmo resultado: afirmar que as alterações nessa área, assim como os nomes, sofreram pequenas mudanças. O público envolvido com as questões pode ler nas entrelinhas, o público em geral, todos (gente de mercado e governo) preferem manter a maioria na ignorância. Só uma observação que me incomoda, não existe isso de mirar no teto, porque a banda só existe em função da dificuldade de real de acertar a meta, seja ela o centro ou o teto. Na verdade, como o viés atual é de errar pró inflação, dificilmente deixaremos de superar o teto em 2011. Na verdade, finalmente, teremos uma experiência integral com os autodenominados “desenvolvimentistas”, depois de dois presidentes que se diziam desenvolvimentistas (e em muitas coisas de fato o foram, mas preferiram a segurança da estabilidade de preços), eis o bom da democracia: deixemos que o eleitor julgue o que prefere. Eles se dizem desenvolvimentistas, o que eu vejo é demagogia e populismo, é Getúlio Vargas por fim reafirma seu predomínio inteiramente, e nós estaremos mais próximos da maior parte dos países latino-americanos. Parabéns novamente pelo texto.

quarta-feira, 30 de março de 2011 10:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (domingo, 27/03/2011 às 12h32min00s BRT),
O mais importante para saber os passos futuros é ter a exata compreensão que a inflação não é um problema econômico, mas sim um problema político. Com inflação, os governantes de países democráticos soçobram.
O problema político decorre do povo entender a inflação como um roubo e que o governo poderia evitar e se não evita ele está mancomunado com os que roubam que são os empresários que aumentam os preços. Magistralmente essa idéia da inflação como um problema político e não econômico foi explicada por Janio Quadros, um político, para o economista Antonio Delfim Netto. Em uma campanha eleitoral após escutar Antônio Delfim Netto dizer que
"o processo inflacionário era decorrente do déficit orçamentário",
ele explicou que uma frase assim seria incompreensível para a população. E emendou, apresentando a correção para o economista reproduzir nos próximos comícios, conforme se verá a seguir e que ele teria dito segundo história publicada na Folha de S. Paulo. Disse então Janio Quadros, após reprovar a frase anterior e indicar como se deveria falar, que o certo era dizer que:
"a causa da carestia é a roubalheira do governo",
Tudo que a Dilma quer é saber qual é o ponto em que a inflação caia e o crescimento econômico aproxima-se do patamar que você considera factível - 3,5% a 5% a.a.
Na verdade, ela precisa que este ano a taxa de crescimento do emprego seja menor do que a taxa de crescimento de oferta de mão-de-obra. Não é difícil encontrar esse ponto dada a formidável herança que Lula legou e com o crescimento embora alto já arrefecido desde o segundo semestre de 2010.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/03/2011

quarta-feira, 30 de março de 2011 13:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ismar Curi (segunda-feira, 28/03/2011 às 16h56min00s BRT),
Não é tomando as dores de Alon Feuerwerker, pois ele não precisa disso. Nem é para aproveitar para elogiar a você pela construção desse seguinte argumento no seu comentário:
"Admiro seu [De Alon Feuerwerker] esforço de equilíbrio entre as ideologias tucanas e petistas",
algo que eu queria dizer e devo ainda dizer se não igual pelo menos de modo parecido.
É um tanto para tomar as dores pelos meus argumentos nos comentários que enviei para Alon Feuerwerker aqui neste post “A teimosia dos fatos” de sábado, 27/03/2011, em especial o que eu encaminhei terça-feira, 29/03/2011 às23h25min00s BRT e é principalmente para destacar que ainda pretendo indicar pontos de vista de militantes do PT, ou melhor de um militante do PT, o Na Prática a Teoria é Outra em defesa da independência e ao mesmo tempo mostrar a crítica que eu fiz à visão dele. É então em razão disso tudo que faço a observação em relação à sua crítica, e repetindo sem tomar as dores de Alon Feuerwerker, eu diria que ele não disse propriamente
"que o PT teria explorado a tese de independência do BC"
Nas palavras dele o que há é a afirmação de que
"o PT explorou com eficiência, em público e no bastidor, o medo de que a independência do BC fosse para a cucuia"
Primeiro a independência aqui só alcança aqueles que se tomavam por ingleses. Sempre considerei as declarações de José Serra mera estratégia eleitoral e não dei à época tanta importância ao medo que a declaração de José Serra teria desencadeado E que fique subentendido, na frase de Alon Feuerwerker, o medo era em decorrência da declaração de José Serra.
Quanto a atuação do PT, acho que Alon Feuerwerker nesse ponto está certo, embora tenha exagerado no alcance dessa ação do PT. Se ela teve efeito foi em uma meia dúzia de três ou quatro. É possível que se se reduza o “todo mundo” a que o Alon Feuerwerker estava se referindo, restringindo-o à turma que financia a campanha, fazendo talvez sentindo junto a esse público pequeno dizer que o PT tenha atuado bem.
O difícil é saber a quem o discurso de José Serra era destinado, pois certamente o grupo que o apoiava sabia exatamente até onde José Serra iria. Na ocasião, eu considerei que José Serra queria mostrar para uma esquerda ainda reticente que ele era um candidato mais disposto a esses atos de arrojo.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/03/2011

quarta-feira, 30 de março de 2011 13:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ismar Curi (segunda-feira, 28/03/2011 às 16h56min00s BRT),
Analiso agora sua crítica à afirmação de Alon Feuerwerker que reproduzi no comentário de quarta-feira, 30/03/2011 às 00h23min00s BRT aqui para este post “A teimosia dos fatos” e volto a o fazer com o adendo que também inclui na transcrição anterior:
“O interno [O vetor interno que embicou a inflação para cima] são os desequilíbrios produzidos pelo esforço para enfrentar a crise e eleger Dilma”
De novo não tomo as dores pelo Alon Feuerwerker, mas pelos meus argumentos no comentário de quarta-feira, 30/03/2011 às 00h23min00s BRT.
Para você, o que Alon Feuerwerker falou “os desequilíbrios produzidos pelo esforço para enfrentar a crise e eleger Dilma” na parte referente à eleição da Dilma Rousseff seria, nas suas palavras:
“afirmação . . . meio maldosa e sem explicação”.
Não vi maldade nisso. A Dilma Rousseff ganhou não só pelos resultados favoráveis ao esforço do governo para enfrentar a crise, como também pelo esforço para que ela fosse eleita. Esforço que em ambos os casos produziu desequilíbrios. Desequilíbrios, entretanto, incomensuravelmente menores do que, por exemplo, os desequilíbrios resultantes do esforço que os Estados Unidos empreenderam para invadir o Iraque e assim assegurar a reeleição de George Walker Bush, o filho.
E mais ainda e agora escolhendo exemplo brasileiro, desequilíbrios pequenos diante dos desequilíbrios resultantes do esforço que o governo Itamar Franco despendeu para acabar com a inflação de uma vez, em vésperas de eleição e assim eleger um presidente da República e um presidente da República que não fora sequer presidente de um grêmio recreativo na juventude quando aqueles impregnados de espírito de liderança costumam desenvolver ou adquiri habilidades essenciais ao processo de tomada de decisão tão específico para os que exercem a atividade de chefe de executivo.
E mais, quando se considera a seqüência do Plano Real, desequilíbrios menores do que os desequilíbrios resultantes do esforço para aprovar a emenda da reeleição (Não falo da compra de votos, mas da necessidade de manutenção do câmbio que gerava mais estrangulamentos externos como os de 1997, na crise dos Tigres Asiáticos e os de 1998, na crise russa) e depois garantir a própria reeleição. Ressalvo, entretanto que não há lei que proíba os governantes agirem desse modo.
Sobre isso vale uma leitura ao post “À espera de um carinho” de sábado, 12/12/2009 e ao meu comentário de terça-feira, 15/12/2009 às 23h32min00s BRST dando destaque para o comentário de Alberto099 de terça-feira, 15/12/2009 às 11h09min00s BRST. Nos comentários mencionados e nos posteriores se discutia se eram lícitas medidas desse tipo que visam ganhar a eleição.
Agora posso falar da pertinência da sua frase inicial do email relativamente a Alon Feuerwerker, em que você diz:
“Admiro seu esforço de equilíbrio entre as ideologias tucanas e petistas”,
Há muito eu faço referência para a semelhança de postura de Alon Feuerwerker e algumas outras personalidades que almejam o que você chama de “equilíbrio entre as ideologias tucanas e petistas”. Evidencia isso parte de meu comentário (#51) de 15/04/2010 às 3:52 am (Numeração e data só aparecem quando não se baixa o intensedebate) junto ao post “Noblat e a Imensa Rede” de 14/04/2010 no blog de Na Prática a Teoria é Outra. No final (com um acréscimo que fizera depois) eu disse:
“De todo modo, para você e outros (E você está em boa companhia, pois posso mencionar aqui o Renato Janine Ribeiro, o José Eli da Veiga e o Alon Feuerwerker (Embora o Alon Feuerwerker nunca tenha explicitado uma expectativa e esperança que PT e PSDB se unissem)) que vivem pregando uma conciliação do PT com o PSDB a situação vai ser cheia de revertérios nesses próximos 8 anos”.
Depois com tempo falo mais.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/03/2011

quarta-feira, 30 de março de 2011 13:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Para encerrar indico agora três posts no Blog de Na Prática a Teoria é Outra, em que eu procurei mostrar que era mais de entusiasta pela eleição da Dilma Rousseff, as críticas que ele fazia às declarações do de José Serra no calor da campanha, embora eu atribuísse as declarações não ao calor da campanha, mas à estratégia do candidato.
O primeiro post é “Serra, o PTerodoxo, vai para o pau contra o PIG” de 10/05/2010, o segundo post é “Serra PTerodoxo: controle de danos, e uma dúvida” de 11/05/2010 e o terceiro post é “Serra e o BNDES” de 22/06/2010. Eles são fáceis de serem acessados via google de modo que não indicarei o endereço.
Os dois primeiros posts saíram no calor da declaração de José Serra e tem mais relação com a independência do Banco Central. O terceiro post, embora tratasse mais de declarações de José Serra relativamente ao BNDES, foi indicado não só porque também se discutiu a questão da independência do Banco Central, como também porque lá há um comentário meu que pretendo transcrever aqui.
Há ainda um quarto post que menciono também porque mostra a admiração de Na Prática a Teoria é Outra por você, admiração que no meu entendimento é decorrente da admiração de ambos pela figura de Fernando Henrique Cardoso. Trata-se do post “Alon e a autonomia do Banco Central” de 15/05/2010.
Faço agora a transcrição em duas etapas do comentário (#63) que enviei em 24/06/2010 às 01:22 am para um outro comentarista no post “Serra e o BNDES” de 22/06/2010. Disse eu lá no comentário:
“Renato A. de Oliveira Gimenes (#7) (22/06/2010 às 08:22 pm),
É exatamente isso. Como eu tenho insistido aqui no blog do Na Prática a Teoria é Outra, diante da insistência dele de dar importância às declarações de José Serra, é preciso que fique claro que José Serra está em campanha. Afora o habitual espírito petulante, presunçoso, sapiente, autoritário e cada vez mais descortês, de José Serra, as declarações dele se explicam apenas pela retórica. E essa minha insistência no caráter retórico das declarações de José Serra pode ser vista em meus comentários para os posts aqui no blog
“Serra, PTerodoxo, vai para o pau contra o PIG” de 10/05/2010, “Serra, PTerodoxo, controle de danos, e uma dúvida” de 11/05/2010 e “Alon e a autonomia do Banco Central” de 15/05/2010. E insisto nos comentários apenas porque pressinto certo endeusamento da política monetária do Banco Central por parte de Na Prática a Teoria é Outra.
Não que eu ache ruim a política monetária do Banco Central, apenas não vejo nela essa importância e competência e principalmente porque considero equivocada a valorização dessa política como se ela fosse decorrente de uma possível autonomia do Banco Central que o governo do PT teria concedido. Ao contrário, desenvolvo a idéia de que o Banco Central não desfrutou dessa autonomia no governo Lula. E venho desenvolvendo essa idéia há mais tempo. No sentido de demonstrar a maneira como o governo Lula usou e abusou do Banco Central eu enviei um comentário para o post “A fascinante história da meta única porém múltipla” de 03/07/2007 de autoria de Rolf Kuntz e que saiu no Observatório da Imprensa nº 440 e uns tantos outros para o post também no Observatório da Imprensa, mas no nº 482 de 22/04/2008, “Os juros, a inflação e o comício” também de Rolf Kuntz”.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/03/2011

quarta-feira, 30 de março de 2011 14:10:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Transcrevo agora a segunda parte do comentário (#63) que enviei em 24/06/2010 às 01:22 am para um outro comentarista no post “Serra e o BNDES” de 22/06/2010. Assim em continuidade eu disse:
“Vejo, entretanto, uma outra possibilidade nessas últimas declarações de José Serra. Embora o post de Na Prática a Teoria é Outra seja sobre o BNDES, vou me prender mais a proposta que José Serra fez de se adotar o modelo de autonomia do Banco Central do Chile com a participação sem direito ao voto do Ministro da Fazenda nas reuniões do Banco Central.
Talvez a idéia do José Serra seja, pressentido que vai perder, dispor a educar o povo brasileiro. Durante quase 8 anos, o governo Lula vem angariando os louros pela inflação em baixa e repassando para o Banco Central o ônus pelo aumento de juro. Faz isso com uma maestria tal que se se pergunta ao mais iletrado do brasileiro quem é o culpado pela inflação baixa ele responderá que é Lula e se perguntar quem é culpado pelo juro alto ele responderá que é Henrique Meirelles. E isso faz tão parte da nossa cultura que a bem da verdade, o Henrique Meirelles ficou indemissível, pelo menos no governo Lula. E mais interessante que o Henrique Meirelles é presidente para inglês ver. Aliás, um atributo de Henrique Meirelles que é de suma importância é ele ser oriundo do PSDB. Assim a responsabilidade pelo juro alto é do PSDB. Coisa de gênio.
Bem, ai então, José Serra propõe o modelo chileno que é autônomo ou independente no sentido que os membros possuem um mandato e ao mesmo tempo há essa presença do Ministro da Fazenda nas reuniões para discussão do juro. É como se o governo assumisse a responsabilidade pelo juro (ainda que não tivesse o direito ao voto) que o Banco Central definisse. Esse modelo é talvez menos eficiente politicamente do que o modelo brasileiro, mas é mais transparente e mais educativo no sentido de mostrar para a população que a taxa de juro é um processo interativo entre governo e Banco Central.
Só acho pouco provável essa possibilidade pelo fato do PSDB nunca ter demonstrado o interesse em instruir o povo brasileiro. O PSDB fundou-se para trazer a ética para política, mas sabia que ética e política são inconciliáveis. Defendeu o parlamentarismo sob o argumento de que governo bom o povo põe e governo ruim o povo tira, mas sabia que isso era falso. Na campanha de 1994, com a vitória já assegurada, FHC, em um dos programas eleitorais, prometeu diminuir os impostos. Ora, Gustavo Franco já o havia advertido que só se acaba com a hiperinflação aumentando os impostos, portanto, ele estava apenas enganando um povo.
Agora se a razão de José Serra for instruir o povo brasileiro, ele está de parabéns.
Depois comento sobre as declarações dele sobre o BNDES. De antemão penso que é declaração de campanha e não nego que é um bom achado. Ele deve pensar, já tenho o voto cativo da direita, preciso agora pegar o voto da esquerda do PT”.

Houve muita repetição de argumentos, mas a intenção era mostrar que as minhas idéias de hoje são aquelas da época da eleição. E há ainda um interesse maior na transcrição e que consiste em mostrar um item interessante no modelo do Banco Central chileno que talvez o Brasil devesse copiar e que foi em boa hora mencionado por José Serra no calor da campanha.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/03/2011

quarta-feira, 30 de março de 2011 14:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 30/03/2011. 1) Esta frase, de seu comentário, que foi pinçada de velhos políticos brasileiros, vem a calhar: "a causa da carestia é a roubalheira do governo". Não demanda nenhuma explicação. Só que a inflação é fenômeno monetário. Já ladrões, ai já e problema de polícia e justiça. E não de política econômica. 2) Quanto ao intervalo para evolução do PIB 2011, que coloquei, não o acho factível. Na realidade, acho que pode ser menor do que o intervalo de 3,5% a 5% a.a.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 31 de março de 2011 19:26:00 BRT  
Blogger Val-André Mutran  disse...

Se a previsão se confirmar 6,5% de inflação em 2011 é um fracasso de governo. Ainda mais se acompanhado de pequeno crescimento econômico.
Não tem jeito. Se o governo não cortar os gastos públicos, já era.
As pesquisas de opinião pública, agora favoráveis ao primeiro momento do governo da presidente Dilma Roussef, poderão se transformar num terrível dissabor, tão logo a população compreenda que a inflação é irmã gêmea do arrocho salarial.

domingo, 3 de abril de 2011 13:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (quinta-feira, 31/03/2011 às 19h26min00s BRT) e Val-André Mutran (domingo, 03/04/2011 às 13h05min00s BRT),
A lembrar que no Séc. XIX a inflação era definida como o aumento da quantidade de moeda em circulação. Até então nem existiam os índices de preços para medir a inflação. É claro que a natureza da inflação é econômica, mas os problemas econômicos dela são de menor importância.
Reforço meu comentário de quarta-feira, 30/03/2011 14h22min00s BRT. A inflação é um problema político e, por isso, Dilma Rousseff deverá fazer todo esforço para que a inflação desça para um patamar que não prejudique a popularidade dela.
Diferentemente de Fernando Henrique Cardoso quando assumiu o governo em 1994, atualmente ela pega um Brasil em muito melhores condições. Ela não tem a vivência política de Fernando Henrique Cardoso nem o conhecimento acadêmico da realidade brasileira que possuía Fernando Henrique Cardoso, mas tem mais habilidade gerencial para a tomada de decisão do que Fernando Henrique Cardoso cujo conhecimento o favorecia mais a ser um bom assessor do que um bom executor.
Ela poderia descuidar da inflação se importasse mais com o Brasil do que com a possibilidade de ser reeleita. Não creio, entretanto, que esse seja o caso.
Ela poderia descuidar da inflação também se ela tivesse a certeza que Lula seria o grande beneficiado da volta da inflação no governo dela. Só que a queda de popularidade dela traz como conseqüência a queda da popularidade de Lula. Por isso pode-se ficar certo, ela vai cuidar da inflação na medida necessária levando em conta a taxa de crescimento econômico e o índice de popularidade dela que é mais afetado pela taxa de inflação do que pela taxa de crescimento econômico.
Para o momento, tenho uma história que eu contei pela primeira vez no blog do Luis Nassif ainda na primeira fase do IG junto com o projetobr no final de 2007 no post “Preparando o álibi” de 23/12/07 às 07:00. Enviei o comentário em 02/01/2008 às 23:22 e no meu comentário eu faço referência a um comentarista que se autodenominava “Economista”. A parte que interessa no meu comentário é a seguinte:
“Pretendo esclarecer ao “Economista” o que eu quis dizer com a frase: “a inflação não é problema econômico, mas sim político”. . . . . Suponhamos que haja vários métodos filosóficos de combate ao diabo. O método aristotélico, o hegeliano, o sartriano, etc. Bem, um dia um gaiato pergunta: por que combater o diabo? Ninguém sabe, até alguém responder, ora, o diabo aumenta a produção de CO2 que provoca o aquecimento do planeta. Sendo assim, o diabo deixa de ser um problema filosófico e passa a ser um problema ecológico. Assim é a inflação. Os métodos de combate: aumento de receita tributária, aumento de endividamento público, aumento do juros, valorização da moeda, etc são métodos econômicos. Mas o objetivo de a combater é político. Ela é, portanto, um problema político.”
Um pouco mais de análise dessa história pode ser vista no antigo blog de Pedro Doria junto ao post “A revolução sexual do Irã” de 20/07/2009 às 04h58 (http://pedrodoria.com.br/2009/07/20/a-revolucao-sexual-do-ira/) em comentário (#169) que enviei em 23/07/2009 às 00h22.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 03/04/2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011 00:10:00 BRT  

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