quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Teste de musculatura (16/02)

Numa situação de aperto, por que gastar dinheiro com algo que vai fortalecer as centrais sindicais e a oposição? Melhor reservar os recursos para obras e serviços patrocinados politicamente por quem estará com o governo na alegria ou na tristeza

Governos fortes precisam dar demonstrações de força. Governos nem tanto também. Portanto, exibições explícitas não dizem muita coisa a respeito da força real de um governo.

Muitos observadores acreditávamos que Hosni Mubarak estava em condições de dar ao movimento pela democracia um combate mais firme do que deu. No fim, viu-se que o exército egípcio estava tão ou mais a fim de se livrar dele, Mubarak.

Certa estava a secretária de Estado Hillary Clinton quando antes mesmo das últimas rebeliões dizia que as bases da estabilidade árabe vêm firmadas em areia movediça.

Não sei se ela disse exatamente isso, desse jeito, mas foi o sentido das palavras dela. Depois, a própria secretária andou rateando durante as etapas mais agudas da revolução da Praça Tahrir, mas a visão de Barack Obama compensou.

Nunca é simples nem trivial diagnosticar se há mais força ou fraqueza nos gestos de um poder que, encerrado em palácio, precisa exibir grau de dureza que não permita dupla interpretação.

É o que faz o governo Dilma Rousseff neste episódio do salário mínimo. Verdade que a presidente deu algum azar, pois a pauta veio aquecida desde a campanha eleitoral, desde que o candidato do PSDB, José Serra, assumiu o compromisso de subir imediatamente o valor para R$ 600.

O que acabou permitindo uma polarização política, ajudada por atitudes do próprio governo.

A primeira atitude foi abrir uma mesa de negociação com as centrais sindicais e nela nada ter a oferecer de bom no salário mínimo. 

Mais curioso ainda foi propor o reajuste da tabela do imposto de renda em troca de os sindicalistas aceitarem a falta de aumento real para quem ganha menos.

O reajuste na tabela ajuda quem ganha um pouco mais, mas não faz diferença para os mais pobres.

A terceira foi mobilizar o ex-presidente recém saído para acusar os sindicalistas de oportunismo. É o tipo da coisa que desopila o fígado e não resolve nada.

Até porque, convenhamos, se há algo que possa ser classificado assim no comportamento dos sindicatos, é pelo menos um oportunismo em defesa de quem representam.

Eis um critério para fazer o juízo dos oportunismos e dos oportunistas na política: saber a quem serve, no caso concreto, o oportunismo de cada um.

Dilma Rousseff acabou usando a votação do salário mínimo para o diagnóstico da musculatura da administração. E todas as contas são de que a musculatura do governo vai bem.

Até porque depois do arrocho no mínimo os aliados serão contemplados com a liberação de verbas e com as nomeações de praxe, para posições que permitem liberar verbas. O sacrifício não terá sido em vão. 

O dinheiro orçamentário que deixar de ser consumido pelo ajuste do salário mínimo e das aposentadorias -ou parte- estará disponível para apoiadores do governo fazerem política de olho na reprodução do próprio poder e dos mandatos.

O resumo da ópera. Numa situação de aperto, por que gastar dinheiro com algo que vai fortalecer as centrais sindicais e a oposição? Melhor reservar recursos para as obras e serviços bancados politicamente por quem estará com o governo na alegria ou na tristeza.

Essa é a regra do jogo. Parece-lhe brutal? É assim que funciona. E o prejudicado que reclame para o respectivo bispo.

Mas tudo tem um custo. Pela primeira vez em oito anos a oposição consegue interlocução real com o sindicalismo. Não deixa de ser um começo. 

Resta saber se a oposição terá a capacidade de montar o cavalo arreado, e de continuar montada nele depois.

De todo jeito, se a oposição estava atrás de uma fresta para retomar elos com setores sociais antes cativos do PT e do governo petista, a fresta apareceu.

E a oportunidade veio num tema excelente, que permite bom discurso. Ao PT também restará um discurso: de que vai segurar o salário mínimo para combater a inflação.

Era um discurso muito usado pelo PSDB, e nunca deu voto para os tucanos. Pois é difícil o pobre se convencer de que ele é o culpado pela inflação.

Quem sabe com o PT agora vá ser diferente.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (16) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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7 Comentários:

Blogger Raphael Neves disse...

Muito bom, Alon! Aquele abraço.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011 01:20:00 BRST  
Blogger pait disse...

5o parágrafo, trivial faltou i. (Não precisa publicar esse comentário ;-)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011 11:20:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Muito bom o post.
Fez-me lembrar da queda do ditador romeno Nicolae Ceausescu em dezembro de 1989. Sem internet, sem celular, foi a maior reviravolta que uma multidão já deve ter produzido em praça pública no mundo. E imaginar que Nicolae Ceausescu fez a grande façanha de acabar com a dívida externa da Romênia. Há pouco davam o conselho para os ditadores se manterem no poder: não tenham filhos. Eu acrescentaria: nem paguem a dívida externa.
Agora há uma análise no seu post em que eu acho que você deixou escapar um aspecto ou o deixou um tanto subentendido. É o caso dessa passagem:
"Verdade que a presidente deu algum azar, pois a pauta veio aquecida desde a campanha eleitoral, desde que o candidato do PSDB, José Serra, assumiu o compromisso de subir imediatamente o valor para R$ 600".
Também me parece que os R$600,00 da campanha do José Serra teve repercussão no valor do mínimo definido pelo governo. Penso, entretanto, e talvez dai a idéia que lhe ocorreu de dizer no post anterior "Dois pesos no mínimo" de 15/02/2011 que
"fazer oposição . . . . entre nós costuma ser visto como pecado capital",
que o governo estabeleceu o mínimo bem baixo para dar a entender que o PSDB age de modo irresponsável.
Quanto maior for a diferença entre o mínimo dado pelo governo e o mínimo prometido pelo PSDB mais fácil fica para o governo falar da irresponsabilidade do PSDB. Eu acho que o mínimo poderia ser maior, mas quando vejo que o mínimo em São Paulo, o estado mais rico da nação, com uma renda per capita mais de um terço maior do que a de Minas cuja a renda é igual a do Brasil, é pouco mais de 10% maior que o valor proposto para o salário mínimo em todo o país, eu fico com a impressão que os R$545,00 estão bem próximos da realidade. Além disso, há a possibilidade de nos Estados mais ricos da federação os governantes estabelecerem um salário mínimo mais adequado à realidade do Estado.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/02/2011

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011 14:10:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Pela primeira vez em oito anos a oposição consegue interlocução real com o sindicalismo".

A interlocução real da burocracia sindical passa a léguas de distância com a oposição, no parlamento e fora dele. A interlocução real da burocracia sindical (CUT e FS) é com as tetas do poder. Seus representantes são, como gostam de dizer os gramscianos, intelectuais orgânicos...

O enunciado essencial das doutrinas políticas conservadoras, e nisso pouco importa se "de direita" ou "de esquerda", é: "Soberano é o que manda, súdito o que obedece. Soberano é o que tem direitos, súdito o que cumpre obrigações". (Donoso Cortés).

Os bons súditos no sindicalismo vão honrar suas obrigações, no momento certo. A soberana confia no amor dos súditos. Para o bem do Estado e contra a irresponsável oposição a ordem e a estabilidade serão mantidas.

No Brasil, os cálculos burocráticos e administrativos “em benefício do povo” unem-se ao carisma do Soberano salvador (se o carisma não é efetivo, ele pode ser fabricado, como lembrou João Santana: “há na mitologia política e sentimental brasileira uma imensa cadeira vazia, que chamo metaforicamente de 'cadeira da rainha'"), a única garantia absoluta da segurança de todos. Nesta mística conciliação das partes reside a força retórica do pensamento conservador: no Estado, pobres e ricos viverão em harmonia sob o encanto dos chefes.

Os intelectuais conservadores “de direita” e “de esquerda” produzem as teorias do povo como suporte do Soberano. Sabemos que nada neste mundo é tão flexível quanto a espinha dos intelectuais. Então, na primeira oportunidade, estes gostosamente aderem aos donos do mando e parasitam o poder. O discurso conservador exige, sempre, fé religiosa ou laica.

Enfim, no Estado conservador a única lei verdadeiramente universal é a de Gérson.

Parece-lhe brutal? É assim que funciona.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011 14:12:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

ops!

A interlocução real da burocracia sindical passa a léguas de distância da oposição.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011 14:14:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
O post é realmente muito bom, mas não custa nada falar sobre algumas divergências.
A crítica à crítica do oportunismo das centrais foi quase perfeita, mas penso que nela se esqueceu de mencionar que Lula pela experiência sindical dele deve saber bem disso e talvez tenha lançado a crítica na certeza que não se iria mostrar a incoerência do que ele falava, pois isso fortaleceria as centrais e esse é um papel que a grande imprensa não é propensa a desempenhar. Já pensou se alguém criticasse Lula dizendo: como é que Lula quer que as centrais ajam? Ele quer que elas na época das vacas gordas não façam reivindicações para as empresas juntarem gordura para oportunamente no futuro na época das vacas magras as empresas possam assegurar melhor sorte aos trabalhadores?
Também achei estranho o uso do termo “curioso” no parágrafo a seguir transcrito:
“Mais curioso ainda foi propor o reajuste da tabela do imposto de renda em troca de os sindicalistas aceitarem a falta de aumento real para quem ganha menos”
Então, um governo de esquerda faz uma proposta egoística, sem nenhum espírito de solidariedade e você chama a proposta de curiosa? Caberia até azucrinar a vida do PT dizendo que se transformara no PTRicos.
Aliás, a faixa de isenção do IR é um subsídio, ou seja, é um gasto corrente. Era a hora dos defensores de corte nas despesas defenderem a redução dessa isenção.
Outro ponto de diferença foi o final do seu post quando você diz
"Ao PT também restará um discurso: de que vai segurar o salário mínimo para combater a inflação.
Era um discurso muito usado pelo PSDB, e nunca deu voto para os tucanos. Pois é difícil o pobre se convencer de que ele é o culpado pela inflação".

Não creio que FHC tenha ganho as eleições em retribuição aos livros que ele escreveu para melhor compreender o Brasil, nem aos diplomas que ele cedo alcançou. Se em 1994, Itamar Franco deixasse para lançar o Real para depois das eleições, FHC teria desaparecido do cenário político. E se a inflação não fosse quase zero em 1998, ele não teria ganho as eleições. Aliás, sobre o uso eleitoral do Plano Real em 1998 (Não que eu tenha esquecido do uso dele para se aprovar a reeleição e eu estou falando do Plano Real e não da moeda real) eu lembro de uma imagem que eu criei ainda na crise de 1997 (ou talvez enquanto a crise acontecia) em texto que fora pensado para se constituir em um panfleto contra a Emenda da Reeleição, mas que elaborei mesmo sabendo da aprovação da Emenda. Dizia eu então para reforçar a importância da inflação na eleição de FHC e na suposição de que se poderia ficar diante de uma crise em 1998 como fora a de 1997:
“Um dos fatores importantes para a rápida queda da inflação no primeiro ano do Plano Real foi a crise de liquidez provocada pela saída de capitais na seqüência da crise do México em 1995. Se vier essa crise novamente, o Gustavo Franco, provavelmente fará como Leônidas I, rei de Esparta, na defesa das Termópilas, com seus trezentos hoplitas, respondeu ao comandante persa que pediu a sua rendição sob o argumento que suas tropas eram tão numerosas que suas flechas dariam para cobrir a luz do sol: “melhor combateremos à sombra””
O combate que Gustavo Franco empreendia era o de assegurar uma eleição tranqüila de FHC. Eleição que viria com a inflação baixa. Inflação que seria menor se viesse uma crise de liquidez.
É claro que no longo prazo, inflação baixa sem crescimento econômico como FHC nos concedeu ao longo da octaetéride de que nos fala Antônio Delfim Netto não asseguraria a ninguém muitos votos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/02/2011

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011 21:03:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Agora que a refrega passou. Ficou o SM de R$ 545,00, chancelado por ampla maioria. Até pelas centrais, ao que parece, pois, desistiram do confronto antes mesmo da votação ser iniciada. O que restou de mais importante nisso tudo, foi um penduricalho no projeto do novo SM. O relator colocou tal penduricalho, também aprovado pela maioria governista, que permitirá que o SM seja definido e entre em vigor por decreto presidencial. Ou seja, o Parlamento alijado de qualquer discussão sobre o SM. Já a CF, preceitua que o SM será definido por lei e não por decreto.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011 19:12:00 BRST  

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