quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Ensaio geral (17/02)

É realista acreditar que com a lista fechada e o financiamento exclusivamente público os políticos deixarão de brigar pelas posições orçamentárias mais apetitosas?

Para o governo, o debate sobre o salário mínimo tem projeções políticas. A primeira e mais importante circunstância é temperar a base na votação de um tema em que a posição oficial é largamente impopular entre os mais pobres.

Pede-se que os aliados atravessem um certo Rubicão. Depois tudo fica mais fácil para o governo. A base está mais refém.

A política é movida a dois combustíveis. Os discursos e os recursos. O ideal é ter ambos, mas não costuma acontecer. Há na prática uma divisão de atributos: enquanto a oposição se beneficia principalmente dos discursos, a situação se alimenta principalmente dos recursos.

Existe dos dois lados quem busque o melhor de ambos os mundos. Ser fiel à base social e, simultaneamente, fazer política montado na máquina oficial. Não é impossível, mas é missão para craques.

Mais comum é o sujeito trocar pelo menos uma parte da base social quando passa da oposição para o governo. Nas eleições isso pode aparecer como migração geográfica do voto. Políticos antes bem votados em segmentos mais modernos defendem-se capturando o voto do que antigamente se chamavam grotões.

Perdido o eleitor que se sente menos dependente do governo, vai-se atrás do que se sente mais.

A votação do salário mínimo, depois de trafegar por Câmara e Senado, talvez sirva de termômetro para o governo medir a própria capacidade de fazer o remédio amargo descer goela abaixo do Legislativo.

Pois os números e a necessidade de cumprir certas promessas levam a supor que mais remédios amargos vêm aí. Por exemplo mais impostos.

Uma maneira inteligente de embalar o aumento de impostos será algo que receba o nome de reforma tributária. Governos não reformam os impostos para perder dinheiro, a não ser quando a convicção liberal é bem arraigada.

Não parece ser o caso da administração Dilma Rousseff.

Tudo seria mais fácil, para o governo, se já estivesse em vigor a reforma política dos sonhos do poder.

Funcionaria mais ou menos assim. O governo acerta-se com os caciques partidários, na base da repartição de espaços, e a cacicada enquadra as bancadas no Legislativo.

O parlamentar que não andar estritamente na linha deverá ou 1) ser expulso da legenda, ou 2) ter o mandato cassado, ou 3) ser relegado a uma posição suficientemente atrás na "lista fechada" para não ter a mínima chance de reeleição, ou 4) ver dissolvido o diretório ou comissão provisória onde se elege, com a bela probabilidade de ver a máquina entregue a um adversário político.

Ou uma combinação desses fatores.

Hoje, com a fidelidade partidária tão exigida pela opinião pública aos tribunais, só falta mesmo o terceiro item. O resto do arcabouço institucional dessa preudodemocracia já está montado.

E a lista fechada daria aos caciques um atributo a mais. Os donos das legendas teriam poder para se colocar no topo da lista. Menos dependentes de voto, estariam disponíveis para as mais difíceis missões.

Aqui o eleitor poderá enxergar uma contradição.

Se o voto em lista traz junto o financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais, e se o apetite dos políticos pelos cargos se explica hoje, em teoria, pela necessidade de fontes privadas de financiamento eleitoral, com a mudança no sistema os caciques políticos não brigarão mais o mesmo tanto por cargos de orçamento gordo.

Duvido que você acredite nisso.

Braços abaixados

A marcha batida do regime iraniano para o fascismo só faz ressaltar a inteligência da dupla Dilma Rousseff e Antônio Patriota, quando decidiram desfazer a aliança estratégica que os antecessores haviam costurado com Teerã.

O futuro a Deus pertence, mas há uma bela chance de aqueles personagens daqui a um tempo fazerem quase qualquer coisa para recolher da praça todas as cópias daquela foto de todo mundo junto de braços levantados.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quinta (17) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

O argumento, se você se dispuser a enfrentá-lo, é o seguinte.
Ninguém acha que financiamento exclusivamente público vai nos conduzir ao paraíso. Aliás, ninguém acha que medida alguma vai nos conduzir ao paraíso. O problema é chegarmos a uma situação melhor do que essa que temos hoje. Que situação é essa? O custo astronômico das campanhas OBRIGA políticos a se banditizarem. Ninguém doa 100, 200 mil a uma campanha se não tiver (i) certeza de retorno garantido (com juros) e/ou (ii) receio de retaliações futuras (com juros). Você acredita em Papai Noel? Pois é. Os empresários e os políticos também não. Enquanto políticos tiverem que passar o chapéu para participar do jogo democrático, terão que pagar a conta. Aqui, nos EUA e em qualquer lugar em que não chova maná no deserto e o ser humano tenha que ganhar o pão com o suor do seu rosto. Financiamento público supõe minimizar gastos, despersonalizando as campanhas. Listas partidárias cumprem esse objetivo, além de induzir um debate mais programático e impessoal.

Qual é a alternativa em que você acredita?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011 15:50:00 BRST  
Anonymous JV disse...

PÔ ALON!
Marcha batida? os caras chegaram lá faz tempo....

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011 20:46:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Penso que a votação por lista fechada pode ser bastante discutida. Em princípio sou contra por não ver nela vínculo com o imaginário popular, não sendo de nossa tradição eleitoral. Penso ainda que quem encabeça a lista pode pressionar mais o setor privado por financiamento de campanha. Agora rebater a lista por imaginar que ela vai ficar na mão dos caciques do partido é desconhecer que há mecanismo para combater isso. Até mesmo o problema que apontei, pode ser resolvido definindo a posição na lista após a eleição. E o mecanismo mais indicado para combater o predomínio do cacique seria (A Justiça Eleitoral) fazer a eleição interna no partido para a composição da lista e para ficar perfeito só fornecer o resultado depois da eleição realizada.
O pior na sua argumentação foi dizer que com a adoção da lista fechada fica montado o arcabouço institucional de uma pseudodemocracia.
A dizer isso da democracia brasileira mesmo que se adote a lista fechada faz desacreditar sua informação seguinte de que o regime iraniano estaria de marcha batida para o fascismo.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 18/02/2011

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011 14:12:00 BRST  

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