sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Excesso para queimar (04/02)

O
 governo estará ao lado dos ricos e dos egoístas subjugando o Legislativo para impor um reajuste mixuruca ao salário mínimo, que é muito importante para os mais pobres

A ofensiva política do PT contra o PMDB baseia-se em duas constatações e num desejo. A primeira constatação, petista, é que o PMDB, pelas circunstâncias, chegou ao fim do governo anterior com mais força ministerial do que corresponde à musculatura real da agremiação.



O desejo, também do PT, é reverter a situação. E a premissa é que a oposição nada fará para aproveitar as tensões entre os dois maiores partidos da coalizão governista. Tem mais: para cada peemedebista infeliz existem vários “sapos de fora” (outros partidos, oposição) disponíveis para a garantia da governabilidade.



Um rápido passeio pelo Congresso Nacional faz constatar que o governo Dilma Rousseff joga um jogo de risco.



Situação boa é quando estão todos felizes, coisa impossível de alcançar na política. O razoável é estar todo mundo mais ou menos feliz e infeliz, desde que o sujeito olhe para o lado e não se sinta desprestigiado além da conta. Perigoso é o que acontece agora: uns estão superfelizes e outros, cuspindo fogo pelas ventas.



O governo opera como se as reservas estratégicas fossem infinitas. Se tem problemas com o PMDB, pode contar com uma turma que está mais atrás na fila, como o PSB, ou com a oposição. Se vier a ter problemas com a oposição, bastará abrir um pouco mais de espaço ao PMDB. E se vier a ter dores de cabeça com partidos pequenos, bastará arregimentar os grandes. E segue o jogo.



Vamos acompanhar os desdobramentos. O primeiro espetáculo será o debate sobre o salário mínimo.



A categoria conceitual que preside a coisa é “o máximo que podemos dar para não desarrumar as contas públicas”. Esse “máximo”, um conceito absoluto se tomado pelo valor de face, revela-se na política um número flutuante.



O salário mínimo costuma ser tema de escolha para governos mostrarem força no Legislativo e compromisso com a austeridade fiscal.



Bem dizia o presidente recém saído. A coisa mais difícil que tem é o governo convencer de que é bom dar dinheiro para o pobre. Sempre vira sinônimo de gastança.

Já as renúncias fiscais, os subsídios generosos, as eternas renegociações de dívidas com bancos públicos e o socorro a banqueiros amigos preferem enquadrar-se na rubrica das coisas justas, necessárias mesmo para o bom andamento da economia. 

Sem falar na despesa com os juros. Que, curiosamente, nunca entra nos discursos sobre o custeio.

 Apesar de ser custeio.

O governo pode até vencer a batalha do mínimo no Congresso, mas no plano simbólico já arrumou um primeiro problema. Seu embate fundador dar-se-á num alinhamento desconfortável. O governo estará ao lado dos ricos e dos egoístas subjugando o Legislativo para impor um reajuste mixuruca ao salário mínimo, que é muito importante para os mais pobres.



Sempre haverá, é claro, o argumento do combate à inflação, a grande inimiga dos pobres. E é verdade. O azar de Dilma é que o governo anterior e, em menor medida, o anterior ao anterior mostraram ser possível combinar a luta contra a inflação e uma política consistente de elevação do salário mínimo.



O governo diz que o megarreajuste previsto para o ano que vem vai compensar, mas trabalhador sabe fazer conta. Sabe que vai passar este ano todo sem receber o “a mais”, e que isso vai fazer diferença. E que nunca será compensado. Sabe que o governo vai fazer economia às custas dele. E sabe-se lá o que vai acontecer até o ano que vem.



Melhor seria dar uma antecipação. Melhor ainda seria oferecer um espaço para que aliados no Congresso pudessem construir para si um discurso simultâneo de defesa do governo e das bases sociais que elegeram a tropa.



Esta largada de descontentar em massa os aliados, desprestigiar quem não é completamente íntimo e ignorar os alinhamentos simbólicos que presidiram a eleição só pode ser coisa de quem acha que tem muita gordura para queimar.



Talvez até tenha, vai saber.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta sexta (04) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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5 Comentários:

Blogger Nicolau disse...

Alon, a discussão sobre o mínimo esquece um detalhe: pelo que acompanhei, o reajuste proposto não veio do nada, mas segue a regra discutida pelo governo Lula com as centrais sindicais, que prevê inflação mais crescimento do PIB de dois anos atrás. É aquela regra que o pessoal defendia ano passado que tivesse virado lei, para garantir a recomposição do poder de compra ao longo do tempo.
Não que as centrais não tenham o direito e até o dever de brigar por mais, sempre. Mesmo que a lei tivesse sido aprovada, ela serviria de piso, não de teto, e concordo que a generosidade seletiva de nossa elite e classe média (também conhecida como patrmonialismo) é um mal a ser combatido. Mas dizer que a Dilma está indo contra a política de valorização praticada pelo Lula quando ela defende manter a regra acordada pelo ex-presidente é forçar a barra.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011 14:30:00 BRST  
Blogger BlogdoIlha disse...

Mas Alon, e os acordos firmados entre o governo e os sindicatos e estabelecendo as regras para o reajuste do salário mínimo?

Não acho certo violar o acordo porque este ano a fórmula em vigor não beneficiaria os trabalhadores.

Mais importante que os valores do salário mínimo são aqueles outros que compõem nosso arcabouço moral. É preciso respeitar as regras, mesmo quando elas não nos beneficiam.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011 16:14:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Parece que havia a palavra variação do PIB nos dois anos anteriores e não crescimento do PIB. O PIB pode decrescer também. E se decrescer, seria descontado ao invés de incrementar. Falar só em crescimento seria desconsiderar a variação negativa do PIB.
Swamoro Songhay

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011 20:39:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

A consulta abaixo foi informada pela “calculadora de impostos” do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, com dados de renda e consumo. Para efeito de cálculo, o site considera impostos todos os tributos que incidem sobre o salário, o consumo e o patrimônio. No caso, este Brasileiro teria apenas um dependente e gastaria no mês tudo o que recebe, já descontado valor do INSS. Os saúde, patrimônio, educação e transportes foram zerados.

Brasileiro Salário Mínimo

Salário
Sobre seu salário de R$ 545,00
foram pagos em impostos R$ 41,69.
Resultado: 7,65% do seu ganho bruto mensal foram engolidos pela União.

Consumo
Sobre os gastos de R$ 503,00 foram pagos em impostos R$ 162,76.
Resultado: 29,86% do seu salário foram usados para pagar impostos embutidos no preço final de produtos e serviços.

Você paga imposto em tudo!

Por mês, em média, você paga R$ 204,45 em impostos, o que representa 37,51% do seu salário.

Veja quantos dias você trabalha somente para alimentar o Poder:

Você trabalha 11 dia(s) por mês, ou 132 dia(s) por ano, apenas para alimentar os governos federal, estadual e municipal.

Além de você, o seu empregador também paga muito imposto:

Além de pagar o seu salário, o seu empregador precisou pagar ao Governo mais R$ 239,58 em impostos sobre o seu salário bruto, ou seja, 43,96% do seu salário.

Conheça a parte que o Governo leva!

Sobre o seu salário de R$ 545:

- Você pagou em impostos: R$ 204,45, ou seja 37,51% do seu salário.
- Seu empregador pagou: R$ 239,58, ou seja 43,96% do seu salário.
- No total, seu salário gerou para o governo uma arrecadação de R$ 444,03, ou seja o equivalente a 81,47% do seu salário.

Os cálculos com os dados reais de cada podem ser feitos no site:
Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT)

http://www.ibpt.com.br/home/projeto.list.php

sábado, 5 de fevereiro de 2011 10:53:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

(continuação)

Notícias do IBPT

Os contribuintes brasileiros pagam hoje um total de 61 tributos. Só os de âmbito federal chegam a 48, entre impostos, taxas e contribuições, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT)

O Brasil subiu quatro posições no ranking dos países com maior carga tributária em 2009 e alcançou o 14º lugar, divulgou nesta sexta-feira (17) o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT). A arrecadação de tributos no país correspondeu, no período, a 34,5% do Produto Interno Bruto (PIB) - comparação conhecida como carga tributária. Em 2008, o Brasil estava em 18º lugar, com carga de 34,7%.

De acordo com o instituto, caso o Brasil integrasse o rol dos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estaria no 14º lugar, perdendo apenas para países como Dinamarca (48,20%), Suécia (46,40%), Itália (43,50%) e Bélgica (43,20%).

sábado, 5 de fevereiro de 2011 10:54:00 BRST  

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