quinta-feira, 3 de março de 2011

Atrás de uma explicação (03/03)

Uma dúvida razoável do eleitor seria esta. "Se o senhor acha o governo bom e que merece apoio por que o senhor não disputou a eleição num partido da base de sustentação do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva?"

Num sistema democrático o político precisa ter a capacidade de explicar seus atos. Corrijo. Em qualquer situação o político precisa ter a capacidade de explicar seus atos.

Quando o movimento é muito difícil de explicar, tem-se um problema. E quando o político precisa se explicar é porque já está errado.

O projeto de um novo partido sob a liderança do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, carrega atributos e características. Kassab comanda a maior cidade do país, é político jovem e tem obra administrativa. Foi eleito pelo Democratas, que está na oposição ao governo federal.

Kassab tem uma razão explicável para sair do DEM. Desde 2008 o prefeito é adversário de Geraldo Alckmin (PSDB), agora novamente governador de São Paulo. Naquele ano ambos disputaram a Prefeitura e o episódio deixou sequelas.

Ficando no DEM, sigla aliada de Alckmin, Kassab arrisca aprisionar-se numa articulação política em que não é protagonista, ao contrário.

Então o prefeito pode dizer que vai sair do DEM para ajudar a derrotar o PSDB em 2012 e 2014, e isso só pode ser feito a partir de um campo político antitucano. Portanto em articulação com o governo federal.

Até aí nada de espantoso. Também nada há de surpreendente quando políticos aliados de Kassab unem-se a ele na empreitada.

O rolo começa quando se observa o método. Criar uma legenda descartável, para contornar o instituto da fidelidade partidária, que a Justiça consolidou recentemente.

Fico imaginando como será a solenidade de fundação do partido. O que vai ser dito nos discursos? O que vão dizer as faixas? Sobre o que versarão as entrevistas?

"Estamos aqui reunidos para criar um partido de mentirinha. Foi a forma que encontramos para driblar a fidelidade partidária. Fomos eleitos pela oposição, mas queremos apoiar o governo federal e a lei nos proíbe de mudar de legenda. Em no máximo 30 ou 60 dias cada um de nós seguirá seu rumo sem o risco de perder o mandato."

Como o eleitor vai receber? Talvez o cálculo de quem planeja o novo partido embuta a esperança de que o eleitor, depois de já ter absorvido tanta coisa, absorva isso também. Especialmente porque falta muito tempo para 2014 e até lá a gambiarra pode ter sido digerida, e esquecida.

Uma dúvida razoável do eleitor seria esta. "Se o senhor acha o governo bom e que merece apoio por que o senhor não disputou a eleição num partido da base de sustentação do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva?"

E como reagirá a Justiça? Eis uma incógnita. Talvez a força do governo federal nas instâncias superiores ajude, mas vai saber?

Se o eleitor precisa esperar até 2012 ou 2014 para dizer o que acha, a Justiça tem o poder de decidir na hora em que quiser. E a confusão vai ser grande, com um punhado de partidos guerreando nos tribunais contra parlamentares emigrantes.

Uma confusão que tem tudo para transbordar dos limites jurídico-partidários e contaminar o organismo político.

Uma possibilidade é a Justiça exigir que a nova legenda dispute pelo menos uma eleição antes de a turma ficar liberada para transferir-se a partidos pré-existentes.

Isso atrapalharia o cronograma desejado, que prevê a fundação em março, a organização nacional até julho e a fusão/dissolução em agosto. Tudo muito rápido. Pá-pum.

E o governo?

Por enquando, as resistências ao projeto do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para a reforma do Código Florestal concentram-se no PV e em parte do PT.

A dúvida está em como se comportará o governo. Vai deixar o barco correr ou vai interferir para tirar o PT do isolamento?

Hoje o relatório tem votos suficientes nas bancadas.

Sinceridade

O episódio da não nomeação de Emir Sader reforça a impressão de que a maneira mais rápida de alguém perder sua posição neste governo é chamar um jornalista e dizer o que pensa.

Já havia acontecido com o secretário nacional antidrogas e agora acontece no Ministério da Cultura.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (03) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

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2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Sobre a demissão do Emir Sader, quem tinha razão era o tal de Vampiro de Curitiba. Vejam o que ele escreveu logo após as eleições, no Blog do Vamp:

"Sim, perdemos a eleição. O Brasil bem que tentou chegar à Civilização, mas o Nordeste e boa parte da Imprensa - que sempre tratou Lula e o PT como inimputáveis- seguraram, mais uma vez, nosso futuro.


Ainda assim vencemos! Eles pensam que "continuam no poder", como se "o poder" fosse algo a ser tomado. Ou como se fosse um lugar a ser alcançado. Pensam que por estarem nos governos, nas faculdades, nos sindicatos, na Imprensa têm "poder". Eles leram algumas páginas de Marx e Gramsci, mas não sacam nada de Foucault! O poder não é algo que possa ser conquistado, simplesmente, ao se tomar o Estado. Não, não existe “um poder” que se conquista juntamente com aparelhos de Estado. Os poderes periféricos e moleculares se exercem em níveis variados e em pontos diferentes da rede social. Quem tem poder é quem cria valores. E os valores que estão sendo criados neste exato momento são os valores do Individualismo, da meritocracia, da liberdade de pensamento e expressão, enfim, tudo aquilo que eles mais abominam. Os inimputáveis não criam nada! A eles a História reserva somente o papel de vítimas. O Poder é nosso!

quinta-feira, 3 de março de 2011 09:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, o que parece que ninguém vê é que após o governo péssimo do Kassab em são Paulo, muito inferior ao que ele prometeu oferecer ao povo paulistano, as chances dele se eleger governador, na minha opinião, são pequenas. Pode-se dizer que em 2008 ele começou com uma baixa intenção de voto e se elegeu prefeito, mas os tempos são outros. Acho que se o PSB ou PMDB levar o Kassab, o molho sairá mais caro que o peixe. Vai causar baixas ideologicas no PSB ou fisiologicas no PMDB (a briga por espaço lá é feia, de faca e no escuro)e caso não se eleja governador nada terá a oferecer a estes partidos.

quinta-feira, 3 de março de 2011 19:33:00 BRT  

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