quinta-feira, 10 de março de 2011

Chance zero (10/03)

Talvez esteja na hora de um divórcio amigável. Seria bom para todos. Nem o governo estaria obrigado à pantomima de fingir que dá importância ao sindicalismo nem este precisaria continuar no papel de partido da base

Não vai bem a relação entre o governo e o movimento sindical. E o diagnóstico é anterior aos atritos sobre o salário mínimo. A encrenca está na deformação das atribuições. Ou melhor, na maneira deformada como um vê as atribuições do outro.

Na preliminar do debate é preciso afastar certo viés antissindical, que enxerga graves problemas em o Estado transferir recursos para as entidades de trabalhadores mas não exibe o mesmo grau de revolta quando o dinheiro vai para as organizações patronais.

Se é possível falar em peleguismo, é pouco razoável olhar só para um lado do problema.

O movimento político-sindical que resultaria no PT alimentou-se, na nascente, de ideias renovadoras. Uma delas ensaia ressuscitar pelas mãos da CUT: o fim do chamado imposto sindical, a doação compulsória de cada um para financiar as entidades.

Pena que a CUT só lembre dessas coisas, que remetem ao seu passado combativo, quando interessa ao governo ameaçar o sindicalismo com o fechamento das torneiras.

Na teoria, a CUT tem mais enraizamento e melhores condições de sobreviver só às custas da contribuição voluntária dos associados.

A principal ideia inovadora da CUT lá atrás era construir um movimento sindical independente dos patrões e do governo. Navegou o quanto deu nas águas do antigetulismo e do antipeleguismo, estimulando inclusive a divisão de sindicatos na base.

No fim das contas resultou em nada. O sindicalismo nunca dependeu tanto do governo, ou dos governos. Com uma diferença, para pior.

O modelo getulista pelo menos preservava a unicidade orgânica, que é boa para o trabalhador. Por facilitar a unidade na ação, desde que haja democracia.

É possível o pluralismo na unicidade, se as diversas forças políticas e propostas encontram mecanismos proporcionais de representação. Como por exemplo na UNE.

Mas democracia interna nunca foi o forte do sindicalismo brasileiro, do getulismo ao petismo. E os filhos do casamento entre as tendências centrífugas e o autoritarismo secular são a fragmentação e o enfraquecimento.

A conjuntura de razoável expansão da economia e do emprego também contribui para arrefecer. Atrapalha, além disso, uma debilidade cada vez mais estrutural. No mundo inteiro o sindicalismo só cresce mesmo no setor público.

Onde tem que forjar musculatura enfrentando patrão a coisa vai de mal a pior.

O movimento sindical que deve se reunir com Dilma Rousseff é um retrato das circunstâncias. Fraco, dividido, dependente. Vulnerável portanto a duas tentações.

Segundo a lógica do poder, não faz sentido um sindicalismo tão carente de músculo e tão escravo dos cofres públicos criar problemas para um governo que o prestigia com gestos de apreço e espaços, além das verbas.

Segundo a lógica do movimento sindical, não faz sentido um governo aliado e fortemente apoiado desconsiderar as legítimas reivindicações.

A pauta dos sindicatos está no limbo. Um sintoma? O governo não quer nem ouvir falar em impor via legislação o corte na jornada de trabalho.

É a deformação das atribuições, de que tratou o começo da coluna. Cada lado deseja, no fundo, que o outro simplesmente adira.

O governo quer apoio incondicional, nos moldes do exigido da base aliada no Congresso. E as centrais sindicais querem que o governo as atenda sem que precisem lutar.

O cartaz sobre o caixa da padaria bem que dizia: “Já que banco não faz pãozinho, aqui não vendemos fiado.” Sábio.

Talvez esteja na hora de esse matrimônio de conveniência produzir um divórcio amigável. Seria bom para todos. Nem o governo estaria obrigado a fingir que dá importância ao sindicalismo nem este precisaria continuar no papel de partido da base.

O governo cuidaria de governar e os sindicatos, de mobilizar e pressionar. Seria bem mais saudável. E que as coisas se resolvessem conforme a força de cada um.

A chance de esse meu cenário idílico emplacar? Perto de zero.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (10) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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3 Comentários:

Blogger Briguilino disse...

A vantagem dos teus artigos é que podemos mudar os sujeitos e eles continuam coerentes. Troque sindicatos dos trabalhadores por patronal e continua a mesma coisa. Ou por artistas, estudantes, etc etc...

quinta-feira, 10 de março de 2011 08:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Talvez se possa dizer sobre o seu entendimento da realidade econômica brasileira o que Hillary Clinton disse sobre a política no mundo árabe: está fundada em areias movediças.
Você não aceita os dados da Caged sobre a geração de empregos. Em um amplo artigo no site contas abertas intitulado “Governo quer cortar desvios no seguro-desemprego; benefício subiu 50% em 10 anos” de 04/03/2011 discute-se sobre as fraudes no seguro-desemprego em texto de Milton Júnior. De doze parágrafos há dois com referências ao questionamento do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre a fragilidade do sistema de controle para a concessão do benefício do seguro-desemprego.
Há fraude. As fraudes não são avaliadas na sua magnitude. O texto de Milton Júnior, entretanto, puxa uma frase do relatório do TCU que no próprio relatório estava desfocada do assunto. Diz lá a frase:
“Os auditores mencionam, por exemplo, a falta de confiabili dade nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged)”
Sim, é um fato que os dados do Caged não são precisos. A frase, entretanto, pode ser dita sobre qualquer dado público em qualquer país, desde que se não precise antecipadamente o que se entende por falta de confiabilidade. No entanto foi exatamente essa frase que foi lá para o seu Twitter em 6:44 PM Mar 5th com a indicação do endereço:
http://ow.ly/1s7Ege
E quarta-feira, 09/03/2011 às 09:19:48 há a indicação no seu Twitter do post de Censo Ming “60 dias duros” no endereço:
http://tinyurl.com/4vu9q2e
O artigo de Censo Ming é muito bom, mas, tratando da inflação, não há a mínima referência a geração de empregos que está fazendo a taxa de desemprego cair desde há muito tempo salvo as variações sazonais.
Enfim é isso, você está sendo muito crítico do governo anterior por ter feito um esforço maciço para eleger a presidenta Dilma Rouss eff. Esse esforço foi amplo e bem orquestrado e foi feito desde 2009, com a participação do Ministério da Fazenda e do Banco Central. E as pessoas só pararam para falar desse esforço depois que a presidenta Dilma Rousseff foi eleita. Falam como se fosse o fim do mundo, e, no entanto, foi inferior ao esforço que se fez às vésperas da eleição de 1994 para eleger Fernando Henrique Cardoso e com a vantagem de entregar um país em muito melhores condições. Agora, como o emprego vem crescendo pelos índices mais confiáveis do IBGE, mas como você insiste em desqualificar as pesquisas do Caged, não se considera o óbvio na sua análise. Para que Dilma Rousseff agendou uma conversa com os sindicatos? O óbvio seria pedir aos sindicatos para não serem oportunistas. O Brasil precisa encontrar um ritmo adequado de crescimento. Suponhamos que seja em torno de 4,5% com a possibilidade de aumentar até atingir uns 5,5%. Se os sindicatos fizerem greve no momento atual com g rande ímpeto reivindicatório o governo vai ter que aumentar muito o juro. É isso que o governo vai pedir aos sindicatos: amenizem as suas reivindicações. A dúvida é se os sindicatos vão concordar. Se eles forem muito dependentes do governo é possível que eles aceitem.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/03/2011

domingo, 13 de março de 2011 15:01:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Não tinha lido seu post “Uma questão de segurança” de domingo, 13/03/2011, na íntegra. Li a parte do tsunami no Japão, mas não me prendi muito ao texto. Até que queria falar um pouco sobre um assunto que eu sei que nem você nem ninguém mais teriam mencionado. É uma relação que eu faço entre terremotos e recuperação econômica. Costumo dizer que a crise no Japão na década de 90 só foi revertida depois do terremoto que abalou Tóquio. Agora também há a perspectiva de que o tsunami consiga recuperar a economia japonesa.
Li o tópico sobre a visita de Barack Obama e de novo não havia nada para comentar. Achei que o post terminara por ali.
Bem, mas não é isso que eu queria dizer. Abri a caixa de comentários para utilizá-la para copiar artigos da internet, pois assim se consegue apagar todos os penduricalhos que normalmente acompanham o copiar colar quando se faz diretamente, mas havia esse comentário do Anônimo enviado domingo, 13/03/2011 às 11h12min00s BRT. Não considero errado o que ele disse, embora não creio que eu dissesse o que ele disse, pois imagino que a ideologia dele não é próxima da minha. O que me causou mais surpresa foi que me pareceu que ele tinha errado a caixa de comentário, pois o comentário do anônimo cabia corretamente na caixa de comentário para este post “Chance zero” de quinta-feira, 10/03/2011. Voltei ao seu post “Uma questão de segurança” e li o curto tópico “Medida”, e entendi a razão de o comentário do Anônimo ter se localizado onde estava. Como disse, não perfilho as idéias do Anônimo, mas concordo que a não cooptar os sindicatos e a não fazer a reunião e imaginando a situação se desenvolvendo para um extremo, a alternativa talvez fosse um Eldorado do Carajás (Fruto da moeda desvalorizada para pagamento da dívida externa via saldo de U$1 bilhão mensal e inflação crescente fruto da queda da carga tributária de 27% do PIB no final do governo de Ernesto Geisel para 22% do PIB no governo de José Sarney) ou da estagnação do governo de Fernando Henrique Cardoso com crises periódicas no Balanço de Pagamentos (Fruto do consumismo exagerado e da valorização da moeda necessários para acabar com a inflação de uma vez e assim eleger Fernando Henrique Cardoso).
Em suma, o comentário do Anônimo enviado domingo, 13/03/2011 às 11h12min00s BRT para o post “Uma questão de segurança”, parece-me muito próximo do que eu dissera no meu comentário anterior enviado domingo, 13/03/2011 às 15h01min00s BRT, aqui para este post “Chance zero” de quinta-feira, 10/03/2011.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/03/2011

domingo, 13 de março de 2011 16:21:00 BRT  

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