quinta-feira, 17 de março de 2011

Melhor aguardar (17/03)

Falar mal do DEM virou unanimidade. Eu prefiro esperar para ver no que vai dar. É um partido liberal, que no Brasil é sinônimo de direita. Vai mal das pernas pois o vento tem soprado para o outro lado. Quando o vento virar, e sempre vira, talvez esteja posicionado para pegar a nova onda

A política é um campo fértil para deformações históricas. A maneira bonita de dizer isso é o velho ditado de que a História é escrita pelos vencedores. Mas um detalhe costuma escapar ao discurso do dia a dia. Se a política deforma a visão dos fatos a posteriori, o tempo acaba atuando para pôr as coisas no lugar. O tempo é mais forte.

Estes dias o Democratas reorganizou sua direção nacional em meio a uma crise braba. A crise dele é problema do DEM, mas um detalhe chama a atenção na maneira como o partido nascido do PFL costuma ser tratado. Virou o “herdeiro da Arena”, a Aliança Renovadora Nacional, sigla que deu sustentação ao regime nos anos da ditadura.

Na passagem dos anos 70 para os 80, quando a ditadura promoveu uma reforma partidária para dividir a oposição aglutinada em torno do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a Arena mudou de nome para Partido Democrático Social (PDS).

Na sucessão do último presidente militar, João Figueiredo, o PDS dividiu-se. Um pedaço, a Frente Liberal, rompeu e decidiu apoiar Tancredo Neves (PMDB, herdeiro do MDB) na eleição indireta de 1985. Foi um gesto de coragem. Esse pedaço depois formaria o PFL, Partido da Frente Liberal. Que agora é DEM.

Ou seja, o DEM é herdeiro dos que, na hora decisiva, romperam com a ditadura. Os que ficaram no PDS e apoiaram Paulo Maluf contra Tancredo mudaram depois o nome do partido, algumas vezes.

Hoje ele é o PP, Partido Progressista, que está na base do governo Dilma Rousseff, como esteve no apoio a Luiz Inácio Lula da Silva.

O DEM é mesmo um herdeiro da Arena, vem da costela que certa hora deixou o campo autoritário e permitiu uma transição institucional para a democracia.

Tem gente que acha bom Tancredo ter sido eleito no colégio eleitoral. E reconhece o papel positivo da Frente Liberal naquele momento. Eu estou entre essas pessoas. Mas também teve gente que preferia outro resultado. O Brasil estaria hoje melhor se Maluf tivesse vencido Tancredo na eleição indireta?

Cada um responde pela sua biografia, é razoável que o DEM responda pela dele, mas é curioso que a legenda carregue sozinha o fardo, só por estar na oposição. Tecnicamente, o PP é o herdeiro mais puro de quem permaneceu ao lado do autoritarismo até o fim. Como apoia o PT, foi "anistiado".

O que não tem hoje grande importância. O PP atual pouco ou nada tem a ver com aquele PDS. A começar pelo presidente do partido, senador Francisco Dornelles (RJ), ministro da Fazenda do governo nomeado por Tancredo e assumido por José Sarney no impedimento do titular.

O PT explora bem a demonização do DEM (sem trocadilho), é um instrumento da luta política. E o PSDB nunca escondeu o incômodo de ter que se aliar a um partido de direita, como o DEM.

Um sintoma de que os tucanos têm o sectarismo do PT, mas não o pragmatismo. Talvez os resultados políticos e eleitorais dos anos mais recentes tenham a ver com isso.

A expressão rodrigueana de que toda unanimidade é burra carrega uma falha conhecida, pois de tão unânime ela própria traz o risco da burrice.

Falar mal do DEM virou unanimidade. Se é burra ou não, o tempo dirá. Eu prefiro esperar para ver no que vai dar.

É um partido liberal, que no Brasil é sinônimo de direita. Vai mal das pernas pois o vento sopra contra. Quando o vento virar, e sempre vira, talvez esteja posicionado para pegar a nova onda. Ou talvez não.

Mas tem campo para trabalhar. Há um centro e uma direita liberais para serem politicamente trabalhados. Os primeiros passos da administração Dilma mostram preocupação do PT com essa variável.

Caótico

Boa iniciativa, a dos senadores petistas Jorge Viana (AC) e Lindberg Farias (RJ), que propuseram uma revisão do sistema nacional de defesa civil.

"Nosso sistema é caótico e obsoleto", diz Lindberg.

É saudável que a tragédia japonesa desencadeie aqui uma ação, e bem ativa.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (17) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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9 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Ótimo post.

O blog Coturno Noturno, que não faz média e desfere pauladas certeiras pela direita com o objetivo de distinguir no campo da direita os alhos do bugalhos, publicou um post que vale a pena ser lido: “Nós, os eleitores, tratados como imbecis”.

http://coturnonoturno.blogspot.com/2011/03/nos-os-eleitores-tratados-como-imbecis.html

Você escreveu: “o PSDB nunca escondeu o incômodo de ter que se aliar a um partido de direita, como o DEM”. O que é perfeitamente visível no PSDB do RJ, que respondeu assim à hipótese de Índio da Costa filiar-se ao partido e concorrer à prefeitura pelo PSDB-RJ:

Comigo não. Candidato único à presidência do PSDB carioca, Otávio Leite diz desconhecer tratativas para filiar Indio da Costa (DEM) e defende um quadro com "história no partido" para disputar a prefeitura. [coluna Painel, FSP]

Quadro com “história no partido” no RJ é de fazer rir...

quinta-feira, 17 de março de 2011 13:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Interessante. Há pouco foi inaugurado sistema de prevenção e de defesa civil no Rio de Janeiro, dito como infalível e exemplo para todos os demais Estados. Os senadores, pelo Rio de Janeiro e Acre, deveriam explicar um pouco melhor isso. De todo modo, ao menos a preocupação é válida. Mesmo que atrasada.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 17 de março de 2011 13:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito bom o esclarecimento sobre a origem do atual DEM e sobre quem é o verdadeiro herdeiro da Arena e do PDS. Pouco a pouco as verdades vão aparecendo. Antes, quem dissesse algo assemelhado, por verdade, seria crucificado e provavelmente, seria o primeiro a enfrentar o controle social reservado para a tal de "mídia". Vários articulistas e colunistas, referem-se ao DEM como herdeiro da Arena e PDS e assumiram o "demos" do PT ou o "demotucano", também do PT. Tomara que passem a rever suas anotações. Assim, parabéns Alon. No que tange à nova tentativa de reformulação do DEM, o senador que assumiu a presidência da legenda, diz rejeitar a "pecha de direita". Mas, a questão não é "a direita", com aspas. É o liberal, sem aspas. Reiniciar com pauras, já não é um bom recomeço. A aguardar e ver.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 17 de março de 2011 14:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Concordo plenamente com a análise que você faz do DEM, do papel que seus principais líderes tiveram na redemocratização e do papel que um partido autenticamente liberal poderia cumprir no Brasil de hoje. O que não fez sentido desde o primeiro instante foi a aliança em torno da candidatura Serra. Sob todos os pontos de vista, a candidatura de Serra estava à esquerda da de Dilma. Era declaradamente mais intervencionista ali onde a coisa realmente importa - câmbio e juros. No que dependesse pessoalmente dele, Serra, as políticas sociais seriam aprofundadas. Jamais extintas. O problema da candidatura Serra para quem queria uma forte presença do Estado na economia (corrigindo distorções sociais e dando fim à farra financeira), quando não era a simples "briga de torcidas"(idiotice em estado bruto), era exatamente... o DEM. É espantoso que eleitores liberais tenham apoiado Serra com tanto entusiasmo. Se eles tivessem lançado candidato próprio, não teriam ganhado as eleições, mas teriam consolidado um discurso. Fundiram-se àquilo que havia de mais oposto a tudo que eles mesmos pregam. Faria mais sentido ter apoiado a Dilma. Preferiram reencenar a década de 60, lutando contra a "guerrilheira". Ou posar de Virgem Santa em parede de borracharia. Deu no que deu. É uma pena.
Jotavê

quinta-feira, 17 de março de 2011 19:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pera aí, você passou por cima de um detalhe muito importante quando reputa a anistia do PP ( Ex PDS / Ex Arena ) que seria um representante mais puro da ditadura do que o
DEM demonizado. O fato é que a aliança com o PT, que em certo sentido parece a promotora dessa dita anistia, na verdade reflete apenas uma posição mais à esquerda, - relativamente falando, tomada pelos integrantes do PP quando se aliaram às políticas trabalhistas, ao contrário do DEM. Afinal como você mesmo disse o tempo é mais forte, e nesse caso foi por ele que ocorreram essas mudanças que ao final trouxeram mais para a esquerda um partido que parecia à direita de todos, e por conseguinte, à direita ficaram estacionados e aliados o DEM e o PSDB pura e simplesmente pelos seus próprios atos políticos liberalizantes.

Isma Curi

sexta-feira, 18 de março de 2011 00:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Seu texto é bom. A avaliação do DEM com base no histórico me parece um tanto problemática, em especial, se se analisa o PFL/DEM sem considerar as rivalidades regionais. E há a mudança. Faço aqui menção a comentário que eu enviei sexta-feira, 05/03/2010 às 14h00min00s BRT, para um dos comentaristas aqui do seu blog junto ao post "Tancredo aos 100 anos" de quarta-feira, 03/03/2010, tendo em vista um comentário que ele - Duarte - enviara quinta-feira,04/03/2010 às 00h53min00s BRT. No comentário Duarte mencionara Francisco Dornelles como um economista liberal ortodoxo. No meu comentário eu acrescentara junto a essa referência a Francisco Dornelles uma explicação complementar em que dizia que com a indicação de Francisco Dornelles, Tancredo Neves fazia algumas sinalizações importantes: primeiro nomeava alguém que não era do interesse dos empresários paulistas e segundo nomeava alguém que não era à época o economista liberal e ortodoxo que depois ele se tornou.
Mais à frente, eu caracterizei melhor quem seria Francisco Dornelles indicado pelo Tancredo Neves como se vê no trecho do meu comentário transcrito a seguir (Fiz correções no texto):
"Enfim, sendo Francisco Dornelles um parente de Getúlio Vargas, ele [Tancredo Neves] trazia para o Ministério da Fazenda alguém que defendia o que Getúlio Vargas era: um defensor do Estado forte. E sendo Francisco Dornelles um ex-superintendente da Receita Federal, ele sinalizava que haveria aumento de impostos. E tendo no discurso de posse dito (Ou melhor escrito) que era proibido gastar, ele sinalizava que haveria corte de gastos. Enfim, o ajuste fiscal seria antecipado em 20 anos".
Eu não dissera mais porque não tinha a referência que eu precisava mencionar. Faço-a agora. Em um artigo que me fez admirador de Marcio Moreira Alves, publicado no Jornal do Brasil de 10/05/1993, o Márcio Moreira Alves analisava com tristeza a transformação pela qual passara Francisco Dornelles e tendo em vista a campanha que Francisco Dornelles movia então contra o Estado, comparou-o a Bakunim.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 18/03/2011

sexta-feira, 18 de março de 2011 14:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

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sexta-feira, 18 de março de 2011 14:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

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sábado, 19 de março de 2011 17:16:00 BRT  
Anonymous Karina Araujo disse...

Oportuna a leitura eo destaque a anistia aos que apoiam/apoiaram o PT,o que posso estender a lideraças como Sen.Sarney (por Exemplo, a prova disso),a quem tanto o PT massacrava em seus discursos e que foi anistiado como muitos outros.Realmente se estvesse desse lado(PT) o DEM teria o mesmo tratamento.Bastante coerente o artigo.Uma ótima semana a todos.Karina Araujo.

segunda-feira, 21 de março de 2011 11:28:00 BRT  

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