quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Couro espesso (23/02)

Sempre haverá explicações para a necessidade de relacionar-se com ditaduras e ditadores, mas uma diplomacia de viés presidencial aumenta muito o risco de queimar capital político

É hora de revanche. Tucanos ouviram incomodados, durante anos, chacotas petistas sobre as boas relações entre Fernando Henrique Cardoso e Alberto Fujimori. Agora, tripudiam sobre o histórico de boas relações entre Luiz Inácio Lula da Silva e Muamar Gadafi.

É do jogo. Uma rápida troca de mensagens ontem no twitter trouxe elementos a esta coluna. O presidente do PT, José Eduardo Dutra (um político que entendeu as tais redes sociais) argumentou que Fujimori foi condecorado por FHC, o que não Lula não fez com Gadafi e outros líderes árabes agora em desgraça.

É verdade, mas o apoio político e o carinho pessoal de Lula na época valiam mais que condecorações formais. Eram medalhas bem mais ambicionadas. George W. Bush, por exemplo, tudo fez para ser olhado aqui e lá fora como amigo de Lula, um "companheiro".

Não tenho razões objetivas para enxergar em Lula motivação pessoal, ou ideológico-pessoal, na condução de sua diplomacia, de claro viés presidencial.

A questão está nos riscos e ônus de uma diplomacia desse tipo. Em 1939 Josef Stalin confraternizou com o chanceler alemão, Joachim von Ribbentrop, quando a União Soviética assinou o pacto de não-agressão com a Alemanha Nazista. Aqui, Stálin foi duplamente ajudado pela sorte. Ou pelo destino.

O encontro não foi com Adolf Hitler, mas com um assessor. Não existe a foto dos dois líderes brindando o acordo. E no fim, o que é muito mais importante, a URSS ganhou a guerra.

O debate sobre as razões dos soviéticos para o pacto -e se as razões se justificavam ou não- vai percorrer a historiografia e a política pelo tempo necessário, mas a foto que permanecerá daquela guerra será Stálin com Winston Churchill e Franklin Roosevelt em Ialta, na Crimeia.

Em benefício de FHC, pode-se dizer que condecorar Fujimori foi um gesto de Estado, voltado para estreitar as relações com um vizinho. O Brasil é a potência regional e precisa administrar o clima na vizinhança. E não vai ficar selecionando, conforme a política interna de cada um, com quem vai se relacionar -ou não. Ou como vai relacionar-se.

Nesse aspecto, os primeiros sinais são de que Dilma Roussef vai operar numa frequência bem próxima da linha adotada um dia por FHC.

Em benefício de Lula, pode-se dizer que o mercado islâmico, nas esferas do consumo e do capital, é estratégico para o Brasil diversificar as relações da nossa economia. O tamanho e a situação do Brasil exigem uma agressiva presença no comércio e na atração de investimento externo.

Como se vê, tudo tem uma explicação. O que define o resultado final, como saber se o sujeito deu-se bem ou mal ao associar a imagem ao ditador fulano ou ao golpista sicrano?

O próprio resultado final.

Como a condecoração a Fujimori não teve qualquer efeito tonificador para ele na política peruana, e como o Peru é hoje uma democracia bem consolidada, FHC estará mais confortável para justificar -como Stálin sobre o pacto de 1939- que o gesto se deveu a razões de Estado.

Aliás, FHC não carregou da passagem pela Presidência qualquer mancha de pendor antidemocrático.

E se a agressiva diplomacia presidencial de Lula mostrar-se, mesmo depois da nova onda revolucionária árabe, um ativo permanente na região, se as recentes relações comerciais do Brasil resistirem bem à tempestade, o PT poderá argumentar que Lula investiu suas reservas de imagem e prestígio em benefício do desenvolvimento nacional.

Não deixa de ser um argumento.

Já se der errado terão que ouvir. E terão que ouvir também até lá, até a conclusão se deu certo ou errado. Ou talvez para sempre. Como no caso do Stálin de 1939.

Paciência, a política exige couro grosso. Quem tem pele fina deve buscar outra atividade.

E Dilma Rousseff? Por enquanto está entocada. Mas daqui a pouco vai ter que sair da toca. Afinal, Barack Obama vem aí.

Sem falar que o mundo de Dilma promete ser bem mais complicado do que foi o de Lula.

Referendo

As propostas até agora colocadas na mesa para a reforma política têm pelo menos uma característica comum: todas são piores que o sistema vigente.

Porque todas partem da necessidade de tirar direitos do eleitor.

Numa, o eleitor perde a prerrogativa de escolher o candidato eleito. Noutra, deixa de escolher quantas cadeiras cada partido ou coligação ocupará no parlamento.

E em quase todas deixa de ter o direito de ajudar financeiramente quem ele acha que merece seu voto.

Um bom caminho para a reforma política seria dar meia volta e passar a imaginar que o sistema melhorará se o eleitor tiver mais direitos, em vez de menos.

E uma boa ideia será submeter a referendo popular o que for decidido por suas excelências.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada nesta quarta (23) no Correio Braziliense.

twitter.com/AlonFe

youtube.com/blogdoalon

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8 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Faltou falar de Chamberlain/Daladier e no que esses pactos assinados com o Estado nazista [Munique-1938 e Moscou-1939] se distinguem no essencial.

O de Munique entregou para os nazistas a região dos sudetos, a contragosto da Tchecoslováquia. O de Moscou, que contemplava uma cláusula secreta a respeito, definiu a repartição da Europa Oriental entre os soviéticos e os nazistas. Não vamos, ainda, nos esquecer da vexaminosa e desastrada tentativa de Molotov em Berlim [novembro de 1941] de convencer os nazistas a respeitarem a cláusula secreta, francamente ameaçada pela presença ou proximidade das tropas nazistas na Finlândia e na Romênia. Parece incrível que Stalin não tivesse, em novembro de 1941, o conhecimento de que em dezembro de 1940 o Führer já houvera assinado a Diretiva nº 21 [Operação Barba Ruiva. Homenagem a Frederico I, imperador do Sacro Império Romano Germânico no século XII, e considerado pelos nazistas como o Primeiro Reich] que preparava a invasão da URSS. Como explicar a desastrada tentativa de Molotov junto aos aliados nazistas em 1941?

Moscou sempre negou a existência dessa cláusula secreta, que veio a público com a queda do Terceiro Reich. Foi preciso esperar pelo movimento popular que ficou conhecido como Cadeia Báltica [Estônia, Letônia e Lituânia] e pela glasnost de Gorbachov para que finalmente o Estado soviético condenasse o pacto Ribbentrop-Molotov e emitisse declaração oficial admitindo como verdadeira a cláusula secreta da repartição nazi-soviética da Europa Oriental.

Referendo

Quanto a sua ideia de um referendo, apoio totalmente. Mas com a condição de que no plebiscito a aprovação in totum da reforma política esteja condicionada à aprovação do "financiamento público das campanhas". Se for assim, aposto 100 contra 1 que o o resultado do referendo vai literalmente enterrar essa iniciativa de cartelização dos partidos proposta pelos caciques. Isso, é claro, se a oposição empenhar-se nessa tarefa como fez nas ocasiões do referendo do desarmamento e da "lei da ficha limpa".

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 02:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, parabéns. o Artigo está ótimo, perfeito.

Só acho que o Lula, embora mais sagaz politicamente – talvez mais inteligente –, não terá a mesma sorte de Stálin.

Não precisamos esperar que a história nos próximos 72 anos prove isso.

O homem que cometa os erros, os absurdos estratégicos do ponto de vista militar, como Stálin cometeu e, ao fim e ao cabo, de uma forma ou de outra, ainda consegue ganhar uma guerra como foi a II Guerra Mundial é um homem realmente de sorte.

Vivemos em uma país tropical, meu caro. Não há invernos por essas bandas que se possam transformar em generais.


Abraços,

José Luiz

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 02:45:00 BRT  
Blogger "O" Anonimo disse...

Eu gostaria de saber o que tem de tao ruim no Fujimori --- ele nao so debelou a hiperinflacao, como fez as reformas liberais que hoje permitem que o Peru cresça mais rápido que o Brasil de Lula, alem de ter matado centenas de senderistas trazendo segurança e liberdade para milhões de peruanos ricos e pobres que viviam no medo.

Sim, nao podemos negar que mais tarde ele caiu por ser corrupto, mas em que raios de realidade alternativa existe petista que vê restrições morais em relacionamento com corruptos?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 02:50:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

Sobre a reforma política você só faz críticas, que tal apresentar soluções? O que no final das contas sabemos serão apenas sugestões, como as minhas e de um montão de gente.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 08:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

1) Couro duro, só, com o PT, de nada adianta. O presidente do PT foi buscar uma condecoração a Fujimori, para contrapor o meu líder, meu irmão de Lula a Khadafi. Quanto aos risos de Lula com Fidel, enquanto dissidentes presos faziam greve de fome e foram comparados a bandidos quaisquer, silêncio. Se cessarem os alagamentos em São Paulo, ele, com certeza, buscará a Arca de Noé, como o melhor antídoto e não uma boa administração e prevenção. Isso não é bem do jogo. É tapetão escrachado. Se for assim que o PT pretende blindar a presidente, ela estará em maus lençóis. Os 100 dias, regulamentares de lua de mel, estão por terminar. Ai, depois da primeira pesquisa de popularidade, será hora de mostrar serviço. Ai a roda pode não girar tão redonda.

2)Quanto a reforma política, o melhor seria o impossível: pararem de pensar em reformar qualquer coisa. Cada ideia que surge, faz lembrar personagens de Béla Lugosi e o Frankenstein. Ou uma luta entre a Capitoa Ripley, sem o trabuco laser, contra o Alien gosmento, Freddy Krueger, com as unhas de aço e Jason Voorhees, com o facão. Isso tudo, dentro de um cubículo 2 x 2!!! Referendar qualquer coisa que surja de um ambiente desses, seria o fim dos tempos.
Swamoro Songhay

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 10:29:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Swamoro

Os liliputianos índices de popularidade dos políticos, os aumentos salariais decretados em benefício próprio, as mordomias, o mensalão, essa percepção nacional de freak show dos políticos e da política etc.

Isso tudo muito bem articulado com a denúncia do suprassumo da vigarice [sem medo de chamar a coisa pelo seu verdadeiro nome], que são o "financiamento público" e o “voto em lista”, em campanhas publicitárias na televisão para mostrar ao eleitor, em linguagem apropriada [os angélicos acusarão "udenismo" ou "demagogia"], que estão querendo mais uma vez "meter a mão no nosso bolso". Isso, no contexto de um referendo, certamente colocaria abaixo a tentativa, além de servir como um poderoso meio de educação política.

Lembra do referendo do desarmamento? As excelentes peças veiculadas pelas emissoras de TV foram fundamentais. Políticos que adoram a adjetivação “progressista” ficaram falando para as suas claques. Por que não fazem um referendo a respeito do aborto ou da pena de morte? Porque sabem que vão perder.

Uma campanha publicitária que não tivesse receio de nomear e mostrar a coisa como ela é [pura picaretagem de políticos corruptos e vagabundos. A comunicação política com eleitor tem de ser essa. Tem de ser direta e sem medo de usar palavras. Quaisquer palavras. É partir para o pau ou ficar passivo e levar porrada. Simples assim.], seria arrasadora para as pretensões do caciquismo.

Esteja certo, meu caro, que o establishment que hoje domina a política jamais vai topar um referendo porque sabe que perderá de lavada. Vão articular a coisa para ser aprovada no âmbito restrito do caciquismo. A corja está pouco se lixando para os eleitores. O que eles mais querem é se dar bem. A única lei que de fato une essa legião de "políticos reformistas e progressistas" é a de Gérson.

Não topar o referendo é fazer o jogo do avestruz. Topar e propor o referendo é a melhor resposta. Esse ataque é fundamental para deter o avanço da proposta que está sendo costurada pelos caciques. Aliás, se não for assim, de qual outro jeito seria?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 14:04:00 BRT  
Anonymous Serginho/Sampa disse...

Referendo popular começando pelos aumentos dos salários deles mesmo. Se eles podem decidir sobre o aumento dos salários do povo, nada mais natural que o povo possa decidir sobre o aumento dos salários dos políticos. E até que o povo tenha aprovado as medidas, os políticos não recebem um centavo. Aí quero ver.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 15:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo Araújo-quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 14h04min00s BRT. Resposta para a pergunta que ultima o seu comentário não tenho não. Mas, lendo-o, acrescento os caciques do caciquismo no rol dos que lutam com a Capitoa Ripley. Ainda fica faltando um rol enorme de figuras. Ontem, por ocasião da votação do novo SM no Senado, surgiram vários personagens inspiradores da pena da galhofa, com perdão ao escritor. Assim, Paulo Araújo, é ir levando na gozação.
Swamoro Songhay

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011 11:50:00 BRT  

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