terça-feira, 22 de março de 2011

Ocupação burocrática de espaços (22/03)

O Brasil buscou para si um lugar na zona de conforto. A custo zero. Quis sair bem com todos os lados, sem sujar as mãos e livre para poder reclamar depois. Mas sem desafiar as posições hegemônicas

Em uma passagem do discurso na cerimônia planaltina com o colega Barack Obama a presidente Dilma Rousseff disse que "não nos move o interesse menor da ocupação burocrática de espaços de representação. O que nos mobiliza é (...) que um mundo mais multilateral produzirá benefícios para a paz e a harmonia entre os povos".

Ou seja, a reivindicação brasileira por um lugar no Conselho de Segurança não expressa ambição, apenas desejo de ajudar o mundo. Um gesto de grandeza.

O que seria, precisamente, uma eventual "ocupação burocrática de espaços"? A expressão não tem maior significado. Uma cadeira no CS é sempre política, nunca burocrática.

No dia em que o Brasil for membro permanente da instância maior da ONU vai estar ali como qualquer outro no mesmo nível, votando de acordo com as convicções e conveniências.

A fala presidencial teve um aroma de uvas verdes.

Há quem pense, inclusive no governo, que só não somos ainda membros permanentes do CS porque nos falta força militar, talvez uma bomba nuclear.

A Coréia do Norte tem a bomba e o Japão não. Quem está mais perto da vaga?

Outro país bem posicionado é a Alemanha, e ela quer distância da bomba.

Talvez o caminho para um assento permanente dependa mais da capacidade de definir nosso papel exato, o que desejamos ser no mundo.

China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia estão lá por razões objetivas, historicamente determinadas. E cada um pagou pela filiação com muito sacrifício e sangue.

A China saiu um tempo, mas acabou voltando, por motivos óbvios e bem realistas.

Ainda sobre o Conselho de Segurança, vale olhar para o que aconteceu na segunda votação sobre a crise líbia.

Dez apoiaram a intervenção militar e cinco abstiveram-se. Votaram a favor o árabe Líbano -um governo onde o Hezbollah é a força decisiva- e os africanos Nigéria, Gabão e África do Sul.

Duas abstenções autoexplicam-se. Se China ou Rússia votassem contra inviabilizariam a resolução, pois têm poder de veto. Os votos russo e chinês foram, portanto, a favor, mas assim meio disfarçados.

Uma neutralidade a favor. Para poder reclamar depois.

Como fez o Brasil.

Ninguém quis pagar o preço político de ficar sócio de Muamar Gadafi no massacre da oposição líbia.

Zona de exclusão aérea é ato de guerra. Quando alguém propõe uma guerra, ou você fica a favor ou fica contra. Guerra não é algo que suporte "apoio crítico".

O Brasil preferia uma resolução que permitisse às potências agir, mas de leve. Talvez para manter o status quo, livrar a cara da "comunidade internacional" e também oferecer uma bela saída para o amigo Gadafi.

Como a resolução aprovada permite tudo, menos tropas terrestres (1), é possível às potências desenhar uma estratégia em que a intervenção se dá no ar e no mar, para abrir espaço em terra ao avanço dos rebeldes anti-Gadafi rumo ao poder, ou pelo menos rumo ao equilíbrio estratégico.

Que também será um cadafalso para Gadafi, talvez mais lento.

Se o Brasil desejava preservar o líbio, era razoável o Brasil votar contra a resolução.

Mas deu a lógica. Nosso país enveredou pelo caminho tradicional, e não apenas deste governo. Tanto que a abstenção recebeu elogios do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O Brasil buscou para si uma área na zona de conforto. A custo zero. Quis sair bem com todos os lados, sem sujar as mãos e livre para poder criticar depois.

Mas sem confrontar as posições hegemônicas.

Deve ser a tal "ocupação burocrática de espaços".

O saldo

Conversas bonitas à parte, o saldo da viagem de Obama ao Brasil é que eles querem muito uma relação estável e de longo prazo para comprar nosso petróleo. E querem investir na nossa infraestrutura.

Estão até mais animados do que nós com a Copa e as Olimpíadas no Brasil.

A dimensão simbólica da viagem ficou algo prejudicada pela Líbia. E também por situações espantosas, como a dos ministros brasileiros que se deixaram revistar por seguranças americanos em território brasileiro.

A dimensão política inexistiu. Mas a econômica ficou evidente.

(1) Correção - Na verdade, a resolução 1973 do CS não proíbe tropas terrestres, proíbe ocupação por tropas terreestres estrangeiras. Ou seja, tropas de outros países podem entrar e sair. Se o texto for levado ao pé da letra.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (22) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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3 Comentários:

Blogger pait disse...

O principal sobre a relação entre Brasil e EUA é que é feita pelos cidadãos de cada país, que se entendem bem culturalmente e nos negócios. Os políticos ajudam pouco, quando não atrapalham. É diferente dos casos de países que tem relações militares ou estratégicas com os Estados Unidos. Então as visitas presidenciais são de importância reduzida.

segunda-feira, 21 de março de 2011 23:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Para o quê o Brasil deseja uma cadeira no CS da ONU? Para inflar o ego dos nossos presidentes e diplomatas???? Deve ser, porquê o Brasil não tem uma zona de influência internacional de modo a justificar a tal cadeira no CS.
O Brasil está fazendo o papel de tolo ou de espertalhão. Porquê afinal PODER não se concede, se conquista...
E para conquistar poder internacional há necessidade de ter PODER POLÍTICO E MILITAR.
PODER MILITAR É CAÇA, SUBMARINO, CARRO DE COMBATE, TROPA CAPAZ DE IR PARA QUALQUER LUGAR DO PLANETA, ETC.
Com lero-lero, como é a regra no governo Lula, não se conquista poder.

terça-feira, 22 de março de 2011 18:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Num mundo mais multilateral onde um voto no CS da ONU deveria ser mais claro, todos receberam uma abstenção com ares de esperteza. Por que, então não oferecer asilo ao Khadafi, caso ele deixasse o governo líbio? Seria mais coerente. Ou votar contra a resolução que permitiu o início de atos de guerra. Incrível como fala-se sem dizer absolutamente nada. E a resposta de Obama, foi, sem querer dizer nada, reafirmar que não está muito ai com isso. Falou em apreço. Tudo bem. Talvez o apreço tenha o sentido de: vocês estão dispostos a bancar, efetivamente, pelo que pretendem?. Falar é fácil, mas pagar a conta do trombeteia é que são elas. E depois, Obama mandou os navios darem recado ao Khadafi. Algo meio burocrático, mas mais efetivo.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 23 de março de 2011 14:20:00 BRT  

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