quinta-feira, 31 de março de 2011

Azar ou sorte? (31/03)

Eis uma boa pergunta para o Itamaraty. "Se o Brasil fosse membro permanente do Conseho de Segurança e tivesse poder de veto teria se abstido na resolução 1973 ou votaria diferente do que votou?"

Dilma Rousseff têm manifestado algum desconforto com as tentativas de, segundo ela, colocar cunhas entre o governo atual e o anterior, do padrinho Luiz Inácio Lula da Silva. Para a presidente, quem apostar na separação entre criador e criatura vai perder.

É o óbvio ululante. Dilma, como Lula, é peça de um projeto político. O do PT.

Imaginar que daqui a três anos ambos vão brigar porque uma quer continuar e o outro quer voltar é coisa de amadores. O candidato oficial à Presidência em 2014 é Dilma, com o apoio de Lula.

Se bem que amador não falta por aqui.

Mudança na chapa? Só se Lula quiser ser vice. E vai ser difícil tirar o PMDB.

O outro lado da moeda é a administração Dilma operar a desconstrução programática do governo que lhe deu origem. Está acontecendo e tem razões objetivas.

A assimetria entre a popularidade de Lula e a votação dada à candidata do PT exibiu certa base objetiva para a oposição consolidar-se e organizar a caminhada de volta ao poder.

Uma eleição que era para terminar cedinho, como um passeio pela Champs Élysées (a de Paris), foi arrastada pelos cabelos até pelo menos metade do segundo turno. Coisa antes impensável. E impensada, tanto que produziu vexames.

Por isso a mudança, que é necessariamente uma desconstrução. Nos direitos humanos, no direito à propriedade, na recusa tática a chancelar os projetos mais explícitos de controle sobre as empresas de comunicação.

O movimento mais recente é na política econômica. O Lula "puro" era anti-inflacionista convicto. Convicção que foi esmaecendo conforme crescia a ansiedade eleitoral. Depois da passagem da faixa, a convicção parece ter desaparecido da Esplanada.

E na política externa? Lula investiu tempo, energia e recursos na aproximação com o mundo árabe e islâmico. O Brasil lutou para ser considerado jogador efetivo nas relações do resto do planeta com aquela parte da humanidade.

É aqui que o governo Dilma opera, até o momento, a retirada mais perceptível. Desde a eclosão da onda revolucionária democrática, na Tunísia, o Itamaraty está recolhido. Só não completamente porque de vez em quando solta notas oficiais anódinas, sem efeito prático.

O Brasil deu azar. Não era hora de estar no Conselho de Segurança. Ali é difícil praticar o esconde-esconde.

O Brasil de Dilma está mais preocupado em não afrontar os Estados Unidos e consolidar a influência nas vizinhançcas. Agora mesmo trabalha o apoio ao candidato etnocacerista no Peru, Ollanta Humala.

Fingir que nada acontece no mundo árabe é parte do jogo. Posicionar-se implicaria alguma perda. Ou esgarçaria as relações com a Venezuela e certas cleptocracias claudicantes, como Líbia e Síria, ou criaria problemas com Washington numa hora totalmente inconveniente.

Numa hora em que o novo governo cultiva a todo custo a boa vontade do establishment.

Disse que o Brasil deu azar de estar agora no Conselho de Segurança. Um azar administrável, bobagenzinha perto da sorte grande que é não ter conseguido até o momento a tão batalhada cadeira permanente.

Imagine o Brasil membro de primeira linha do Conselho de Segurança, com direito a veto e tendo que decidir sobre a intervenção na Líbia.

Se se abstivesse aprovaria na prática a interferência externa numa guerra civil interna daquele país amigo. Seria, como foi, um voto a favor escondidinho. Se votasse contra, derrubaria a proposta, pois membro permanente que vota contra veta.

Eis uma boa pergunta para o Itamaraty. "Se o Brasil fosse membro permanente do Conseho de Segurança e tivesse poder de veto teria igualmente se abstido na resolução 1973 ou votaria diferente do que votou?"

Decomposição

O presidente da Síria discursou mas não conseguiu ser original. Disse que a turbulência política em seu país obedece a um complô americano-israelense.

Vai colar? Aqui fora talvez. Lá dentro será mais difícil.

Os sírios, assim como os vizinhos, parecem desconfiar cada vez mais de que as teorias conspirativas e os belos discursos sobre a "resistência" são apenas biombo para a defesa desesperada de cleptocratas em avançado grau de decomposição.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (30) no Correio Braziliense.

@alonfe

youtube.com/blogdoalon

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9 Comentários:

Blogger Briguilino disse...

Alon, guardarei esta: " Imaginar que daqui a três anos ambos vão brigar porque uma quer continuar e o outro quer voltar é coisa de amadores. O candidato oficial à Presidência em 2014 é Dilma, com o apoio de Lula.

Se bem que amador não falta por aqui.

Mudança na chapa? Só se Lula quiser ser vice. E vai ser difícil tirar o PMDB."

Sou amador e aposto nisto:

http://blogdobriguilino.blogspot.com/p/eleicao-2014.html

quinta-feira, 31 de março de 2011 10:34:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, o fato de que o PT, até o momento, neste país, seja o agrupamento com mais cara de partido não impede que os projetos pessoais venham primeiro. É muito cedo para falar qualquer coisa com respeito a 2014, a candidatura a reeleição da presidenta vai depender de como andar sua popularidade à época. Se estiver por baixo, o PT e a multidão de aliados vão buscar o Lula, sem hesitação. Eu diria mesmo que as apostas são opostas, se Lula apostou na manutenção da estabilidade, com o crescimento que esta permitisse, Dilma quer crescer o que puder, acomodando a inflação como der. A propósito, creio que ambos devemos meias escusas ao Banco Central: enquanto escrevíamos que não se estava dando ao público a informação sobre a inflexão da política macroeconômica (ontem 30/11), aquele órgão publicou um documento oficial (o Relatório de Inflação) onde, mesmo com o hermetismo padrão dos documentos oficiais, convenceu a todos os comentaristas que vi, que a política da instituição mudou, e muito. Resumindo: se a inflação bater pesado na popularidade da presidenta, Lula volta, caso contrário, caminharíamos para a reeleição (e os dois podem vir a caminharem separados, ou não). A possibilidade de a situação se encaminhar pró Dilma não é desprezível, temos até um exemplo histórico, que os “desenvolvimentistas” veneram até hoje: JK. A inflação e a recessão, ele deixou como “herança maldita” para os militares. Mas creio que o Brasil é outro, e o descontrole inflacionário pode se instalar com mais facilidade hoje (dada a maior sofisticação de todos os mercados). Além disso, supondo-se que Lula “vença a aposta”, o governo Dilma terá servido para Lula ver até onde pode avançar para a esquerda – sim, creio que Dilma é mesmo de esquerda, Lula é algo muito mais complexo. Claro que existem fortes possibilidades de que eu esteja errado (amador, sou com certeza), é inevitável quando temos de discutir a subjetividade de pessoas (já que as alternativas relevantes são alternativas entre pessoas), em vez de estruturas mais complexas e estáveis, como poderiam ser os partidos. (O que você tem a dizer do novo partido nem de direita, nem de esquerda e nem de centro – muito pelo contrário, acrescentaria o Jó Soares da minha época –, do prefeito Kassab? Esse partido já existe pensei, são os tucanos em cima do muro, mas logo percebi que errara: o PSD do Kassab não tem o B nem está na oposição, são agora os tucanos da base do governo!). Dilma tem uma segunda dificuldade, o crescimento econômico impulsionado pelo Estado é como aquelas lâmpadas antigas que gastavam muito mais energia produzindo calor do que luz, minha aposta é que com inflação e tudo, nosso crescimento real não se mantém acima de 5% aa. E isso sim deveria ser o óbvio ululante, tão óbvio que faz enorme barulho, e esse barulho parece impedir sua percepção: está tão perto da cara que não se vê. A inflação pode ser controlada a partir de uma repartição do Ministério da Fazenda, se o governo estiver disposto a pagar o preço, mas mesmo com uma batelada de bancos de fomento, regionais, setoriais e não sei o que mais, sem falar de uma multidão de agências com benesses varias às empresas... o crescimento brasileiro compatível com a estabilidade é sofrível. O governo pode fornecer estabilidade, não pode fornecer crescimento sustentado e rápido. Desculpe a prolixidade, mas não posso deixar de acrescentar que o engraçado mesmo é que, do ponto de vista da estratégia de crescer com inflação, melhor seria continuar jurando de pé junto que se continuaria perseguindo a meta, porque a inflação ajuda o crescimento na medida em que o mercado não a antecipa, na medida em que o mercado é logrado.,. além de ser o pior caminho, tem algo de imoral nele.

quinta-feira, 31 de março de 2011 16:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Um reparo: não está posto sobre a mesa poder de veto, mas apenas a condição de membro permanente do Conselho de Segurança.

quinta-feira, 31 de março de 2011 18:49:00 BRT  
Anonymous Leonardo M. T. disse...

Alon, daonde tu tiro que o Brasil está apoiando o cadidato chavista Ollanta Humala no Peru?

quinta-feira, 31 de março de 2011 18:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1) O ex-presidente não será candidato à presidência em 2014. A atual presidente será candidata à reeleição. Talvez, com apoio do ex-presidente, caso este não esteja resolvendo o mundo. Egos podem ser implodidos.
2) Quanto à pergunta ao Itamaraty, o engraçado é que seria muito provável que ele se abstivesse de recebê-la e emitisse uma nota H2O: insípida, inodora e incolor. Piada não perde-se.
3) Quanto à diplomacia, afastar-se de alguns enroscos e estar trabalhando apoio ao candidato etnocacerista peruano, motiva uma pergunta: não seria melhor apoiar Khadafi com armas e tropas? Outra piada que não se perde.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 31 de março de 2011 19:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado Alon,

No plano externo, a mudança não é tão significativa como sugeres por duas razões básicas: a) esse candidato peruano Ollanta Humala é uma réplica do Chávez, ou seja, populista com vocação a autocrata; e b) não houve qualquer crítica do governo dilmista às ditaduras em nosso continente - Cuba e Venezuela -, bem como uma defesa aberta dos direitos humanos na América do Sul.

Depois, é tolice querer ter assento no Conselho de Segurança da ONU. Por acaso, o Brasil vai mandar tropas lutar around the World quando o Conselho assim decidir? Ou vai votar sempre contra qualquer intervenção militar, mesmo quando esta for necessária para salvar vidas ou evitar um genocídio?

Com milhões de analfabetos funcionais, o Brasil precisa antes se consolidar como democracia sólida e economia autosustentável para só depois poder, ao menos, cogitar de ser a grande potência que almeja.

quinta-feira, 31 de março de 2011 23:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Dificilmente é possível ver no governo Dilma uma (des)continuidade do governo Lula. Para mim, trata-se de um novo governo do mesmo projeto político. A realidade política (e econômica) faz com que algumas diretrizes mudem. Afinal, tudo muda. É mesmo um grande esforço analítico (?) tentar encontrar diferenças significativas entre dois governos de um mesmo projeto político. Continue tentando...

sexta-feira, 1 de abril de 2011 01:53:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, poucos partidos tem ou tiveram um projeto político, além do projeto óbvio de tomar e permanecer no poder. As exceções teríamos de procurar nos partidos com alguma idéia de transição para o socialismo (ou o objetivo explícito de barrá-lo), isso no passado, atualmente alguns podem até almejar o socialismo, mas não possuem a menor idéia do que fazer se chegarem ao poder. Existem indivíduos militando em partidos, e existem projetos pessoais, projetos partidários podem ser criados a partir desses projetos individuais. Não creio que precise haver muito mais projeto que a conquista de poder, mas os partidos seriam mais compreensíveis se atuassem em um ambiente mais disciplinado. Mesmo o PT, sendo o agrupamento com mais cara de partido, não é exceção. É muito cedo para falar qualquer coisa com respeito a 2014, a candidatura à reeleição da presidenta vai depender de como andar sua popularidade então. Se estiver por baixa, o PT e a multidão de aliados irão buscar o Lula, sem hesitação. Eu diria mesmo que existem apostas contrárias: Lula apostou na manutenção da estabilidade, com o crescimento que essa permitisse, Dilma quer crescer o que puder, acomodando a inflação como der. Devo meias escusas ao Banco Central: enquanto comentava aqui que não se estava passando ao público a informação sobre a inflexão da política macroeconômica (ontem 30/11), aquele órgão publicou um Relatório de Inflação onde universalizou a informação de que a política da instituição mudou, e muito (pelo que vi de todos os comentaristas). Resumindo: se a inflação bater pesado na popularidade da presidenta, Lula volta, caso contrário, caminharíamos para a reeleição. Como estamos falando de gente grande, os dois podem futuramente vir a caminhar separado, ou não, e a transição de orientação de um governo para o outro foi feita a quatro mãos, com o governo Lula, Banco Central e tudo mais, guinando para a esquerda em 2010. A possibilidade de a situação se encaminhar favoravelmente à aposta de Dilma não é desprezível, temos até um exemplo histórico: JK. A inflação mais alta e a recessão, ele conseguiu deixar para Jango e para os militares. Mas creio que o Brasil é outro, e o descontrole inflacionário pode se instalar com mais facilidade hoje (dada a maior sofisticação de todos os mercados). Além disso, supondo-se que Lula “vença a aposta”, o governo Dilma terá servido para Lula ver até onde pode avançar para a esquerda – sim, creio que Dilma é mesmo de esquerda, Lula é algo muito mais complexo. Claro que existem fortes possibilidades de que eu esteja errado (amador, sou com certeza), o que é inevitável quando temos de discutir subjetividades (já que as alternativas relevantes são alternativas entre pessoas), em vez de estruturas mais complexas e estáveis, como poderiam ser os partidos. Dilma tem ainda uma segunda dificuldade, o crescimento econômico impulsionado pelo Estado é como aquelas lâmpadas antigas que gastavam muito mais energia produzindo calor do que luz, minha aposta é que com inflação e tudo, nosso crescimento real não se mantém acima de 5% aa. E isso sim deveria ser o óbvio ululante. A inflação pode ser controlada a partir de um único órgão do governo, se o governo estiver disposto a pagar o preço, mas mesmo com uma coleção de agências de fomento, o crescimento brasileiro compatível com a estabilidade é sofrível. O governo pode fornecer estabilidade, não pode fornecer crescimento sustentado e rápido. A ironia é que a estratégia de crescer com inflação é tão mais exitosa quanto menos for antecipada pelos agentes econômicos (empresários e trabalhadores), porém, em situação de liberdade de informação, a distância entre o discurso do governo e os fatos não pode crescer muito.

sexta-feira, 1 de abril de 2011 10:47:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Anônimo-sexta-feira, 1 de abril de 2011 01h53min00s BRT.
A que parece, trata-se de um governo anterior. Isso porque a presidente está em posição proeminente desde 2003. E foi apontada, durante muito tempo, como a responsável por tudo que ocorreu. Assim, logicamente, tanto o tudo considerado como bom, como o tudo de ruim. A dúvida fica por conta do projeto. Que projeto? O de manter os gargalos em infra-estrutura estáveis, para que limitem o crescimento até, no máximo, 5% a.a.?
Swamoro Songhay

domingo, 3 de abril de 2011 14:30:00 BRT  

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