sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Um detalhe cruel (11/02)

Governo e Congresso associarem-se num megarreajuste salarial para deputados, senadores, presidente da República e ministros semanas antes de promoverem o arrocho do salário mínimo e das aposentadorias, e o massacre do orçamento, é coisa de quem está se lixando mesmo, para valer

O corte orçamentário faz sentido. Afinal, é preciso combater a inflação. Como também faz sentido aumentar os juros para conter a demanda. Aperto monetário é para isso mesmo. 

Faz sentido o governo arrochar o salário mínimo para aliviar as contas da Previdência. É a fórmula tradicional de quem precisa exibir aquele sempre exigido -pelos mercados- propósito de austeridade.

Outra coisa que faz bastante sentido é o megarreajuste autoconcedido pelo Congresso Nacional a suas excelências, os parlamentares. Eles mereciam mesmo ganhar mais. Ganhavam pouco.

Igualmente merecido foi o reajuste ainda maior no salário da presidente da República e dos ministros.

Mais sentido ainda fazia o discurso do então presidente, quando garantia que não conduziria a economia brasileira com a bússola da eleição. Diferentemente do que, segundo ele, haviam feito os antecessores.

Até para não deixar ao sucessor uma herança maldita como a que, segundo ele, recebera em 2003.

Todas essas coisas faziam e fazem sentido, se tomadas isoladamente e analisadas apenas no plano do discurso. Juntas, ainda mais quando confrontadas com a realidade, formam um mosaico fantasmagórico, pintado com as tintas do nonsense.

O megacorte orçamentário executado pela presidente Dilma Rousseff é o reconhecimento de ter recebido uma pesada herança negativa. 

A herança combina inflação em alta, juros ainda mais altos (e com tendência a subir), gastos públicos descontrolados, moeda supervalorizada, comércio exterior pouco saudável, dependência vital de investimento externo (venda de ativos, desnacionalização).

Em certo aspecto a herança é menos complicada que a de 2003. Uma coisa boa são nossas reservas cambiais. Mas elas carregam um custo altíssimo, pois o governo troca dívida barata por dívida cara.

Noutros pontos a herança é certamente mais complicada. Quem diz é o governo. Pois o aperto orçamentário agora é bem maior que o de oito anos atrás.

Dilma tem o desafio de combater a inflação e, ao mesmo tempo, desvalorizar a moeda. Não trivial. Ou pelo menos impedir a valorização ainda maior. A âncora cambial já parece ter chegado ao limite, um real ainda mais valorizado é impensável. E não há suporte interno para abrir ainda mais a economia, ao contrário.

O governo terá portanto dificuldade de escalar o uso de uma arma adequada nas batalhas antiinflacionárias: acelerar a importação.

Outra dúvida é se o corte orçamentário terá sido suficiente.

É uma encrenca e tanto, com consequências diretas sobre a base social do governo. Se um cenário assim tivesse que ser tratado por um presidente do bloco PSDB-DEM-PPS o PT certamente deflagraria a guerra santa, sob as bênçãos de todas as igrejas -religiosas ou laicas- autodenominadas antineoliberais.

Como o governo é petista, a dificuldade de mobilizar gente contra o governo será imensa. Pois a esmagadora maioria das máquinas de mobilização -sindicais, sociais, empresariais e ideológicas- estão no governo ou apoiam politicamente. As que não apoiam o governo são devotas desse tipo de austeridade.

Ou seja, a base social vai ficar a ver navios.

O Planalto espera enfrentar a situação com o capital da presidente recém eleita e com a disciplina da maioria parlamentar (motivada pela perspectiva da redistribuição de cargos governamentais, ou atemorizada pelas possíveis retaliações). É hora de queimar gordura e mostrar autoconfiança.

Política tem dessas coisas, desses momentos.

Mas crueldade tem limite, inclusive no plano simbólico. Governo e Congresso associarem-se num megarreajuste salarial para deputados, senadores, presidente da República e ministros semanas antes de promoverem o arrocho violento do salário mínimo e das aposentadorias -e o massacre do orçamento federal- é coisa de quem está se lixando, para valer.

Talvez estejam mesmo. Ou o poder é contido de fora ou vai desembestado. Parece ser o nosso caso.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (11) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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14 Comentários:

Anonymous cleide disse...

nossa adorei você é muito realista em tudo parabéns.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011 23:58:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Ou seja, a base social vai ficar a ver navios."

Isto é, there is no free lunch.

E quem vai pagar a conta da farra promovida pelo governo federal nestes dois últimos anos?

“Prudência e credibilidade foram os argumentos levados em conta pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para repetir a meta de 4,5% para a inflação em 2011. É o que esclarece o gabinete do ministro da Fazenda, Guido Mantega, em nota divulgada algumas horas após o término da reunião do CMN”. [O Globo, 30/06/20009]

De volta a 2011

INPC: mede a variação de preços [inflação] para as famílias com rendimento entre 1 e 8 salários mínimos. No acumulado dos últimos 12 meses, o índice apresentou taxa de 6,53%, acima dos 6,47% vistos nos 12 meses imediatamente anteriores. Isto é, para as famílias com rendimentos até 8 salários mínimos a inflação acumulada nos últimos 12 meses já estourou o teto da meta considerada prudente e crível e fixada em 4,5% em 2009.

IPCA: mede a variação de preços [inflação] para as famílias com rendimento entre entre 1 e 40 salários mínimos. Nos últimos 12 meses o IPCA acumula alta de 5,99%. O IPCA está prestes a bater no prudente e crível teto da meta fixada em 2009.

E o governo saca da cartola o coelho mágico do “forte ajuste fiscal” com base em mirabolantes cortes de custeio [um choque de gestão “pela esquerda”?], desmentindo descaradamente o que foi repetido ad nauseam pela candidata do PT à Presidência da República em 2010: “"Eu não vou fazer ajuste fiscal em hipótese alguma". Como era mesmo o nome disso? Ah! Lembrei. Estelionato eleitoral.

Estamos no início de fevereiro com a inflação furando o teto. Ao que parece, vão lançar mão do conhecido remédio que é sempre mais amargo para as famílias com rendimentos até 8 salários mínimos, principalmente se endividadas nos crediários do “crescimento sustentado”. O nome do remédio? “Um pouquinho mais de inflação”.

Mais inflação é a solução provável e a preferida de muita gente no Executivo, pois os gastos do governo NÃO são indexados pela variação da inflação. Não sou especialista em finanças públicas, mas sou capaz de apostar que várias receitas do governo são corrigidas pela variação dos índices de inflação. Se não são diretamente corrigidas, seguramente são bastante beneficiadas.

Então, Alon, e considerando essa tendência de crescimento da inflação e o evidente descontrole irresponsável nas contas do governo, ainda é possível tomar a defesa do retorno da CPMF? Vai-se defender aumento da carga da tributária?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011 04:11:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

É o que sempre fala um famoso economista e ex-ministro Delfim Neto, que diz algo assemelhado: "o governo não cabe no PIB". Hoje, o economista, é um aliado do governo.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011 13:55:00 BRST  
Anonymous Vanderlei disse...

Uma leitura crítica muito bem fundamentada da situação. Texto irretocável.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011 16:02:00 BRST  
Anonymous Newton disse...

Bem... Me parece que nada aconteceu e estão a festejar um simulacro de corte orçamentário. Ou o Congresso não expandiu acima do esperado arrecadação prevista e agora o executivo cortou um orçamento que já não existia mesmo ??

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011 16:59:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Não sei a base da sua afirmação de que Dilma Rousseff teria recebido uma herança maldita, mas não me parece que tenha sido nos fatos.
Esquecendo o marketing que diz que quando um governo de oposição entra diz que recebeu do que saiu uma herança maldita e que quando o governo é de continuidade não se diz isso e, portanto, o termo herança maldita é um termo dos governantes e não um termo dos jornalistas, mas ficando só na realidade numérica que muitas vezes nos engana, mas que quando sabemos lidar com ela nos informa muita coisa.
Depois de um preâmbulo justo você afirma peremptório:
"O megacorte orçamentário executado pela presidente Dilma Rousseff é o reconhecimento de ter recebido uma pesada herança negativa"
Não creio que seja isso. É mais provável que o megacorte orçamentário executado pela presidente Dilma Rousseff seja o reconhecimento de que o Congresso Nacional inflou o orçamento que foi encaminhado pelo Presidente da República para aprovação pelo Congresso Nacional. Valeria a pena verificar se foi isso que aconteceu. E então valeria a pena verificar quem mais inflou o orçamento: se foi o Congresso no final do governo de Lula ou se foi o Congresso no final do governo de FHC. Em termos percentuais, é claro, pois o PIB brasileiro mudou muito nos 8 anos de governo de Lula. E ai e também em termos percentuais é de se verificar quem fez o corte maior se Lula em 2003 ou se Dilma Rousseff em 2011.
E na seqüência você pinta o quadro da herança negativa (Pelo menos você não ficou em cima do muro e não chamou a herança de herança zero):
"inflação em alta, juros ainda mais altos (e com tendência a subir), gastos públicos descontrolados, moeda supervalorizada, comércio exterior pouco saudável, dependência vital de investimento externo"
A inflação está em alta, mas vale a pena lembrar que ela esteve muito mais alta quando Lula recebeu de FHC. E o juros precisou ficar o dobro dos valores de hoje.
Gastos públicos descontrolados é um termo de uma imprecisão medonha. É igual o termo guerra fiscal. Quando se diz que fulano faz a guerra fiscal está-se acusando esse fulano de corrupto ou se está dizendo que o fulano prático o bom e velho incentivo fiscal? Devia ser expressão muito comum na época da antiga UDN.
Quanto aos três itens finais, isto é, moeda supervalorizada, comércio exterior pouco saudável e dependência vital de investimento externo, esta-se falando de uma só coisa. Uma leve mexida no câmbio, levando-o para 1,8 e todos os três problemas (Supondo, como eu suponho, que são problemas) estão resolvidos.
Mas como, você pode alegar, como fazer uma leve mexida no câmbio se nós temos um câmbio flutuante, um regime de metas de inflação, uma desoneração do comércio exterior? É verdade, é toda uma herança maldita que Lula não teve e a Dilma Rousseff não tem também como teve por exemplo a Cristina Fernández de Kirchner e antes o Néstor Carlos Kirchner o suporte político para a descartar.
O engraçado é você sendo de esquerda dizer como eu digo que o real está valorizado. Ora a valorização da moeda foi tudo que a esquerda sempre pregou, pois ela ajuda a aumentar o mercado interno.
E outra coisa, é incoerente querer a desvalorização da moeda e criticar o aumento pequeno do salário mínimo. A desvalorização da moeda tem como exigência maior poupança interna, ou seja, a redução do salário mínimo.
PS (Só um lembrete. Parece que a data de hoje é uma capicua)
Clever Mendes de Oliveira
BH, 11/02/2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011 20:06:00 BRST  
Anonymous Orago disse...

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Alon,
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Proponho uma leitura alternativa para o ambiente que você detalhou...
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Primeiro: a inflação está controlada... a tendência é para voltar ao patamar de 4,61 % em 2012, passando por 5,66% em 2011 (veja previsões do Estadão.com.br em 07fev11 as 8:50hs)...
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Então, se a inflação está controlada, porque o Governo não reaje ao "moto da inflação descontrolada" e está partindo para "cortes drásticos do orçamento"...
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Não conheço a abrangência dos cortes, mas parece que está sendo feita uma "assepcia em verbas sujeitas a corrupção"... As emendas parlamentares é um bom indicio...E, com o clamor da imprensa a favor dos cortes, os representantes do povo não vão ter muito espaço para espernear...
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Acredito que o próximo passo deva ser a extinção das emendas individuais... talvez fique as de bancada e as regionais... De mais a mais, existem projetos "tipo nave-mãe" aos quais o municipio e o estado podem aderir, fazendo projetos viáveis, sem necessitar do "deputado fazendo emendas de seu interesse pessoal"...
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Com o sacrificio do governo "cortando fundo", a parte da imprensa e outros interessados, que defendem o aumento da Selic vão ter que ser mais "cuidadosos"... permitido que a taxa Selic estabilize e depois baixe, resolvendo os juros altos e o valor do dólar...
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O valor do minimo vai permitir enquadrar as centrais e a parte do congresso no esforço de "salvação da economia"... com a imprensa ajudando a doutrinar os renitentes...
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Dos teus pontos, o que fica em aberto é a "dependência vital de investimentos externos...". O comentário abaixo, do Clever Mendes de Oliveira BH, 11/02/2011, aborda bem este ponto...
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O Lula saiu da roupa de ex e vestiu a camisa vermelha de militante... vai organizar a rua...para dar força ao governo...
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sábado, 12 de fevereiro de 2011 15:29:00 BRST  
Anonymous Orago disse...

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Não conheço a abrangência dos cortes, mas parece que está sendo feita uma "assepcia em verbas sujeitas a corrupção"... As emendas parlamentares é um bom indicio...E, com o clamor da imprensa a favor dos cortes, os representantes do povo não vão ter muito espaço para espernear...
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Acredito que o próximo passo deva ser a extinção das emendas individuais... talvez fique as de bancada e as regionais... De mais a mais, existem projetos "tipo nave-mãe" aos quais o municipio e o estado podem aderir, fazendo projetos viáveis, sem necessitar do "deputado fazendo emendas de seu interesse pessoal"...
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Com o sacrificio do governo "cortando fundo", a parte da imprensa e outros interessados, que defendem o aumento da Selic vão ter que ser mais "cuidadosos"... permitido que a taxa Selic estabilize e depois baixe, resolvendo os juros altos e o valor do dólar...
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O valor do minimo vai permitir enquadrar as centrais e a parte do congresso no esforço de "salvação da economia"... com a imprensa ajudando a doutrinar os renitentes...
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Dos teus pontos, o que fica em aberto é a "dependência vital de investimentos externos...". O comentário abaixo, do Clever Mendes de Oliveira BH, 11/02/2011, aborda bem este ponto...
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O Lula saiu da roupa de ex e vestiu a camisa vermelha de militante... vai organizar a rua...para dar força ao governo...
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sábado, 12 de fevereiro de 2011 15:32:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pois é. Uma data capicua, como um palíndromo para frases e/ou versos. Mas, repetindo o economista Delfim Neto, o governo não cabe no PIB. Poderia até tentar caber, cortando e ajustando as contas públicas. Mas, ainda, os anúncios são de intenções impossíveis. Nenhum corte foi efetivado. A despeito disso, já é possível a leitura de loas à coragem e preparo técnico da presidente. Mas, como, se nada foi feito? Incrível. Como as rubricas não foram detalhadas, o que seria passível, apenas, de uma corajosa canetada do governo? O que dependeria de envio de corajosas proposituras ao Congresso Nacional? De uma forma ou de outra, a aparente coragem da intenção tem a vertente política tão forte quanto a econômica. Senão maior. Não deixa de ser interessante notar que um novo governo não pode falar em nenhuma herança ruim. Isso porque, a titular do novo governo, esteve desde 2003 no governo anterior, o vetusto governo. Como segunda em comando. E para não perder a piada, fica tão difícil jogar a culpa no governo anterior, que remetem-nas, infantilmente, ao governo de 1995/2002. Só que, assim, deixam entender, claramente, que o governo de 2003/2010, simplesmente não existiu. Tanto quanto o pacote econômico de fevereiro de 2011. Ou seja, a velha e sempre conhecida e atenta senhora inflação, pode estar sendo convocada a fazer o serviço.
Swamoro Songhay

sábado, 12 de fevereiro de 2011 16:19:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O Lula saiu da roupa de ex e vestiu a camisa vermelha de militante... vai organizar a rua...para dar força ao governo.... Orago, se for isso mesmo, os problemas da nova presidente, que estão só começando, serão potencializados. Poder dual, como abordado em post neste blog, não dão certo em presidencialismos fortes como o brasileiro. O País não tem donos. Tem quem recebeu mandato para governar.
Swamoro Songhay

domingo, 13 de fevereiro de 2011 10:13:00 BRST  
Anonymous Orago disse...

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Swamoro Songhay
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Não é poder dual... é coligação...
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Acredito que terá sinergia, não ruptura...
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Vamos ver... o salário minimo será o teste inicial e as reformas que farão que "grupos tenham perdas (tipo politicos com menor remuneração...) será o grande teste...
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Nas futuras reformas tributárias e politicas, vão ter perdedores e perdedores com grande força hoje... vai precisar ter pressão de cima e de baixo para conseguir o enquadramento mais adequado...
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domingo, 13 de fevereiro de 2011 15:04:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Orago (sexta-feira, 11/02/2011 às 20h06min00s BRST ou sábado, 12/02/2011 às 15h32min00s BRST),
Há que ter paciência com Alon Feuerwerker, para não ficarmos repetitivo. Esperei muito para que o comentário que eu enviei sexta-feira, 11/02/2011 às 20h06min00s BRST fosse publicado. Foram dois comentários que eu fiz no afogadilho, sem tempo para a correção e sem nem mesmo os ter salvo, esse e um outro enviado logo em seguida sexta-feira, 11/02/2011 às 20h29min00s BRST para o post aqui no blog do Alon Feuerwerker logo abaixo intitulado “O nó egípcio” de 10/02/2011. E ainda agora houve um pior que foi o que eu enviei para o post “Uma arquitetura boa” de 03/02/2011 (Aliás há uma indicação errada na data do post, pois ao lado do título do post há entre parênteses (03/01) como se fosse essa a referência de data). Passei uma boa meia hora copiando carta de leitor na Folha de S. Paulo e no dia seguinte nada do comentário sair. Fui até procurar o link na internet para deixar o comentário sem a transcrição da carta, imaginando que teria tido uma censura no meu comentário.
Aliás, o problema maior é não saber se houve problema de internet ou censura no comentário. Há dois comentários que eu enviei para o post “O custo de um estilo” de 08/02/2011 que aguardei durante bom tempo na expectativa que seriam publicados, pois não achava que fossem censuráveis. Na dúvida, entretanto, imaginava fazer alteração, pois tinha o original (Já nem sei se vale a pena ter o original, pois na incerteza sobre o que ocorreu fica-se tentando alterar o texto e perde-se muito tempo).
Deixando os prolegômenos de lado, vou ao que interessa. Gostei do seu comentário e pensei em dizer que concordava inteiramente com você, mas o relendo percebi talvez equivocadamente um viés tecnicista (Em priscas eras eu chamava esse viés de tecnocrata). Seja, por exemplo, o parágrafo do seu comentário transcrito a seguir:
“Não conheço a abrangência dos cortes, mas parece que está sendo feita uma "assepcia em verbas sujeitas a corrupção"... As emendas parlamentares é um bom indicio...E, com o clamor da imprensa a favor dos cortes, os representantes do povo não vão ter muito espaço para espernear...”
Para mim não há comprovação de que as emendas parlamentares são um bom indício de verbas sujeitas à corrupção. Existe corrupção no Congresso Nacional, na Presidência da República, no Poder Judiciário, nos estados e nos municípios, mas dizer de antemão onde há indícios dessa corrupção é para mim uma grande falácia.
Do mesmo modo penso ser errôneo o trecho do seu comentário em que você diz:
“Acredito que o próximo passo deva ser a extinção das emendas individuais... talvez fique as de bancada e as regionais... De mais a mais, existem projetos "tipo nave-mãe" aos quais o município e o estado podem aderir, fazendo projetos viáveis, sem necessitar do "deputado fazendo emendas de seu interesse pessoal"...”
Em meu entendimento as emendas individuais são emendas para atendimento dos interesses de quem elegeu o representante. Dizer que o representante faz emenda para atendimento do interesse pessoal do representante está-se na verdade dizendo que o representante praticou um peculato, pois pode ser bem tipificado como ato ilícito de apropriação por parte do funcionário público, de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou privado de que tenha a posse em razão do cargo, ou desviá-lo em proveito próprio ou alheio ou, não tendo a posse, mas valendo-se da facilidade que lhe proporciona o cargo, subtrai-o ou concorre para que seja subtraído para si ou para alheio. Sem ser crime a emenda individual é prática de qualquer democracia no mundo.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 13/02/2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011 18:07:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Orago, caso não seja aprovado o SM proposto pelo governo, poderá até ser alguma surpresa, mas nunca uma ruptura. É de duvidar a existência de vontade para realizar reformas, sejam elas quais forem. E poder dual ou interferente, ou o popular palpiteiro, parecem ser termos mais adequados do que coligação. Que coligação seria essa, onde o palpiteiro é do mesmo partido? Ruptura não virá a ser, mesmo. Mas, será problema político para a presidente e seu governo. Outros nomes para isso poderiam ser sombra, regência ou o popular encher o pacová dos outros. No presidencialismo hipertrofiado como o brasileiro, isso não dá certo.
Swamoro Songhay

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011 11:29:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Orago (sexta-feira, 11/02/2011 às 20h06min00s BRST ou sábado, 12/02/2011 às 15h32min00s BRST),
Ainda pretendia dizer mais uma ou duas observações sobre o seu comentário. Reafirmando o meu ponto de discordância pareceu-me haver no seu comentário um viés contrário à atividade política parlamentar, principalmente contra o político fisiológico. Eu defendo a atividade política e considero que no âmbito parlamentar, ela só se pode dar de modo fisiológico. Tenho insistido nisso em outros blogs e aqui no blog do Alon Feuerwerker, há uma boa trinca de anos. Recentemente Alon Feuerwerker fez um post em que dizia exatamente o que penso sobre o fisiologismo. Trata-se de "A tentação tucana" de de 11/01/201 que pode ser visto no endereço:
http://j.mp/eeDrnx
Venho há bom tempo tentando convencer blogueiros e comentaristas de blog que o fisiologismo é da essência do processo moderno de democracia representativa. Não tanto pela antiguidade, mas pelo conteúdo do que eu escrevi, serve como exemplo o post junto ao blog "politicaetica" de Pax intitulado "Vaccarezza, não suje mais o PT" de 07/04/2010 e cujo endereço é:
http://politicaetica.com/2010/04/07/vaccarezza-nao-suje-mais-o-pt/
No post eu fiz um esforço para esclarecer melhor o significado do termo fisiologismo uma vez que o termo vinha adquirindo no dicionário um significado bem diferente daquele a que originariamente ele se referia. Quando li o post de Alon Feuerwerker fiquei com a pretensão de que finalmente lograra convencer um dono de blog. Quão desmancha prazer da vaidade foi eu ter posteriormente encontrado no Blog do Alon Feuerwerker o post "O darwinismo político e o suicídio da elite" de quarta-feira, 09/08/2006 e que pode ser encontrado na internet no seguinte endereço:
http://www.blogdoalon.com.br/2006/08/o-darwinismo-poltico-e-o-suicdio-da.html
Desde 2006 Alon Feuerwerker dizia o que eu só passei a dizer em 2008, quando iniciei com freqüência a comentar nos blogs. Bem, mas não nego a minha precedência. Desde que, no governo José Sarney, acusavam-se os deputados do PMDB de serem fisiológicos, eu já considerava o fisiologismo como inerente ao processo democrático.
E ai que entra uma segunda observação que eu gostaria de fazer sobre o seu comentário. Por duas vezes você fez referência ao uso que o governo faz da imprensa. A primeira referência está no primeiro parágrafo que eu transcrevi no comentário que eu enviei domingo, 13/02/2011 às 18h07min00sBRST, quando você diz:
"E, com o clamor da imprensa a favor dos cortes, os representantes do povo não vão ter muito espaço para espernear..."
E no antepenúltimo parágrafo você volta a falar dessa que eu chamaria parceira governo e imprensa como se pode ver na transcrição a seguir:
"O valor do minimo vai permitir enquadrar as centrais e a parte do congresso no esforço de "salvação da economia"... com a imprensa ajudando a doutrinar os renitentes..."
Eu concordo que existe e vai ocorrer essa ajuda da imprensa. Não acho correto que seja assim. Não porque eu ache que a imprensa, agindo assim seja mera serviçal do governo, mas porque penso que a imprensa deveria ter a nobre missão de informar, de esclarecer de instruir o povo naquilo que ela sabe e o povo não sabe. O povo não sabe que a democracia representativa é fisiológica por natureza. A imprensa deveria saber. Deveria aqui no sentido de que a imprensa teve a oportunidade de aprender como funciona a democracia. E deveria informar o povo. Deveria no sentido de ser obrigada a.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 14/02/2011

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011 19:34:00 BRST  

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