sábado, 19 de março de 2011

O multilateralismo, na real (20/03)

É esperto o excesso de prudência de Barack Obama na crise líbia. A regra nessas situações é “o mundo” exigir dos Estados Unidos que ajam, para na sequência o mundo passar a criticar os Estados Unidos por terem agido

Uma fantasia habitual a respeito do poder é considerar que ele tudo pode. A decorrência é o observador e o analista serem aprisionados pela variável da “vontade política”.

Se o governante não fez, foi porque não quis. Poderia ter feito, mas decidiu não fazer. É o primado absoluto do arbítrio do líder.

Talvez os meandros do espírito tenham uma explicação para a fantasia. Para essa tentação quase irresistível de projetar no outro onipotente a capacidade de superar os limites e as frustrações impostas a nós, simples e normais.

Por que razão ainda hoje o soberano, nas suas diversas formas (o rei, o ditador, o partido, a superpotência), ocupa um lugar tão especial na maneira como as pessoas veem o mundo?

“Mundo” é uma palavra útil em muitas situações.

O mundo árabe está fervendo. E as pessoas só querem saber o que “o mundo” deve fazer a respeito. Não houvesse certos vetores, entre eles a imigração, o terrorismo e o petróleo, provavelmente a resposta mais razoável seria “nada”.

O presidente americano que visita o Brasil é um sujeito esperto. Se não fosse, não teria sido eleito presidente dos Estados Unidos.

Na crise da Líbia Obama vem esperando o suficiente para obrigar os outros, franceses, ingleses e Liga Árabe, a liderar o movimento intervencionista.

Um esperto excesso de prudência. A regra nessas situações é “o mundo” exigir dos Estados Unidos que ajam, para na sequência o mundo passar a criticar os Estados Unidos por terem agido.

Sem falar nos custos materiais.

E não é só no mundo pró-americano que isso acontece.

Quando Manoel Zelaya foi deposto em Honduras, a progressista e popular América Latina correu a Washington para sugerir o estrangulamento de Tegucigalpa como forma de pressionar os golpistas a aceitarem de volta o removido.

Um vexame continental, de resultados sabidos.

Conversava outro dia com o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) sobre as guerras e ele me descreveu certa passagem de uma visita de políticos brasileiros ao Vietnã, anos atrás.

Um da delegação se disse admirado pelas longas e duríssimas guerras de independência do povo vietnamita contra franceses e americanos.

“Melhores são vocês, que conquistaram a independência sem derramar nenhum sangue”, respondeu na hora o reprsentante do Vietnã.

Nossa independência teve sim algum sangue, pouco perto do investido por eles, mas o episódio é engraçado e bom.

A sabedoria das guerras está em ganhá-las sem precisar lutar mais do que o necessário. Se houver necessidade de sangue, que seja o dos outros.

Nenhum líder, muito menos o presidente da superpotência, pode dar-se ao luxo de soltar palavras que não possam depois ser sustentadas pelos atos.

Hosni Mubarak caiu porque não tinha o apoio do exércido egípcio.

Obama deveria ter mandado tropas ao Egito para manter Mubarak no poder?

O movimento democrático no Bahrein está sendo contido porque traz com ele a ameaça de controle iraniano sobre o pequeno país, estratégico para a vizinha Arábia Saudita. E portanto para o petróleo mundial.

Obama deveria enviar tropas para garantir a hegemonia americana numa eventual transição de poder aos xiitas?

O Iemen é importante para a luta contra a Al Qaeda.

Obama deveria mandar tropas para apoiar os manifestantes, e assim garantir o controle americano mesmo depois da queda de um governo aliado?

A seguir um certo raciocínio, daqui a pouco o mundo estará povoado de tropas dos Estados Unidos. Pagas pelos contribuintes americanos.

Estamos assistindo agora à concretização de um certo multilateralismo. Especificamente na Líbia, Washington vai deixando claro que cabe aos europeus e aos árabes cuidar do pedaço norte da África.

Assim como caberia ao Brasil, segundo essa lógica, cuidar do pedaço sul das Américas, que fala espanhol e um pouco de francês.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (20) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

1) O aspecto do Vietnã, citado no post é muito bom. Quem gosta de guerra é quem não tem nada para fazer. Cabeça vazia é oficina do coisa ruim, como diziam lá no interior. E quem acha que os outros gostam de guerra, é, no mínimo, desinformado. Ou metido a esperto.

2) O Iêmen, segundo informações, pode tornar-se o primeiro país do mundo a não ter uma gota de água natural sequer. Democracia e água, pegariam bem por lá. Por enquanto só tem ditadura e bombas.

3) A escalada na zona de exclusão aérea na Líbia, foi iniciada por aviões e mísseis dos EUA, França e Inglaterra. Erro na demora e erro no engajamento.

4) O multilateralismo, implica em instar os EUA a engajar tropas e recursos financeiros. A pilha de cadáveres, idem. A emergentes metidos a protagonistas, cabe a goela estridente.

5) Obama está certo. Quiseram que fosse criado o G8 + 12, que dá o G20. Mas tirar a ONU de New York e bancar o custo até agora não surgiu ninguém. Meter mão no bolso e trincar a bufunfa, ninguém quer. Agora, yankees go home...

6) Obama estaria mais certo ainda se pudesse ser claro: façam vocês e aguentem as consequências.

7) Nada como criticar o império, mantendo o império vigilante a seu lado.

Swamoro Songhay

sábado, 19 de março de 2011 20:36:00 BRT  
Anonymous Chesterton disse...

Brasil? Mas com que aviões e navios?

domingo, 20 de março de 2011 13:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Baixou o caboclo Bush no Barak.
Juntaram-se a ele os demais orixás do Olimpo europeu. E, depois?Invade,mata,ocupa e substitui.
Como,quem,com quem e por quem?
Para obter as repostas das perguntas acima, favor contatar Manuel Noriega,panamenho,atualmente residindo na Florida como ilustre hóspede do governo dos EUA.

segunda-feira, 21 de março de 2011 14:55:00 BRT  

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