terça-feira, 15 de março de 2011

O que ele vai dizer? (15/03)

Há algum tempo a estratégia regional dos Estados Unidos tenta formas de reverter a imagem. Um caminho tem sido conviver bem com governos nascidos da emergência de grupos sociais e políticos historicamente marginalizados. Outra trilha é a busca de uma marca social

O presidente Barack Obama chega ao Brasil num momento bem diferente de duas outras situações em que decidiu discursar para o público fora dos Estados Unidos.

Quando foi a Berlim surfava na onda emocional que o ajudou a chegar ao poder. Quando falou no Cairo atendeu a uma bela dúvida: de que modo o primeiro presidente americano negro — e com um Hussein no nome — recolocaria as relações entre a superpotência e o Islã?

Agora Obama vai falar no Brasil aos brasileiros. Será domingo no Rio, na Cinelândia. É um sintoma dos tempos, o presidente dos Estados Unidos poder participar com naturalidade de um evento assim na América do Sul.

Não sei se alguém já avaliou, em valores, o ativo que é os Estados Unidos terem na Casa Branca um negro nesta altura do campeonato.

Objetividade e correção política à parte, é razoável dizer que Obama não tem a cara do imperialista de almanaque. Talvez também por isso bonecos com a cara do presidente americano não estejam sendo incinerados nas revoltas árabes.

É um pouco o que aconteceu aqui quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou no Planalto. O sujeito podia não gostar das políticas dele, mas nunca houve espaço real para colar no presidente a acusação de ter voltado as costas aos mais pobres.

Não encaixava no plano simbólico. As pessoas que gostavam de Lula preferiam acreditar que ele fazia concessões para poder garantir o mais importante: a presença no poder de um representante dos oprimidos.

Disse no começo da coluna que Obama chega ao Brasil num momento bem diferente do vivido em Berlim, ou no Cairo. Há quase nada de emoção no ar, e tampouco existe uma agenda tão explosiva quanto, por exemplo, as relações dos Estados Unidos com o mundo muçulmano.

Mas menos tensão não significa menos curiosidade. Uma linha possível é Obama tentar reposicionar os Estados Unidos como vetor positivo da transformação social no hemisfério, da luta contra a pobreza e a desigualdade.

Será uma revolução se conseguir colocar pelo menos uma cunha, abrir uma brecha.

Circunstâncias históricas levaram a que os Estados Unidos passassem a ser vistos nas regiões menos desenvolvidas do hemisfério como o garante de ditaduras e da exploração. Uma associação com bases objetivas.

Há algum tempo a estratégia regional dos Estados Unidos tenta formas de reverter a imagem. Um caminho tem sido conviver bem com governos nascidos da emergência de grupos sociais e políticos historicamente marginalizados.

Outra trilha é a busca de uma marca social. Aqui a coisa nunca funcionou a contento. Desde a Aliança para o Progresso as intervenções social-filantrópicas de Washington acabam no figurino de manobras paliativas, destinadas só a desviar os povos da emancipação.

Obama não pode, se houver justiça na análise, ser acusado de trabalhar para prolongar a vida útil de ditadores. Nessa matéria ele está no azul.

Já na luta contra a pobreza e a desigualdade o presidente americano continua na coluna dos devedores. E sem muita margem de manobra, bem na hora em que tenta tirar seu país do atoleiro econômico.

Ao contrário, a inundação de dólares para reanimar a economia americana acaba fazendo sofrer ainda mais quem produz e gostaria de poder exportar para os Estados Unidos, o maior mercado mundial, ainda de longe.

Um argumento americano é que a reanimação da economia deles vai ser boa para todo mundo, vai puxar a economia planetária.

É verdade que no Brasil a profusão de dólares ajuda a criar um estado mental de bem-estar. Mas um estado em boa medida artificial, que não se sustenta no tempo. Sem crescimento forte e emprego a coisa não vai andar bem para nós. E sem exportações firmes, crescimento e emprego têm pés de barro.

Não se trata de colocar nos outros a culpa pelas nossas mazelas, pela nossa resistência a poupar ou a romper com a secular fixação agrário-colonial. Mas, objetivamente, o protecionismo americano têm sido uma pedra no nosso sapato.

Há aqui quem se preocupe com o que Obama vai dizer sobre a participação do Brasil no Conselho de Segurança da ONU.

Se for esse o destaque, vai dar manchete de jornal, mas só.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (15) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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4 Comentários:

Blogger pait disse...

Protecionismo comercial e política monetária frouxa são coisas diferentes. Não há relação entre os conceitos.

segunda-feira, 14 de março de 2011 22:51:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Neste caso têm, pait, pq a inundação de dólares e o protecionismo deles se somam p dificultar as nossas exportações, barreiras monetárias e não monetárias.

terça-feira, 15 de março de 2011 00:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Sensatez e caldo de galinha não faz mal a ninguém...Eu que sempre acho suas linhas muito equilibradas demais, dessa vez me rendo. Tenho lido tanta sandice a respeito que estou a preferir caldo de galinha.
Ismar Curi

terça-feira, 15 de março de 2011 20:24:00 BRT  
Anonymous Fernando disse...

Inundação de dólares e protecionismo "deles"? Concordo e enalteço sua opinião, Alon, mas creio que designar a nação estadunidense como a responsável por tais políticas é injusto, apesar de sólito. Não podemos mais atribuir um papel a um todo, quando neste todo existem os responsáveis diretos por tais escolhas. E essas escolhas vêm desde manter a população desinformada, para evitar este tipo de questionamento. Sabemos que vai além do Presidente, Congresso e tribunais. Tanto nos EUA quanto aqui, e porque não dizer no planeta como um todo? Afinal, o que move a Economia? Então, todos sabemos quem são os responsáveis diretos (apesar de agirem indiretamente).

quarta-feira, 16 de março de 2011 01:37:00 BRT  

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