sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Passagem para o futuro (25/02)

Obama coloca um pé no futuro. Compra uma passagem para o futuro. Pois alguma hora a situação vai estabilizar e o sistema de alianças vai recompor. Toda política é feita em condições objetivas. As opções não são ilimitadas

Há alguma polêmica sobre como Barack Obama vem conduzindo a diplomacia americana nesta onda revolucionária árabe.

Os críticos atacam Obama por dois lados diferentes.

Alguns defendem que os Estados Unidos sejam mais solidários a líderes tradicionalmente aliados e hoje ameaçados de remoção revolucionária do poder.

Outros reclamam porque Washington não tem sido suficientemente solidária às revoluções.

Nestas situações é sempre prudente partir de uma premissa. Quando os Estados Unidos entram numa parada é para defender os interesses nacionais dos Estados Unidos.

O Brasil pôde aprender isso quando apelou aos americanos para resolverem o imbroglio de Honduras, só para depois notar que eles resolveriam conforme o interesse deles. E que não necessariamente era o nosso.

Aliás, todo mundo age assim. Nós inclusive.

Esses interesses hoje podem ser sintetizados facilmente: nas mais diversas situações geográficas e políticas, trabalhar para que os governos locais sejam permeáveis aos desígnios da superpotência e ajudem a garantir a segurança para os fluxos de capital e de comércio.

Por sinal, nessa empreitada os americanos representam a si próprios e também, em boa medida, os chineses.

Os Estados Unidos trabalham no mundo árabe para que as novas realidades políticas levem em conta esses objetivos.

As massas árabes parecem desejar mais liberdade, mais democracia e menos continuísmo. Esses desejos vão prevalecer até a hora em que forem substituídos por outro desejo, de que alguém ponha ordem na bagunça.

Pois quem vive de notícia é jornalista. Povo gosta mesmo é de paz, estabilidade e prosperidade.

Obama até agora vem se saindo bastante bem. Está mais para impulsionador do que para brecador. Os governos aliados dos Estados Unidos acabam tendo que lidar com os movimentos de massa de um modo menos repressivo.

E Obama coloca um pé no futuro. Compra uma passagem para o futuro. Pois alguma hora a situação vai estabilizar e o sistema de alianças vai recompor.

Toda política é feita em condições objetivas. As opções não são ilimitadas. A mudança política no mundo árabe resulta da insustentável combinação de continuísmo, estagnação social e despotismo.

Uma hora a coisa iria transbordar. E, justiça se faça ao Departamento de Estado, a secretária Hillary Clinton já havia advertido que as bases do mundo árabe estavam firmadas sobre areia movediça.

Duas séries

O ministro do Trabalho anunciou que a pasta vai passar a divulgar duas séries históricas do Caged.

A tradicional e uma com os novos critérios adotados pelo ministério desde o fim do ano passado, quando os números foram ajeitados -segundo o governo, aperfeiçoados- para mostrar uma cifra mais avantajada de criação de empregos em 2010.

É uma boa decisão. Que o ministério faça com os números o que entender mais vantajoso, politicamente falando. Mas de um jeito que não prejudique o trabalho dos técnicos e analistas que dependem da confiabilidade dos dados.

Por falar em confiabilidade, o Caged está perigosamente perto da zona de turbulência em que o excesso de esperteza política acaba saindo pela culatra.

Vetar

Ao discursar na votação do salário mínimo, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) notou um aspecto curioso na atitude do governo.

Ou a iniciativa de tentar matar os debates anuais sobre o salário mínimo até o fim do mandato da presidente Dilma Rousseff é exacerbação de força, ou então o governo tem dúvidas sobre a longevidade da megabase no Congresso.

Seja qual for o cenários há aqui uma dose de ilusão. É ilusório achar que a fixação de uma lei até 2014 vai eliminar o debate na sociedade sobre a valorização do salário mínimo.

Até porque a discussão tem dois lados, além do oficial.

Um acha que o mínimo precisa aumentar mais aceleradamente. Mas outro acha que talvez seja hora de parar com a recomposição.

Decida o que decidir o Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade de fixar o valor anualmente por decreto, a polêica continuará.

Diante disso, talvez uma coisa boa fosse a própria presidente vetar o dispositivo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (25) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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17 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Uma boa medida, realmente, seria o veto ao decreto presidencial, uma verdadeira excrescência no bojo do PL do SM. Seria uma contribuição para pararem de inventar tramóias extemporâneas. No momento em que ditadores estão com a cadeira em risco, não pega bem deixar prosperar uma medida autoritária.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011 17:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Não me parece que a regulamentação da lei pelo decreto tenha sido contrário ao interesse da Dilma Rousseff. Aliás, parecer da AGU conforme notícia no blog do Congressoemfoco com o título "AGU: reajustar mínimo por decreto é constitucional" e com a data de hoje, 25/02/2011 às 15h21, demonstra uma certa sintonia entre o desejo do Planalto e o que saiu na lei. Até para firmar jurisprudência é melhor que se tiver que haver veto que ele seja do STF e não da Dilma Rousseff.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/02/2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011 19:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Se vai haver discussão com ou sem veto do dispositivo, qual seria mesmo a razão para o vetar, antecipando-se à decisão do STF que poderia até o considerar constitucional?
Bem, você disse, talvez fosse uma boa. Há uma boa dose de dúvida. Você deve está certo na dúvida, pois talvez também fosse uma má.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/02/2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011 21:14:00 BRT  
Blogger RONALDO disse...

A lei do SM é uma estupidez. No momento em que se desenha no horizonte a possibilidade de uma crise o governo abre mão de uma de suas possibilidades de administração das contas públicas. O governo não está interessado nas contas públicas. Como as alterações do SM geram uma grande pressão social, o governo acha que assim poderá empurrar garganta abaixo do STF a delegação de poderes do Legislativo, e assim criar precedente legal para outras leis delegadas do Legislativo, encurralando definitivamente a oposição no Brasil. Não precisava tudo isto, a oposição se encurrala sozinha.

sábado, 26 de fevereiro de 2011 17:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ronaldo (sábado, 26/02/2011 às 17h11min00s BRT),
Se vier uma crise ela terá que ser administrada com leis ou medidas provisórias e jamais com decretos. Lei ou medida provisória posterior a atual legislação do salário mínimo (Atual depois da sanção presidencial é uma medida provisória) tem o condão de a revogar. E, portanto, o governo não abre mão de utilizar o salário mínimo na administração de uma crise se ela vier (Aliás se vier crise será em 2014, uma vez que parece que tudo está se repetindo o que ocorreu na década de 80 com 19 anos de defasagem).
PS: Disse um pouco mais sobre a legislação do salário minimo junto ao post "Um problema de lógica" de domingo, 20/02/2011) embora o enfoque era só sobre a razão para o governo dar um aumento tão pequeno agora. Ainda falta um comentário em que eu mencionarei as duas, em meu entendimento, principais razõs: mostrar para a direita que José Serra e o PSDB não são responsáveis e, portanto, confiáveis e se garantir contra a pressão inflacionária que a atual taxa de desemprego (A herança que não seria melhor do que a de Fernando Henrique que segundo Alon Feuerwerker o Lula deixou para Dilma Rousseff) começa a provocar, reduzindo no que puder a demanda agregada.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/02/2011

sábado, 26 de fevereiro de 2011 18:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ronaldo (sábado, 26/02/2011 às 17h11min00s BRT),
No fundo a política do salário mínimo não é boa para quem ganha até um salário mínimo. Eis ai a única crítica válida. A sua de que o governo abre mão de um instrumento de administração de crise não é correta, pois o governo continua com o poder de administrar as contas públics pelo menos para valorizar mais o salário mínimo. No caso de uma crise que necessite reduzir o salário mínimo é claro que nesse caso você tem razão. A possibilidade de uma crise com essas características me parece muito remota.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/02/2011

sábado, 26 de fevereiro de 2011 18:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/02/2011. A necessidade de ajustes na economia é premente. Até agora só foram anunciadas medidas e promessas. Ou promessas de medidas. A medida da promessa é R$ 50 bi. E as análises indicam as promessas e sua medida como irrealizáveis. Os apoiadores elogiam os corajosos cortes que nem sequer saíram do papel. Os mais realistas que o rei, elogiam a capacidade gerencial da presidente. Ou seja, a velha conhecida e sempre disposta senhora inflação, está chamada a cumprir a tarefa de desafogar, ao longo do tempo, as contas do governo.
Swamoro Songhay

domingo, 27 de fevereiro de 2011 13:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuewerker,
A sua cantilena contra o Ministério do Trabalho parece que está indo longe de mais. Talvez você tenha a pretensão de transformar a cantilena em catilinária, mas para isso ater o máximo aos fatos.
No seu post você diz em dois parágrafos em seqüência:
"O ministro do Trabalho anunciou que a pasta vai passar a divulgar duas séries históricas do Caged.
A tradicional e uma com os novos critérios adotados pelo ministério desde o fim do ano passado, quando os números foram ajeitados -segundo o governo, aperfeiçoados- para mostrar uma cifra mais avantajada de criação de empregos em 2010".
Lendo seus posts eu vou lendo as notícias, mas cada vez mais estou precisando de checar. Veja como o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho - SINAIT deu, hoje, 25/02/2011, destaque para a notícia:
"Caged – MTE apresenta dados e muda metodologia, mas não considera o esforço da fiscalização"
E lá dentro nos dois parágrafos iniciais a notícia corre assim:
"Duas notícias que se referem à divulgação dos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Caged chamaram a atenção nesta quinta-feira. A primeira, do jornal Valor Econômico, destaca a mudança da metodologia na apuração dos dados que, antes, não considerava as informações enviadas pelos empregadores fora do prazo, e a partir de janeiro de 2011 passou a considerá-los, o que altera o resultado. Para alguns analistas, a medida quebra a seqüência da série histórica, uma vez que os parâmetros usados para aferir os dados não são os mesmos. Para o Ministério do Trabalho e Emprego - MTE, a mudança torna os dados mais fieis à realidade.
A segunda notícia é do próprio MTE, informando que em janeiro de 2011 foram criados mais de 152 mil novos empregos com Carteira de Trabalho assinada, um resultado considerado muito bom para o mês, de acordo com a série histórica, desde 1992".

Deveria ter continuado a transcrever a noticia do SINAIT, pois na seqüência o SINAIT reclama do esquecimento do papel da fiscalização no aumento da formalização do emprego. E a fiscalização merecia até em homenagem aos que morreram em serviço, que, se não me engano, foi ainda na gestão do ministro Carlos Lipi. E serviria também para enfatizar como a arrecadação do INSS pode aumentar para pagar o aumento do salário mínimo que está programado para 2012, questão que foi discutida junto ao post aqui no seu blog intitulado "Um problema de lógica" de domingo, 20/02/2011.
O que é importante é que pela notícia a metodologia anteriormente empregada:
"não considerava as informações enviadas pelos empregadores fora do prazo, e a partir de janeiro de 2011 passou a considerá-los, o que altera o resultado".
Pela notícia a alteração foi a partir de janeiro de 2011. O que é bem diferente de sua afirmação de que os números foram alterados para mostrar uma cifra mais avantajada de criação de empregos em 2010.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 27/02/2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011 22:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (domingo, 27/02/2011 às 13h42min00s BRT),
Você poderia ter iniciado seu comentário com um concordo com você, afinal não disse nada em contradição ao que você disse.
Sim, há necessidade de ajustes prementes na economia. Aliás em qualquer economia no globo há necessidade de ajustes prementes. O difícil é entender-se sobre a definição de ajustes e sobre a premência, pois há sempre aqueles que aproveitam os ditos populares para lembrar que o apressado come cru ou a pressa é inimiga da perfeição.
Quanto à medida do corte, o Valor Econômico traz os números mais precisos na reportagem de hoje, 01/03/2011, intitulada "Corte efetivo de gastos atinge R$13,1 bilhões". Como eu já mencionei, a realidade não é exatamente como o Alon Feuerwerker teme de se precisar fazer um ajuste maior do que o que Lula produziu no primeiro mandato.
E sua forma cavalheresca para com a inflação tem o meu apoio e me faz lembrar que se há um brasileiro que tem, desde 1980, defendido o efeito saudável que a inflação causa na economia sou eu. Aliás, lembrei ao Alon Feuerwerker em comentário recente que os governadores em início de mandato precisam muito de uma inflação mais robusta para acertar as contas um tanto infladas pela última campanha eleitoral. Ou nas suas palavras sempre nobres e distintas:
"a velha conhecida e sempre disposta senhora inflação, está chamada a cumprir a tarefa de desafogar, ao longo do tempo, as contas do governo".
Enfim, é isso, concordo com você.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/03/2011

terça-feira, 1 de março de 2011 19:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Gostei da parte da análise da política externa americana sob Barack Obama. É bem verdade que você me parece ser um grande entusiasta de Barack Obama. Não que eu não seja admirador de Barack Obama, mas ele não serve aos meus propósitos. Não admirava o George Bush, mas ele servia aos meus propósitos. Não que eu seja anti-americano, mas talvez porque eu seja um esquerdista que, nas palavras de Slavoj Žižek,
“deveria rezar pela alma dele [George Bush, o filho] todos os dias . . . [pois nos] seus oito anos de governo, ele, com certeza, enfraqueceu a hegemonia e a liderança mundial dos EUA". (A entrevista de Slavoj Žižek concedida a Jorge Pontual para a Globonews e intitulada "Revolta contra o capitalismo é forma de reforçá-lo" pode ser vista no blog de Luis Nassif junto ao post "A revolta que reforça o capitalismo" de sábado, 19/02/2011 às 12:34). Sendo de esquerda não penso que seja razoável defender uma liderança mundial hegemônica. Pelo menos no longo prazo. No curto prazo talvez seja aceitável que essa liderança seja americana.
Quanto a análise das revoltas no mundo árabe, considero que você meramente acompanha a interpretação dominante. Hoje, 01/03/2011, no seu twitter, eu vi uma chamada para o seguinte artigo "Why Russia Should Be Worried About a Coup" e cujo endereço é:
http://tinyurl.com/5vj42l2
No artigo, Chrystia Freeland apresenta uma metodologia de medir uma revolta desenvolvida por ela e Peter Rudegeair em que ela considera quatro fatores:
Liberdade política
Corrupção,
Vulnerabilidade aos choques de preços e
Penetração de Internet.
Prefiro a minha avaliação da interferência dos processos inflacionários agudos nas grandes revoluções no mundo. É claro que uma economia estagnada também leva a essas revoltas. Na Tunísia, no Yemen e no Egito países onde há muita pobreza e na Líbia, onde é alto o nível de desemprego, a revolta parece mais ligada a crise econômica que esses países atravessam. Dou mais destaque para os aspectos econômicos, pois crise semelhante ocorrida ainda na primeira década do século XX foi a que se verificou na democrática Argentina e na democrática Bolívia.
Poder-se-ia dizer que recentemente tomei uma posição contrária. No post “Jânio de Freitas, clássico” de 23/09/2010 no blog de Na Prática a Teoria é Outra eu discuti muito a validade da tese levantada no artigo “Democracia e Cultura: Uma visão não culturalista” de Adam Przeworski, José Antonio Cheibub e Fernando Limongi em que há a seguinte afirmação: “Acima de 6.000 dólares, as democracias podiam esperar durar para sempre”. Bem o que eu critiquei mais foi a delimitação de um valor. Concedo que há razão em dizer que com uma determinada renda as pessoas são menos propensas a fazer uma revolução. Essa regra, entretanto, de estabilidade é válida tanto para as democracias como para as ditaduras. E o valor da renda depende da cultura de cada país. Foram nesse sentido os meus comentários no post mencionado.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/03/2011

terça-feira, 1 de março de 2011 21:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Disse que gostei da sua análise da política externa americana conduzida por Barack Obama diante do conflito no mundo árabe. E disse que achei comum o seu elenco de razões para as revoltas no mundo árabe. Em uma frase você diz:
"As massas árabes parecem desejar mais liberdade, mais democracia e menos continuísmo".
Que pode ser que você tenha razão, mas pode ser que não. E em seguida você completa:
"A mudança política no mundo árabe resulta da insustentável combinação de continuísmo, estagnação social e despotismo".
Aqui você me pareceu muito eclético e assim fica difícil errar.
Pareceu-me que você deu pouco destaque a questão econômica e social. O mundo árabe que está passando por essa espécie de rebelião é exatamente aquele com mais problema sociais. O Egito, como eu mencionei lá atrás junto ao post “O nó egípcio” de quinta-feira, 10/02/2011, é um país muito pobre. Com uma população quatro vezes superior a de Minas Gerais ele tem um PIB igual ao de Minas Gearia. A Tunísia é um país pobre. E a Líbia que é relativamente rica tem uma taxa de desemprego da ordem de 30% (Isto é uma calamidade). Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes com uma ditadura talvez tão ruim como as que caíram ou estão a ruir não possuem um problema da mesma magnitude. São países mais ricos e com desemprego baixo. Além de tudo, é de supor que por não se tratar de economias industrializadas (Salvo o boom na construção civil que pode ser visto como uma indústria em alguns países do oriente médio, mais especificamente no Qatar), só agora a crise de 2008 começa a ter os seus efeitos, principalmente porque a crise começa a afetar a Europa de forma mais acentuada e a Europa é um grande parceiro dos países árabes do oriente médio. Aliás, a maioria tendo sido uma espécie de colônia de um país europeu.
A idéia que a crise é fruto por fome de democracia eu penso que seja um tanto idílica. Como mencionei, discuti bastante sobre a estabilidade da democracia em razão da renda de um país (Procurava refutar a idéia de uma demonstração estatística de que a democracia com um certo grau de riqueza não caia como caiam as ditaduras) junto ao post “Jânio de Freitas, clássico” de 23/09/2010 no blog de Na Prática a Teoria é Outra. Aqui no seu blog, junto ao post “Um problema de lógica”, de domingo, 20/02/2011, eu mencionei a queda de Fernando de La Rua em um país democrático com grave crise social. Na década de setenta eu desenvolvi a tese de que as grandes revoluções e os golpes políticos militares ocorreram em razão da inflação. Houve hiperinflação na França da Revolução Francesa de 1789 (Só com hiperinflação se explicaria que no maior produtor de trigo da Europa, não houvesse pão para as pessoas se alimentarem. Havia pão, mas ele subia de preço em razão da hiperinflação), na Rússia da Revolução Russa de 1917, na China da Revolução Chinesa de 1949. Houve hiperinflação quando do golpe chileno de 1973 e no Brasil a inflação era alta quando do golpe militar de 1964.
A Bolívia era um país interessante com os períodos presidenciais não sendo na média superior a 6 meses. Após a queda da hiperinflação na Bolívia não houve mais golpe. Bom em uma campanha depois da queda da inflação alguém acusou a política que se implantava de provocar a paz dos cemitérios. Em mandato mais à frente depois de uma ou duas eleições, quando já estava bem consolidada a democracia, e tendo assumido Sánches de Lozada que auxiliara Paz Estenssoro a debelar o processo hiperinflacionário na Bolívia em 1985, a multidão revoltou-se contra a paz de cemitério. A edição 1825 da revista Veja de 22 de outubro de 2003 traz com o título “Bolívia A Rebelião dos Miseráveis” a renúncia de Sanches de Lozada pressionado pelas multidões nas ruas.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/02/2011

terça-feira, 1 de março de 2011 21:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Também me pareceu sem muita justificativa você render uma espécie de preito de justiça ou o apoio ou o parabéns ao Departamento de Estado na pessoa de Hillary Clinton em razão de ela ter dito que "as bases do mundo árabe estavam firmadas sobre areia movediça". Não acompanhei essa declaração dela e procurei informar-me. Encontrei a notícia em um jornal indiano que me pareceu com o viés contra o terrorismo e que se interessou em usar a Hillary Clinton no combate ao terrorismo islâmico que começa a se tornar destrutivo para a Índia, mas me pareceu mais lógico do que a forma como você fez a menção a declaração da Hillary Cinton. No jornal Tha Indian, o título da notícia já mostra o viés do jornal: "Clinton warns Arab leaders, Middle East will ’sink into sand’ if extremism not stopped"
Bem de qualquer modo Hillary Clinton deu alguma declaração sobre isso quando esteve em Doha no início do ano conforme notícia no jornal como se lê a seguir nas palavras de Hillary Clinton:
"In too many places, in too many ways, the region’s foundations are sinking into the sand. The new and dynamic Middle East that I have seen needs firmer ground if it is to take root and grow everywhere".
Trata-se de declaração um tanto quanto genérica.
Mais à frente, o jornal traz mais palavras de Hillary Clinton, como transcrito a seguir:
"Those who cling to the status quo may be able to hold back the full impact of their countries’ problems for a little while, but not forever. Extremist elements, terrorist groups and others who would prey on desperation and poverty are already out there, appealing for allegiance and competing for influence".
Essa última parte transcrita do discurso de Hillary Clinton ajuda a tornar o título da matéria mais ajustado ao que ela realmente disse.
De todo modo, essas declarações de Hillary Clinton, ainda que corretas, não são assim tão merecedoras de destaque como o que você deu. São declarações que podem ser utilizadas para o mundo todo para países em que não se procura adotar uma política econômica que dê mais perspectivas para as pessoas.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 25/02/2011

terça-feira, 1 de março de 2011 22:07:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Não vi justificativa para a não aprovação de dois comentários que eu enviei ontem aqui para este post "Passagem para o futuro" de 25/02/2011. Vou reenviá-los na espectativa de que tenha havido alguma falha na conexão.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 02/03/2011

quarta-feira, 2 de março de 2011 08:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Swamoro Songhay (domingo, 27/02/2011 às 13h42min00s BRT),
Você poderia ter iniciado seu comentário com um concordo com você, afinal não disse nada em contradição ao que você disse.
Sim, há necessidade de ajustes prementes na economia. Aliás em qualquer economia no globo há necessidade de ajustes prementes. O difícil é entender-se sobre a definição de ajustes e sobre a premência, pois há sempre aqueles que aproveitam os ditos populares para lembrar que a pressa é inimiga da perfeição.
Quanto à medida do corte, o Valor Econômico traz os números mais precisos na reportagem de hoje, 01/03/2011, intitulada "Corte efetivo de gastos atinge R$13,1 bilhões". Como eu já mencionei, a realidade não é exatamente como expressa pelo temor de Alon Feuerwerker de se precisar fazer um ajuste maior do que o que Lula produziu no primeiro mandato.
O tratamento cortês que você deu à inflação conta com meu apoio e me faz lembrar que se há um brasileiro que tem, desde 1980, defendido o efeito saudável na economia da inflação sou eu. Aliás, lembrei ao Alon Feuerwerker em comentário recente que os governadores em início de mandato precisam muito de uma inflação mais robusta para acertar as contas um tanto infladas pela última campanha eleitoral. Ou nas suas palavras sempre afáveis:
"a velha conhecida e sempre disposta senhora inflação, está chamada a cumprir a tarefa de desafogar, ao longo do tempo, as contas do governo".
Enfim, é isso, concordo com você.
PS. Enviei esse comentário ontem por volta de 19:55. Com alterações mínimas, reenvio-o novamente na expectativa de que tenha ocorrido algum problema de conexão.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 02/03/2011

quarta-feira, 2 de março de 2011 08:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Disse que gostei da sua análise da política externa americana conduzida por Barack Obama diante do conflito no mundo árabe. E disse que achei comum o seu elenco de razões para as revoltas no mundo árabe. Em uma frase você diz:
"As massas árabes parecem desejar mais liberdade, mais democracia e menos continuísmo".
Que pode ser que você tenha razão, mas pode ser que não. E em seguida você completa:
"A mudança política no mundo árabe resulta da insustentável combinação de continuísmo, estagnação social e despotismo".
Aqui você me pareceu muito eclético e assim fica difícil errar.
Pareceu-me que você deu pouco destaque a questão econômica e social. O mundo árabe que está passando por essa espécie de rebelião é exatamente aquele com mais problema sociais. O Egito, como eu mencionei lá atrás junto ao post "O nó egípcio" de quinta-feira, 10/02/2011, é um país muito pobre. Com uma população quatro vezes superior a de Minas Gerais ele tem um PIB igual ao de Minas Gearia. A Tunísia é um país pobre. E a Líbia que é relativamente rica tem uma taxa de desemprego da ordem de 30% (Isto é uma calamidade). Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes com uma ditadura talvez tão ruim como as que caíram ou estão a ruir não possuem um problema da mesma magnitude. São países mais ricos e com desemprego baixo. Além de tudo, é de supor que por não se tratar de economias industrializadas (Salvo o boom na construção civil que pode ser visto como uma indústria em alguns países do oriente médio, mais especificamente no Qatar), só agora a crise de 2008 começa a ter os seus efeitos, principalmente porque a crise começa a afetar a Europa de forma mais acentuada e a Europa é um grande parceiro dos países árabes do oriente médio. Aliás, a maioria tendo sido uma espécie de colônia de um país europeu.
A idéia que a crise é fruto por fome de democracia eu penso que seja um tanto idílica. Como mencionei, discuti bastante sobre a estabilidade da democracia em razão da renda de um país (Procurava refutar a idéia de uma demonstração estatística de que a democracia com certo grau de riqueza não caia como caiam as ditaduras) junto ao post "Jânio de Freitas, clássico" de 23/09/2010 no blog de Na Prática a Teoria é Outra. Aqui no seu blog, junto ao post "Um problema de lógica", de domingo, 20/02/2011, eu mencionei a queda de Fernando de La Rua em um país democrático com grave crise social. Na década de setenta eu desenvolvi a tese de que as grandes revoluções e os golpes políticos militares ocorreram em razão da inflação. Houve hiperinflação na França da Revolução Francesa de 1789 (Só com hiperinflação se explicaria que no maior produtor de trigo da Europa, não houvesse pão para as pessoas se alimentarem. Havia pão, mas ele subia de preço em razão da hiperinflação), na Rússia da Revolução Russa de 1917, na China da Revolução Chinesa de 1949. Houve hiperinflação quando do golpe chileno de 1973 e no Brasil a inflação era alta quando do golpe militar de 1964.
A Bolívia era um país interessante com os períodos presidenciais não sendo na média superior a 6 meses. Após a queda da hiperinflação na Bolívia não houve mais golpe. Bom em uma campanha depois da queda da inflação alguém acusou a política que se implantava de provocar a paz dos cemitérios. Em mandato mais à frente depois de uma ou duas eleições, quando já estava bem consolidada a democracia, e tendo assumido Sánches de Lozada, que auxiliara Paz Estenssoro a debelar o processo hiperinflacionário na Bolívia em 1985, a multidão revoltou-se contra a paz de cemitério. A edição 1825 da revista Veja de 22 de outubro de 2003 traz com o título "Bolívia A Rebelião dos Miseráveis" a renúncia de Sanches de Lozada pressionado pelas multidões nas ruas.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 02/03/2011

quarta-feira, 2 de março de 2011 08:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Foram tantos os comentários com problemas que acabei errando na contagem. Esse seria o segundo não aprovado de quatro textos enviados ontem, 01/03/2011 à noite.
Gostei da parte da análise da política externa americana sob Barack Obama. É bem verdade que você me parece ser um grande entusiasta de Barack Obama. Não que eu não seja admirador de Barack Obama, mas ele não serve aos meus propósitos. Não admirava o George Bush, mas ele servia aos meus propósitos. Não que eu seja anti-americano, mas talvez porque eu seja um esquerdista que, nas palavras de Slavoj Žižek,
“deveria rezar pela alma dele [George Bush, o filho] todos os dias . . . [pois nos] seus oito anos de governo, ele, com certeza, enfraqueceu a hegemonia e a liderança mundial dos EUA". (A entrevista de Slavoj Žižek concedida a Jorge Pontual para a Globonews e intitulada “Revolta contra o capitalismo é forma de reforçá-lo” pode ser vista no blog de Luis Nassif junto ao post "A revolta que reforça o capitalismo" de sábado, 19/02/2011 às 12:34). Sendo de esquerda não penso que seja razoável defender uma liderança mundial hegemônica. Pelo menos no longo prazo. No curto prazo talvez seja aceitável que essa liderança seja americana.
Quanto a análise das revoltas no mundo árabe, considero que você meramente acompanha a interpretação dominante. Hoje, 01/03/2011, no seu twitter, eu vi uma chamada para o seguinte artigo "Why Russia Should Be Worried About a Coup" e cujo endereço é:
http://tinyurl.com/5vj42l2
No artigo, Chrystia Freeland apresenta uma metodologia de medir uma revolta desenvolvida por ela e Peter Rudegeair em que ela considera quatro fatores:
Liberdade política
Corrupção,
Vulnerabilidade aos choques de preços e
Penetração de Internet.
Prefiro a minha avaliação da interferência dos processos inflacionários agudos nas grandes revoluções no mundo. É claro que uma economia estagnada também leva a essas revoltas. Na Tunísia, no Yemen e no Egito países onde há muita pobreza e na Líbia, onde é alto o nível de desemprego, a revolta parece mais ligada a crise econômica que esses países atravessam. Dou mais destaque para os aspectos econômicos, pois crise semelhante ocorrida ainda na primeira década do século XX foi a que se verificou na democrática Argentina e na democrática Bolívia.
Poder-se-ia dizer que recentemente tomei uma posição contrária. No post “Jânio de Freitas, clássico” de 23/09/2010 no blog de Na Prática a Teoria é Outra eu discuti muito a validade da tese levantada no artigo “Democracia e Cultura: Uma visão não culturalista” de Adam Przeworski, José Antonio Cheibub e Fernando Limongi em que há a seguinte afirmação: “Acima de 6.000 dólares, as democracias podiam esperar durar para sempre”. Bem o que eu critiquei mais foi a delimitação de um valor. Concedo que há razão em dizer que com uma determinada renda as pessoas são menos propensas a fazer uma revolução. Essa regra, entretanto, de estabilidade é válida tanto para as democracias como para as ditaduras. E o valor da renda depende da cultura de cada país. Foram nesse sentido os meus comentários no post mencionado.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 02/03/2011

quarta-feira, 2 de março de 2011 08:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Clever Mendes de Oliveira
BH, 02/03/2011. Pois é. A velha senhora é tão conhecida que recebe até tratamento soft. O soft power para com a velha senhora inflação, rende até omeletes e homilia, em horário nobre das manhãs e noites populares da TV. Contudo, não é bom vê-la, a senhora inflação, faturando cerca de 1% ao dia, de uma unidade monetária, como fazia há pouco tempo, nos 80s até meados dos 90s. Ela já era muito popular na época. Hoje não chega a faturar tanto, ainda. Mas estão ajudando-a fortemente a cumprir suas metas. Se os administradores públicos ainda têm de recorrer a ela para ajustar contas, depois de extintas as AROs, instituída a LRF e criadas as bases para a tirada das contas públicas do limbo, então, melhor seria, para os estorvos de sempre, os cidadãos que votam e compulsoriamente pagam tributos, defenestrá-los todos. Sem dó nem piedade. Começando por não elegê-los. Se não for isso possível, detonando a popularidade deles. E terminando por chamar de mentiras, mistificações, mitificações, culto à personalidade, tudo o que dizem que fizeram ou farão com forte conteúdo disso tudo. Ou seja, as coisas têm nomes. E mentira, pode ser o nome síntese de todos os outros, que seriam mais sonoros, populares e explicativos.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 2 de março de 2011 13:14:00 BRT  

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