quarta-feira, 16 de março de 2011

O modus operandi (16/03)

A estratégia econômica do governo no primeiro ano vai clareando. Entre as âncoras fiscal e monetária, ficou com a salarial

Os movimentos recentes da autoridade monetária confirmam que o topo da meta de inflação virou centro. O Banco Central está disposto a chancelar duradouramente uma inflação acima da meta oficial —quase um terço acima — para não brecar a economia num grau que cause ainda maior prejuízo político ao governo Dilma Rousseff.

Brecar sim, mas nem tanto.

Escrevo “acima da meta” porque a expressão oficial é “meta”, e não “banda”. Na teoria, o BC não persegue uma faixa de inflação, persegue um ponto dentro de um intervalo.

A decisão de que ponto perseguir é política. Sempre foi e continua sendo agora.

A meta oficial de inflação é 4,5%. Foi abandonada este ano. Como já havia acontecido ano passado. A fé dos projetistas de mercado é que seja alcançada em 2012.

2011 não promete ser brilhante para Dilma. O alívio — para ela — é um BC mais dócil, capaz de conviver com expectativas maiores de inflação sem sacar a arma.

Essa é uma hipótese. A outra é que acelerar os juros agravaria o problema cambial, daí a benevolência do BC com os preços. Mas essa possibilidade não dá tanto ibope assim.

A não ser que a autoridade monetária tenha decidido adotar também metas cambiais, sem contar a ninguém.

A estratégia econômica do governo no primeiro ano vai clareando. As âncoras fiscal e monetária operam a meio vapor, talvez compensadas pela salarial. Dureza mesmo viu-se na votação do salário mínimo.

A votação do mínimo foi até agora o sinal mais claro das intenções do governo.

O governo tinha os recursos (ou a projeção de recursos) para não interromper a sequência de aumentos reais. Basta esperar pelos resultados da arrecadação ao longo do ano e se comprovará. Os números comprovarão. Até a inflação vai ajudar.

Mas preferiu atacar onde era mais fácil, onde o alvo estava mais desprotegido.

É difícil cortar no Orçamento. Os grupos de pressão têm mobilização permanente. E o governo não pode ignorar o Congresso para sempre.

E o poder da turma do juro alto é bem sabido.

Sem falar que o governo garantiu para ele neste 2011 uma bela margem de investimentos com a capitalização do BNDES, um filão.

Corta fundo nos restos a pagar e nos empenhos do orçamento oficial e capitaliza o banco.

São bilhões e bilhões de um orçamento paralelo, mais fácil de executar discricionariamente. Bancado pelo trabalhador e pelo contribuinte.

O trabalhador entra com o FGTS, cuja remuneração irrisória permite ao BNDES emprestar a juro real zero, ou quase.

O contribuinte entra com os impostos, alocados pelo Tesouro ao BNDES em troca de uma remuneração igualmente bem abaixo da Selic.

Um duplo descasamento, sustentado por nós.

Talvez esteja na hora de começar a pensar em mecanismos para devolver aos trabalhadores pelo menos parte da riqueza adicional obtida com esses financiamentos subsidiados.

Cruel

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, vai bem na comunicação.

A última boa tacada do ministro foi dizer, em entrevista ao Valor Econômico, que o governo precisa melhorar a gestão dos recursos existentes antes de pedir mais.

Ou seja, o ministro disse que a saúde precisa de mais dinheiro, mas não forçou a mão. Disse com jeito.

Por enquanto, a única ideia prática para mais recursos na saúde é a volta do imposto/contribuição sobre movimentação financeira, herdeira da finada CPMF.

Na entrevista o ministro levanta um ponto interessante.

Segundo ele, os países que resolveram bem o problema gastam com saúde mais de 10 vezes do que nós, por habitante.

Na saúde suplementar (privada) brasileira o multiplicador é de três vezes.

Ou seja, o orçamento do SUS precisaria pelo menos triplicar para ficar razoável.

A nova CPMF garantiria esse montante? Impensável. E se não garantir será legítimo desconfiar de uma armadilha no debate.

Desconfiar de que o governo usa a saúde para levantar recursos que não vão resolver o problema da saúde, mas vão garantir alguma folga de caixa ao governo.

Seria cruel.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (16) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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13 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

1) Inflação. É a velha senhora recebida de volta, com tapete vermelho, para realizar os ajustes de contas. Sem nenhum trocadilho. Afinal, detonar e criar moedas sempre foi uma capacidade. Desenvolvida a partir de 1967. Um verdadeiro esporte. Devido, atribuem alguns, aos gastos ocorridos por ocasião da construção de Brasília, um símbolo do novo. O velho cruzeiro (cr$), resistiu até 1967, quando perdeu 3 casas decimais. Depois, já é história. Afinal, o R$ só nasceu em 1994. É novo. E quem sabe um real novo?

2) Saúde. O Brasil parece ser o, ou um dos, podem haver mais, países onde utiliza-se a Saúde para reforçar o caixa do Leviatã. E isso porque o SUS foi oferecido até ao Obama!!! Agora, ele poderá ver de perto as maravilhas do sistema por aqui. Se ele perguntar e quiser visitar alguma unidade do SUS, deve provocar uma correria grande. E se a dona Michelle quiser ver um hospital do SUS? Trazê-la para o Sírio Libanês de São Paulo? Realmente atroz.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 16 de março de 2011 11:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Um post e tanto. Você chegará ao auge de escrever um parágrafo só com uma palavra. E eu sentirei pena dos que perderão noites para reduzir os parágrafos de uma página para meia. E também inveja [dos parágrafos que você escreve].
E é com inveja que eu reproduzo aqui este seu parágrafo:
“2011 não promete ser brilhante para Dilma. O alívio — para ela — é um BC mais dócil, capaz de conviver com expectativas maiores de inflação sem sacar a arma”.
E lembro de um parágrafo seu que me causou inveja há mais tempo. Trago ele lá do seu post “Perguntas eleitorais” de terça-feira, 20/04/2010. Lá você disse:
“O freio dos juros, que vem aí, vai demorar um tantinho para fazer efeito. Alta do juro no Brasil de vez em quando sincroniza com o calendário eleitoral. Nem tão longe da eleição que traga más estatísticas antes das urnas, nem tão atrasado que deixe a inflação escapar”.
E o parágrafo seguinte iniciava-se com a seguinte frase:
“Por falar em juros, é incrível como a inflação brasileira não aguenta um crescimentozinho acima de 5%”.
O invejoso sabe-se virar e lá no comentário que enviei terça-feira, 20/04/2010 às 19h48min00s BRT, eu disse:
"Primeiro, o Brasil está crescendo a mais de 7%"
E o que o invejoso poderia dizer agora? Bem, talvez uma pergunta. Mais dócil?
Pode ser que você vivendo ai em Brasília percebendo em Henrique Meirelles um turrão tenha corretamente avaliado que hoje há mais docilidade. Nesse caso, a explicação é outra e se deve dar palmas para quem merece e que inculcou ao Banco Central do seu post "Perguntas eleitorais" de terça-feira, 20/04/2010, a expectativa e perspectiva de se tornar vice na chapa Dilma Rousseff.
Bem, eu não acredito nessa possibilidade. O Banco Central de Henrique Meirelles sempre me pareceu dócil ao governo de Lula. Aliás, como eu digo desde priscas eras, Lula só convidou Henrique Meirelles para ser presidente do Banco Central se ele aceitasse ser presidente para inglês ver e, como eu gosto de acrescentar, para os que se tomam por ingleses também pudessem ver.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/03/2011

quinta-feira, 17 de março de 2011 08:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/03/2011. Infelizmente, o Brasil não está crescendo mais do que o necessário para fechar o IV Trim/2011, com cerca de algo até 5%aa. É ponto da curva segundo o qual, conforme loas de ministros e da presidente, é sustentável. Acima, cria gargalos. Até, ou abaixo, pode deixar o ruim da infraestrutura como está mesmo. Se bem lembro, em algum comentário foi colocado que criou-se um teto para o crescimento e um piso para os gargalos. E mais incrível, ainda, o gorgomilo de quem teria de resolver os tais gargalos não é apertado. Afinal existem gorgomilos e gorgomilos. Se errar o qual apertar, será um grande problema. Notadamente em infraestrutura.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 17 de março de 2011 13:55:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (quinta-feira, 17/03/2011 às 13h55min00s BRT),
Não sou economista, mas considero que é melhor não o ser a se levar em conta o tanto de erros que eles cometem. No post aqui no blog do Alon Feuerwerker intitulado “Perguntas eleitorais” de terça-feira, 20/04/2010 e que eu menciono em meu comentário de quinta-feira, 17/03/2011 às 08h05min00s BRT aqui para este post “O modus operandi” de 16/03/2011, eu transcrevo um trecho da entrevista de José Serra dada à revista Veja de 19/03/1996, páginas amarelas, 5, 6 e 8 com o título “O cruzado já vingou”. A intenção do meu comentário lá no post “Perguntas eleitorais” foi mostrar como em 1986 os nossos melhores economistas não perceberam que o crescimento da economia brasileira era muito maior do que o adequado para o país à epoca. Em razão dessa incompetência na percepção da realidade econômica, o Brasil entrou na aventura do Plano Cruzado que só não causou tantos problemas para o Brasil (Perda de reservas, dívida externa crescente, estancamento do crescimento econômico em razão de estrangulamentos externos) porque não deu certo ao contrário do Plano Real.
Repercuti a entrevista no comentário em 2010 porque naquele período o crescimento trimestral anualizado chegara a cerca de 11% (Antes do reajustes posteriores, o crescimento no trimestre de janeiro a março de 2010 divulgado nas vésperas das grandes convençoes partidárias para a escolha dos candidatos à presidência e à vice-presidência da República, quando anualizado, correspondia aproximadamente a 11,2% ao ano). Era um crescimento fora da realidade brasileira e a maioria dos economistas e dos analistas que se fiavam em economistas de renome criticava o juros alto do Banco Central.
Bem, recentemente li um ótimo artigo do economista Reinaldo Gonçalves. O artigo “Evolução da renda no Governo Lula: Cinco conclusões definitivas” de 04/03/2011 pode ser encontrado no endereço a seguir no site do economista José Roberto Afonso:
http://www.joserobertoafonso.com.br/attachments/article/1668/reinaldo.pdf
Bem o Reinaldo Gonçalves faz uma avaliação crítica do governo Lula dizendo que Lula foi melhor do que Fernando Henrique Cardoso, mas muito pior do que vários outros governos anteriores. Só que a análise de Reinaldo Gonçalves esquece um aspecto importante, nos governos anteriores, principalmente levando em conta o êxodo rural, a taxa de crescimento da força de trabalho era superior a 4,5% enquanto nos dias de hoje ela está próxima de 1,5%. São 3% de diferença que refletem no PIB. Um crescimento de 4% nos dias de hoje, equivalem a 7% antigamente. Se o Brasil conseguir um crescimento médio de 5% nós estaremos no melhor dos mundos. Talvez deveríamos fechar esse ano com um crescimento menor, algo como 3,5%, para nos anos seguintes pudéssemos ir para os 4% e com calma tentar ir para um novo patamar de 5%.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 19/03/2011 (Em Pedra Azul)

sábado, 19 de março de 2011 11:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (quinta-feira, 17/03/2011 às 13h55min00s BRT),
Há mais um aspecto a se avaliar quando se considera a taxa de crescimento econômico. O que lhe parece mais adequado: uma taxa de crescimento baixa com um aumento de oferta de emprego razoável e em conseqüência redução na taxa de desemprego ou uma taxa de crescimento elevada com aumento na taxa de desemprego?
Eu só me interesso pelo crescimento econômico por duas razões, sendo a primeira e mais importante o fato de que com crescimento econômico há geração de emprego e é a geração de emprego que me interessa. A segunda razão é que sem crescimento econômico não há perspectiva para o capitalismo e até que cheguemos ao melhor dos mundos o capitalismo é o melhor sistema para conseguir um nível bom de geração de emprego. Penso que essa capacidade de geração de emprego é em muito decorrente da própria ineficiência do sistema (Imagine duas farmácias, uma do lado da outra, concorrendo uma contra a outra quando uma só funcionaria com muito mais eficiência, pois teria um estoque proporcionalmente menor e praticamente quase a metade dos funcionários de duas).
E o desemprego no Brasil vem caído continuamente como os levantamentos do IBGE têm demonstrado e como os dados de geração de empregos do Caged, por mais que fraudes possam ocorrer, também evidenciam. O que se espera é que o governo possa achar o ponto ótimo da inflexão da curva de crescimento que fora muito alta no início de 2010, mas que agora precisa ir para um patamar que não crie gargalos na oferta de mão-de-obra qualificada ou não.
Quanto à possibilidade do fim do capitalismo em razão de não mais haver crescimento econômico, vale à pena rememorar a falta de aceitação nos Estados Unidos dos ensinamentos de um grande conterrâneo de Alon Feuerwerker: Nicholas Georgescu-Roegen. Era ele que Alon Feuerwerker deveria mencionar no post “Uma questão de segurança” de 13/03/2011. A conseqüência mais séria que o problema japonês pode causar é levar o mundo a ter que estancar o crescimento econômico. Nessa nova realidade o que vai imperar é a regulação de toda economia mundial como a preconizava Nicholas Georgescu-Roegen e estaremos bem longe do sistema capitalista de nossos dias.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 19/03/2011 (Em Pedra Azul)

sábado, 19 de março de 2011 13:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (quinta-feira, 17/03/2011 às 13h55min00s BRT),
Como eu tenho insistido e penso que vale à pena repetir para você e também para o Alon Feuerwerker, o Brasil que Dilma Rousseff recebeu de Lula é um Brasil bem melhor do que o que Fernando Henrique Cardoso recebeu de Itamar Franco. Em relação a Dilma Rousseff, a única vantagem de Fernando Henrique Cardoso era a taxa de inflação mais elevada, pois a taxa de inflação mais elevada é um ótimo instrumento de controle dos gastos públicos.
Infelizmente o benefício inflacionário com que Fernando Henrique Cardoso contava não pode ser muito explorado. A crise do México em 1995 obrigou o governo brasileiro a manter o juro elevado e com isso reduzir a inflação. Com isso a inflação se reduziu e a redução foi mais rápida do que se esperaria para uma situação em que vivíamos uma expansão consumista exagerada. O mesmo se deve dizer da crise dos Tigres Asiáticos em 1997, pois com a crise o governo manteve e até mesmo elevou o juro interno e com isso combateu a inflação que era em muito decorrente do crescimento do consumo como atestam o consumo interno de veículos em 1997.
No caso da Dilma Rousseff, se se comprovar como eu creio que houve uma defasagem de 19 anos entre a crise dos fundos de pensão e a crise de 2007 e 2008, a presidenta tem até 2013 para deixar a inflação no patamar mais de acordo com a realidade brasileira. E ela pode trabalhar com o controle da inflação e do juro por conta própria sem precisar de contar com a elevação do juro americano para combater a inflação que tem muita base nos preços das commodities. E, no caso da defasagem de 19 anos entre a crise dos fundos de pensão e a crise de 2007 e 2008, a crise externa só virá em 2014 e 2016 e lá estaremos com o juro em patamar elevado para segurar os preços diante de uma provável desvalorização do real e ao mesmo tempo contaremos com uma reserva em moedas estrangeiras que jamais poderíamos imaginar naquela época do Real. Reservas, que se diga de passagem, eram elevadas e alcançaram o novo e alto patamar em razão de um lado da sobra de dólares que inundou o mundo para permitir que os Estados Unidos saíssem da crise causada pelos problemas nos fundos de pensão e aposentadoria americano e do outro lado pelo aumento da inflação que se verificou desde a saída de Collor (Aumento que creio foi induzido pelo próprio governo para que a queda brusca em 1994 tivesse efeito propagandístico maior ao mesmo tempo que a velha senhora em patamares elevados ajudava a resolver problemas de caixa do governo).
Clever Mendes de Oliveira
BH, 19/03/2011 (Em Pedra Azul)

sábado, 19 de março de 2011 13:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 19/03/2011 (Em Pedra Azul). Exatamente, prezado Clever, resolver a inflação com o toque de alguma pedra azul, ou com um único golpe de judô, não dá mesmo certo. O toque da pedra, pode ter sido o congelamento de preços e salários, 1986. O golpe de judô, foi o congelamento de ativos financeiros até o M4, que é o ativo financeiro considerado mais amplo, 1990. Ambos naufragaram, de um lado. De outro, parecem ter permitido que seus avalistas, voltassem com grande força política. Exatamente como fiadores de um governo que nunca os poupou, enquanto oposição a tudo e a todos.
Swamoro Songhay

sábado, 19 de março de 2011 17:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 19/03/2011 (Em Pedra Azul). Porém, em 1994, a ideia de quebrar a retroalimentação da inflação, de Pérsio Arida e Lara Resende, foi aplicada. Nem bem a Larida, mas, como nenhum dos dois parecem preocupar-se com protagonismos, no que estão corretos, foram apoiados pelo Ministro da Fazenda de então e com respaldo político do presidente da República de então, iniciaram a execução de um plano de estabilização. Sem as mandracarias anteriores, o plano baseou-se na introdução de uma moeda indexada, que expulsou a moeda deteriorada. A moeda indexada, resistiu até finais de 2008 e meados de 2009, quando começou a dar sinais de deterioração inflacionária. Política fiscal frouxa, oferta de moeda e de crédito, podem ter rompido o que antes, alguém já chamou de fidúcia. Ou seja, responsabilidade fiscal como ativo estabilizador.
Swamoro Songhay

sábado, 19 de março de 2011 17:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 19/03/2011 (Em Pedra Azul). Deteriorando a moeda, não há como falar em crescimento de até 5% a.a. Exceto como forma de, ao invés de jogar a toalha no meio do ringue, fingir que está dando um golpe fatal na rápida perda de valor da moeda indexada. Assim, todos aqueles que acharam ser possível crescer a 7,5% a.a., mas, com medo da inflação, são objeto de convencimento: o melhor é crescer só até 5% a.a., mas, com inflação. De um lado, o Nó Górdio e acima, a Espada de Dâmocles. Ou seja, os mecanismos de estabilização, que propiciariam a demarragem à frente, estão sendo desmontados. No fim do túnel a luz: inflação em fevereiro de 0,80%, projetando 6% em 12 meses. A próxima quadra será animada.
Swamoro Songhay

sábado, 19 de março de 2011 18:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (sábado, 19/03/2011 às 17h34min00s BRT, sábado, 19/03/2011 às 17h44min00s BRT
e sábado, 19/03/2011 às 18h00min00s BRT),
Discutimos muito por pouco. A discordância importante que existe é que eu penso que a velha senhora não é tão feia como você a pinta. Para mim as grandes diferenças entre os três planos (Plano Cruzado I, Bresser e Verão, Plano Collor I (Considero que o Plano Collor II poderia dar certo do jeito que eu gosto, acabando com a inflação devagar e mantendo o câmbio administrado) e Plano Real) foram: de um lado a presença de Gustavo Franco no Plano Real e do mesmo lado o fim da inflação no Plano Real e do outro o estrangulamento externo que o Plano Real nos levou. Estrangulamento que se sabia que viria se o Plano desse certo. E que veio nos Planos anteriores enquanto eles davam certo.
Outro ponto discordância é a pouca relevância que você dá a inflação no final de 2002. Quando se anualiza a inflação do IGPM ou do IGP DI do último trimestre de 2002, a inflação que se obtém é superior a 50%. Uma elevação brutal comparada com qualquer trimestre anualizado do ano de 1998, último ano do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. Inflação que, para mim, junto com a maxidesvalorização foram o que salvou o governo de Lula e permitiu que ele fizesse o ajuste fiscal necessário e que eu imaginara que Tancredo Neves faria, conforme eu mencionara lá no post "Tancredo aos 100 anos" de 03/03/2010 aqui no blog do Alon Feuerwerker.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/03/2011

terça-feira, 22 de março de 2011 13:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/03/2011. E o ministério do bom senso adverte: Inflação faz um mal danado. Não consuma nem com moderação. Logicamente, entendo que o Plano Real teve sua fase expansionista. Mas, pondero que, por ser um plano estabilizador, de institucionalizar regras e formas de tocar recursos públicos e modernizar o Estado, não lograria demarrar a economia no curto prazo. A expansão fiscal, foi em decorrência da necessidade de cobrir um período de adaptação das empresas que, puderam, depois de longo tempo, realizar cálculos econômicos e planejar investimentos. Puderam saber o quanto ganhavam, perdiam e quanto pagavam. O mesmo ocorreu com o setor público, com o fim das AROs e outras formas de obter empréstimos e rolagem de dívidas. A inflação decorrente, foi debelada ao longo do período de adaptação da economia aos novos padrões. Não saiu do controle, como está ocorrendo agora, a partir de 2008. E agora, há o agravante de estarem os instrumentos de estabilização comprometidos. Notadamente, a perna fiscal do tripé. O cambial, idem. E ainda mais preocupante, é a desconversa sobre ajustes, não ajustes. Ou seja, leva a crer que o ajuste será realizado pela inflação, uma vez que cortes não ocorrerão na medida necessária.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 23 de março de 2011 13:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (quarta-feira, 23/03/20112011 13h43min00s BRT),
As nossas discussões estão ficando intermináveis. Agora mesmo vejo que ela retomou junto ao post “Gosto pelo teatro” de sexta-feira, 01/04/2011 aqui no blog de Alon Feuerwerker.
Reforço uma lembrança que eu faço com certa freqüência: não sou economista. Essa condição produz dois inconvenientes:
1) não tenho a responsabilidade do economista em evitar dizer qualquer “nonsense” e
2) não tenho o conhecimento econômico para refutar um argumento econômico do meu interlocutor.
Desde 1969, quando vim com quatorze anos estudar em Belo Horizonte tenho procurado acompanhar não só a política que acompanhava pelo alto na cidade onde vivia Pedra Azul como a economia onde eu não tinha como acompanhar, a não ser a economia do gado com que a cidade sobrevivia. E acompanhando a economia desde então tenho observado o quanto as teorias econômicas se esvoaçam com o tempo e quanto de “nonsense” (E se pudesse ser completado diria econômico) economistas tem dito. Nesse sentido, vez ou outra eu reproduzo o seguinte texto de artigo de Mário Henrique Simonsen saído na página 13 da revista Exame de 5/02/1992:
“De fato, é preciso certa pobreza de espírito para levar qualquer dos três (Nota: M. H. Simonsen se referia a Karl Marx, Milton Friedman e Frederick August von Hayek) a sério, pelo menos dentro da perspectiva dos conhecimentos atuais.”
Como eu disse, não tenho o conhecimento econômico para dizer se a frase de Mario Henrique Simonsen faz sentido.
Você diz:
"Inflação faz um mal danado"
É o que eu digo também. A inflação faz um mal danado, pois destrói a popularidade de qualquer presidente, independentemente da qualidade do governo dele (E que se diga que não existe nenhum equipamento que possa medir a qualidade de um governante, mas a popularidade sim).
Aqui não custa mencionar que na década de 80 e 90, excetuando os países com hiperinflação, na América Latina o país com maiores taxas de inflação foi a Colômbia. Foi lá também que um grupo guerrilheiro encontrou campo mais amplo para proliferar.
Você diz:
"Mas, pondero que, por ser um plano estabilizador, de institucionalizar regras e formas de tocar recursos públicos e modernizar o Estado, não lograria demarrar a economia no curto prazo.
É o que eu sempre digo: não se pode querer acabar com a inflação de uma vez, pois assim você logra demarrar a economia antes do tempo certo como ocorreu com o Plano Real que impulsionou o consumo brasileiro de tal monta que, mesmo com o aperto do juro para enfrentar as crises no Balanço de Pagamento, o nosso consumo interno de veículo em 1997 só veio a ser ultrapassado em 2008.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 04/04/2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011 14:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (quarta-feira, 23/03/20112011 13h43min00s BRT),
Há muito para se dizer e você tem aproveitado disso. Aqui, por exemplo, você diz:
"A expansão fiscal, foi em decorrência da necessidade de cobrir um período de adaptação das empresas que, puderam, depois de longo tempo, realizar cálculos econômicos e planejar investimentos. Puderam saber o quanto ganhavam, perdiam e quanto pagavam."
É o que dizem os outros dentre eles renomados economistas, como se, no período anterior ao Plano Real, ainda que convivendo com a total desorganização provocada pela hiperinflação e não por uma inflação controlada como foi a inflação colombiana nas décadas de 80 e 90, não houvesse formação bruta de capital. Aliás, como se inflação baixa não se referisse a índice de preços e sim aos preços de cada mercadoria, isto é, como se com inflação baixa não houvesse mercadorias com o preço sendo aumentado e mercadorias com preços em queda até o ponto de ter de sair do mercado, como o walkman, a máquina de datilografia, etc.
E em seguida você diz:
"A inflação decorrente, foi debelada ao longo do período de adaptação da economia aos novos padrões. Não saiu do controle, como está ocorrendo agora, a partir de 2008."
Não é o que eu digo como se pode ver aqui mesmo neste post em comentário que enviei para você, terça-feira, 22/03/2011 às 13h33min00s BRT. O que eu coloquei lá no meu comentário foi:
"Quando se anualiza a inflação do IGPM ou do IGP DI do último trimestre de 2002, a inflação que se obtém é superior a 50%."
E você conclui:
"E ainda mais preocupante, é a desconversa sobre ajustes, não ajustes. Ou seja, leva a crer que o ajuste será realizado pela inflação, uma vez que cortes não ocorrerão na medida necessária."
Bela conclusão. Na hora do desespero, o governante acaba apelando para a inflação. É ela que o livra de todos os males. Veja qualquer gráfico da dívida pública federal americana. No final da Segunda Grande Guerra ela correspondia a pouco mais de 120% do PIB americano. A inflação veio corroendo esse percentual e à medida que a inflação subia como subiu na década de setenta, o percentual caia mais até que ele atingiu pouco mais de 30% do PIB no final da década de 70. E desde então, com a subida do juro pelo Paul Volcker, e a conseqüente queda da inflação, o percentual da dívida pública federal americana vem subindo. Talvez seja com base nesse conhecimento histórico da economia americana que Alan Greenspan prognosticou no livro autobiográfico dele, “A era da turbulência” que os próximos anos (Bom ele não imaginou ou não quis dizer que no meio do caminho haveria a crise) a inflação americana deveria subir para um novo patamar em torno de 4,5%. Era como se ele tivesse dizendo "bendita geni, ou melhor, bendita inflação". É, talvez seja apenas mais um “nonsense” de um economista.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 04/04/2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011 14:25:00 BRT  

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