domingo, 6 de fevereiro de 2011

Esperteza conhecida (06/02)

Há uma malandragem habitual na política brasileira. Antes da eleição, adular o eleitor médio. Depois, bater continência para uma certa opinião pública. Afinal, voto mesmo só daqui a quatro anos, não é?
 
Desde a eleição, nota-se um desconforto no ambiente. O incômodo é pela emergência de certa pauta conservadora, cujo aríete foi o debate ano passado sobre o aborto, na campanha presidencial.

O tema veio à rinha por iniciativa político-eleitoral do governo, quando assinou o decreto com a terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3). Havia também uma entrevista pretérita da candidata Dilma Rousseff defendendo a descriminalização.

As coisas juntaram-se, como era previsível, e tiveram um efeito. A ação de igrejas potencializou a insatisfação (ou a dúvida), levou no primeiro turno votos principalmente para Marina Silva e ajudou um pouco a carregar José Serra para o segundo turno.

Aí veio o recuo. E Dilma comprometeu-se a não impulsionar no Congresso a revisão da lei. Estancado o vazamento, o assunto deixou de ter valor.

Mas deixou também cicatrizes sensíveis. E a valentia que faltou aos valentes para encampar militantemente a tese durante a campanha eleitoral reapareceu depois da eleição.

Tipo o sujeito cujo time perde o jogo e fica resmungando diante do videoteipe, na esperança de mudar o resultado.

Existe na política brasileira uma esperteza manjada. Antes do voto na urna, adular o eleitor comum. Depois, bater continência para uma certa opinião pública. Afinal, outra eleição só daqui a quatro anos, não é?

A presença da agenda conservadora soa também como o visitante não convidado que incomoda na festa.

De duas décadas para cá, petistas e tucanos decidiram que têm o monopólio não apenas da política brasileira mas também do poder de decidir que assuntos devem ser discutidos e quais não.

Um de cada vez, governam gostosamente com apoio do que, nas rodinhas de bem-pensantes, gostam de chamar de “atraso”. Não sem lamentar que tenham de fazer isso.

Propiciaram inclusive o surgimento de uma safra sebastianista, ocupada full-time em cantar a volta dos tempos quando ambos simbolizavam a “ética” e a “renovação”.

Imaginam que o debate na sociedade pode ser contingenciado como, por exemplo, o orçamento. E executado só quando convém. Assim, a legalização do aborto é pauta legítima se, e quando, proposta por quem é a favor. Mas ilegítima quando, e se, impulsionada por quem é contra.

Agora, para desgosto, uma pesquisa do canal de internet G1 entre parlamentares aponta que a agenda conservadora tem apoio majoritário. Confirma o verificado na campanha eleitoral. Verificação que também aparece em qualquer levantamento popular dos temas.

Talvez seja hora de parar com o cinismo e com a esperteza, de debater os assuntos de frente, não com resmungos em rodinhas ou nichos. Sem preconceitos ou interdições. E que cada um se exponha com suas ideias. E pague o preço por elas.

A presidente da República, pelo jeito, decidiu que o preço estava alto demais e mandou para casa o assessor que defendeu o fim das penas de prisão para pequenos traficantes.

Ainda que corra outra coisa. Ser surpreendida pela declaração incomodou mais que o conteúdo. Mas o resultado final foi a exoneração.
 
Delícia
 
Subiu bem a temperatura nos embates entre o governo e o PMDB pelo comando do setor elétrico.

Especialmente depois que o segundo passou a flertar — pelo menos oralmente — com a possibilidade de fazer uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na área.

Para verificar, afinal de contas, o passivo de cada um.

A coisa andou azedando o ambiente mas não tem chance de evoluir. Até por não receber apoio na oposição nominal.

Governar sem oposição é uma delícia, para o governo.

Para o país, é um problema.
 
Síntese
 
O PSDB veiculou quinta-feira seu programa de tevê. Com um detalhe. O partido não se deu ao trabalho de agradecer, simplesmente agradecer, aos quase 44 milhões de eleitores que saíram de casa para digitar o “45” na urna eletrônica.

A boa votação foi apresentada pelos tucanos como um atributo, e não algo pelo que o partido devesse ser grato ao eleitor.

Talvez seja uma síntese.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada neste domingo (06) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

O que vc trata como malandragem, é simplesmente política, desde o início dos tempos.

domingo, 6 de fevereiro de 2011 00:04:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

“A ação de igrejas potencializou a insatisfação (ou a dúvida), levou no primeiro turno votos principalmente para Marina Silva e ajudou um pouco a carregar José Serra para o segundo turno.”

Sim. Mas em que medida? Será que a medida não está sendo superestimada em detrimento de outras? Será que o surto “conservador” é mesmo a principal variável no entendimento dos votos levados por Marina e por Serra? Foi esta variável a determinante principal do segundo turno?

Os números do segundo turno em 2006 e 2010

Lula: 58.295.042 (60,83)
Alckmin: 37.543.178 (39,17)
Diferença: 20.751.864 (21,65%/total votos válidos)
Votos: 101.998.221
Votos válidos: 95.838.220 (93,96%)

Dilma: 55.752.092 (56,05%)
Serra: 43.710.422 (43,95%)
Diferença: 12.041.670 (12,11%/ total votos válidos)
Seções: 400.001
Seções Apuradas: 399.979 (99,99%)
Votos: 106.604.687
Válidos: 99.462.514 (93,30%)

A diferença entre Lula e Alckmin relativamente aos votos válidos em 2006 foi 20.751.864 (21,65%/total votos válidos).

A diferença entre Dilma e Serra relativamente aos votos válidos em 2010 foi 12.041.670 (12,11%/ total votos válidos).

Em números absolutos, a diferença favorável ao PT de 2006 caiu em 8.710.194 de votos em 2010. E isso sem ponderar o crescimento dos votos válidos de 2006 para 2010. Ou seja, ao mesmo tempo que observamos o crescimento de votos válidos de 2006 para 2010, vemos a piora considerável nos números do PT em 2010, relativamente ao número de votos válidos. Por outro lado, e com o mesmo parâmetro, a oposição cresceu consideravelmente de 2006 para 2010. Ou seja, Dilma no segundo turno ficou bem longe do desempenho de Lula em 2006.

A diferença entre os totais de votos válidos em 2006 e 2010 foi pouco mais de 3.264.000.

domingo, 6 de fevereiro de 2011 01:04:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Conclusão: parte considerável dos votos petistas em 2006 migrou para a oposição em 2010.

No primeiro turno, os votos da oposição distribuíram-se principalmente entre Serra e Marina. No segundo turno, Serra cresceu quase 11 milhões de votos. Dilma cresceu 8 milhões. Lembro que Marina obteve pouco mais que 19.636.000 de votos. A chamada oposição nanica “de esquerda” obteve em torno de 1.000.000 de votos.

E esse crescimento da oposição no segundo turno explicar-se-ia sobretudo pela tese do “surto conservador”? Essa explicação por si só é inconsistente. Há mais coisas aí que não foram captadas e analisadas com o devido cuidado.

...................................

“Talvez seja uma síntese”. Não. É uma síntese.

Tudo indica que o primo do PT escolheu preparar a partir de 2011 o caminho da composição “progressista” contra as “forças do atraso” para 2014. A ver no transcurso do governo Dilma como os primos se entenderão.

Abs.

domingo, 6 de fevereiro de 2011 01:06:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Ademais, fica um pouco difícil classificar como "progressistas" os apoios e votos de fiés e da cúpula de grandes igrejas evangélicas à candidata do governo. Apoio, ao que parece e supostamente, ainda em vigor, inclusive com força do que chamam de sua, deles, "mídia". O aparente complicador é que, mesmo com o fato da então candidata ter manifestado concordâncias com teses não bem aceitas por tais organizações religiosas e ter afirmado e posado como alguém com sólida formação católica. Ou seja, o estorvo não estorvou ou resolveu não estorvar.
Swamoro Songhay

domingo, 6 de fevereiro de 2011 13:50:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Democracia não depende de votos? Pois então, como você pensa que deve se dar um projeto de poder? Já sei, você prega a franqueza. Bem o Stalin talvez tenha sido super franco quando se empenhou na conquista do socialismo. Ele uma grande guerra e sempre foi franco, até quando acordou com Hitler dentro de suas fronteiras...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011 19:10:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Exatamente. A Democracia depende de votos livres e secretos, tanto para candidato da situação, como para candidato da oposição. Se projeto dee poder depende de falcatruas, de cinismo ou de montanhas de cadáveres, então, é caso de polícia e não de política.
Swamoro Songhay

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011 10:18:00 BRST  

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