quinta-feira, 24 de março de 2011

Melhor não subestimar (24/03)

Desde o início da coisa, na Tunísia, Estados Unidos e aliados cuidam de colocar um pé no futuro. Assim deve ser vista a intervenção na Líbia. Seria politicamente insustentável deixar Gadafi dizimar a oposição
 
As revoltas democráticas árabes produzem uma dúvida no público. Apoiá-las e correr o risco de as novas democracias serem “democraticamente” sequestradas pelo extremismo de origem islâmica? Ou sustentar no poder déspotas e cleptocratas, para tentar evitar o mal supostamente maior? Desde, naturalmente, que o despotismo se comprometa com transições de poder e de modelo.

É uma dúvida até certo ponto intelectual, pois não consta que as massas árabes estejam aguardando o mundo decidir. Um aspecto frequentemente minimizado é este: revoltas e revoluções sociais tem um vetor “objetivo” pouco controlável. Quando a onda vem, enfrentá-la não garante que a mesma deixe de propagar.

Como aquele barco japonês em seu esforço para atravessar o tsunami.

Qualquer análise prudente da situação concluirá que o processo está apenas no começo, e não respeitará fronteiras. E será complexo.

Agora mesmo o Hamas e outras organizações extremistas ajudam a promover uma escalada bélica contra Israel. 

O acirramento objetiva dificultar a reconciliação palestina (com a Fatah), reconciliação em termos aceitáveis, regional e globalmente. E também abortar os movimentos de massa palestinos que, sob a capa da pacificação interna, pedem na verdade democracia, eleições e o fim do domínio autocrático.

Os extremistas gostariam de levar a uma confrontação que dê espaço para reintroduzir artificialmente a questão nacional palestina na agenda. Assunto que insiste em não comparecer.

O tsunami democrático árabe é fenômeno mais profundo, de dimensão histórica. O adjetivo tem sido usado em excesso, mas é o caso aqui de usar.

A tentativa de ruptura nasce da contradição antagônica entre, de um lado, as possibilidades de progresso social e individual colocadas pelo estágio material de desenvolvimento daquelas sociedades e, de outro, as formas arcaicas de organização social e política.

Os Estados Unidos têm boa inteligência (informação). Daí terem optado por não sustentar o presidente do Egito na hora da dificuldade. Seria inútil. Se o exército estava — como se comprovou depois — contra Hosni Mubarak, quem iria aplicar na vida real a operação de apoio?

Quem ou que país cederia os soldados para transformar a Praça Tahrir numa versão egípcia da Praça da Paz Celestial?

Desde o início da coisa na Tunísia, Estados Unidos e aliados cuidam de colocar um pé no futuro. Assim deve ser vista a intervenção na Líbia. Seria politicamente insustentável deixar Gadafi dizimar a oposição. Seria um desastre político e de imagem, na Líbia e fora dela.

Funciona portanto como efeito demonstração, de quem está ali e deseja continuar. O chamado “Ocidente” mostra disposição para intervir, e não do lado que procura bloquear o processo. Mostra que deve ser levado em consideração por quem calcula no mundo árabe. E mostra que não é necessariamente inimigo das massas rebeldes.

A atitude vai inspirar temor nos déspotas que imaginam poder chegar ao grau de violência que Gadafi já projetava e executava contra o povo líbio. Vai também funcionar como antídoto à narrativa de que americanos e europeus só se metem no mundo árabe para apoiar as ditaduras e o massacre do direito dos povos. É um ativo e tanto.

Desde que, naturalmente, a coisa não desemboque em ocupações. A estratégia na Líbia, do ângulo de quem intervém, é um upgrade. O poderio bélico das potências entra a serviço de uma facção política, que fica encarregada de ganhar a guerra terrestre ou provocar a insurreição. Ou as duas coisas combinadas.

Convém não subestimar potências com currículo colonial. O colonialismo acabou, mas o neocolonialismo vai bem — e hoje até desperta alguma simpatia entre os antigos oprimidos.

Vide o noticiário de todos os dias sobre a beleza que é o fluxo de capital e investimentos do Primeiro para o Terceiro Mundo. Expressão que por sinal saiu de moda. Repararam?

Mesmo a estatura dos líderes só pode ser definitivamente diagnosticada depois do resultado de suas ações.

Não é proibido tentar prever desfechos, é um direito democrático. Mas talvez não seja a coisa mais útil a fazer em situações assim. Talvez a energia precise antes ser investida em tentar entender o processo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (24) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Um post irretocável. Eu que sempre atribui a invasão do Iraque à necessidade de reeleição de George Walker Bush, o filho, fui pego meio de surpresa com o bombardeio americano da Líbia. O bombardeio francês eu já esperava dado o risco que Sarkozy corre de ser derrotado por Le Pen.
A surpresa para mim decorria do fato de que Barack Obama estava com a reeleição mais bem aprumada do que estivera a reeleição de George Hebert Walker Bush, o pai, em 1992. Com George Bush, o pai, a economia americana só se recuperou no próprio ano da eleição, enquanto a economia americana já vem em ritmo de recuperação neste ano de 2011. É claro que Barack Obama não tem o mesmo trânsito na classe média que tinha George Bush, o pai, depois de dois governos de Ronald Reagan bem avaliados pelo povo americano. E é claro que como vantagem, Barack Obama não tem um candidato a lhe roubar os votos como Henry Ross Perot o fizera a George Bush, o pai, na eleição de 1992.
Então somente sabendo que os dias de Muammar al-Khadafi estão contados é que Barack Obama ousaria dar um passo que põe em risco a eleição dele. A menos que prepararam uma arapuca para ele.
As revelações do WiliLeaks das trocas de correspondência da embaixada americana dão a idéia de um primarismo na política de informação do Estado Americano que não corresponde a verdade. Aqui em Belo Horizonte há uma rua com o nome de José Carlos (Novaes da) Mata Machado morto pela ditadura militar em 28/10/1973. Antes a rua se chamava Dan Mitrione, nome do agente americano que fora morto três anos antes, mais precisamente, em 10 de agosto de 1970. É assim, muito antes cá nesse mundão de país eles já coletavam informações. Se Muammar al-Khadafi estiver no poder em 2012, Barack Obama pederia as eleições. Barack Obama só bombardeou porque sabe que Muammar al-Khadafi não estará no poder em 2012, a menos como eu disse que armaram para ele uma arapuca.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 24/03/2011

quinta-feira, 24 de março de 2011 22:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A intervenção militar na Líbia, pode tornar-se um atoleiro. Tanto como no Afeganistão e no Iraque. Sem intervenção por terra, será praticamente impossível saber se a infra-estrutura militar de Khadafi foi realmente destruída. Os rebeldes, ao que parece, são desorganizados, não há partidos políticos, não há parlamento, não há judiciário. Notícias dão conta de que Khadafi teria armado a população, ou, ao menos, as populações que o apoiariam e há também os mercenários. É um terreno, literalmente, movediço. Não foi aproveitada oportunidade de não entrar e o tempo de sair já passou.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 25 de março de 2011 11:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Concordo com este comentário de Swamoro Songhay enviado sexta-feira, 25/03/2011 às 11h49min00s BRT. Não é surpresa, entretanto, esta concordância.
Surpresa mesmo me causou uma chamada no seu Twitter:
[Um texto sábio do Friedman RT @NYTimes Looking for Luck in Libya - http://nyti.ms/gQahgs (via @elenalandau)
11:13 PM Mar 31st via TimesPeople]

para texto de Thomas L. Friedman no New York Times. Na minha primeira leitura fiquei espantando, pois pela primeira vez concordava com o que Thomas L. Friedman dizia. As idéias de Thomas L. Friedman para mim sempre me pareceram planas como o mundo dele.
No artigo indicado, intitulado "Looking for Luck in Libya" e datado de 29/03/2011, era tamanha a concordância que o resolvi ler novamente com mais vagar e atenção para ver se não tinha saltado alguma parte ou o meu inglês capenga levara-me a uma compreensão errônea das idéias de Thomas L. Friedman.
Não tive dúvida na segunda leitura. O artigo é muito bom. E compreendi porque eu gostara do artigo. Não se trata de um texto opinativo. O artigo é apenas uma transcrição de fatos. E fatos que confirmam a avaliação que eu fiz em comentário que enviei quinta-feira, 24/03/2011 às 22h15min00s BRT, aqui para este post "Melhor não subestimar" de quinta-feira, 24/03/2011: ou Barack Obama tem informação suficiente para saber que os dias de Muammar al-Khadafi estão contados, ou pegaram uma peça nele.
É esperar para ver, ressaltando que embora eu concorde com a necessidade de Barack Obama ter sorte na Líbia, não me parece crível que Barack Obama em pleno Séc. XXI esteja repetindo Júlio César a atravessar o Rubicão: "Alea jacta est", a menos, é claro, que Júlio César, à época, já possuía outro tipo de informação que não a proveniente de meros dados.
Enfim, o Texto de Thomas L. Friedman está correto, mas não me parece que Barack Obama conte apenas com a sorte para que se tenha a "Pax Americana" na Líbia.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 05/04/2011

terça-feira, 5 de abril de 2011 13:59:00 BRT  

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