segunda-feira, 7 de março de 2011

Sem trivialidade (07/03)

Há muito de ilusão nas táticas divisionistas, pois é bastante tênue o limite entre explorar inteligentemente as tensões no campo adversário e aderir. Mas vale reconhecer que o cenário para a oposição está longe de ser simples

Passei os últimos dias à procura de alguma área do governo onde os sinais sejam de continuidade. E achei. O aumento ao Bolsa Família tem tudo a ver com o simbolismo e as políticas do antecessor de Dilma Rousseff.

Por enquanto é só. Como aqueles soldadinhos empertigados diante do mausoléu de Lênin, na Praça Vermelha em Moscou, enquanto o mundo real opera a desconstrução da obra leninista e pós-leninista.

Há aqui um exagero, bastante comum nas comparações. Mas comparar é sempre útil no jornalismo e na política, então peço que as almas mais sensíveis não se ofendam. 

Não digo que o PT e o governo estejam intencionalmente empenhados em desconstruir o passado recente.

Noto apenas que todo o insumo disponível para os críticos, todinho ele, vem sendo fornecido pelo oficialismo. Aliás não poderia mesmo ser diferente, desde que a oposição anda ocupada com seus rearranjos. Tempo e energia são bens escassos.

O imbróglio da Cultura é um exemplo. Acontece 100% dentro das fileiras petistas e proximamente aliadas. Na política externa é a mesma coisa. 

Na economia o governo Dilma diz que herdou um orçamento inflacionado e inflacionário, que a impede, infelizmente, de dar aumento real ao salário mínimo. 

Herdou de quem?

Tirando o aumento ao Bolsa Família, de excelente relação custo (em dinheiro)/benefício (em imagem), a impressão é estarmos diante de um governo cujo eixo organizador é a mudança.

Tem uma explicação política. Se a aprovação do presidente anterior estava bem acima dos 80% e se, mesmo assim, a coisa só se definiu nos últimos dias do segundo turno, é preciso agir. E agir aqui é embicar decisivamente no sentido do centro. 

Ou da direita, segundo a caracterização dos mais inconformados.

Ao ponto de uma parte da oposição começar a especular se a melhor tática não seria apoiar o “antilulismo” intragovernamental, mesmo sabendo que a necessidade de sobrevivência desempenha poderoso papel centrípeto nos elementos que giram em torno do poder.

Há nisso muito de ilusão, pois é bastante tênue o limite entre explorar inteligentemente as tensões no campo adversário e aderir. Mas vale reconhecer que o cenário para a oposição está longe de ser trivial.

Pois não é que o PT esteja agora governando como o PSDB governaria. O PT está governando, em boa medida, como dizia que o PSDB iria governar.

Para complicar, o PSDB tem certa característica que o impele a uma espécie de “governismo programático”. E não é coisa recente. Vem pelo menos desde os movimentos, afinal frustrados, para tomar por dentro o governo de Fernando Collor.

O PSDB tem imensa dificuldade de raciocinar e se comportar como oposição. Imagine então numa conjuntura em que o governo aplica muitas políticas que os tucanos poderiam subscrever assobiando.

Outra complicação para o PSDB é a firme disposição petista de se aliar a qualquer um disposto a abrir mão de disputar para valer o poder federal. Traz uma tentação quase irresistível. 

O sujeito apoia o governo do PT e recebe em troca a promessa de não ser tratado localmente como inimigo.

Nada está 100% garantido, a coisa local pode sempre desandar, mas é um espaço potencial de sobrevivência. Melhor do que ser condenado a enfrentar em seu próprio terreiro a pressão da máquina federal.

Riam do quê?

O líder do PDT na Câmara dos Deputados, Giovanni Queiroz (PA), é um sujeito de sorte.

Queiroz encaminhou a favor e votou no destaque que subia o salário mínimo para 560 reais. Depois disso o céu prometeu desabar sobre ele e sobre outro rebelde pedetista, o deputado e sindicalista Paulinho da Força (SP).

Passadas as primeiras ameaças verbais, a vida real tende a se impor. Serão quatro anos de votações, e não dá para a cada uma delas o governo romper com quem vota contra. Daqui a pouco a maioria deixa de ser tão maioria assim.

Tampouco dá para o governo deixar que coloquem uma cunha definitiva na relação com o sindicalismo não cutista.

De quebra, o líder do PDT ganhou um presente. Ficou fora da foto em que os chefes da base do governo apareceram risonhos, comemorando a vitória na votação dos 545 reais. 

Votação em que derrotaram todas as propostas de dar alguma proteção para o salário mínimo nestes meses de inflação brava.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta segunda (7) no Correio Braziliense.

@alonfe

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