domingo, 6 de março de 2011

Risco de reindexação (06/03)

O país desviou-se da rota. E persiste a dúvida sobre como Dilma vai dar o tranco para recolocar o trem no trilho

O debate econômico percorreu os dois primeiros governos do PT centrado na tensão entre o Banco Central e os críticos. Num certo momento houve também a disputa entre catastrofistas e marolistas (os da marolinha). Foi o cenário do pior erro econômico da administração Luiz Inácio Lula da Silva: a resistência a baixar radicalmente os juros na passagem de 2008 para 2009.

Não fosse a obsessão pela versão da marolinha, houvesse um pouco mais de catastrofismo, talvez o BC não tivesse podido se refugiar na redoma defensiva para manter o juro estratosférico, supostamente para combater uma inflação importada. Um risco inflacionário que -comprovado depois- nunca existiu.

Mas o passado é para os historiadores. Dele interessa apenas saber -e agora os números confirmam- que o governo esticou o esforço anticíclico de 2009 para criar um 2010 não apenas bom, mas ótimo.

Gerou nas eleições um ambiente econômico artificial, uma assimetria entre consumo e produção. Um ambiente insustentável no tempo, como bem mostra a fatura da inflação deste 2011.

A situação mais complicada é na indústria, que apesar da festividade geral só agora alcança o patamar do fim de 2008. Para usar uma terminologia velha, foram dois anos perdidos. E sem luz no fim do túnel das exportações, dada a resistência granítica de um real que insiste em galgar a escada contra o dólar.

Tem gente que não liga, pois a agricultura continua exportando bem e nas finanças, então, nem se mede a alegria. Ou mede-se. Sem falar na farra de consumo permitida pelo dólar barato. Do ângulo de um certo projeto de país, conformado com a subalternidade e com a reprodução, em pleno século 21, da ilusão de ser o “celeiro do mundo”, está tudo muito bem.

Mas será? O desafio econômico colocado diante de Dilma Rousseff nesta primeira metade de mandato é razoável.

Projeções de crescimento medíocre com pressão inflacionária, juros subindo e o real idem. Contas externas em déficit crônico, agravando de forma também crônica a dependência do capital vindo de fora. Nos bons tempos -quando as coisas eram chamadas pelo nome- seria denunciado como desnacionalização maciça.

E o mais preocupante é não notar no governo disposição para enfrentar com firmeza ou criatividade. Parece haver certa tendência à acomodação. Inclusive no Banco Central, que aparenta estar engrossando o "me engana que eu gosto", perseguindo o teto da meta de inflação e não o centro. Para não sacrificar o já magrinho crescimento projetado este ano.

É opção política. O risco? De reindexação geral. Uma coisa é economia desindexada com inflação na faixa de uns 3%. Outra coisa é trabalhadores e empresários aceitarem pacificamente as perdas quando a inflação dobra, sobe para o segundo andar e fica lá um bom tempo.

Se a festa vai ser um andar acima, é natural que todos tentem subir.

Bateu no bolso

O Ministério do Trabalho especializou-se na produção de boas estatísticas para o governo. Politicamente úteis. Mas agora apareceu um problema grave. Como é possível o seguro-desemprego decolar numa era de emprego em alta?

De duas uma. Ou o problema está nas estatísticas ou está nas concessões do benefício. Talvez tenha chegado a hora de um pente fino nos números fornecidos pela instituição. O oportuno esforço intelectual e administrativo poderia inclusive elucidar um mistério bastante repisado aqui.

Esta semana saiu o PIB de 2010. Foi 7,5%. E o Ministério do Trabalho (MTE) afirma que em 2010 se criaram menos de 2,5 milhões de empregos, quando o cômputo é feito pela metodologia tradicional do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Em 2009 o PIB andou para trás, foi negativo em 0,6%. Em 2009 o MTE afirma ter sido criado um milhão de novos empregos.

Como uma economia que cria quase um milhão de empregos quando contrai 0,6% cria menos de 2,5 milhões quando expande 7,5%? Agora invertendo. Como uma economia que cria menos de 2,5 milhões de empregos quando cresce 7,5% cria quase um milhão quando contrai 0,6%?

Autonomia

Desde que a Força Sindical e outras centrais decidiram criar problemas para o governo do PT na votação do salário mínimo a CUT lembrou que é a favor de acabar com o imposto sindical.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (06) no Correio Braziliense.



youtube.com/blogdoalon

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9 Comentários:

Anonymous Mary disse...

Eu não sou louca: alguns temas deste teu post foram debatidos na campanha eleitoral, SIM.

Até Ciro Gomes alertou: o fulano de tal é mais preparado para o que está por vir, lembra?

Na época da campanha poucos achavam esse debate pertinente. Talvez vissem nele "torcida contra o Brasil"


Abçs

sábado, 5 de março de 2011 19:57:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Muito boas essas últimas sacadas no estilo "questão de lógica". Essas perguntas de agora a respeito do crescimento e queda da geração de empregos e dos seguros desemprego eu pagaria para ver serem feitas ao ministro Lupi.

E aí moçada da imprensa! Estão esperando o quê? Puta pauta Alon lhes entregou na bandeija!

sábado, 5 de março de 2011 20:15:00 BRT  
Blogger José Gabriel disse...

Alon,
O emprego não é gerado exclusivamente pelo crescimento econômico. Um questão central não abordada no texto é a qualidade desse crescimento. O milagre econômico durante a ditadura fez o Brasil crescer como nunca, mas a geração de empregos foi desproporcionalmente menor do que o rítmo de expansão da economia. Sem crescimento não há aumento de empregos, mas essa relação não é proporcional, ou direta.
E a turma da marolinha foi fundamental para manter a confiança, a perspectiva de lucro e a manutenção do emprego. O catastrofismo poderia até forçar uma redução dos juros, mas significaria a paralisação ainda maior da economia em 2009.
Abraço

domingo, 6 de março de 2011 13:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Uma cautela maior, no início da crise de 2008, poderia ter sido desejável. Ou seja, se fosse para elevar a Selic, aquele seria o momento. Aos primeiros sinais. Recessão? Talvez. Porém, poderia frear a expansão da oferta de moeda. O catastrofismo do que insistem em chamar de mídia, não tinha nada de "golpe". Não passava de alerta ou medo. Como poderia haver "golpe", se a oposição parlamentar ajudava a aprovar tudo o que o governo propunha, alegadamente, para enfrentar a crise? Nenhuma ou quase, reivindicação salarial, greves, passeatas etc. No setor privado, as atitudes pareceram mais defensivas e não de boicote, como assustados materializadores de ectoplasmas iniciaram a alegar. Em suam, existiam mais loas do que críticas ao governo. Ou seja, naquele momento, a única força capaz de dar golpes seria o próprio governo. E os deu na economia, com reflexos hoje. Outro momento, teria sido o final de 2008 e inícios de 2009. Uma baixa na Selic, então, poderia criar os efeitos anti-cíclicos desejados. Hoje há, os fortes efeitos nos preços, pela expansão da oferta de R$ na economia interna. Parte, talvez, por emissão primária. E parte, escritural, via expansão do crédito e alongamento de prazos. A valorização do R$ frente ao US$, pode dever-se aos QE1 e QE2, fortes emissões de US$ pelo FED, aspectos que atuaram fortemente, no plano externo, sobre o preço de commodities, alimentícias. Ainda, no plano interno, a expansão fiscal, gastos públicos, completaria o arco de pressões sobre os níveis de preços. Um indício, simplório, do sintoma inflacionário: cardápios de restaurantes começam a aparecer com fitas colantes aplicadas sobre preços anteriores, com os novos valores cobrados por certos pratos. Sintoma de tentativa de reconstituição de margens.
Swamoro Songhay

domingo, 6 de março de 2011 15:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1) Empregos. Como teria muito, as pessoas poderiam estar encontrando muita facilidade para mudar de empregos. E poderiam estar fazendo-o bastante. Assim, em caso de demissões, passariam a receber o seguro-desemprego. Por isso, os pedidos aumentariam ao invés de diminuir. Por outro lado, porém, só poderiam receber o seguro, caso não fossem registrados na outra empresa. Hipoteticamente.

2) Imposto sindical. Difícil crer ser possível qualquer uma das centrais abrirem mão de tais valores. Como também é difícil crer que, em algum momento, possam criar reais dificuldades ao governo. A única coisa visível, é a hipertrofia do Executivo.
Swamoro Songhay

domingo, 6 de março de 2011 16:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Ainda pretendo comentar o seu post. Devo para isso pegar posts antigos seus onde eu tenha dito a mesma coisa, assim, pelo menos até que eu possa dizer com as minhas palavras sem a mesma concisão e a precisão com que o José Gabriel em comentário de domingo, 06/03/2011 às 13h00min00s BRT respondeu ao seu post, eu faço minhas as palavras dele.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 06/03/2011

domingo, 6 de março de 2011 16:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Voce escreveu: "A situação mais complicada é na indústria, que apesar da festividade geral só agora alcança o patamar do fim de 2008. Para usar uma terminologia velha, foram dois anos perdidos". Qual país europeu ou do primeiro mundo em geral não daria tudo para passar 2 anos, só dois aninhos assim nessa 'festividade' como foi por aqui depois de um crise dessas, que segundo eles mesmos só tem antecedente em 1929?
Ismar Curi

segunda-feira, 7 de março de 2011 16:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Como disse em comentário enviado domingo, 06/03/2011 às 16h50min00s BRT, aqui para seu post "Risco de reindexação” de domingo,06/03/2011, vou trazer outros comentários meus onde já debati as questões levantadas neste post. Não vou ficar, entretanto, só com o que eu já escrevi. Há outros dizendo, se não mais, pelo menos melhor do que eu.
No blog do Luis Nassif, recentemente, depois de comentário ótimo, amplo e cheio de informações do comentarista Günter Z. – Sampa e para o qual há análise também densa de Luis Nassif, ele publicou um post com o título "A inflação distante do umbigo da blogosfera" de sexta-feira, 04/03/2011 às 09:41. No post com, hoje, 07/03/2011, mais de 6 páginas de ótimos comentários, há na sexta página um comentário sucinto enviado sexta-feira, 04/03/2011 às 17:09 por comentarista que se intitula Drigoeira que vale a transcrição a seguir. Diz ele lá:
“A crise de 2008 foi a chave para emplacar o governo do Lula no Brasil e eleger a Dilma.
Realmente neste periodo tomou-se medidas anti-economicas para que o país entrasse por último e saísse primeiro.
Só que criou um otimismo gigantesco que culminou no aumento da inflação em 2010.
Aí a Dilma tem que dar uma freada na economia pra respirar e ver o que vai fazer, porque o fantasma da inflação de uns 7 a 10% se anunciara. Portanto é esperar pra ver, se a economia não acalmar (como acho que não vai acontecer tão fácil), o governo terá que tomar maiores medidas de contenção de gastos da população.
Espero que não atrapalhe o financiamento da construção de minha casa, este ano.”

Não tenho o que discordar, talvez só a correção de medidas anti-econômicas por medidas anti-cíclicas ou anti-recessão. É exatamente o que eu venho dizendo desde o final de 2009. Lula com o trabalho conjunto do Ministério da Fazenda e de um Banco Central submisso à vontade do governo (Talvez o supermercadista Banco Central temesse que um provável adversário de Dilma Rousseff viesse optar por práticas antimercadistas) adotou a política econômica que com mais possibilidade de êxito poderia eleger Dilma Rousseff. Até que se tentou desvalorizar a moeda, como se conseguiu um pouco quando ela se elevou para 2,3, mas ao perceber que a depressão mundial era forte e que a economia brasileira fora seriamente abalada pela crise, e que a recuperação pelo mercado externo seria lenta, o governo escolheu políticas de incentivo ao crescimento econômico puxado pelo mercado interno.
E teve êxito, não só no resultado do crescimento econômico, como no resultado eleitoral.
Eu preferiria que o Brasil tivesse feito a opção pelo mercado externo, mantendo o dólar no patamar de 2,3. Mas preferiria também que a vitória na eleição de 2010 fosse de alguém em que o sentimento de federação fosse mais alto, como certamente ocorre com a Dilma Rousseff, nascida em estado da federação com a renda per capita igual a brasileira, que viveu em um dos estados mais ricos e que recebeu votação expressiva da região mais pobre do país e que não fosse apoiada pelos que defendem um individualismo exacerbado, mesmo sabendo que o adversário talvez fosse até mais de esquerda do que a Dilma ou com um pouco das palavras do Ciro Gomes segundo o comentário de Mary enviado sábado, 05/03/2011 às 19h57min00s BRT, mesmo sabendo que o adversário era mais preparado para o que estava por vir, embora, como eu creio que se confirmará, o que está por vir não é tão feio como Ciro Gomes imaginava. Pior, muito pior, foi o que estava por vir e veio quando se fez o plano real para acabar com a inflação de uma vez em época de eleição para eleger um presidente que não fora sequer presidente de um grêmio recreativo na juventude quando se consolidam naqueles com espírito de liderança as habilidades da gerência.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 06/03/2011

segunda-feira, 7 de março de 2011 19:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Às vezes eu me encasqueto em um post em um determinado blog e acabo afastando de outro blog. Em 2009, eu fiz poucos comentários aqui no seu blog. Dei uma olhada em alguns posts daquela época e vi que não faltaram oportunidades para eu ter um contra argumento às suas considerações. Houve bons posts no blog de Na Prática a Teoria é Outra e também no blog do Luis Nassif em que eu fiquei discutindo bastante a questão cambial e do crescimento. Em razão disso talvez tenha vindo menos aqui.
De todo modo, para o seu post de terça-feira, 10/11/2009, intitulado “O limite de um modelo”, em que você acusa a esquerda tanto representada por Fernando Henrique Cardoso como a representada pelo PT de no poder ter-se acomodado alegremente ao “agrarismo” clássico da velha direita, eu enviei quarta-feira, 11/11/2009 às 22h13min00s BRST, o seguinte comentário que revela o minha avaliação sobre o modelo de desenvolvimento que o governo Lula adotou após a crise de 2008, ou melhor, um pouco mais à frente, quando percebera que seria difícil recuperar a economia pelo mercado externo. Em meu comentário que era para você eu disse assim:
“Alon Feuerwerker,
Você está certo. Esta é a tese que eu defendo desde 85 com base nos resultados que o Brasil alcançou a partir da maxidesvalorização de março de 83. São mais de 20 anos dizendo isso. Desvaloriza a moeda e taxa (para não beneficiar um setor de riqueza concentrada) as exportações de produtos primários e semielaborados. E foi o modelo que Brasil adotou de 2003 até o primeiro semestre de 2007 (só não fez a taxação, mas tinha a CPMF).
O acerto maior seu foi no parágrafo a seguir em que você diz:
"De olho nisso, Lula desperdiçou a maior oportunidade de um presidente brasileiro, em todos os tempos, para desvalorizar a moeda sem impactar a inflação. Vistas retrospectivamente, as advertências sobre a “pressão inflacionária do câmbio” agitadas um ano atrás vão passar à história das análises econômicas como piada. Trágica no presente, mas piada engraçadíssima para quem se debruçar sobre o tema no futuro."
Diante de que? Diante da possibilidade de fazer o sucessor. No mandato de 5 anos sem a reeleição, o presidente não tinha a possibilidade de fazer o sucessor.
O mandato de 4 anos com a reeleição é a mãe de todos os nossos infortúnios. O pai foi o Plano Cruzado.”

Mencionei o Plano Cruzado e não o Plano Real, embora para mim o efeito do Plano Real fosse pior do eu o efeito do Plano Cruzado, porque o Plano Cruzado fora o início. O Plano Cruzado não deu certo, mas permitiu que nós tivéssemos uma das constituições mais sócio-democráticas do mundo. O Plsno Real deu certo e isso é que levou o Brasil as grandes crises de estrangulamento do Balanço de Pagamentos ao longo da segunda metade da década de 90. Aliás, em comentários enviados junto a post um pouco à frente do anterior aqui no seu blog intitulado “À espera de um carinho” de sábado, 12/12/2009 eu tentei explicar a Alberto099 porque acho o Plano Real eleitoreiro, empregando o termo eleitoreiro tanto no sentido de que foi usado para alguém tirar proveito dele, como também pelos efeitos negativos que o Plano Real causou ao Brasil.
Assim, o que aconteceu em 2009/2010 com seus efeitos em 2011 guarda semelhança ao que ocorreu em 2004 e seus efeitos na octaetéride de Fernando Henrique Cardoso e mesmo até os dias de hoje. A diferença é que os efeitos ruins do que se adotou em 2009/2010 é de muito menor grau e muito mais fácil de consertar. E que se fique claro é com a deflagração do Plano Real que o que Lula fez em 2009/2010 deva ser comparado e não com o que ocorreu em 1998.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 09/03/2011

quarta-feira, 9 de março de 2011 14:30:00 BRT  

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