terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O custo de um estilo (08/02)

Ou tudo está tão bem que basta tocar adiante, ou existem tantos e tamanhos abacaxis que é melhor tratar de descascar em silêncio, para não corroer o cacife político do padrinho-antecessor

A profusão de avaliações sobre o estilo de Dilma Rousseff na Presidência da República deve-se também à escassez de novidades no conteúdo. Não havendo muito a avaliar nos atos, avalia-se então o estilo.

Essa observação não deve ser lida como crítica. É apenas constatação. Nem seria justo fazer um balanço crítico com tão pouco tempo de governo. Especialmente de um governo aparentemente tão concentrado em promover a arrumação.

Os políticos não se dão trégua, mas quem olha de fora pode esperar um pouco mais. Respeitar, sei lá, a protocolar paz de cem dias. É protocolar e não custa nada.

Há porém um ruído, para o governo, nessa vacuidade. De duas uma: ou tudo está tão bem que basta tocar adiante, ou existem tantos e tamanhos abacaxis que é melhor descascar em silêncio, para não corroer o cacife político do padrinho-antecessor.

Afinal, a cada desafio corresponde pelo menos uma inação de quem esteve na cadeira até outro dia. Foi assim quando a ausência de defesa civil eficaz cobrou sua conta em mortos na região serrana do Rio de Janeiro. Também é assim nos remédios grátis. Ou no propalado combate ao "fisiologismo".

Até o ponto em que alguém vai parar e fazer a pergunta óbvia. Mas como é que havia tantas encrencas no governo se tudo parecia tão bem? E talvez alguém conclua que a oposição andou dizendo algumas verdades.

Em resumo, para ganhar tempo e musculatura Dilma está entrando no cheque especial do mentor.

Não afirmo que é intencional, não tenho elementos para concluir assim. Mas é um processo objetivo, ainda que resultante das múltiplas subjetividades de quem observa, analisa e deduz. Sua excelência, o cidadão.

Um sintoma é Dilma ser aplaudida bem mais efusivamente pelos adversários do que pelos aliados. E na teoria parece esperto. Cria-se uma polaridade Dilma-Lula. Se ela estiver bem, pedirá votos daqui a quatro anos para continuar. Se estiver mal, quem vai pedir o voto será ele.

Mas do jeito que vão as coisas há o risco de ele em 2014 não ser igual ao que ele era em 2010.

Falta também combinar com os russos. Mesmo que os russos hoje estejam mais dispostos a brigar entre si do que com os inimigos de fora. Lá na frente estarão unidos. A guerra política na oposição é real, mas é pelo comando da oposição.

Alternância

Para equacionar a crônica instabilidade política no primeiro mandato  Luiz Inácio Lula da Silva aliou-se, no segundo, a todas as alas do PMDB.

Mas não foi pacífico. Na época, teve que tratorar o PMDB "do Senado", que pretendia o aval do presidente para ele próprio tratorar os adversários internos, então apelidados de "viúvas de FHC".

Agora é Dilma quem faz picadinho do PMDB "da Câmara", aparentemente despreocupada com a tal governabilidade. A disputa é pelo filé mignon e ninguém está para brincadeira.

Além do mais, a turma que entrou no alvo não anda mesmo num bom momento, também por causa dos cálculos eleitorais infelizes.

O ambiente no Senado estes dias não poderia estar mais leve.

Programático

Um alegado propósito da reforma política é reforçar o conteúdo programático dos partidos. A presidente gosta de falar nisso.

Vamos imaginar o que acontecerá caso prevaleça a tal lista fechada.

A lei mudou e agora os caciques partidários definem a ordem dos candidatos a deputado (ou vereador), o eleitor vota no partido (e não mais no candidato) e se elegem os "n" primeiros da lista, conforme o número de cadeiras conquistadas na eleição.

Um belo dia, na aprazível cidadezinha, dois sujeitos chegam ao diretório municipal para reivindicar uma vaga na chapa de vereadores. Mas tem que ser uma vaga lá em cima na lista, para terem chance real.

Um deles estudou direitinho o programa partidário, conhece a história e as principais bandeiras da agremiação. E concorda com elas.

O outro não tem ideia dessas questiúnculas, mas está disposto a fazer uma bela doação em dinheiro ao diretório municipal. Ou aos controladores do dito cujo.

Quem você acha que vai estar em cima na lista e quem vai estar em baixo? Difícil adivinhar?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta terça (08) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

Blogger Marcos Paulo disse...

A eventual instituição do voto em listas fechadas pelos dirigentes partidários, ao invés de promover, como é sua altamente propagandeada intenção, o aprimoramento e a consolidação de nossa ainda jovem e frágil democracia, irá na verdade, promover uma oligarquização ainda maior e notavelmente mais profunda da política nacional, infinitamente mais pendente a aristocratização do poder do que a sua efetiva democratização. O Brasil ainda é um país feudal, cartorial e patrimonialista, o voto em listas tende a aprofundar ainda mais um fosso que já é demasiado profundo, o fosso entre o Estado e o Cidadão.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011 22:31:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Devo ter enviado o comentário a seguir no início da semana passada, provavelmente na terça-feira, 08/02/2011. Por alguma razão o post não apareceu como enviado na caixa de comentários. Por via das dúvidas refaço o comentário, retirando a identificação de quem foi mencionado de modo talvez um tanto impreciso mas assim mesmo sendo mencionado nominalmente.
Na década de 70, vi uma capa de revista estrangeira com foto de um primeiro ministro de país europeu, sentado, com um cigarro em uma das mãos. Eu não fumava, mas na época não havia esse preconceito contra o cigarro dos dias de hoje, mesmo assim me perguntava porque um líder de um partido social democrática se prestava a uma foto como aquela. Perguntava-me, mas na época já havia compreendido a resposta. Liderar uma nação é um grande empreendimento de marketing. O jeito de sentar, de segurar um cigarro e coisas parecidas fazem parte desse empreendimento.
Depois passei a compreender mais o orçamento público e a função dele como elemento de estabilidade econômica. Pelo orçamento, fica assegurado que gastos de 20, depois 30 e em algumas nações de mais de 40% do PIB se repetirão anualmente até o fim dos tempos. Folha de aposentados, gastos do pessoal na ativa, a manutenção de estradas, o consumo de energia, de telecomunicações, de água, de combustíveis, de aluguéis tudo isso nos assegurando que no ano que vem os gastos serão os mesmos do ano anterior mais um crescimento vegetativo impossível de ser detido. Tudo isso perfazendo mais de 70% dos gastos públicos. Tudo isso indiferente ao líder de ocasião. E há os juros da dívida, que por economia de gastos com caracteres eu não computei.
Parece-me que muito da discussão sobre o estilo de um governante, procurando-se encontrar no estilo diferenças que produzam diferenças no conteúdo vem do desconhecimento de como a atividade pública está de tal forma engessada que as lideranças por mais que mudam pouco alteram.
É claro que uma mudança súbita de grande envergadura pode acontecer. Foi o que houve no Plano Cruzado, no Plano Real e também no primeiro Plano Collor. Geralmente quando elas ocorrem, o país demora a se reencontrar. O crescimento da dívida pública e os estrangulamentos no Balanço dos Pagamentos nos oito anos do governo de FHC guardam muita relação com essa mudança brusca e guardam também relação com o que me parece ser a tendência de a nação tentar, na seqüência, voltar ao eixo. A mudança brusca e a volta lenta constituem um alto custo para o país, para qualquer país.
É certo então que salvo no estilo, as mudanças nas lideranças de um país não causam mudanças tão profundas na máquina pública, na política externa e nem na infra-estrutura econômica. Como diz o ditado francês (ou talvez o dito do francês Jean-Baptiste Alphonse Karr, conforme saiu no jornal dele em janeiro de 1849): "plus ça change, plus c'est la même chose" ou no romance "O leopardo" de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa, conforme dito por Tancredi para o príncipe de Salina, Dom Fabrizio, como justificativa para se ter juntado aos combatentes italianos desejosos de unificar a Itália como República: "Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude".
Clever Mendes de Oliveira
BH, 08/02/2011

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011 22:11:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Enfim, é isso. Pode até haver distinções substanciais entre estilos de governantes que tenham efeitos práticos perceptíveis, ou seja, governantes diferentes poderiam produzir resultados bem distintos. É evidente que todas as situações de diferenças têm como dificuldade em ser avaliada o fato que as diversas alternativas nunca poderiam ser testadas ao mesmo tempo. Além disso há que se atentar para o fato que muitas mudanças que aparecem são mais fruto de circunstâncias excepcionais.
Não posso censurar os outros se eu mesmo gosto de fazer uma distinção entre estilos de governar. É bem verdade que a distinção é de conteúdo e quando se podem imaginar resultados diferentes é quase certo que são mais as circunstâncias bem especiais que permitem que isso ocorra. De todo modo, em minha distinção, há o administrador público que é considerado como mais pendor fiscalista, seja dando destaque apenas para corte na despesa, seja preocupando concomitantemente com a receita e com as despesas Nesse grupo fiscalista, o exemplo mais recente é o de Bill Clinton que fez uma política de controle de gastos e uma política de aumento de receita ou como exemplo mais antigo, eu menciono Tancredo Neves pela curta passagem dele no governo de Minas Gerais de 1983 a 1984 e pelo histórico como secretário da Fazenda de Bias Fortes e pelo histórico dele de companheiro de viagem de Getúlio Vargas.. E do lado oposto, há governantes com menos preocupação com as despesas e totalmente aberto a corte de impostos como foi o George Walker Bush. E há uma terceira espécie: o empreendedor. O exemplo é evidentemente Juscelino Kubitschek. A construção de Brasília trouxe resultados diferentes ao Brasil, mas com certeza caso como o de Juscelino Kubitschek é raro.
E há o imponderável. A NASA foi criada para ganhar a corrida espacial com a URSS. É claro que inventaram outros objetivos para a agência, mas esse foi o motivo principal da criação da NASA. Tivesse ela sido criada com o objetivo prosaico de buscar petróleo na lua ou em outro satélite ou planeta e certamente os analistas políticos taxariam de maluco o governo de Dwight D Eisenhower. Se ainda assim ela funcionasse como vem funcionando, desenvolvendo pesquisas e tecnologia de todas as espécies, os Estados Unidos deveriam como devem muito do avanço tecnológico a um projeto totalmente desarrazoado e desbaratado.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/02/2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011 13:50:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
É preciso então compreender bem o funcionamento quase autônomo da máquina pública. Compreendido como a máquina pública funciona, diria que não há razão para se prender tanto às diferenças de estilo para governar para tentar entender o que se alcançará como resultado final. Se Dilma Rousseff é igual a Lula ou se eles são diferentes tem interesse acadêmico até para a melhor compreensão do gerenciamento da coisa pública, mas não se deve esperar que isso venha produzir resultados diferentes surpreendentes. Mais importante do que as diferenças de estilo são as diferenças entre a composição ideológica dos grupos em busca do poder. Um grupo com interesse específico em proteger o meio ambiente, um grupo com interesse específico em proteger as classes mais desfavorecidas, um grupo com interesse específico em criar em um país instituições sólidas, profissionais, objetivando uma maior eficiência da máquina pública podem até chegar em resultados realmente distintos, mas seria preciso antes saber se qualquer deles tem intenção de tornar o orçamento cada vez maior, ou se pretendem diminuir o orçamento, pois isso é que pode trazer mais alteração.
Diferenças de estilo, entretanto, pouco acrescentam. Às vezes chega à máquina pública um grande empreendedor. No Brasil foi o caso de Juscelino Kubitschek. De espírito mais arrojado, mas aventureiro, ele também teve capacidade de alterar um pouco o perfil de uma nação. Deixa também seqüelas muito grandes. Inflação, dívida pública guardam muita relação com o espírito aventureiro e empreendedor de Juscelino Kubitschek. Como dito, um caso como Juscelino Kubitschek é um caso raro. É preciso que a nação esteja em formação e que uma série de fatores possam contribuir para aumentar as diferenças nos resultados como fruto de um estilo.
O seu texto às vezes dá a idéia de que você compreende isso. Às vezes dá a idéia contrária. Vejam-se as duas frases a seguir quase em seqüência:
"Não havendo muito a avaliar nos atos, avalia-se então o estilo.
. . . .
Especialmente de um governo aparentemente tão concentrado em promover a arrumação".

Ora se há escassez de novidades no conteúdo, se há pouco tempo de governo, resta realmente avaliar o estilo. Mas não haveria incoerência em dizer que não há atos para avaliar, pois o governo está a fazer arrumação. Ou arrumar é não mudar o conteúdo, é só forma?
Mais à frente há essa que parece a mim também uma imprecisão:
"De duas uma: ou tudo está tão bem que basta tocar adiante, ou existem tantos e tamanhos abacaxis que é melhor descascar em silêncio
. . . .
Afinal, a cada desafio corresponde pelo menos uma inação de quem esteve na cadeira até outro dia. Foi assim quando a ausência de defesa civil eficaz cobrou sua conta em mortos na região serrana do Rio de Janeiro. Também é assim nos remédios grátis. Ou no propalado combate ao "fisiologismo""
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Ora, se se descasca o abacaxi em silêncio como enumerar tantas situações que poderiam ser chamadas de ensurdecedoras?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 17/02/2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011 14:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Ainda no que me pareceu um superdimensionamento dos efeitos na administração pública das diferenças de estilo dos governantes, eu relembro o seguinte parágrafo do seu post “O custo de um estilo” de 08/02/2011 e que em minha opinião não corresponde aos fatos:
"Até o ponto em que alguém vai parar e fazer a pergunta óbvia. Mas como é que havia tantas encrencas no governo se tudo parecia tão bem? E talvez alguém conclua que a oposição andou dizendo algumas verdades".
Que tantas encrencas são essas? As quase infinitas encrencas que corriqueiramente ocorre no mundo todo, tanto assim que se precisa de um orçamento público tão grande como foi mencionado acima?
E que história de que "tudo parecia tão bem" é essa que você colocou lá no parágrafo? Como dizer que tudo parecia tão bem, quando se sabe dos altos índices de homicídios que são praticados aqui no Brasil, das condições de insalubridade com falta de água potável e de esgotamento sanitário, condições essas que matam milhares de brasileiros todo ano (Mortos que nunca o sistema capitalista aceita pôr na conta dele)? Como dizer que tudo parecia tão bem quando se sabe da insuficiência do ensino público que leva milhares a vivenciarem uma inferioridade que forja uma sociedade desigual?
E você termina o parágrafo dizendo que se vai concluir que a oposição andou dizendo algumas verdades. Não acompanhei o horário eleitoral, mas pelos comentários que li, foi a oposição que prometeu que com José Serra se teria a continuidade do estadista Lula.
E há então o desiderato ou então a afirmação que se poderia dizer que é mais própria dos economistas de altos coturnos quando você diz:
"Mas do jeito que vão as coisas há o risco de ele em 2014 não ser igual ao que ele era em 2010".
Risco? Como eu direi? Risco há, houve e os haverá. Bem, mas a afirmação não pareceu própria dos economistas, pois esses entrariam com um dado mais preciso. Se eu fosse economista, eu diria um risco de 89,76%.
E a história da falta de combinação com os russos também não me pareceu adequada. Afinal, equiparar a oposição no Brasil com os russos é difícil de aceitar. A menos que se trate de uma referência aos russos da época do Czar, pois os russos da piada eram vermelhos.
PS Andei mencionando outros posts onde se destaca a distinção do estilo entre Dilma Rousseff e Lula. Distinção que não deveria ser surpresa para ninguém. Se há surpresa é na surpresa de quem só agora vê a diferença. Diferença que deve ser levada em conta quando se analisa qualquer política pública. Diferença que, por exemplo, nos ensina que Dilma Rousseff não pode ter uma política externa amarrada na personalidade dela como Lula podia ter enquanto foi presidente. Diferença, entretanto, que não pode ser superdimensionada. Bem, andei mencionando posts e como há os que continuam fazendo a distinção entre os dois, eu menciono mais um aqui. Lembrando antes que se costuma fazer a distinção para elogiar a Dilma Rousseff, como se Dilma Rousseff não fosse do mesmo grupo ideológico de Lula. Hoje, 17/02/2011, li no jornal O Tempo o artigo de Dora Kramer intitulado “Sob nova (?) direção”. Os elogios ao estilo não escarceiam, mas ela houve por bem lembrar como se vê no trecho que transcrevo não na íntegra a seguir que Dilma Rousseff não possui
“um salvo-conduto para se eximir da responsabilidade que tem sobre o atual cenário ( . . . . )”
Enfim, são diferentes, mas são iguais.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 08/02/2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011 19:48:00 BRST  

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